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22.5.04

No Aniversario de Wagner 



Em 22 de Maio de 1813 nascia Richard Wagner um dos compositores mais amados e mais odiados da história da música. Um homem execrável (por muito que nos custe), que foi um dos maiores génios da humanidade, criador de música avassaladora e inebriante, que nos consegue subjugar numa espiral de delírio, fazer ascender a outra dimensão. Arquitecto megalómano de uma nova concepção de ópera (o drama musical), poeta e filosósofo que sonhou com a fusão de todas as artes e conduziu a linguagem musical a um caminho sem retorno no que diz respeito aos limites últimos da tonalidade ou do desenvolvimento sinfónico. Um homem de excessos para quem o amor e a morte ou o terreno e o transcendente eram as duas faces de uma mesma moeda. “Não dês tanta importância à minha arte! Senti-o claramente: ela não é para mim nem uma consolação nem uma compensação; mais não faz do que acompanhar a minha profunda harmonia contigo, fortificar o meu desejo de morrer nos teus braços”, escreveu no Diário para Mathilde Wesendonck a 1 de Novembro de 1858.
Sobre Wagner já tudo se disse e tudo se escreveu. Impossível resumir Wagner em poucas linhas.Seria preciso pelo menos a extensão do libreto da Tetralogia para abordar o essencial de uma obra que suscita um manancial de implicações e de interpretações e muito ficaria por dizer. A melhor maneira de comemorar o seu aniversário será mesmo ouvir a sua música e, porque não, ler alguns poemas por ela inspirados, como estes que Jorge de Sena, incluiu na sua Arte da Música.
V.G.


Final da “Valquíria”


Deuses podiam de um Walhala em chamas
Sumir-senos escombros quando o Reno
Cantante como o fogo inundaria verde
O palco e o catafalco dos heróis:
Cavalo ardente de Valquíria amante
Que o pai sofrendo humanamente triste
Condena ao sono não da eternidade mas
Da inércia solitária de quem espera
O amado herói que há-de tocar-lhe os lábios
Soprando-lhe ardências de fatal destino.
O anel dos deuses, dos mortais esse ouro
(mas por agora é só Wotan partindo,
e do futuro ainda é que desastres pendem):
“Assim de ti o deus se afasta agora,
num beijo te roubando a divindade”.

Jorge de Sena
4-7-1973
(tendo em mente a interpretação de Ferdinand Frantz, com a Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Furtwängler, disco da Seraphin-Angel)



A Morte de Isolda


Nesta fluidez contínua de um tecido vivo
Que se distende arfando como um longo sexo
Viscosamente se enrolando em torno ao mundo
Que não penetra mas ansiosamente
Estrangula em húmidos anéis
Fosforecentes de ansiedade doce
E resignada à morte
Em roncos e estridências lacrimosas,
Palpita a frustração do amor maldito
Porque de um filtro só nasceu.
Por mais que de crescentes delirantes
Se evolem as volutas de uma chama ambígua,
Nesta fluidez sem tempo não há gozo algum,
Mas o prazer remoto do que não foi vivido
Senão como entressonho e fatal gesto;
E mesmo este balanço largamente harmónico
Que se exaspera e expira em tão agudas posses
é cópula mental.

Nesta doçura que ao silêncio imóvel
Acaba retornando, não há uma paz dos rostos que se pousam,
Enquanto os sexos se demoram penetrados
No puro e tão tranquilo esgotamento da chegada
Que só ternura torna simultânea.
Não há, mas só tristeza infinda e fina
E tão terrível de que, estrangulado,
O amor no mundo é morte impenetrável: dois
seres que o sexo destruiu,
estéreis como o sopro da serpente eterna.

Fica-nos o gosto da piedade.
E uma vontade de enterrá-los juntos
P’ra que talvez na morte — imaginada — se conheçam
Melhor do que se amaram. E também o ardor
De uma impotência que se quis só sexo
Virgem demais para um amor da vida.

Jorge de Sena
8-3-1964
(inspirado pela memória da representação do Tristão e Isolda no São Carlos, em Junho de 1943, pela companhia de Bayreuth e a Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida por Robert Heger)

P.S. – Este último poema de Sena é intenso, tem força e movimento, testemunho da profunda impressão que a música deWagner lhe causava, mas a sua visão/interpretação da Morte de Isolda parece-nos um pouco redutora. Acentua o lado mórbido e doentio, resume quase tudo ao sexo e à fatalidade (componentes que de facto estão presentes na obra de Wagner mas não são únicas), deixando em segundo plano o amor como força irresistível (o filtro é só um pretexto), um amor que extravasa os limites humanos e aspira a fundir-se com o universo. É essa fusão com o cosmos que pressentimos quando Isolda entoa a palavra “Lust”.
V.G.



Um post de Vasco Garrido

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