<$BlogRSDUrl$>

10.5.04

Eufonia 

“Em todas as salas de espectáculos à frente do palco existe um buraco escuro repleto de sofredores a arranharem instrumentos, tão indiferentes perante aquilo que se grita em cima do palco como perante o zumbido nos camarotes e na plateia, e tendo como único objectivo ganhar com que comer. O conjunto desses pobres seres constitui aquilo a que se chama orquestra. (…)
Os músicos (os músicos!!!) tocam mais ou menos o que está escrito, mas sem qualquer nuance; o mezzo-forte é usado sem variações e permanentemente. O forte tem lugar quando os bombos, os tambores e os tantãs são usados, o piano quando eles se calam: são estas as nuances conhecidas e observadas. O chefe de orquestra tem o ar de um surdo a conduzir surdos; marca os tempos a grandes pancadas de batuta na madeira da sua estante, sem acelarar nem abrandar, quer se trate de refrear um grupo que se entusiasma (verdade seja dita que nunca se entusiasmam) ou animar um grupo que está adormecido.”

Não! Desta vez não precisam de se afligir! Não estamos a descrever uma actuação da Orquestra Sinfónica Portuguesa nos seus piores dias ou de qualquer outra orquestra do nosso pequeno meio musical. A citação é de Berlioz e da sua “novela do futuro” (passa-se em 2344!): Eufonia ou a cidade musical.




São excertos de uma carta de Xilef, compositor e prefeito das vozes e dos instrumentos de cordas da cidade de Eufonia, onde relata uma visita a Itália e o estado das suas orquestras. Pelo contrário, em Eufonia, cidade da música governada por um regime despótico, cada voz e cada instrumento tem uma rua com o seu nome (há as ruas dos sopranos, dos baixos, dos tenores, dos contraltos, dos violinos, das trompas, das harpas, das flautas, etc.); a especialização dos professores é tal que um ensina exclusivamente o pizzicato, outro o stacatto, outro os sons harmónicos…; nenhum instrumentista de orquestra pode participar no conjunto sem antes ter sido rigorosamente examinado a sós; a selecção dos cantores é tão criteriosa que só para a Alceste, de Gluck, foram ouvidas cerca de 1000 cantoras e há até “concertos de má música” onde os Eufonienses vão “ouvir monstruosidades admiradas durante séculos na Europa, cuja produção era ensinada nos conservatrórios da Alemanha, da França e da Itália, e que eles, Eufonienses, vêm estudar para se aperceberem dos defeitos que se devem evitar”!
Enfim, um delírio utópico de um compositor delirante e excessivo. Não sendo especiais admiradores da música de Berlioz, embora reconhecendo a sua importância na história da música como virtuoso da orquestração, recomendamos a leitura desta pequena novela recentemente disponibilizada em tradução portuguesa de Célia Henriques na editora &etc. Uma colecção que publicou também há alguns anos “Escritos em forma de grafonola”, de Erik Satie. Pena que a tradução não tenha beneficiado de uma revisão técnica dos termos musicais. Em Eufonia, publicada originalmente em 1844 na Revue et Gazette Musicale de Paris, encontramos, entre outras coisas, uma crítica mordaz à preguiça dos músicos e do público, um retrato das preferências estéticas do próprio Berlioz e uma caricatura sarcástica da sua ligação amorosa com a pianista Camille Moke. O mais hilariante (e o mais preocupante…) é que grande parte destes episódios permane plena de actualidade.

V.G.



Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?