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9.4.04

Música para a Semana Santa 


A liturgia da Semana Santa inspirou algumas das mais extraordinárias obras musicais de todos os tempos. Música de grande carga espiritual e intenso dramatismo, escrita com um cuidado meticuloso, fazendo uso dos mais sofisticados recursos expressivos (pungentes cromatismos e dissonâncias, o característico baixo de Lamento no momento da Crucificação, lágrimas e suspiros entrecortadas por por pausas, harmonias ousadas, nem sempre presentes no repertório habitualmente destinado a outros fins). Em conformidade com a gravidade da ocasião, numa tentativa de comunhão com o divino, de evocação do sofrimento e do amor de Cristo, do mistério da morte e da ressurreição, de temor e de júbilo.
As eternas Paixões de Bach e dos seus contemporâneos e antecessores (Schütz, Kaiser, Telemann) no âmbito da tradição luterana, mas também da liturgia católica — de polifonistas como Lassus ou Victoria às obras dramáticas, quase teatrais, do século XVIII sobre o libreto de Metastasio (“La passione di Gesù Cristo”) usado por Jommelli, Paisiello ou Caldara. O belíssimo Oficio das Trevas (Tenebrae), ou seja das Matinas do Triduum Sacrum, cerimónia que durava até ao amanhecer e previa a extinção das velas, uma a uma, à medida que se cantava cada versículo. Os Salmos, as Antífonas e os Responsórios deste serviço religioso serviram de base a numerosas peças, mas foram as comoventes Lições do 1º Nocturno (as famosas Lamentações de Jeremias) a exercer o maior fascínio sobre os compositores, principalmente a partir do século XV. Dufay, Arcadelt, Crequillon, La Rue, Sermisy, Lassus, Palestrina, Gesualdo, Byrd, Tallis, mas também os compositores ibéricos do Renascimento e do Maneirismo edificaram esplêndidas obras polifónicas sobre o texto do profeta. O tenebrismo e a austeridade da Contra Reforma, as vestes roxas e o cheiro a incenso, as monumentais procissões, onde o sacro e o profano se confudiam num misto de misticismo e sensualidade. Elementos por vezes contraditórios que teriam servido de cenário às composições dos espanhóis Morales e Victoria ou de portugueses como Frei Manuel Cardoso, João Lourenço Rebelo ou Diogo Dias de Melgaz.
Depois de 1600, começam a aparecer Lamentações monódicas em Itália (Cavalieri, que opera uma admirável síntese entre a polifonia renascentista e o nascente estilo monódico, Carissimi, Frescobaldi, Stradella…) e em França, onde nasceu um género próprio ligado ao estilo peculiar da arte vocal francesa, combinação subtil entre declamação e profusão ornamental. Lambert, Charpentier, Couperin, Brossart, Nivers, Delalande ou Bernier, criaram música simultaneamente intimista e perturbante para vozes solistas e baixo contínuo. Durante o século XVIII continuaram a compôr-se numerosas Lamentações (por exemplo por Alessandro Scarlatti, Durante, Jommelli, Zelenka ou Heiniken), mas é em relação aos dois séculos anteriores que encontramos o legado mais sublime e, também, uma discografia mais rica e abundante.
Outras partituras associadas à Semana Santa incluem, por exemplo, as originais SeteÚltimas Palavras de Cristo na Cruz, encomendadas pelos bispo de Cadiz a Haydn, que Filipe Pinto Ribeiro interpreta esta tarde, na versão pianística, em Mafra. Na próxima terça-feira, na Gulbenkian, o interessantíssimo programa proposto por Harry Christhophers e o coro The Sixteen inclui também várias páginas alusivas à quadra Pascal. Entre outras, a Lamentação de Quinta-feira Santa, de Diogo Dias de Melgaz, os Crucifixus, de Antonio Lotti e Antonio Caldara (respectivamente a 8 e a 16 vozes), o monumental Stabat Mater, a 10 vozes, de Domenico Scarlatti, herdeiro do colossal barroco musical romano. Recorde-se que este agrupamento britânico reeditou recentemente na sua etiqueta Coro, um excelente CD dedicado a Rebelo e Melgaz: “A Golden Age of Portuguese Music”. E falando de Stabat Mater (como poderíamos também falar do Miserere e de muitos outros textos), mais uma lista de obras admiráveis nos vêm à memória, da autoria de compositores tão diversos como Josquin Desprez, Vivaldi, Pergolesi, Bocherini, Haydn, Rossini, Dvorák, Poulenc…
A lista de música para a Semana Santa (bem longe de ser exaustiva) poderia prolongar-se muito mais, incluindo os séculos XIX (a visionária “Via Crucis”, de Liszt) e XX (“Impropérios”, de Mompou, as Paixões de Penderescki e Arvo Part, “L’Ascension”, de Messiaen, “As Sete últimas Palavras”, de Gubaidulina…), mas estas sugestões, mais ou menos ao sabor da memória, são já mais que suficientes para uma Páscoa ao som de alguma da melhor música de sempre, susceptível de emocionar crentes e não crentes.
V.G.

P.S. - Voto para um milagre: que o Bispo Pedreira de Viana do Castelo possa ouvir pelo menos uma destas obras e reconheça que a música é o mais poderoso dos alimentos espirituais!




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