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1.4.04

Críticas - Uma tragédia Florentina de Zemlinsky 

Saiu ontem a crítica de ópera do Público, da autoria de A. M. Seabra. O que diz é realmente relevante: é uma imbecilidade a adaptação de uma ópera cheia de referentes da Renascença, em que se matam salteadores à espada, em que acaba tudo num duelo, como se tratatasse de uma Zeit Opera.
O pior de tudo, no entanto, não é visto: a encenação de Curran mostra o percurso de Simone (por um excelente Johann Verner Prein) e de Guido Bardi (Jon Ketilsson bom vocalmente e excelente actor) encarado como uma caminhada para o assassinato. Simone vai embededando o aristocrata para, no final, o burguês assassinar calmamente o príncipe.
No meu entender na lógica dramática de Wilde deveria acontecer uma ebriedade mútua, o burguês embebeda-se para se libertar da capa da hipocrisia e da subserviência para, finalmente livre do cinismo, matar frente a frente o senhor; Guido Bardi, o príncipe, com o ingerir do vinho caminha cada vez mais para a inconsciência da sua própria arrogância face ao "infame" merceeiro. O final, o confronto, será uma luta em que o embrutecido Bardi queda morto pelo liberto Simone, a burguesia mata a nobreza de frente. A forma como a encenação é feita revela um comportamento deliberado do burguês que vai dando vinho a Guido acabando este último completamente embriagado, sem capacidade de resistência.
O final de Bianca (uma bela Fredrika Brillembourg, da qual gostei da voz) em que esta diz: "Porque não me disseste que eras tão forte" fica completamente desprovido de sentido. Não por ser banal devido aos elementos modernistas da cenografia, mas porque fica ilógico, sem sentido. Uma encenação tonta de Curran (como já tinhamos dito antes), que mostra que o encenador nem sequer percebeu o genial texto de Wilde. A bela esposa será, finalmente conquistada, o prémio do velhaco (na visão de Curran).
O poder liga-se ao sexo, como tão bem Seabra diz ou como Pontes Leça tinha também afirmado poucos dias antes da estreia, na conferência que proferiu sobre o assunto.
Mas uma boa crítica de Augusto Seabra, notou também que os violinos não se apresentaram de forma tão desastrada como habitual e concluiu, com razão, que isso se deve à ausência do concertino titular. A orquestra esteve magra para a ópera de Zemlinsky, mais por força do pouco espaço do fosso do que por carências musicais.

Henrique Silveira


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