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15.3.04

Um rapaz sorridente - a rotina e a banalização na crítica 

Sai crítica hoje, no Público, sobre Fabio Biondi e Europa Galante, Manuel Pedro Ferreira, que costuma ser extremamente generoso nas suas críticas, dando muitas vezes a impressão de ter poucos termos de comparação, mais uma vez perde-se a analisar o currículo de Biondi e dos compositores envolvidos. Comenta as notas de programa e, a medo, no final do artigo dedica o último parágrafo ao acto que se passou na Gulbenkian. Dá a impressão que tem receio de escrever sobre o objecto da crítica em concreto, repetindo o que a apresentação do concerto, feita dias antes no mesmo jornal, já tinha feito. Um erudito, sem dúvida, mas a crítica não se faz apenas com livros sobre a origem da sinfonia.

Encontramos as banalidades:

a perfeita concentração e espírito colectivo da "Europa Galante", em total sintonia com a visão interpretativa de Fabio Biondi; em segundo lugar, a capacidade deste último de conjugar precisão, transparência, agilidade e imaginação no delinear das frases e na variação do timbre; em terceiro lugar, o impressionante leque dinâmico, do "piano pianíssimo" ao "forte", posto ao serviço da modelação formal dos andamentos. Para além da garra virtuosística e da subtileza dos desenhos em filigrana oferecidos pelo violino de Biondi, a qualidade individual de alguns outros membros do agrupamento, mormente os violetistas e Gianacomo Pinardi (tiorba) ficou também patente (embora as dimensões da sala e a colocação do cravo dificultassem a percepção deste último).

Perde-se neste blá blá encomiástico sem descer ao que realmente aconteceu no concerto e sem o menor sentido crítico. Concedo que Biondi variou os timbres em certos pontos, mas a ornamentação escolhida foi banalíssima, a transparência foi perfeita na percepção da trapalhada de notas trocadas e desacertos rítmicos em lugar da propalada precisão, que a existir só em sonhos e no extra em pizzicato. A modelação formal dos andamentos começaria pelas tonalidades e o "crítico" de serviço nem se apercebeu da monotonia de cor dada pelo temperamento igual, o que denota uma total ausência de ouvido de quem tem obrigação de ouvir, o que no caso do temperamento e do diapasão, a 440, mostra uma abstracção da realidade e do que se passou este sábado na Gulbenkian. O bom alaúdista que se encarregou da teorba foi compensado pela falta de qualidade do violoncelo solo de Naurizio Naddeo e pela falta de homegeneidade qualitativa dos violinos. Tocar todos os compositores em concerto da mesmo forma, a despachar o assunto, com uns laivos de espectáculo em trejeitos de cabeça de Biondi, em que ora se encolhia, ora dava pulos, consoante os momentos eram mais em piano ou mais em forte, deve ter dado a impressão de que os músicos estavam muito inspirados. Mas o que importa não são os aspectos visuais, é o que se ouve, e o que se ouviu foi uma pastelada em três tempos: fria, com energia, sim, mas mal gasta e com musicalidade dúbia. Um concerto banal, que acabou por ser uma desilusão, atendendo às espectativas. Logo de um agrupamento que se destacou pela emoção, pela energia e pela musicalidade, tempos idos.
Mais uma crítica de um rapaz sorridente que não consegue distinguir o trigo do joio e critica em face do nome dos intérpretes. Aspectos como a fuga total da afinação teriam de ser referidos por qualquer crítico com ouvido.

H.S.

P.S. - Concerto para 14 valores.

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