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1.3.04

Um dos melhores recitais de todos os tempos na Gulbenkian 

Concerto do dia de Carnaval.

MIKHAIL RUDY (piano)

Sergei Prokofiev
Prelúdio
Três peças de Romeu e Julieta

I. Stravinsky / M. Rudy
Petrushka (arranjo para piano solo)

Richard Wagner
Sonata e Lá bemol Maior

Franz Liszt
Sonata em Si menor

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Prokofiev deslumbrante, luminoso, aberto, poder-se-ia pensar que a técnica ofuscaria o sentido e a sensibilidade, nada disso, uma técnica avassaladora serviu uma sensibilidade tocante. Prokofiev por Rudy atingiu a pelnitude que raros pianistas são capazes de transmitir.

Stravinsky, uma suite completa Petrushka, uma obra intocável? Sim, intocável nos seus vários sentidos, absolutamente impossível de reduzir para piano a duas mãos, já de si complexa a quatro mãos e intocável pelo seu estatuto de monstro sagrado da técnica e da arte orquestral de Stravinsky. O próprio Rudy transformou, reduziu, compreendeu a obra, de tal forma que ouvir a obra se tornou numa incessante descoberta. A descoberta de um dia de feira, de uma bailarina e de um rapaz triste. Incapaz de ferir o teclado com agressividade, de um toque de uma suavidade incrível (quantos milhões de horas de estudo para ter um som destes?) mesmo nos mais intensos fortíssimos. As sonoridades de Rudy atingiram o extremo do sinfonismo, um colorido sonhador às vezes, outras vezes colérico, muitas vezes alucinado, podiam-se escutar oboés, fagotes, trompas, fagotes, toda a partitura de Stravinsky surgiu sem se notar a ausência de vozes, de efeitos, afinal quantos dedos tem Rudy? Quarenta? Touché muito violento, martelado, por opção clara do pianista, nos instantes que precedem a morte de Petrushka. Uma redução genial de Rudy que funciona com Rudy. Perfeito? Não, nem por sombras, imperfeito, nem um Deus conseguiria tocar toda a suite com duas mãos no piano. Perfeito? Sim, perfeito, pela recriação da obra e da impressão de completude que nos transmitiu. Contraditório? Nunca: deslumbrante.


Wagner, a sonata em lá bemol maior, uma nova surpresa, uma obra vigorosa e ao mesmo tempo sensível, desdenhada por Wagner, Rudy devolveu-nos uma obra bela, tocada de forma transcendente. Uma obra considerada menor, que Rudy demonstrou ser maior.


Finalmente a sonata em si menor de Liszt, não é possível descrever o caudal de emoções e sentimentos que se sente quando se ouve esta sonata bem tocada. É uma torrente de paixão romântica que Liszt nos transmite, mas pensada de forma absolutamente intelectual, uma obra de arquitectura, as aparições e reaparições dos temas, a força da interpretação, sem nunca redundar no fácil. Alguma rudeza, algum lirismo, e uma interioridade que transparece na inteligência de Rudy. Não é uma obra para orquestra sinfónica como as da primeira parte, mas para um piano sinfónico!
Continua a ser uma das mais difíceis obras do reportório pianístico. Rudy transcendeu a obra, sem ser perfeito, mas sendo deslumbrante. Um deslumbramento que se estendeu a todo o recital e que deixou o público de rastos, desta feita com razão, em dia de Carnaval apenas os mais dedicados apareceram na Gulbenkian, e percebeu-se o mistério de Rudy em comunhão com quase todo o público presente: uma celebração da música.


Debussy e Stravinsky

Os extras foram cerejas no topo do bolo: Prokofiev, o diabólico final da segunda sonata, Debussy, um estudo para os oito dedos, em que o próprio Debussy recomenda que não se usem os polegares, tocado com uma técnica de arrepiar e sem usar os ditos cujos polegares! Um nocturno de Chopin rematou. Um Rudy fatigado foi apenas bom em Chopin por ter sido um pouco mais vago na entoação, nos restantes extras foi magistral.

Um uso moderado do pedal, um touché de veludo, uma técnica arrepiante, uma inteligência e simpatia ímpares. Uma subtileza e um nunca esquecer dos detalhes, fizeram deste recital um encantamento e uma descoberta do prazer da música. Um dos melhores recitais de piano que tiveram lugar na Gulbenkian.

Perfeito? Sim, perfeito, mesmo com algumas imperfeições: um recital perfeito.

H.S.

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