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11.3.04

pulido valente, a miséria e a decadência 

Tive acesso, finalmente, ao arrazoado de Vasco Guedes, que assina Pulido Valente, no jornal DN, coloco aqui o artigo para que os leitores possam avaliar por si. Os erros ortográficos são da autoria de Pulido Valente, pode-se ver, mais abaixo, como Vianna da Motta assinava. Vianna da Motta não foi apenas pianista, não foi medíocre, foi compositor de génio e intérprete ilustre. Pior que medíocre é o texto ignorante e com cheiro a taberna que se lê no Diário de Notícias.
H.S.


Pretensões
Vasco Pulido Valente

Começo por dizer que detesto futebol e o repelente país do futebol. Acho sobretudo triste a paixão clubista de pessoas que deviam ter juízo, mas que não hesitam em gemer em público pelo Porto ou pelo Sporting, pelo Benfica ou pelo Braga, porque isso, presumivelmente, lhes dá um ar mais «povo». Apesar disso, fiquei surpreendido com o furor que provocou o avião «Viana da Mota», quando o rebaptizaram com o nome de «Eusébio». Parece que se trata de «uma injustiça incrível». Ao princípio, não percebi onde ela estava, essa injustiça. Verdade que, no seu tempo, Viana da Mota era grande pianista, como havia dezenas, e que se distinguiu discretamente como compositor e professor. Infelizmente, hoje só se fala dele por causa da miséria absoluta da nossa música. Em contrapartida, Eusébio foi, depois de Pelé, o maior jogador de sempre, um facto que o mundo inteiro reconheceu e reconhece; e, ao contrário de Viana da Mota, uma figura menoríssima, não há história do futebol sem ele. Numa sociedade em que se apregoa a «excelência» como um valor supremo, julguei que o avião ganhava com a mudança. Infelizmente, pensadores de prestígio não concordam comigo: entre um músico medíocre e um futebolista genial, preferem o músico, porque preferem a cultura ao «espectáculo» e, ainda por cima, um espectáculo sobre o primitivo. Segundo a sua autorizada opinião, a troca não passou de um enorme insulto à superioridade do espírito e da arte; e de uma cedência sem desculpa à plebe imunda. Aterrorizada, a TAP arranjou logo a Viana da Mota outro avião. Donde se conclui que o mérito está mais na actividade do que na pessoa, uma ideia arrasadoramente reaccionária. Não importa: acabaram por ganhar as pretensões de uma classe média ignorante e sem educação. Serve de consolo.

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