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5.3.04

Luna 106.2 e Voxx 91.6 (em Lisboa) fecham à meia noite de Domingo 

As rádios Luna e Voxx fecham portas, tal como as conhecemos, dia 7 de Março pelas 24h. Escrevo este post com conhecimento de causa. Sou autor de dois programas na Rádio Luna "À Volta da Luna": Segundas, Quartas e Sextas às 18h10m (este com repetição no Domingo às 15h10m) e Música em Portugal: Quintas às 21h10m com repetição aos Sábados às 13h ou pouco depois.
A Rádio foi comprada por Nobre Guedes, dirigente do PP, já proprietário de outras rádios que distribuem programação oriunda da Média Capital (proprietária da TVI).

Notícias:
Público 5 de Março.
Público 4 de Março.


Nem a Média Capital, nem Nobre Guedes nos prestaram qualquer informação sobre o assunto.
Terça feira foram ligados, nos nossos estúdios da rua Padre António Vieira em Lisboa, cabos vindos do andar de baixo que, ironia do destino, é também sede da Rádio Comercial, uma das estrela do grupo da Média Capital. Fomos informados que na altura da transferência de posse das rádios o sinal passaria a vir de baixo e entraria nas antenas que transmitem os nossos feixes para os emissores de onde são retransmitidos para as antenas dos ouvintes.

A conclusão parece óbvia, no dia da transferência as rádios passam a emitir sinal vindo do andar de baixo, como não se anunciou qualquer rádio nova do grupo Media Capital parece que teremos mais três antenas (duas em Lisboa e uma no Porto) a transmitir o mesmo produto que a Media Capital põe no ar diariamente nas suas frequências existentes.

Assim a Rádio Luna, rádio clássica, com música de Jazz, de cinema, música antiga, música clássica e do período romântico, música impressionista, música contemporânea e toda a música de qualidade em geral, programas culturais, notícias de exposições, teatro, cinema, eventos musicais e culturais, desaparece tal como surgiu: do nada regressando ao nada. O mesmo nada que parece condenar tudo o que enriquece espiritualmente em Portugal.
O mesmo acontecerá coma rádio mais alternativa e original que Portugal conheceu: a Voxx.

Anuncio, a título excepcional alguma da programação das rádios.
Rádio Luna:
Amanhã teremos uma entrevista pelas 18h10m com um dramaturgo, poeta e romancista Jaime Rocha.
No Sábado pelas 13h10m uma entrevista com o Dr. João Gonçalves, melómano e ex-vogal do Teatro Nacional de S. Carlos, com uma visão interessante da política cultural em Portugal, um militante do PSD que se confessa descontente.
No Domingo duas entrevistas: pelas 15h10m com Rosário Tavares, pintora e fotógrafa e pelas 16h20m com um jovem tenor: Marco Alves dos Santos. Esta entrevista estava gravada há algum tempo, destinada à próxima semana, como o fim se precipitou sairá no Domingo, num programa "Música em Portugal" especial.
O programa de Jazz do Fernando Santos irá para o ar pelas 22h10m de Domingo, terá a sua despedida, não ao fim da tarde como é habitual, mas ao fim da noite do último dia da Luna.
No domingo pelas 23h o director da rádio Luna fará uma breve despedida com música da sua preferência.

Na Voxx ainda se podem ouvir os seguintes programas:
Ricardo Saló fará o seu último “Galinhas no Horizonte” das 22h até às 2h de Sábado. Está agora a emitir o seu penúltimo programa, 91.6 em Lisboa. Pode continuar a ler o Ricardo no Expresso aos Sábados.
Miguel Bacelar (a voz do Porto que diz “Boxx”), Jorge Chibanga e Zé Marques Pinto, tudo rapaziada do Porto farão o seu último “Geração Vinil” Sábado a partir das 14h, acabará quando acabar, lá pelas 18h.
Luís Pinheiro de Almeida (pode continuar a ler os seus livros sobre música e sobre os Beatles em particular) e Pedro Gonçalves (director do Blitz), fazem o último programa da Rádio Voxx: “O Mensageiro da Moita”, domingo às 20h em directo. Espero passar por lá para lhes dizer adeus e aos ouvintes da Voxx. O programa promete ser muito divertido e insólito.

E assim morre um projecto, outros se seguirão, talvez a Média Capital ainda adopte uma estratégia de qualidade e de prestígio, pelo menos assim chegou a prometer, e mantenha uma frequência de rádio de alta qualidade a custo quase zero, podendo ter boas receitas de publicidade com qualidade, também, em vez de derreter o capital conquistado pela Rádio Luna, a que conheço melhor, passando a ter mais uma frequência inútil de lixo radiofónico para somar às frequências que já dispõe nesta zona do país, a Grande Lisboa, sem valor acrescentado e sem ter mais receitas de publicidade por estar apenas a saturar o mercado com mesmo produto repetido em muitas frequências diferentes, não podendo gerar por isso mais receitas. Aliás uma das razões da concentração da Média Capital reside na eliminação de concorrência, os 1.3% mínimo da VOXX em Portugal, são uma fatia muito grande do mercado se pensarmos que se situam apenas em Lisboa e Porto onde representam mais de 5%, uma audiência enorme em termos de rádio e gigantesca em termos de rádio independente, claro que serão volatilizados com uma estratégia de massificação de oferta de produto e acabarão por se repartir pelos diferentes operadores. Daí, também, a hesitação da Média Capital nestes meses todos de impasse depois do arranque do negócio, mas com centenas de milhares de contos investidos seria difícil desistir, sabendo até da conhecida capacidade negocial de Ricardo Casimiro, o anterior proprietário das frequências. A Média Capital compra para reduzir a concorrência e evitar que um projecto interessante caia nas mãos dos seus directos rivais. De qualquer modo a LUNA só é vendida porque a Alta Autoridade para a Comunicação Social não autorizou a separação das frequências das rádios, com o argumento legal que isso poderia favorecer a concentração! O que é engraçado é que este negócio parece, à primeira vista, péssimo para a empresa de Pais do Amaral e de Nobre Guedes, não o seria se conseguissem gerar mais receitas de publicidade, e isso significaria manter as especificidades das rádios coisa difícil para um grupo que produz artigos de consumo imediato em grande escala e não percebe como gerir o fenómeno alternativo ou erudito. O que parecia ser um fruto apetecível é apenas mais um facto a confirmar que os gestores portugueses são particularmente obtusos. Neste caso só Ricardo Casimiro sai a ganhar. De forma brilhante funda projectos inovadores, valoriza estes projectos e ao vendê-los estes tornam-se em elefantes brancos nas mãos dos compradores. Gostava de saber quantos anos necessitará a Media Capital para recuperar o investimento através de novas receitas publicitárias, ou de receitas que deixará de perder? 500 anos? Nunca menos de 100 anos, atendendo ao preço destas frequências.

Outra falácia: A Voxx e a Luna não estavam falidas, apenas não se investiu num departamento de marketing e publicidade porque o negócio estava decidido há demasiado tempo! Rádios sem custos e com um contrato promessa de compra e venda feito com anos de antecedência não podem estar falidas, apenas se evitou o despedimento anunciado de mais pessoas e investimentos completamente desnecessários. É uma falácia, saída da cabeça de gente imaginativa e sem conhecimento, dizer que as rádios estavam falidas.

Aos curiosos informo que estudos independentes nos permitiram saber que a Rádio Luna teria na região da Grande Lisboa cerca de 30000 ouvintes, ou seja, provavelmente mais do que a Antena 2 em todo o país. Ouvintes das classes A e B com elevado potencial de compra, com gastos culturais elevados e saturados das formas convencionais de rádio e televisão, procurando refúgio numa rádio como a LUNA. Parece-me um disparate, mesmo do ponto de vista empresarial, a destruição da Rádio Luna, uma vez que os custos reduzidos com a sua emissão seriam cobertos rapidamente com a publicidade seleccionada que poderia caber na Luna, sem destruir a matriz essencialmente musical e cultural da Rádio. Do ponto de vista cultural é mais um passo atrás, espero que o nome de Nobre Guedes não venha a ser associado no futuro a essa possibilidade, diz-se que a direita lida mal com a cultura, esperemos que prove o contrário com este dossier das Rádios Luna e Voxx.

Resta-me agradecer a quem me permitiu passar por esta experiência, agradeci na brevíssima entrevista que irá para o ar no Domingo pelas 23h e agradeço aqui: Ao Guilherme Statter, que dirigiu a Luna com empenho e muita carolice, que me deu apoio total e incondicional, mesmo quando eu fiz críticas muito severas ao meio musical português no meu programa Música em Portugal. Mas voltando a Guilherme Statter é um exemplo máximo de dedicação a este projecto e à causa da cultura, desinteressadamente, perdendo tempo e dinheiro. Como o Guilherme diz: "Rádio Luna a carolice de poucos ao serviço da cultura de muitos".

Posso agora com mais liberdade e sem risco de comprometer a Rádio com as minhas opiniões, continuar a criticar aqui, com vigor e verdade, aquilo que vou vendo de bem e de mal, em música e noutros assuntos.

Henrique Silveira

P.S. Ao terminar o projecto público em que me vi envolvido, a Rádio LUNA, deixa de se justificar que não assine tudo o que escrevo aqui. Como prometi anteriormente, em Fevereiro passei a assinar os meus textos. Este desfecho anunciava-se e daí a promessa que foi feita e se cumpriu. Os colaboradores que aqui têm escrito continuarão a fazê-lo da forma que quiserem.

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