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7.3.04

Crítica I - Aspectos Técnicos na Ópera de Werther de Massenet - São Carlos 2004 - Os intérpretes 


Imagens encontradas no site: Jules Massenet, excepto a caricatura.

Werther no São Carlos
Breve análise técnica de duas récitas a 3 e 4 de Março, segundo e primeiro elencos.
27 Fevereiro ΙΙ 1 Ι 3 Ι 4 Ι 10 Março ΙΙ 20:00h
7 Março ΙΙ 16:00h

Aqui temos um detalhe de uma caricatura em que se mostra Massenet manejando como um realejo a Opera de Paris. É genial, embora algo excessiva. Massenet é realmente um compositor esteriotipado, contraditório, consegue efeitos de uma beleza etérea para logo cair na banalidade mais confrangedora do chavão e da fórmula gasta. Consegue em Werther transcender-se e criar uma obra que consegue ultrapassar as dificuldades cénicas que um romance epistolar traz, e quem leu Werther de Goethe percebe imediatamente a dificuldade da tarefa. Mas esta conversa ficará para a discussão da encenação. Passamos a discutir a interpretação em concreto.

Werther
Ópera em quatro actos de Jules Massenet
Libreto de Edouard Blau, Paul Milliet e Georges Hartmann,
Obra original: Romance Epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther Johann Wolfgang Goethe.

Maestro: Alain Guingal – muito tenso no dia 3 de Março (talvez por ser o segundo elenco), preocupou-se em extremo com a segurança dos cantores, dando muitas indicações para entradas e de dinâmica. Melhor no dia 4. Sempre muito exacto, entradas certas, não tirou da orquestra o melhor que esta sabe dar. As sonoridades de Massenet não se conseguiram obter de forma perfeita, a coesão da orquestra não foi a mais perfeita, não conseguiu obter dos violinos a afinação e coesão necessária nas partes mais a descoberto, mas esse problema será abordado na parte destinada à orquestra. Parece melhor na direcção e coordenação das vozes e menos fluente com a orquestra.

Encenação: Graham Vick – Altíssima qualidade. Discutível na interpretação, em meu entender mais complexa do que as críticas e os comentários deixaram supor. A encenação lida com os graves problemas psicológicos que Charlotte e Werther exibem durante a Ópera. Mas esse assunto será deixado em suspenso para a análise mais detalhada da encenação, noutro texto.

Cenografia e figurinos Timothy O’Brien – Também analisados posteriormente, mas com apreciação francamente positiva.

Desenho de luzes Robert A. Jones – Perfeito.








Intérpretes
Werther
O mais importante atributo de Krauss, com quem Sabbatini e Melani foram injustamente comparados é a inteligência. Ao contrário de muita gente que fala de Krauss fazendo deste excelente cantor um Deus, sem nunca o ter ouvido em público, eu recordo de forma muito viva Krauss em recital e em ópera. Krauss não tinha a voz potente, a voz não era de uma beleza ímpar nos médios. Alfredo Krauss era um portento de finesse, de elegância, de afinação, de colocação, capaz de cantar com pianissimi de arrepiar. E diga-se, cantar em pianíssimo nos agudos é bem mais complexo que cantar a puxar. Tinha uma voz de cabeça que nos transportava ao mundo dos sonhos. O Werther de Krauss era uma das ópera mais apropriadas a este tenor. O registo é muito desconfortável para um tenor dramático que cante de peito, a tessitura sem ir a limites do agudo, anda sempre pela zona de transição entre a voz de peito e a voz de cabeça, subindo por vezes a registos muito elevados, muitas vezes em pianíssimo. Era aqui que Krauss e a sua inteligência dominavam com uma elegância de mestre o papel que Jules Massenet criou para Ernest Van Dyck.

Giuseppe Sabbatini (dias 27 Fev; 4, 7, 10 Mar.) – A palavra certa para Sabbatini é inteligência. Sem ter a voz muito bela, isto é quase recursivo quando se fala de Sabbatini, uma vez que ele próprio assim o afirma. Imediatamente todos os textos que falam de Sabbatini, acabam sempre por dizer esta banalidade que eu próprio repito. Afinal o que é uma voz bela? Mas, e dando de barato que a voz de Sabbatini não será bela nos médios, Sabbatini compensa com capacidade representativa, e não falo apenas da sua presença como actor, falo da sua representação ao nível vocal, Sabbatini canta Werther como deve ser cantado, sem maneirismos, simples, linear, contido, mas com grande expressividade. Sabbatini consegue fazer esquecer ao espectador que é um homem grande, de certa forma com aparência e vaidade de pavão.
A sua sensibilidade e a sua inteligência mostram um Werther frágil, perturbado. Um homem obsessivo, que mesmo quando morre ainda está preocupado com a imagem que deixa em Charlotte. Sabbatini convence, não será um intérprete para 20, como lemos em alguns textos, mas num conjunto actor/cantor transcende, não me lembrei do referente Krauss quando o vi cantar e representar. Sabbatini entrou francamente frio e com a voz a falhar nos inícios das frases, algum grão (resquício de constipação?) na récita a que assisti, mas a sua progressão é extraordinária. O terceiro acto é feito com uma expressividade e um melancolia que só é ultrapassada pelo final, forma ausente mas tão presente, na alucinação que Charlotte não olha. Nem falo de emissão, colocação, afinação, descontando o início da ópera, Sabbatini mostrou ser um cantor maduro e em forma, quase irrepreensível.

Leonardo Melani (dia 1 e 3 Mar.) Ouvido a 3 de Março Um jovem cantor, frágil como Werther. Menor actor do que Sabbatini, ou menos trabalhado pelo encenador. Voz bonita. Entrou muitíssimo nervoso, o primeiro acto foi mesmo muito fraco. Semitonou, a emissão fugiu-lhe ao domínio, enfim fracote, parecia que alguns amigos que tinham assistido no dia 1 de Março, tinham razão ao dizer que teria sido um descalabro. Mas Melani encontrou-se, não mostrou potência vocal. Quem a quer em Werther? Mostrou uma voz com potencialidades, sensibilidade, boa voz de cabeça, e subtileza na interpretação. Não é um cantor feito, é um jovem com imenso futuro. Gostei, massacrar este tenor, com snobismo, com arrogância, com ignorância é maldoso e infeliz. Augusto Seabra mais uma vez comete esse pecado capital na sua “crítica” que aliás é completamente incompreensível e que nem sequer assenta no concreto acto performativo que teve lugar num dia preciso num teatro concreto.

Charlotte - Mezzo soprano

Marie Renard
Criadora do papel de Charlotte


Monica Bacelli (dias 27 Fev; 1, 4, 7, 10 Mar.) Uma cantora de crédito firmados, também. Mostrou grande segurança. Fisicamente frágil, deu-nos uma Charlotte credível. Boa dicção no francês, um mezzo soprano muito equilibrado, com uma vocalidade intensa, mas não demasiado encorpada, agudos fáceis, pareceu-me mais uma voz de soprano com grande extensão que de mezzo puro. Como actriz: óptima. Bacelli e Sabbatini formam o par ideal que hoje em dia se pode encontrar para esta ópera.

Liubov Sokolova (dia 3 Mar.) Voz de Mezzo pura a caminhar para o contralto, voz muito encorpada e escura nos graves. Chega a ser pouco maleável. Potência muito elevada. Estas características obscurecem totalmente a dicção do francês. Nos agudos mostrou naturais dificuldades: a passagem de voz nos registos foi demasiado evidente. Tem óbvias dificuldade de colocação da voz no registo mais agudo e parece sofrer para conseguir atingir as notas, tão pujante nos graves e médios como pequena nos agudos. Creio que necessita de mais trabalho neste registo. Não sei se será o papel indicado para esta jovem cantora. Mas é ainda muito jovem e tem imenso espaço de evolução. Como actriz também não foi tão convincente como Bacelli.

Albert - Barítono
Jorge Vaz de Carvalho. Muito fraco, percebe-se porque razão Charlotte não pode amar este homem, nesse aspecto a encenação é convincente, não se podia encontar outro cantor que destruísse de forma tão radical qualquer frase musical, que desafinasse tanto, que metesse notas erradas a torto e a direito nas frases. Um desastre. Não se percebe como se pode deixar passar em claro na crítica institucional, Bernardo Mariano no DN ainda aflora a medo o problema, Seabra no Público passa por cima e Jorge Calado do Expresso mete-o no saco do elenco excepcional! Por ser português existe um certo pudor em arrasar a interpretação. Infelizmente a crítica não é só elogio e as verdades têm de ser ditas. Cheguei a ter pena de Vaz de Carvalho, que já teve melhores dias, mas o público não deve ser defraudado. Cansaço? Muitas récitas seguidas? Eu ouvi Vaz de Carvalho em 3 e 4 de Março. Em 3 de Março conseguiu ser ainda mais destrutivo para as linhas de Massenet que em 4 de Março.

nota depois de récita de domingo - segundo alguns amigos que assistiram a esta récita, Jorge Vaz de Carvalho terá sido menos mau, não perfeito, mas em melhor nível que nas noites de 3 e 4 de Março. Fica aqui o registo.


Cartaz de estreia em Viena

Le Baill - Barítono

Jérôme Varnier. Excelente cantor, correcto, colocado, bom actor. Cumpriu com rigor o que se lhe pedia.

Sophie- Soprano
Hélène Le Corre – Alguém disse que Sophie é a personagem mais interessante da ópera. Isto não deixará de estar associado ao facto de jovens e airosas sopranos cantarem usualmente este papel. Hélène Le Corre cantou de forma soberba nos dois dias. Voz maleável, ágil nos agudos, parecia que os pássaros se ouviam na letras e na música que perpassou pela garganta e lábios desta excelente cantora.
Sophie sempre presente, muito mais interesseante e equilibrada que a sua irmã Charlotte, que é tão transtornada psicologicamente como Werther. E que amando Werther o faz de forma suave, sem que este repare na verdadeira jóia que Sophie encerra. Mais uma vez assim aconteceu, pelos mecanismos do teatro, Werther mata-se mais uma vez no último acto, em vez de ter o amor que merece, o de Sophie. Le Corre deu-nos precisamente essa ideia, o que signfica que foi perfeita.



Johann - Barítono
Luís Rodrigues
Cumpriu, como actor esteve bem. Como cantor regular.


Schmidt - Tenor
Carlos Guilherme
Cumpriu como actor, gritando como cantor.


Brühlmann
Ciro Telmo
Cumpriu

Käthchen
Ana Margarida Serôdio
Cumpriu

Orquestra Sinfónica Portuguesa
Desta feita foi desfeita a excelente impressão do último concerto no CCB. Podia ter sido mais coesa, ensaios em número elevado, maestro com bom currículo. O que faltou? Cansaço? Adaptção ao fosso? A orquestra foi pouco plástica, o som não foi untuoso. Para mim o que falha é o naipe que deveria ser a charneira da orquestra: os primeiros violinos, desconexos, más entradas, ritmo a falhar, e sobretudo: desafinação infernal. É mau demais para ser verdade, é recorrente, um bom concerto no CCB, duas récitas abomináveis em termos de afinação nos violinos, nas récitas no Teatro de S. Carlos. Algo tem de ser feito para corrigir esta situação de incompetência. Tenho acompanhado o trabalho noutras orquestras, o chefe de naipe tem um papel decisivo em ensaio, muitas vezes com maestros de craveira galáctica, como Boulez. Os chefes de naipe levantam-se, dão instruções, corrigem afinação, vão à estante dos colegas indicar apontamentos. O chefe de naipe é implacável com entradas menos conseguidas. Será que isso acontece na OSP? Ensaios de naipe? Som? Afinação? Pizzicato? Efeitos com arco? Não sei se se faz este trabalho, creio que não.

A orquestra, em geral, esteve regular, para o 13, 14 valores, bons violoncelos, bons contrabaixos, harpa muito bem, naipes, vistos em separado, em geral bem; o conjunto a fraquejar um pouco.
Os primeiros violinos estiveram ao nível do 7, 8 valores, descendo para 2, 3 valores nas partes mais expostas: exemplo: o inenarrável anoitecer do primeiro acto, em que ficam os primeiros violinos a desafinar, a entrar atrasados, a arrastar notas depois dos outros terem acabado as frases. Enfim, neste ponto a música deixou de se poder de ouvir, foi mesmo uma desgraça.

Coro feminino do Teatro Nacional de São Carlos
Pouco se ouve nesta ópera, o que deve ter sido óptimo.
Crianças deveriam ter sido mais ensaiadas, na récita de 3 de Março estiveram muito desastradas. Melhoraram francamente a 4 de Março.

Nova ProduçãoTeatro Nacional de São Carlos
Excelente produção, aposta completamente ganha pela direcção. Vick consegue encenação fascinante, subversiva na aparência, mas absolutamente lógica ao nível da concepção e do pensamento, o mínimo detalhe encaixa. Esta produção deveria ser vendida e mostrada nos teatros de todo o mundo. Uma produção S. Carlos 2004 ao melhor do que se faz no mundo.
A alterar: coordenação dos violinos. Encontrar um cantor mais convincente para Albert.


O Punho de Massenet escreveu o fragmento acima

H.S.

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