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15.3.04

Concerto da OSP e do Coro do S. Carlos no CCB 

Assistimos ontem a um concerto que marca o regresso de alguma qualidade nas actuações da OSP. Falaremos dos solistas mais tarde, hoje discutimos aspectos relacionados com orquestra, coro e maestro.

Esperando que não seja um fogo efémero quero salientar que há muito tempo que as energias não se manifestavam desta maneira. Houve, dito de forma breve, uma coesão e uma tensão que há muito tempo faltavam nas actuações da OSP e do TNSC.

O Maestro Peskó, em palco, trabalhou com muita energia, parece ter estado concentrado e teve um cuidado que não lhe tem sido habitual. Quem não se lembra das últimas dúzias de actuações sem chama e muito descuidadas deste maestro à frente da Orquestra da qual é titular?

A orquestra participou com diligência e paixão e trouxe a um bom porto uma actuação francamente digna. Infelizmente fica tudo por aqui, já que o verdadeiro problema deste conjunto está enraizado muito mais profundamente; de facto é cultural. É pena dever admitir-se que o máximo que esta orquestra pode entregar são alma e participação; isto é pouco. Uma Missa Solemnis de Beethoven tocada com ardor de adolescente não se confaz a uma orquestra de profissionais preparados. Assistimos, portanto, a uma execução onde se passou uma hora e meia de "papa" sem forma com sonoridades fortíssimas e forçadas desde o princípio até o fim da obra, tirando um pianíssimo que é "inevitável".

Os problemas verdadeiros são técnicos e intelectuais. Uma Missa tem muito a ver com a retórica musical e a participação íntima, a comoção, a atenção ao texto deveriam ser totais. O que se passou, ao invés, foi um constante contrariar do texto por parte das cordas; imagino que haja uma responsabilidade do concertino nisso. Como é possivel fazer acentuações métricas erradas desde o primeiro “Ky-ri-e” e continuar assim a peça toda, confundindo, por exemplo, as lágrimas da misericórdia com um mero trabalho de arcadas e articulações ao contrário? Não houve comoção nenhuma, ainda por cima no final do Credo a orquestra andou completamente perdida, fagotes a fazer escalas de colcheias à solta com os Violinos a fazer o mesmo desenho constantemente atrasados e com toda as secções que tocavam a parte temática acima deste contraponto a mandar notas por todo o lado. Numa obra desta força seria desejável que o maestro tentasse sensibilizar a orquestra para um trabalho um pouco menos de funcionário e mais intelectual. Será possivel?

Nota-se também a contínua tentativa do concertino de se fazer sobressair de qualquer maneira. Este passou todo a peça a antecipar a entrada do resto da orquestra de, pelo menos, um décimo de segundo. Irritante para dizer o mínimo!!

O coro é um caso que deveria ser estudado por uma equipa de cientistas para ver se há uma predisposição genética para ser tão mau.
No Sanctus e no Credo ouvimos sopranos a berrar que nem no mercado do peixe e os tenores a dar ataques assustadores (Et in secula....) com vozes que entram em competição com as dos carregadores das cargas na Doca da Rocha do Conde de Óbidos. Acham que gritar o tempo todo é uma distinção de qualidade. Admito que as outras secções foram mais conseguidas mas, em geral, continua o nível inaceitável do costume. Assusta o facto de se notarem caras novas. Fizeram audições? Os critérios foram ponderados? Os velhos dinossauros da velha guarda já arrumaram os jovens ao rame-rame do costume?

Esperam-se constantes melhorias. Tentem lembrar-se da música, servi-la. Menos sindicato, mais música.

Mas ontem foi melhor.

M.P.

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