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18.2.04

O feio é belo? Estética sonora (Concerto Soave III) 

Claudio Monteverdi esclarece em parte a ideia acerca da concepção do Som Vocal e instrumental.
De facto, hoje temos a convicção, francamente pouco fundamentada, de que o som deveria ser belo, sem defeitos e sem ruídos secundários.
Estou convencido em virtude dos documentos da época que, sobretudo, nos Sec. XVI e XVII o "Acento" se baseava essencialmente na "Verdade Musical" e numa interpretação optimal do Texto, da palavra e não na simples beleza sonora.
Para traduzir em música a "Verdade Musical" não havia limites estéticos. Temos informações acerca do tratamento da voz naquela época e por isso não é possível supor que um som bonito, imaculado, perfeito fosse o ideal. Acontece muitas vezes que para atingir a Verdade dramática devemos utilizar elementos menos belos.
Isto hoje acontece com a música contemporânea e é por isso que não raramente são possíveis as analogias entre este dois géneros musicais, antigo e contemporâneo. No meio estamos nós, sobreviventes de uma época, quase todo o sec, XX, completamente anacrónico e limitado.
Infelizmente os testemunhos são poucos, entre outros algumas cartas do mesmo Monteverdi, acerca da maneira de utilizar o "instrumentario" duma vez. No entanto as poucas fontes são suficientes para afirmar que a beleza do som era, em qualquer ocasião, submetida à verdade musical e dramática.
De outra maneira posso afirmar que, mesmo do ponto de vista estético, a beleza tem um efeito muito mais forte quando gerada pelo seu contrário. Isto foi um processo estético tão assumido e poderoso que mesmo a escrita harmónica e musical tiveram que subjugar-se a esta lei. Assim sendo, podemos reparar que Monteverdi no ponto final do processo que começou com a "Camerata-Bardi ou Fiorentina" passou a utilizar a dissonância de maneira cada vez mais ousada. A resolução duma dissonância numa consonância tinha que dar ao ouvinte a sensação de alívio após uma sensação de tensão ou de opressão. Até foi introduzida a prática de utilizar uma dissonância para começar uma peça, esta sim uma prática totalmente desconhecida na época.
Todos estes elementos, e mais outros, foram utilizados também no âmbito puramente sonoro. Encontramos assim alguns efeitos sonoros que jamais foram utilizados até ao Sec. XX, por exemplo tocar com o arco atrás do cavalete onde é claro que o som produzido é, mais ou menos, comparável a um desagradável zumbido.
As afirmaçoes de Monteverdi que repito: é num certo sentido o resumo do processo que tinha começado com a Camerata Fiorentina, nos permitem concluir, creio, que para eles a interpretação do texto viesse antes de qualquer outra coisa e mesmo antes da beleza da voz.
A invenção do "Bel-canto" no final da vida de Monteverdi, como reacção contra o chamado "parlato-cantato" dramático parece confirmar esta hipótese quase a devolver ao verdadeiro canto melódico o lugar que lhe pertencia. Mas isso aconteceu no final da vida de Monteverdi enquanto ontem assistimos a um concerto à volta de Sigismondo d'India cuja música que me parece mais próxima das consideraçoes mais acima. Maria Cristina Kiehr é uma voz, uma cantora e uma mulher espantosa mas Sigismondo e Monteverdi provavelmente não teriam gostado da sua forma de cantar.
Contudo posso tomar como hipótese que, a um certo ponto, a preocupação de mostrar a verdade pura chegou a ser exagerada a tal ponto que os cantores (na época) acabavam mesmo por cantar desafinado e, provavelmente por reacçao a esta situação, começou-se um caminho de redenção.
M.P.



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