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6.2.04

Último Tango de Fermat no Teatro da Trindade - não uma crítica, uma apreciação de espectador 

Gostei muito da mulher do protagonista, Joana Manuel e menos de algumas dicções... mas parece que quanto mais aguda a voz mais complicado, assim diz um recente estudo australiano.
Joana Manuel tem grande presença, inteligência, carisma, dicção, voz, capacidade de representação. Tem uma cena, a da "Viúva", em que mostra o seu potencial e teria valido a pena ir ao teatro da Trindade apenas por essa cena, que não revelo aqui, mas em que canta e representa muito bem.
Divertido é também Rui Baeta, um pouco no género bailarina La Feria, mas engraçado, um boa voz de barítono. Mário Redondo no papel do matemático Keane, é bastante convincente na caracterização do personagem, um actor cantor que já não é apenas uma promessa.
Pedro Pernas, Madalena Paiva Boléo, Rita Crespo, Jaime Bacharel, todos empenhados na representação, muito bem também, divertidos e com prazer no que fazem, com a ressalva de uma percepção menos ideal das vozes mais agudas.
A amplificação é demasiado elevada em certos momentos, o que para ouvidos sensíveis e habituados a vozes nuas e instrumentos acústicos às vezes é ligeiramente incómodo. Sugiro uma ligeira redução dos volumes sonoros. Mais elevados na matiné com jovens das escolas, mais reduzidos nas noites, a minha sugestão.

A orquestra, pequena, em palco está a tocar muito bem, com segurança e qualidade.
A música de Joshua Rosemblum é boa mas repetitiva, mas aqui concedo que o nosso padrão é diferente e que o musical é um género menos exigente que a ópera ou a música contemporânea mais académica. O texto de Joanne Sydney Lessner é muito interessante e bem concebido mas custa-me a ver os não iniciados em matemática a perceber algumas graças com referentes mais técnicos, felizmente o assunto é muito bem enquadrado e explicado e existem momentos de humor muito divertidos para além da matemática. Nesta peça nota-se que os anglo-saxónicos olham para a ciência de forma mais amigável que nós, a matemática em Portugal olha-se de longe, e tenta-se fugir. Sem mitos, sem tabus consegue-se aqui uma aproximação do público em geral de uma ciência que não é assim tão hermética e pode ser fascinante.

Interessante a evolução do repórter pouco conhecedor ao princípio, destacado de outra área do jornal, que se apaixona pelo assunto e no final surpreende os colegas com o que entretanto aprendeu sobre matemática e o problema de Fermat, conclusão: a matemática é fascinante e acessível a qualquer um que tenha cérebro e interesse pelo pensamento e pelo mundo. Ou seja, é acessível a qualquer ser humano. Neste musical faltam raparigas de pernas ao léu e de penas (ou plumas) no traseiro a descer escadas e a gritar: "grande noite, grande noite!"... É, aliás, excelente que assim aconteça, é bom sinal.

Bom trabalho de César Viana na adaptação do texto à nossa língua.

Encenação bem marcada, de Claudio Hochman, Francisco Cardoso na direcção musical promete muito, cenografia e multimédia (económica) simples mas eficaz de Alberto Lopes, os figurinos de Rafaela Mapril são algo difíceis de interpretar, o triângulo em cima da cabeça do Pitágoras ainda é acessível o resto da iconografia menos. O dedo no ar de Rita Crespo em Newton é francamente bom, caracteriza bem o carácter autoritário e mesquinho (ele não tinha necessidade) do génio inglês (Rita estudou bem o seu Newton!). O ar de bailarina La Feria de Fermat é demasiado histriónico para o nosso gosto.

Gostámos muito do desenho de luzes de Alexandre Coelho, foi bom o sublinhado rectilíneo das personagens, poético por vezes, criando momentos mais íntimos ou mais mediáticos de acordo com a quantidade de luz empregue e o momento cenográfico.

Carlos Fragateiro do Teatro (propriedade) do Inatel continua de parabéns, se exceptuarmos a peça Viriato com texto fraquíssimo de Freitas do Amaral, o recurso a equipas jovens e com paixão pelo que fazem, com empenho e frescura revela-se uma excelente aposta, que continue e que a música pura tenha também algum lugar neste teatro com tão boas condições e tão bem localizado.

Recomenda-se vivamente uma ida ao Teatro da Trindade.

P.S. - O trabalho geral de marcação, as danças dos matemáticos e a coreografia da "Viúva" são baseados em improvisos dos actores, mas com uma apertada supervisão e orientação de mais uma pessoa para além do encenador, o coreógrafo e preparador físico dos actores cantores: Bruno Cochat.
Agradeço a informação a quem me enviou o amável email, notando alguns pequenos erros no meu texto e com esta informação tão útil.


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