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7.2.04

Lido no Público e comentado aqui 


A ler no Mil Folhas: Crítica a discos por Cristina Fernandes. Devo dizer que sou muito mais severo que Cristina Fernandes relativamente às interpretações com uma voz por parte de obras como as paixões e as missas de Bach por certos maduros: Rifkin, Mcreesh e, juntando-se tarde a este grupelho Konrad Junghänel, um alaúdista bom que se tornou num excelente director do Cantus Kölln.

Estamos claramente perante um excesso de fundamentalismo interpretativo, é completamente impossível que uma obra majestosa, de síntese, destinada a uma corte importante, por um homem como Bach, destinada a um ofício (que acabou por ser mais conceptual do que real) de grande solenidade e numa catedral imensa, corte que dispunha, desde o tempo de Schütz (e este bem se queixava da diminuição de efectivos durante a guerra dos trinta anos), de vários coros de grande número (trinta cantores, o que era elevado) e de alta qualidade, é, repito, impossível que tivesse sido concebida para uma voz por parte.
Nem era uma obra para Leipzig, onde às vezes Bach lutava com dificuldades em recursos humanos e financeiros, era destinada ao Príncipe da Saxónia e Rei da Polónia, o soberano também de Leipzig. No entanto esta cidade universitária era directamente governada por um conselho municipal muito autónomo e com o qual Bach entrava em conflito ciclicamente.
É uma fraude interpretativa, ao abrigo de uma fraude musicológica e intelectual. Junghänel deu-nos gravações e interpretações notabilíssimas, incluindo um Schütz deslumbrante, mas este disco é bola preta. É um disparate e só se justifica por motivos económicos, é mais barato cantar com poucos ou nenhuns cantores nas partes de coro, é mais barato usar um instrumento por parte. Sonoridades desequilibradas, falta de eficácia na glorificação, falta de corpo no Credo, os momentos mais íntimos resultam também demasiado leves. Uma má leitura do que Bach escreveu e deixou como legado. Um disco Bola Preta. Não compre, faça deste disco o fracasso que merece ser.

P.S. Percebe-se que um alaudista queira uma voz por parte, é que um alaúde nunca se ouve, com menos cantores talvez se consiga ouvir um pouquito mais, uma esperança que Konrad não resolve juntando ao efectivo orquestral quatro alaúdes e uma teorba ou duas, como faziam Schütz e Praetorius, mas aqui já nem estou a escrever sobre Bach. Konrad Junghänel tem feito gravações de compositores alemães do século XVII com apenas um alaúde, o que é francamente errado em termos musicológicos. É demasiado pecado para quem vem juntar-se ao grupo dos "iluminados" de uma voz por parte. Dão argumentos aos que dizem (ainda há muitos) que as interpretações com fundo musicológico não interessam nada e o que conta é como se interpreta. Realmente a forma como se interpreta é essencial, mas fazendo-o com inspiração musical respeitando a obra e o tempo originais é deslumbrante. Quer emocionalmente, quer racionalmente. A emoção conta muito em música e não o nego, mas completada com pensamento leva ao delírio, ao sonho, ao prazer absoluto que só a música pode dar e que estas palavras toscas nunca conseguirão transmitir.

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