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11.2.04

Ecos de domingo - O Coro 

O Blogue Portugal dos Pequeninos critica uma crítica deste blogue ao concerto de domingo. Devemos dizer que nos estimula o debate livre e franco de ideias, e todas as opiniões são saudáveis, gostámos deste eco, e gostamos de não ser uma autoridade absoluta, temos opiniões e são discutíveis, por muito que se defendam com ênfase. Posto este preâmbulo passamos ao concreto, e cita-se o texto por inteiro de Portugal dos Pequeninos, para melhor apreensão do seu conteúdo:

O CORO

Nas grandes tragédias clássicas bem como em grande parte do repertório lírico, o coro tem por função o enquadramento do pathos do enredo e das vicissitudes por que passam os protagonistas. O coro comenta o que se passou, o que se está a passar e anuncia felicidades ou desenlaces fatais futuros. O coro do Teatro Nacional de São Carlos, não fugindo a esta tradição, decidiu não se apresentar num concerto sinfónico, aparentemente por razões corporativas. O crítico aplaudiu a ausência deste corpo artístico e só lhe faltou sugerir o pelotão de fuzilamento. Sabe-se que o coro pode não ter sido excessivamente feliz nas suas últimas prestações e que a sua direcção musical pode acusar algum desgaste perfeitamente natural. Porém, não convém nestas coisas pensar com os pés. O coro do TNSC está integrado numa organização complexa que é o São Carlos, recheada de contradições e de uma deficente estrutura interna. Se os corpos artísticos têm o "poder" que têm, designadamente de alterar por completo a "fisiologia" do restante programa dos concertos sinfónicos, foi porque alguém o concedeu. Por outro lado, e numa mesma semana de trabalho, o coro pode ter de ensaiar textos musicais completamente distintos, passando de uns para os outros, a ritmos absolutamente estonteantes. A actual direcção do teatro, como aqui já afirmei, vive muito do "faz de conta". Adora fazer de conta que está tudo no melhor dos mundos quando efectivamente não está. A sua insegurança manifesta-se nestas alturas e sempre da pior maneira. E nada se resolve com prepotências ignorantes. O coro e a Orquestra Sinfónica Portuguesa são constituídos por bons músicos, homens e mulheres que gostam da sua profissão e que a honram. Um teatro com as características do São Carlos dirige-se com eles e não contra eles. O mesmo raciocínio é aplicável aos funcionários "técnicos" e "administrativos". É que se assim não for, em última análise, quem "paga" o devaneio é o público a quem tudo se dirige e que, não esqueçamos, acaba efectivamente por pagar tudo.

Nunca defendemos o pelotão de fuzilamento para o coro, nem nada que se pareça, defendemos a melhoria da sua qualidade, avaliamos sempre pelo que ouvimos e nunca pelo que nos dizem. Cremos que é um objectivo comum.
O coro não existe enquanto tal, contém dentro de si alguns cantores bons, que reunidos em pequenos agrupamentos têm conseguido atingir níveis dignos, mas medianos. Quando o coro se reune na sua totalidade, ou quase, os resultados são, em geral, maus ou muito maus.
A orquestra é diferente: luta, prova variadamente que tem qualidade, os músicos são reconhecidamente bons, a prova é que quando surgem maestros melhores o resultado é excelente, falta mais trabalho de base, mas o maestro titular, Peskó, amarrou o Teatro a um contrato, toda a gente sabe que não está presente e que não tem o domínio técnico que se lhe atribuía inicialmente, a razão não é conhecida, mas os resultados são (in)audíveis. O maestro titular é irregular, não serve, terá de ser encontrada outra solução, também mais económica, quando acabar o seu contrato. O maestro anterior também não é exemplo, uma vez que escolhia um reportório discutível e desinteressante na maior parte dos casos. Raramente se fazia um reportório sinfónico, com desaproveitamento das qualidades e características da orquestra.
Voltando ao coro: em sociedades civilizadas não se dá o pelotão de fuzilamento a quem não atinge os objectivos, dá-se uma mudança de funções, ou mesmo um despedimento se o caso for insolúvel, o que talvez não seja o caso.
O que nos leva para o sublinhado seguinte: o maestro de coro tem provado repetidamente que não serve, não tem ouvido, não se trata de desgaste natural, trata-se de falta de formação em coro e vozes, de falta de estudos na área da direcção musical e coral. Um maestro de coro incapaz de conseguir a afinação é uma aberração. Não dando directivas, não ensinando como se faz, confiando apenas no ouvido dos cantores acaba tudo numa descoordenação total, sem fio, sem guia, sem destino. Surgem problemas de falta de liderança, de desmotivação, cortes de compassos em partituras difíceis para se enganarem apenas a si próprios, pensando que o público não conhece as obras ou não repara. As contratações de cantores para o coro são pouco criteriosas, o resultado final é muito mau. O coro precisa de uma reforma completa, os cantores de qualidade que restam, e são ainda bastantes, podem ser a base de um trabalho futuro e concordamos aí com o Portugal dos Pequeninos.
Um coro moderno, capaz, profissional e com uma direcção, pode (e deve) trabalhar várias obras ao mesmo tempo: Viena, Paris, Londres, Milão apresentam muitas récitas por semana, dezenas de óperas e concertos com programas diferentes por ano. Com orquestras de cento e cinquenta músicos (menos em Viena, segundo cremos) e coros fixos. Não é a mudança de reportório que justifica a incapacidade do coro neste domingo, é a falta de liderança e de capacidades musicais, é o sindicalismo corporativista e sem fundamento ético. Sem nada para dar em troca dão-se ao luxo de pedir dinheiro a mais, porque está no contrato. Está completamente certo. Mas o mais importante, não sabemos se está no contrato, é que o coro deve cantar com qualidade mínima, e isso não tem feito. Quem faz exigências financeiras deste tipo está a pedir rigor no cumprimento integral dos contratos, isso pode levar, por absurdo que pareça, à extinção do coro, cantores incapazes de cantar não deveriam receber um chavo do estado, quando têm um vencimento certo e pago pelos contribuintes, contribuintes que passam as dificuldades sabidas.

Claro que muitos cantores suam, tentam, têm brio profissional, mas sem liderança e com muita gente incapaz, do ponto de vista musical, o trabalho dos que remam pela música e com brio, fica muito dificultado. Até os bons cantores estragam a voz num coro assim, conhecemos cantores que nunca concorreram ao coro do TNSC com medo de estragar a voz, ganhando muito menos noutros coros de muito maior qualidade.

O coro precisa de sentido profissional e de qualidade antes de tudo, depois pode começar a pedir horas extraordinárias, mas ter a mentalidade de mendigar uns tostões para assassinar depois uma obra é um escândalo, é falta de vergonha.

Não defendemos o pelotão de fuzilamento, defendemos o júri internacional com plenos poderes para avaliação do coro e a contratação de um maestro de coro com personalidade, que saiba do ofício e goste do que faz.

Também não achamos que as culpas sejam desta direcção, à qual falta reconhecidamente a capacidade de dar murros na mesa (o que pode até deitar tudo a perder), mas que se tem mostrado competente em muitos aspectos como montar uma temporada de ópera sem recursos e em cima da hora. Se esquecermos certos maestros inacreditáveis (exemplo: o arménio que veio ao S. Luiz) que aqui têm passado e a acústica da Culturgest para o Tristan und Isolde, a direcção tem conseguido o que muitas outras não conseguiriam e não conseguiram.

A diferença de nível entre orquestra, com boa qualidade geral e o coro, com fraquíssima qualidade, prova que o problema não será só da direcção de Pinamonti. Repare-se que a orquestra tem tantas ou mais razões para estar descontente, os políticos nem sequer dotaram a OSP de uma sala de ensaios, de gabinetes de trabalho, de salas de convívio. No entanto esta orquestra tem qualidade, e quando os maestros são dignos desse nome sobe de nível de uma forma soberba. Precisaria de um concertino principal com menos ânsia de protagonismo e com mais ouvido e capacidade musical.

Está convidado o João do Portugal dos Pequeninos para falar sobre o assunto e outros quando quiser e onde quiser, perante a audiência que achar mais conveniente. Um abraço para si e para quem nos lê. Estamos fartos de discutir este tema do TNSC aqui neste blogue.
Agora vamos escrever mais sobre música antiga (uma das nossas paixões), e pedir aos nossos amigos que aqui escrevem mais arte e cultura e menos debate sobre assuntos já bem esclarecidos. O projecto dos links musicais também tem de ser desenvolvido, agradecemos a quem nos enviou links muito interessantes.

H. Silveira (com V. G.)


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