<$BlogRSDUrl$>

9.2.04

Crónica de um concerto admirável 

Domingo, 16h CCB, orquestra sinfónica portuguesa, maestro Josep Pons.

Não somos de elogiar em excesso. Houve defeitos, houve entradas a medo, a Petruchka de Stravinsky poderia ter sido melhor preparada. Daphnis e Chloé de Ravel poderia ter sido mais exacto. Mas só podemos dizer uma coisa: houve perfeição dentro das imperfeições. Houve música, só uma grande orquestra, recheada de músicos de alto nível poderia ter respondido assim a um maestro, também brilhante, como Josep Pons, que parece ter percebido como funciona a OSP e entrado em comunicação, com a música, com a orquestra e com o público.

Dois compositores mestres notáveis da arte de orquestrar e de criar música, Stravinsky e Ravel. Neste último a orquestra atingiu quase o absoluto ideal de sonho e de som que só uma grande orquestra consegue. Não existiram desafinações nos violinos, o som foi coeso, as cordas estiveram ao melhor nível que se ouviu nos últimos anos. As entradas bateram certo. Os graves estiveram perfeitos, as violas dando um corpo unificador sem par, e os violinos construindo sonoridades envolventes.
Os sopros, com dificuldade a superar, superaram-se, ainda entraram um pouco a tremer, mas com o evoluir da obra de Ravel consolidaram de tal forma a sua actuação que chegaram a comover pelo empenho e qualidade de som que produziram, ajudados pela segurança nas entradas e no ritmo de Pons. Não percebemos o porquê do esquecimento do maestro relativamente ao clarinete solista nos agradecimentos finais, que foi tão notável como os seus companheiros das trompas, dos oboés, do corne inglês, das flautas, dos fagotes, dos trombones, da tuba e dos trompetes, que estiveram particularmente seguros, com solos muito conseguidos, fazendo esquecer de vez um azarado concerto de Brandenburg algum tempo atrás.
A música do genial francês parecia nascer das veias dos músicos da orquestra, harpas, percussão, tecla, todos contribuiram para um concerto de altíssima qualidade. Nem é uma questão de solistas, os tutti foram avassaladores, de efeitos tímbricos muito bem conseguidos. Poéticas as imagens impressionistas da natureza, uma recriação da obra de Ravel com uma concepção tão conseguida como sonhadora, sendo densa nos momentos mais pujantes e transparente nas filigranas mais delicadas. Josep Pons conseguiu efeitos muito belos e a orquestra respondeu com musicalidade. Mais trabalho haveria a fazer para se corrigirem alguns detalhes, mas o concerto prova, mais uma vez, a qualidade superlativa da maior parte dos músicos da orquestra sinfónica portuguesa.

O concertino esteve ausente, o que foi uma benção para a melhoria de qualidade do naipe de violinos.

Finalmente uma sala com qualidade para concertos sinfónicos dignos desse nome.

O coro usou argumentos sindicais para exigir dinheiro extra por ensaios ao sábado e concerto ao domingo. Foi dispensado, uma decisão sábia que nos poupou ao provável descalabro e destruição do trabalho da orquestra nos momentos em que teria de intervir. Os parabéns à direcção pela decisão de fazer sair o coro pela porta baixa, e ainda têm lata de exigir mais dinheiro. Se não fosse vergonhoso seria ridículo. É altura de acabar com a bandalheira, exigem-se medidas para melhorar a qualidade deste coro que é a anedota de toda a comunidade musical portuguesa e uma vergonha para o estado português e os contribuintes que desperdiçam dinheiro com uma estrutura que não funciona. Se nada for feito neste momento a tutela verá a sua autoridade moral posta em causa por um grupo pouco capaz de cantar e capaz de exigir disparatadamente dinheiro por nada.
H.S.

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?