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16.2.04

A Crónica de AMSeabra no Público de ontem 

Augusto M. Seabra faz mais uma crónica no Público. Tenho pouco a acrescentar, está relativamente bem escrita, clara, e com um fio condutor. Farei apenas alguns reparos a imprecisões e a um erro clamoroso.
Se esquecermos as marcas de pretensiosismo de se pretender como o "Supremo Marcador Público da Crítica Colectiva", um irritante ego de auto colocado "Papa da Crítica" v.g. "E é deveras extraordinário que o facto se tenha passado sem a mínima observação pública - fica feita!", em que afirma que, depois desta referência mínima numa crónica de Domingo, a observação pública está feita, Seabra dixit. Dizia eu que, se esquecermos estes tiques, até se consegue ler a crónica, as frases estão mais simples, menos intrincadas e Seabra consegue expor as suas ideias.

Mas comete um erro crasso: a Sinfónica não tem condições de trabalho como é afirmado genericamente, e passo a explicar; a OSP não tem pequenas salas de ensaio apropriadas ao estudo de formações reduzidas ou de naipes e tem ensaiado no Salão Nobre do Teatro de S. Carlos, o que é péssimo acusticamente. Os músicos não têm gabinetes de trabalho, não existe uma estrutura própria de apoio, faltam salas de estar. Uma orquestra sinfónica, com elevada componente artística, com trabalho diário de preparação, com necessidades intelectuais prementes de documentação, deveria ter bibliotecas e audiotecas decentes, salas de estudo, salas para conferências e exposições, salas para "master classes" e uma sala de ensaios própria, especial, construída com condições acústicas cuidadas, insonorizada, cliamatizada, com possibilidade de se fazerem gravações e de se ensair com coro. Nada disto acontece, o que é uma falta de visão increditável dos políticos, completamente insensíveis ao fenómeno musical. Umas instalações deste tipo poderiam ser na sede da antiga PIDE, ao lado do S. Carlos. Seria uma reabilitação artística de um edifício com passado tão negro, uma redenção pelo amor da arte, o que poderia ser feito sem deixar cair a memória do local, isto se o projecto tivesse pés e cabeça, e não fosse mais uma ideia a "la casa da música" que nem sequer tem fosso de orquestra!

Hoje a sinfónica não tem as mínimas condições de trabalho, são vergonhosas! Pulgas no fosso da orquestra, temperaturas elevadas no Verão e congelantes no Inverno, sala de ensaio inacreditável, com um ruído horrível, quer exterior, quer interior devido à sonoridade e reverberação dos instrumentos. Orquestra a parar de tocar quando toca o sino da Igreja! Nem lembrou Seabra a Orquestra no Teatro Capitólio, sete anos a fio com os pombos a cagarem em cima! Isto ainda nos tempos do Santana Lopes. Os políticos andam a cagar em cima da orquestra desde a sua fundação, o que é bem pior! E Seabra tem a lata de dizer que "Manifestamente, tendo agora condições de ensaio no São Carlos", parece que anda a dormir ou que fechou os olhos à realidade ou não quis saber antes de escrever, é um mau exemplo de serviço público na escrita, em vez de apelar a condições de trabalho, em vez de criticar a tutela por esta situação lamentável vem dizer que está tudo bem, inconcebível. Serão melhores que quando os pombos se serviam da orquestra como WC, mas ainda são muito deficientes.

Haja dignidade e respeito pela música, ao menos que os políticos se lembrem de uma sala de ensaios em condições, será o ponto de partida mínimo. Orgulho de fazer música assim?

Cem por cento de acordo com a falta de brio profissional do coro. Agora pedir comprometimento artístico a um coro que não sente a arte, em que muitos elementos nem sequer sabem cantar... é demais, é impossível. Ganham o ordenado ao fim do mês e comportam-se de acordo com a ideia esteriotipada de funcionário público, dando razão a quem critica o funcionalismo público por ser laxista e desinteressado. A Orquestra Sinfónica Portuguesa, se esquecermos alguns exemplos, é exactamente o contrário e por isso vão fazendo música, quando os maestros que aparecem por Lisboa querem e podem.

H.S.

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