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18.2.04

Concerto Soave IV 

Uma interessantíssima discussão nasce do Concerto Soave, e da sua actuação dia 16 de Fevereiro na Fundação Gulbenkian. Para mim, simplesmente um dos mais fascinantes concertos dos últimos anos em Lisboa, não falo por Maria Cristina Kiehr, falo pelo conjunto e pela inteligência e qualidade musical do seu director: Jean Marc Aymes.
O concerto de dia 16 de Fevereiro teve um ensemble com teorba, dois violinos, duas violas da Gamba, harpa doppia e orgão positivo e cravo, contou com Maria Cristina Kiehr no canto. O concerto organizou-se em torno da monodia de Sigismondo D'India, árias, lamentos, canzonetas e madrigais.
Já falarei de Maria Cristina Kiehr, mas mais importante que qualquer intérprete, mesmo que superlativa, e infelizmente as conversas tendem a cristalizar-se em torno dos cantores, é discutir o universo por detrás de qualquer concerto público. O Universo e o Tempo. O problema de todos os que amam a arte e o belo, o universo da música, da recriação da obra, o universo do texto, a preparação, a leitura dos manuscritos e a edição do texto para o concerto. Neste caso Jean-Marc Aymes adopta uma posição extremanente doce, apropriada aos instrumentos e à voz de que dispõe. Provavelmente no La Fenice, com Jean Tubéry, a ideia musical era mais dura, mais apropriada ao ensemble de cornetos, trompetes barrocos e renascentistas, sacabuxas, curtais e serpentão! Aqui Jean Marc Aymes escreve as linhas superiores, completando o baixo contínuo escrito, que coloca nos instrumentos melódicos, os dois violinos e, eventualmente, uma das violas, que pode ser tenor, de braço ou baixo, segundo uma prática interpretativa própria da época de Sigismondo d'India, o maneirismo. A forma como Jean Marc Aymes o faz é absolutamente notável, ninguém diria que estas linhas não foram escritas por Sigismondo D'India (ouvir a propósito uma entrevista que Jean Marc e Maria Cristina concederam à Luna, Lisboa apenas, a sair na quinta feira depois das 21h10m com repetição no sábado às 13h). A subtileza posta na recriação da obra é acompanhada por uma interpretação absolutamente perfeita neste capítulo, os instrumentos fundem-se de forma notável, Jean Marc escolhe instrumentações apropriadas a cada obra: quando o canto é mais ornamentado contrabalança com os violinos, quando mais lamentoso usa as gambas. Quando mais intimista recorre apenas ao alaúde ou/e à harpa.
As durezzas, ou dissonâncias são realçadas pelo corpo instrumental de forma insuperável, sem acentuações desnecessárias, bastando-se por si próprias.
Outro aspecto importante é a afinação não temperada por igual, v.g. glissandos da nota para o seu sustenido, subtis, leves, surpreendentes em virtude de este intervalo ("meio-tom") ser muito mais curto na afinação mezotónica usada (ouvir entrevista), aspecto nem sequer citado nas críticas aparecidas em jornais.

Sobre a estética sonora um comentário: creio que o ideal de belo do maneirismo, final do renascimento, apontava para um sublinhado total do texto, poetas sublimes são usados pelos compositores (e cantores como o próprio Sigismondo d'India) essa preocupação com o texto encontra-se em Florença, em Veneza e em Roma, Schütz (outro génio absoluto) é notável neste capítulo, pela sua inteligência e cultura e, não esquecer, pela sua escola italiana. Não creio que esse ideal de beleza, de sentimento, seja incompatível com a forma perfeita e suave como Maria Kiehr e seus pares lêem a música. Antes pelo contrário, creio que o ideal renascentista procura um equilíbrio, conseguido de forma deslumbrante no concerto, entre o texto de qualidade literária elevada e a música. Vejo a entrada da dissonância mais como forma de comoção, de sentimento, de afetto, que reforça a beleza sonora e o instante dramático. O pré-barroco de Monteverdi, cerca de 1610, é diferente deste maneirismo claríssimo de Sigismondo d'India, Monteverdi é um inovador pela forma, é um moderno, é sem dúvida um revolucionário e um génio em todos os campos musicais, e é por este motivo que seus seguidores começam a desequilibrar o prato da balança para o lado da música em detrimento do texto, Monteverdi é um ponto de não retorno para um barroco puro e duro que chega a ser deplorável em termos de escolhas literárias. Já d'India explora os caminhos da comoção e dos sentimentos, usa caminhos já percorridos por outros, Caccini por exemplo, não esquece sequer Gesulado (que no meu entender é um falso revolucionário), mas de uma forma deslumbrante e contida, “soave” porque não dizê-lo, e que acaba por ser também revolucionária pelo uso do belo em equilíbrio extraordinário entre música e palavra.
A melodia que não fecha, as comoções, os poetas, Petrarca não será o menor, tudo aponta para equilíbrio total entre vários ideais de belo. Maneirismo na sua final expressão renascentista. Creio ser assim plenamente justificada a forma como a afinadíssima, e vocalmente bela, Maria Cristina Kiehr interpreta a obra de Sigismondo d'India. Com respeito à falta de variabilidade tímbrica devo dizer que concordo com M.P., creio que Maria Cristina Kiehr descobriu uma fómula perfeita para a sua voz e que não explora variações tímbricas, pelo menos neste reportório, a sua emissão é muito suave, a sua potência não é enorme, mas a sua interpretação do texto é muito inteligente na acentuação, no lamento, na ornamentação elegante e sem excesso. A sala do grande auditório da Gulbenkian é grande demais para um concerto que se queria intimista, estas obras eram apresentadas em pequenas câmaras, a sala da Academia das Ciências seria perfeita, como a própria Maria Cristina Kiehr comentou.
Entretanto o público acorreu em pequeno número e não encheu a sala, o que se compararmos com o inacreditável concerto de Vengerov atesta bem do mau gosto e da incapacidade cultural do público português.
Não posso estar em mais desacordo com o comentário sobre o lamento de Didone e a sua comparação com uma conversa de tia lamentosa, penso que o dramatismo e a expressividade se atingiram de forma subtil e sublime, precisamente neste ponto.
Também no tempo do renascimento havia cantores com mau gosto, e os compositores sofriam com isso, daí o colocarem nos seus textos indicações (ouvir a tal entrevista) para que os intérpretes não se excedessem na invenção de efeitos disparatados. Se por um lado temos a ideia de que os homens do final do renascimento eram seres incompreensíveis com formas de pensar difíceis de aceder pelos nossos cérebros, com costumes estranhos, por outro lado temos de lembrar que eram seres humanos sensíveis, inteligentes, cultos, e que nos maravilham com obras como as de Dante (este mais antigo), Shakespeare, Cervantes, Monteverdi, Schütz ou Sigismondo d'India. O belo é eterno, Maria Cristina Kiehr e Jean Marc Aymes deram-nos um pedaço desse eterno no dia 16 de Fevereiro. O prazer de ouvir música foi projectado até ao infinito, até ao divino.
H. Silveira


P.S. Desta vez eu nem sequer queria escrever sobre o assunto, o prazer de ouvir superou qualquer crítica possível que se possa fazer, mas fui obrigado pela “polémica” que o meu amigo M.P. suscitou pelo seu texto.


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