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22.2.04

Chiara Banchini, a ler no Público de hoje.

Artigo de Cristina Fernandes.
Como o jornal costuma retirar os artigos online ao fim de algum tempo, aqui fica para memória futura.


Os Caminhos do Violino Barroco
Por CRISTINA FERNANDES
Domingo, 22 de Fevereiro de 2004

Directora musical do Ensemble 415 e uma das mais importantes violinistas barrocas actuais, Chiara Banchini tem visitado Portugal diversas vezes como intérprete, por exemplo por ocasião da Festa da Música, do Festival dos Capuchos ou das extintas Jornadas Gulbenkian de Música Antiga.

No final desta semana (entre os dias 19 e 21), esteve mais uma vez em Lisboa para leccionar uma "master class", no Conservatório Nacional, em torno de dois temas centrais do repertório violinístico dos séculos XVII e XVIII: "Da Diminuição à Ornamentação" e "A ornamentação na música de Corelli, Geminiani e Tartini". A iniciativa partiu da Associação de Amigos do Conservatório e do Ensemble Divino Suspiro e teve entre os participantes violinistas de vários níveis, desde alunos da instituição a músicos profissionais.

Com a excepção de cursos esporádicos (por exemplo os da Academia de Música Antiga de Lisboa ou os da Casa de Mateus), não existe em Portugal formação especializada no violino barroco. Assim, enquanto por toda a Europa proliferam agrupamentos com instrumentos da época de qualidade elevadíssima, a situação em Portugal é ainda muito incipiente. O projecto de convidar intérpretes internacionais para vir dar formação aos músicos portugueses irá prosseguir já no próximo mês de Julho, com uma "master class" de cravo e baixo contínuo por Rinaldo Alessandrini.

Chiara Banchini lecciona na Schola Cantorum de Basileia, a mais antiga e prestigiada escola no âmbito das práticas de interpretação históricas. Mas mesmo num centro com tanta tradição continua a existir uma divisão clara entre a especialização em música antiga e o ensino mais tradicional. "O conservatório está ao lado da Schola Cantorum, basta atravessar um pátio para escutar o nosso trabalho, mas os seus alunos não o fazem", contou Chiara Banchini ao PÚBLICO. "Claro que há uma certa consciência, mas o resultado foi que no conservatório quase se deixou de fazer música barroca! Creio que a união destes dois mundos só se fará na próxima geração. Quando os jovens que hoje beneficiam dos dois tipos de prática e se tornarem professores. É possível fazer uma interpretação historicamente informada num violino moderno." Mais importante que o instrumento é o arco: "Não se pode fazer música do século XVII com um arco do século XIX e vice-versa. À medida que avançamos no tempo os arcos começam a alongar-se e o som muda muito."

Em 1981, quando fundou o Ensemble 415, Banchini tinha como colegas violinistas tão ilustres como Fabio Biondi, Enrico Gatti, François Fernandez e Emilio Moreno. Depois cada um deles seguiu o seu caminho. Nos últimos anos os elementos do Ensemble 415 são quase todos alunos da violinista.

No que diz respeito à abordagem interpretativa, Banchini é tem algumas reticências quanto à extravagância teatral dos seus colegas italianos: "Creio que alguns exageram. A linha italiana não é totalmente extravagante. Os italianos têm também um lado mais sereno e conservador... Depois, o italiano é uma língua doce." Dos grandes violinistas actuais o que mais admira é Giuliano Carmignola, "um violinista genial que nem sequer é especialista no barroco, mas que se adaptou a este repertório magistralmente". Banchini foi aluna do principal pioneiro do violino barroco, Sigiswald Kuijken, e permanece fiel aos seus ensinamentos: "Ainda na semana passada deu um curso em Basileia onde falou da seriedade do trabalho interpretativo. Estamos ao serviço da música e dos compositores, não da vaidade do intérprete. Os irmãos Kuijken estão a ficar fora de moda porque são discretos, não fazem 'cenas'."

Antes de se dedicar à música barroca, Banchini chegou a ser membro da Orquestra Gulbenkian, em 1974. "Toquei muita música contemporânea nessa altura, com orquestra e grupos de câmara, e participei em várias estreias mundiais." Na sequência desta experiência, Banchini foi para a Holanda para se especializar no século XX, mas depois de assistir a um seminário de Harnouncourt sobre as cantatas de Bach apaixonou-se pelo violino barroco e nunca mais o largou.

Com uma ampla discografia na Harmonia Mundi (onde se destacam o "Stabat Mater", de Vivaldi, com Andreas Scholl ou os Concertos de Corelli), Banchini e o Ensemble 415 passaram a gravar recentemente para a Zig-Zag Territoires: "Discos como os dedicados a Bononcini ou Valentini não seriam possíveis na Harmonia Mundi, que apenas quer gravar nomes conhecidos. Com a A Zig-Zag tenho uma relação mais pessoal, há mais diálogo e tempo para as gravações. Se os últimos discos são mais belos não é porque nos tornámos melhores mas porque as condições de trabalho são mais favoráveis."

O próximo CD, que sairá em Março, é dedicado aos Concertos de Geminiani.


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