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25.2.04

Casa da música - uma visão diferente 

Concordo com HS quando fala dos exorbitantes custos da Casa da Música, dos atrasos sucessivos e intermináveis nas obras e da tontice (tipicamente lusitana) de construir um edifício deste tipo sem fosso nem teia, ainda por cima quando se sabia desde o início que uma das pricipais estruturas residentes iria ser um Estúdio de Ópera! Mas este é apenas um dos lados da questão. Ainda que muito exista para questionar neste conturbado processo, é injusto e parcial passar por cima dos aspectos positivos do trabalho de Burmester e da sua equipa. A Casa da Música não é apenas um edifício, mas um projecto artístico e cultural, cujas linhas (concorde-se ou não com elas) começaram a ser pensadas e postas em prática bem antes de 2001, ao contrário do que habitualmente acontece em Portugal, onde tantas vezes se constroem novas estruturas e equipamentos sem a mínima ideia concreta do que depois se irá fazer com eles.
O Estúdio de Ópera, o Remix Ensemble e o Serviço Educativo começaram a funcionar e a cimentar alicerces sensivelmente um ano antes da Capital da Cultura, mostrando trabalho muito válido. Houve a preocupação de criar estruturas para o futuro em detrimento de uma programação de fachada com nomes mediáticos, que provavelmente iria agradar a um público mais numeroso, mas que se esgotaria nisso mesmo. Apesar de alguns espectáculos de assinalável qualidade (por exemplo The Turn of the Screw, de Britten; O Amor Industrioso, de Sousa Carvalho; Três Extravagâncias ou a acção sacra Joaz, de Benedetto Marcello, etc.), o funcionamento do Estúdio de Ópera tem suscitado várias reservas — na selecção dos cantores; na direcção, formação e orientação artística; na escassez de produções de ópera propriamente ditas, colmatadas por recitais mensais de nível irregular, por vezes não muito longe do perfil das audições escolares —, mas também tem servido de banco de ensaio e trampolim para alguns cantores jovens talentosos : Sara Braga Simões, Alexandra Moura, Magna Ferreira, Rui Baeta e alguns outros. Além disso a escolha de títulos é interessante e imaginativa, apostando em obras raramente interpretadas entre nós.
Quanto ao Remix Ensemble atingiu uma qualidade internacional inédita em Portugal no âmbito da música contemporânea, ou mesmo de qualquer outra área musical. Algo só possível graças à regularidade e às condições do trabalho, a uma criteriosa selecção de instrumentistas e a um maestro titular notável: Stefan Asbury. É certo que o Remix absorve rios de dinheiro, mas neste caso os meios justificam os fins.
O Serviço Educativo tem realizado também um acção importante com crianças e jovens e com populações de bairros desfavorecidos como Aldoar, surpreendente no caso da colaboração com a Ópera de Birmingham na produção do Wozzeck, de Berg, em 2001. Há ainda a acrescentar a encomenda de novas obras e a preocupação de inserir a Casa da Música nos grandes circuitos internacionais, que se traduz por exemplo na sua aceitação como membro pelo Réseau Varése. Tudo isto, e não só, se deve a Pedro Burmester e à sua equipa. A sua acção está longe de ser perfeita, pode ser questionável em muitos pontos, mas não se pode ignorar. Cada uma das estruturas citadas terá mais ou menos aspectos a corrigir e a rentabilizar e seria desejável criar outras, por exemplo uma orquestra barroca ou um quarteto de cordas residente. Por outro lado, a programação tem tido até aqui uma orientação talvez demasiado voltada para o século XX e nem sempre com os critérios de qualidade mais elevados. A aposta na contemporaneidade não é um defeito mas é insuficiente e comporta um grave risco na captação de públicos. Para além de dar apoio à música e aos músicos portugueses será necessário que no futuro a Casa da Música albergue também uma temporada diversificada de qualidade com grandes intérpretes internacionais, uma grave lacuna na programação cultural do Porto, uma cidade que no princípio do século XX recebia as maiores personalidade musicais da cena europeia. Mas para isso é preciso dinheiro, vontade política e uma gestão administrativa e artística eficaz.
O modelo de inserção da Orquestra Nacional do Porto na Casa da Música continua também inexplicavelmente por resolver. Mais uma vez os jogos de poder parecem estar a atrapalhar as questões práticas e os interesses dos instrumentistas e do público.
Muitas personalidades do meio musical portuense, e não só, nunca perdoaram a Burmester o facto de ter concebido o projecto da Casa da Música de costas voltadas para elas, e isso tem-lhe trazido vários dissabores. Diga-se de passagem que nalguns casos o pianista fez muito bem, noutros talvez nem tanto. Convidar para director artístico alguém exterior ao mesquinho meio musical português, poderá até ser uma boa estratégia (o futuro o dirá), mas colocar totalmente de lado o mentor do projecto (ainda por cima quando se desconfia que as razões políticas se sobrepõem às artísticas) e ignorar a experiência e o caminho percorrido até aqui não será certamente o mais sensato nem o mais prudente.
V.G.


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