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22.1.04

A surpresa da noite, 22 de Janeiro, Turandot, Teatro Nacional de São Carlos 

E da noite saiu Hao Jiang Tian

Timur no Metropolitan
Timur em Lisboa
Simplesmente notável a voz deste baixo, aveludada e ao mesmo tempo rutilante, sem gritar ouve-se até ao mais íntimo do ser. Está destinado a ser um dos grandes baixos do nosso tempo.

Faremos mais comentários posteriormente, deixamos aqui um resumo do que sentimos, para não defraudar os nossos habituais leitores! O balanço pendeu para o lado positivo, com ressalvas.

Os lados mais negativos foram o desequilíbrio de massas, defeito que advém logo à partida da partitura (no nosso entender muito pessoal e subjectivo), alguma desafinação crónica nos agudos dos violinos e o impagável coro do S. Carlos, cremos que este coro está ao nível dos piores coros de ópera do terceiro mundo, é certamente muito pior que coros amadores que temos ouvido por essa Europa fora. O maestro titular será insensível ao que se passa no coro? O coro infantil esteve ao nível que se pode esperar de um coro infantil, desafinando aqui e ali, mas deve melhorar com a confiança e as várias récitas.

Aspectos a melhorar são a falta de alguma coesão na orquestra, falta um som próprio e idiossincrático, mas nota-se mais empenho, às vezes com excesso de intensidade, o que tem a vantagem de tapar um pouco o coro. Notou-se o esforço do maestro em conquistar a orquestra e em ser preciso nas entradas.

Os lados positivos. As madeiras estiveram bem. Os metais mantiveram um bom nível, mas houve intensidade excessiva em alguns momentos mais estrídulos. Gostámos do naipe dos contrabaixos, marcante nas suas intervenções mais escuras.
As cordas estiveram relativamente bem, com as desafinações apontadas. Será que as "obras" no fosso alteraram as condições? Não conseguimos notar grandes diferenças ao nível sonoro. Recomendamos ainda que se avalie a produção sonora do conjunto orquestral do lado de fora do fosso para ter uma ideia da sonoridade da orquestra em diferentes lugares do teatro, cremos que os metais se sobrepuseram excessivamente, as cordas deixavam de se ouvir quando os metais entram em fortíssimo, que foi quase sempre, mais moderação melhorará o efeito obtido na sala. Estamos em crer que foi um efeito acústico, porque a orquestra deixou passar de forma transparente as vozes dos cantores protagonistas mesmo quando em fff.
O facto de o plano cénico ser em nível mais elevado que o habitual, pelo estrado colocado em cima do palco, deve ter melhorado a propagação das vozes, uma solução muito interessante em termos de visibilidade da sala para o palco, mas um pouco incómoda para as primeiras filas da plateia.

Outro aspecto positivo foi a encenação muito cuidada, da qual falaremos mais detalhadamente noutra ocasião, e os figurinos, aspectos questionáveis filosoficamente mas coerentes. Aliás a encenação sublinha o absurdo do enredo, se este fosse visto apenas como uma tentativa de recriar o real a encenação seria completamente cabotina, mas existiram elementos irónicos que desmontaram essa visão simplista. A cenografia foi um dos aspectos mais conseguidos desta produção já antiga. O programa pareceu-nos bem numa primeira abordagem. Sobre encenação ver apresentação e entrevista com o encenador.
Com o evoluir das récitas o conjunto deve melhorar. Faremos mais dissertações após a récita de sábado. Nessa altura falaremos sobre as vozes e representação dos "actores" cantores.

Sobre a obra de Puccini, Turandot, falaremos do assunto também mais à frente, cremos que será interessante dar uma visão desta ópera dentro do quadro da ópera italiana e da obra de Puccini. Para nós esta ópera é o ponto final na ópera italiana, é um canto do cisne de um compositor que não consegue terminar a obra porque a sua garganta o matou. Trágico e cruel final para o compositor.


AMSeabra esteve presente, por esse motivo não vamos desvendar mais segredos antes da crónica do tudólogo do Público sair.

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