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8.1.04

Marko Letonja, um Maestro com M grande 

Um ouvinte que assistisse de olhos vendados ao concerto da OSP nunca acreditaria que tivesse sido a mesma orquestra a actuar na primeira e na segunda parte! Será que a orquestra que tocou a Burleske de Richard Strauss foi a mesma que interpretou a 5ª de Mahler? Ou teria sido uma ilusão de óptica? Antes do intervalo um Strauss desinspirado, sempre em cima do arame ("Ai, ai, ai!!! Que vamos parar ao chão e ainda por cima não temos rede!").
Por acaso nem houve feridos, até se conseguiram segurar, ainda que com alguns solavancos, mas claro que nesta situação não se pode falar de interpretação.
O maestro Marko Letonja, um jovem inteligente e com bom senso, também não quis arriscar muito aqui, preferiu jogar pelo seguro. O mesmo se pode dizer do ainda jovem Pedro Burmester, que mais uma vez se fartou de martelar o Steinway (sim, era mesmo um Steinway, se fosse um Yamaha ainda se podia pensar que a culpa era do piano). Mas até dói dizer isto, o Pedro é um rapaz simpático, cheio de talento e intuição musical. É frustrante termos sempre a nítida sensação de que está a tocar aquém das suas capacidades. Mas ele lá sabe a opção que fez. Quando a Casa da Música estiver pronta (numa data incerta que nem Deus conhece) veremos se valeu a pena o sacrifício.
Regressando ao CCB: na segunda parte, o milagre! Chegámos a pensar que o Letonja tivesse trocado a batuta por uma varinha mágica durante o intervalo, mas o segredo não tem nada de sobrenatural: trabalho profundo e rigoroso (do todo e dos pormenores), uma técnica de direcção precisa, clara e apaixonada. Letonja domina a orquestra como um virtuoso domina o seu instrumento, sabe modelar as sonoridades, possui a arte do fraseio, consegue dosear bem o peso de cada naipe (e a 5ª de Mahler não é pêra doce). Em suma, sabe bem o que quer e sabe-o transmitir aos músicos. Resultado: o som de uma verdadeira orquestra sinfónica (um som mahleriano sem dúvida), transparência de detalhes, uma concepção profunda da obra: a tensão e o drama, a tragédia e a ironia, o lirismo e a trivialidade dos ländler e valsas, a serenidade contemplativa do Adagietto e o triunfo luminoso do Rondó Há muito tempo que não tinha tanto prazer em escutar a OSP. Até quase nos tinhamos esquecido que tal coisa era possível! No fim do Scherzo, um dos espectadores não resistiu a gritar um "Bravo" (merecido). A parte da trompa solista também correu muito bem. Claro que nem tudo foi perfeito. Os violinos estão melhorzitos mas continuam a precisar de trabalho de fundo e houve um ou outro deslize aqui e ali, mas ouviu-se sempre Música com M grande, dirigida por um Maestro com M grande. Se a OSP tivesse um titular como este outro galo cantaria! E ainda por cima, além de talentoso e profissional, é um maestro com boa presença, dá gosto vê-lo dirigir!
Curiosamente os maestros em Mahler têm sido de grande nível, tivemos oportunidade de escutar Tate na 9ª de Mahler, antes do Verão de 2003, e a orquestra esteve também em grande plano. A prova de que a orquestra é de boa qualidade. O problema é a direcção, já foi escrito aqui e voltamos a repetir.

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