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22.1.04

Mariss Jansons, Riga 1943 

Mariss é Maestro Titular da Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera, que ouvimos 21 de Janeiro, ontem, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. É ainda titular da Sinfónica de Pittsburgh e será, este ano, nomeado titular da Orquestra do Concertgebouw de Amesterdão.
Ouvimos ontem Mariss no Coliseu a dirigir Chostakovitch, sexta sinfonia, e Berlioz, sinfonia fantástica, num concerto extra programa do ciclo “Grandes Orquestras Mundiais”. Um concerto extraordinário com uma sinfonia fantástica.
Dois extras: quebra nozes de Tchaikovsky e a marcha húngara da Danação de Fausto de Berlioz.

Orquestra:
Primeira parte do concerto.
A sinfonia de Shostakovitch foi muito bem interpretada, a orquestra reagiu bem à batuta de Jansons, concentrada. Ritmicamente muito acertada, quase perfeita não fossem alguns ataques fora de tempo dos metais, que foram muito fracos nas trompas, o que ainda se viria aliás degradar na segunda parte.
Gostámos da secção de Cordas da Orquestra da Radiodifusão da Baviera, unido, muito coeso, uma sonoridade encorpada, graves pujantes, com 8 contrabaixos e 10 violoncelos a mostrarem um belo trabalho e um som muito compacto e denso.
As violas também mostraram uma sonoridade de grande qualidade. Os violinos mostraram-se impecáveis em termos de afinação, coordenação e sincronismo. Ataques perfeitos, pizzicatos de uma precisão imbatível. O concertino mostrou no solo da sinfonia de Shostakovitch, uma sonoridade e uma expressividade notáveis. Um músico de grande categoria, primeira estante de uma das melhores orquestras do mundo, trabalhando com os seus colegas de forma impressionante e mostrando frutos do trabalho, quer a solo, quer nos resultados colectivos. Sem vaidades vazias desnecessárias para além da qualidade do trabalho que se ouve.
As madeiras foram quase perfeitas, oboés, flautas, clarinetes, fagotes em elevado plano.
A bateria esteve relativamente bem, mas a complexidade rítmica de Shostakovitch deixou a percussão algumas vezes a tentar seguir o ritmo, em vez de o marcar, não gostámos de ouvir numa orquestra alemã deste nível falhas neste capítulo.
Os metais foram pouco empolgados, sonoridades muito belas, coesas nas partes mais lentas, mas com evidentes problemas ritmicos: quando os andamentos rápidos da sexta sinfonia de Shostakovitch exigiram o melhor dos trombones e das trompas, houve mesmo descoordenação e desacerto, claro que a um nível mínimo, mas evidente. Mais ensaios, cremos que será esta a chave do problema, esta sinfonia com o seu largo inicial e dois scherzos rápidos e complicados no ritmo é de uma dificuldade técnica assombrosa, precisa de muito traballho. Também não sabemos se a propagação do som no Coliseu é perfeita, se a acústica deixou a secção mais sonora da orquestra, mas que está colocada no fundo do palco, confusa com os tempos dos ataques e o ritmo que os restantes músicos imprimiam nos outros naipes. Mas o maestro está presente para ser seguido.

Segunda parte:
Na sinfonia de Berlioz, compositor romântico e exaltado por excelência, orquestrador inovador e inspirado, só uma orquestra muito boa consegue dar uma visão aceitável da sua música. A nossa impressão foi mista, se por um lado a orquestra da radiodifusão da Baviera é uma máquina sonora, conseguindo efeitos verdadeiramente poéticos, e momentos de grande poder mágico, cremos que aqui os músicos tocaram mais descontraídos e cometeram mais erros de displicência, os metais estiveram francamente mal quando se exigia mais velocidade e momento, exemplo: a marcha, 4º andamento, em que se apresentaram desgarrados do todo. Mas a produção sonora nos momentos em que a coesão surgia foi sempre de uma grande intensidade expressiva e muito bela. É uma pena não terem agarrado a sinfonia de Berlioz de forma igual por toda a orquestra. De notar que a bateria esteve francamente mal no último andamento de Berlioz, quando se pedia concentração total, o sincronismo não foi nada perfeito. Reparámos que os músicos encarregues dos dois bombos em vez de estarem concentrados no maestro se entreolhavam rindo entre si, durante o troar pujante, mas assíncrono dos seus instrumentos. Mais concentração era esperada de uma orquestra como a da Radiodifusão da Baviera.

Mais entusiático foi o fragmento do quebra nozes de Tchaikovsky, muito plástico e empolgado pela reacção algo excessiva do público após Berlioz. A orquestra atacou de forma muito vibrante as notas do mestre russo, em que o maestro é especialista.

Já a marcha da Danação de Fausto de Berlioz saiu um pouco mais trapalhona e baça, mais por culpa de um cansaço já evidente pela duração do concerto. O que também não seria de esperar numa orquestra alemã, parecia que os músicos já estavam um pouco fartos e desconcentrados, notou-se falta de coesão ritmica de novo.

Maestro
O maestro esteve em plano muito alto, mas não foi excepcional, teria sido se não tivessem existido as falhas já apontadas. Apontámos a precisão dos ataques, a elegância do gesto, a clareza dos sinais, a exuberância contida da forma, sem excessos, tudo mostra uma finesse, um conhecimento musical da mais elevada craveira. Nem falamos do equilíbrio entre massas, obtido de forma tão subtil que nem se notou qualquer esforço feito nesse sentido. Os sforzandos nos pontos exactos deixaram-nos agarrados às cadeiras quase sem fôlego, as articulações mais líricas feitas de forma apaixonada e romântica em Berlioz, mas mais técnico, sem deixar de ser expressivo em Shostakovitch.
Creio que o único erro que cometeu foi ter confiado demasiado na secção de metais, e de ter puxado demasiado pelos tempos. As velocidades usadas foram delirantes: a sinfonia de Shostakovitch foi tocada em 25 minutos, às vezes a exigência excessiva pode trazer resultados piores, mas Jonsons dirige ao ataque, não se defende, não poupa, isso é belo, é o que traz a magia. Temos a certeza que esta mesma orquestra, num bom auditório, seria capaz de fazer este programa de forma irrepreensível. Quando se arrisca tudo no fio da navalha, com trabalho sério por base, temos de gostar, mesmo com falhas, só o risco traz a paixão que só a música sabe transmitir.
Essa paixão sentiu-se em Jonsons. Pela entrega, pela concepção global das obras, sobretudo em Shostakovitch, em que existiu um claro contraste entre o primeiro e os segundo e terceiro andamentos, num tour de force verdadeiramente olímpico. O primeiro andamento transmitiu uma força interior, uma alma que só um maestro formado na escola russa consegue entender.
A construção desta sinfonia evoca-nos a da sonata opus 27 nº 2 de Beethoven, com a devidas diferenças é claro, Jonsons criou o crescendo emocional que termina com um quase ataque de nervos final, uma construção do compositor levado ao clímax pelo maestro. Gostámos muito do concerto, sobretudo pela primeira parte.

Uma palavra para o público: ignorante, palmas a despropósito entre andamentos, com bravos à mistura, um coro infernal de tosses, durante os andamentos e entre os andamentos. Euforia excessiva no final, mercê da penúria de um som sinfónico em Portugal, quando surge uma orquestra com som de orquestra o público delira. É pena que assim seja, é sinal do pauperrismo lusitano nesta matéria.

O Coliseu não tem condições para receber uma orquestra, ruídos pelos corredores, portas a abrir e a fechar, pessoal a conversar no exterior da sala, ruídos exteriores a penetrar no interior. Muito más condições, pede-se mais cuidado ao pessoal do Coliseu com o ruído.


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