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15.1.04

A estética e a política 

Recusamos a discussão estética com base em pressupostos políticos e acusamos a esquerda de o ter feito na questão das Torres de Alcântara, o responsável pelas Torres é o Santana, logo a esquerda deita abaixo, defende de caminho o João Soares que deixou fazer os escarros de Sete Rios, e vêm os senhores intelectuais de esquerda dizer: estão integradas no meio de outras porcarias do mesmo género.
Esquece a esquerda intelectual, que o projecto de Alcântara é de um arquitecto genial, um artista eterno que Portugal deu ao mundo. A partir deste momento recusamos qualquer discussão política, recusamos qualquer democracia, a maioria não vence em questões estéticas, a democracia não funciona em arte. A turba não escolhe o belo, nem o choque. A maioria é conservadora no mau sentido da palavra. A um Da Vinci ou a um Bach admitimos tudo dentro das suas artes, a Siza nós permitimos tudo e dizemos: Faça! Confiamos no artista, no génio, a política baixa não nos interessa, é-nos indiferente saber se foi a vaidade do Santana ou a do João Soares que contrataram o mestre.

Um verdadeiro conservador sabe que a arte só se pratica com o choque e a ruptura. Conservar em arte e cultura significa romper sistematicamente com padrões, com tradições. O motor da arte são as contradições.

Ao ler o Blog de Esquerda percebemos que praticou a analfabetismo deliberado, a falsa leitura de quem não quer ler e mete na boca dos outros o que nunca disseram, que é uma forma que certa esquerda tem de combater, imagina o que os outros pensam, num claro processo de intenção, e afirma que esses disseram isso mesmo, quando disseram o contrário:

1- As torres de Sete Rios (de esquerda?) são um escarro
2- Mas as de Alcântara (de direita? do centro?) são uma obra de arte e prontos
3- Dizer o contrário é pura demagogia


Nunca se disse que as torres de Sete Rios eram de esquerda, a afirmação, com o ponto de interrogação para disfarçar, de BdE é insidiososa e revela apenas má-fé numa discussão que deveria ser serena. Nem as torres de Alcântara são de direita, de centro ou de esquerda, nem as de Sete Rios são de esquerda, direita ou centro. Talvez sejam de esquerda porque lembram a arquitectura da Coreia do Norte, mas isso são outras histórias... O que é certo é que umas são de Siza e as outras não. E nós acreditamos em Siza, é o nosso postulado básico: ao génio nada se nega, Siza já provou que o que faz é arte de altíssima qualidade, logo que faça o que quer.

A nossa crítica vai para a esquerda que não percebe esse facto elementar e que não teve o engenho para chamar o Siza Vieira para projectar em Lisboa, isto enquanto a esquerda governou a cidade. Vai também a nossa crítica para a esquerda cega que se deixou ultrapassar pela esquerda baixa quando os empreiteiros, ou empresários ou lá o que são os patos bravos, a coberto ou a mando de Santana Lopes, demagogo e inculto é certo, mas esperto, como todos os bons demagogos, chamou o Siza. Só o despeito e o combate político mesquinho podem tentar deitar abaixo uma oportunidade histórica como a proposta. Se tivesse sido o Fidel de Castro a chamar o Siza Vieira para projectar o que quer que fosse nós acharíamos bem. O problema não é a esquerda ou a direita, mas o conceito estético e o eterno belo. Se um pato bravo dá um projecto a Siza Vieira deixa de se chamar "pato bravo" e passa a ser uma espécie de "Ludovico Sforza".

Se as Torres de Alcântara não se fizerem a culpa de se perder uma oportunidade histórica, de dar valor a uma zona horrenda da cidade, de ter arte na cidade, arte na vida, será dos que se dizem intelectuais de esquerda e que torpedeiam cegamente tudo o que não é da sua iniciativa, se Siza tivesse recebido o convite do Francisco Louçã para qualquer projecto já teríamos, para os rapazes da esquerda iluminada, a obra do século XXI.

Criticamos o Santana pelos cartazes, despropositados e gastos disparatados de dinheiro dos contribuintes. Mas as guerras políticas dos demagogos ganham-se com marketing. A guerra do belo ganhar-se-ia com educação, é pena que não se invista na cultura e na educação o que se investe em demagogia e na ambição pessoal dos políticos. Mas essa é uma história totalmente diferente. Uma história triste de um Portugal mesquinho e acobardado. Um Portugal que mata os seus génios, os seus referentes e valoriza o nada.

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