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29.1.04

"Crítica" de ópera no DN - a anedota! 

O DN publica uma "crítica", (ver fim do nosso texto se o link deixar de funcionar) à Turandot de Puccini no TNSC, um texto que deveria ser classificado como exemplo do que não deve ser crítica. O título é exemplar "Um belo espectáculo", espectáculo? Uma tourada? Um futebol? Não, fala-se de ópera no Teatro Nacional. Mas não pára no título, continua, sem critério, sem análise musical, sem ouvido. Os autores (Fernando Pires?) do texto transcendem todos os padrães de baixa qualidade que se podem imaginar. Não se sabe de onde sairam estes rapazes, mas devem voltar rapidamente ao local onde estiveram escondidos. Bernardo Mariano, o crítico habitual do DN, habituou os seus leitores a um bom padrão, sem ser demasiado incisivo, hoje o Diário de Notícias desce muito na consideração de vários leitores habituais que assistiram à ópera e que podem julgar pelo que viram e ouviram.

Pôr a questão em termos de espectáculo, de grandiosidade? É bater na tecla errada, a encenação reduz a componente espectacular da obra e torna íntima a visão cénica, num exíguo espaço de um teatro chinês.

Dizer que a soprano Marc consegue superar completamente as agruras que Puccini lhe reservou é dizer demais, Marc apresentou uma voz feia nos graves e cansada. Os agudos foram razoáveis, mas a leitura foi arrastada, sem expressividade, fria. Dizer o disparate "Cenicamente, ainda que com as limitações do seu desmesurado porte físico, corresponde com adequada expressão. é uma barbaridade completa. A soprano Marc mal se pode mexer deve pesar mais de 160 Kg, incapaz de andar, de se voltar, de olhar para os outros intérpretes, quando canta fita o público e repete a fórmula sistematicamente, não representa. Dizer que "Villars, em Calaf, parece ainda à procura de um estilo, mas a sua voz tem corpo e poder e transmite verosimilhança à sua parte". É uma enormidade de se lhe tirar o chapéu, a voz não tem grande corpo, mostrou algum vigor e cantou bem no primeiro e segundo acto, com excepção do dó que, ou não saiu, ou saiu uma terceira abaixo, mal se ouvindo, aqui sem corpo nenhum, numa voz baça e apagada. Um tenor que chega ao terceiro acto a arrastar-se e consegue uma ária completamente desnivelada "Nessum Dorma", sem cor na voz, cansado, sem expressividade nenhuma, fraquíssimo.
Lemos com surpresa: "A cena dos enigmas foi, por ambos, e nos dois planos, desempenhada a gosto de fazer e de assistir. " Mas que bela consideração depois de ver dois paquidermes, incapazes de representar, a olhar para o público em vez de ser entre si, sem qualquer dramatismo, sem qualquer capacidade de transmitir emoções, sem tensão erótica e dramática. O tenor do elenco principal é um cantor/"actor" capaz de deixar morrer Liù no terceiro acto sem sequer olhar para a escrava que se deixa sacrificar por um Calaf totalmente ausente, um tenor sem qualquer potencialidade para o teatro, e com voz de qualidade mais que duvidosa, à procura de um estilo? Só se for um estilo de sair de forma airosa do teatro sem apanhar com vegetais, que é o que lhe acontecia em Itália se cantasse assim.
Será que nós vimos a mesma ópera? E a caracterização dramática e pujante de Liù? Uma voz que é tudo menos dramática, uma voz sem corpo, fina, sem harmónicos, diria mesmo que frágil, e quais os modelos de que falam sem enunciar? Liù, de facto, é uma mulher forte, tão forte que se sujeita à tortura sem vacilar e que morre livremente pelo seu amado. Infelizmente a Carosi não transmitiu essa força no primeiro acto, mas conseguiu um trabalho melhor no terceiro acto, em que foi um pouco mais convincente. Ao menos representou.
Os ministros Ping, Pang e Pong foram medianos e desacertaram muito nas entradas, quando a agitação é maior desacertaram e cantaram desgarrados, a afinação destes nem sempre foi perfeita, isto na estreia, mas que tem vindo a melhorar e já estão a um nível muito superior ao inicial.
O Imperador de Araújo foi, e continua a ser, outra pequena tragédia, uma voz pequena, apenas a vaidade do imperador foi servida pelo cantor, que de voz nada. Fraca, pouco encorpada, semitonada, o menos convincente dos imperadores, não tivemos um papel de fim de carreira de um grande cantor, tivemos um fim de carreira para um cantor que nunca foi grande coisa.

Finalmente o "prodigalizar de aplausos do público", "o trabalho fascinante" estas são mesmo as mais ridículas das observações, onde terá escutado o "crítico de serviço" do DN o final da estreia? Uns aplausos anémicos de poucos segundos e finito. Pelo contrário: na estreia do segundo elenco o aplauso foi entusiástico e merecido. O "pleno agrado" da direcção musical não apontou os defeitos da mesma, os desequilíbrios sonoros, o lamentável coro do Teatro. Fascinante, talvez para quem se habituou aos musicais do La Feria.

Sem ouvidos e sem cérebro não se pode fazer crítica, pelo menos não se deve colocar o nome "Crítica" no topo da página, deve-se chamar encómio ou publicidade. Não serve para nada senão para enganar o público, em lugar de o servir, e não ajuda os intérpretes a encontrar o caminho.

Da estreia principal para a estreia do segundo elenco percorreu-se um caminho, a direcção musical parece mais segura, os cantores/actores são melhores, os desequilíbrios desapareceram, os naipes estão muito melhores em termos de entradas e de massas. A beleza do som da orquestra aumentou de forma substantiva, e isso deve-se à crítica, provavelmente dos próprios intérpretes entre si e em ensaios, e da crítica externa que, de forma séria aponta, pedagogicamnete, caminhos. Na estreia do segundo elenco já se fez Música com amor e M grande.

Não falamos, bem entendido, do coro, que arruinou completamente o final do terceiro acto, numa berraria desafinada com vaga (muito vaga) relação com o texto original, ainda por cima numa melodia que é fácil e cantores e público bem conhecem, mas o resto salvou a noite, a direcção começa a estar de parabéns, mais pelo segundo elenco e por Peskó estar a trabalhar.

Continua. Fica prometida uma análise comparativa dos elencos, da encenação e da cenografia.
Será feita a crítica do "Último Tango de Fermat" por um dos nossos críticos musicais.
Será feita a crítica da "Tempest" de Shakespeare pelo nosso crítico de Teatro, estreia 29 de Janeiro S. Luiz.
Será publicado um texto sobre o concerto acústico de Luís Reprezas no S. Luiz, próximo sábado, por um autor que já tem escrito neste blogue, raramente, sobre música mais popular.


Segue Texto do Diário de Notícias, com a devida vénia.

Belo espectáculo
MIGUEL-PEDRO QUADRIO FERNANDO PIRES
Título. Turandot

Direcção musical. Zoltán Peskó

Encenação. Andrei Serban

Cenografia e figurinos. Sally Jacobs

Coreografia. Kate Flatt

Desenho de luzes: Robert Bryan

Personagens e intérpretes. Turandot: Alessandra Marc (28, 30 e 1 Fevereiro) e Lucia Mazzaria (27 e 29); Calaf: Jon Villars (28, 30 e 1 Fev. ) e Frank Porretta (27 e 29); Liù: Micaela Carosi (28, 30 e 1 Fev) e Elvira Ferreira (27 e 29); Imperador: José Manuel Araújo; Timur: Hao Jiang Tian; Ping: Luís Rodrigues; Pang: Frederico Félix António; Pong: Carlos Guilherme; Mandarim: Paulo Ferreira.

Local. Teatro Nacional de São Carlos



O grande espectáculo que é Turandot foi montado em São Carlos numa encenação que pretende repor o espírito da obra matriz, a peça de Carlo Gozzi, autor de fábulas do século XVIII.

A intenção realiza-se de forma brilhante, em todas as vertentes por que apreciemos o que nos é dado a fruir. Do cenário que se nos apresenta à curiosidade logo que entramos na sala, das máscaras que nos irão surgir, dos figurinos que compõem um arco-íris, da coreografia que descobre e embeleza movimentos, das luzes que criam misteriosas atmosferas, enfim, das personagens da história e da realização musical.

Será de todo justo, para mais numa situação desfavorável, saudar a direcção do São Carlos pelo esforço que certamente representa programar uma ópera como a Turandot. E oferecê-la com todos os requisitos precisos, dando lustre ao Teatro, e em nada menos de oito récitas, abrindo oportunidades para conquistar mais público para a ópera. O anúncio da Turandot é sempre excitante para os melómanos; os ecos do êxito na sua estreia, espera-se que despertem o interesse dos que a conhecem apenas pela popularidade de Nessun dorma.

O naipe de cantores (elenco principal) destaca uma soprano superlativa, Alessandra Marc, e um tenor em afirmação, Jon Villars. A Turandot de Alessandra, vocalmente, situa-se à altura do papel, vence com facilidade as agruras que Puccini lhe reservou. Cenicamente, ainda que com as limitações do seu desmesurado porte físico, corresponde com adequada expressão. Villars, em Calaf, parece ainda à procura de um estilo, mas a sua voz tem corpo e poder e transmite verosimilhança à sua parte. A cena dos enigmas foi, por ambos, e nos dois planos, desempenhada a gosto de fazer e de assistir.

Se as atenções se centram nas figuras de Turandot e de Calaf, e estas o mereceram pelo nível dos intérpretes, e também de Liù, confiada a Micaela Carosi, menos doce e menos frágil que os modelos mas dramática o bastante para impressionar, não passou despercebida a actuação do baixo Hao Jiang Tian, em Timur. Curtos momentos para tão excelente voz. Os três ministros, Ping, Pang e Pong, assentaram, e bem, em Luís Rodrigues, Frederico Félix António e Carlos Guilherme, e José Manuel Araújo serviu com correcção o Imperador Altoum, descendo, como «filho do céu», em sua poltrona, das alturas do palco, numa condescendência do encenador à espectacularidade.

A direcção musical de Zoltán Peskó, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, contribuiu para que a Turandot resultasse em pleno agrado, e o público, no final, prodigalizasse aplausos, premiando nos intérpretes e criadores um trabalho fascinante.

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