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3.1.04

A ciência moderna e o positivismo - teoria do caos e seus ensinamentos 

Causa Liberal diz que este Blogue é positivista. Serve este post para explicar que a crença na ciência, na matemática e na capacidade de previsão da economia não é uma afirmação positivista; que a questão do positivismo está ultrapassada do ponto de vista epistemológico e ainda para explicar alguns factos a quem, por acaso, nos lê.

A Ciência moderna não é positivista, antes pelo contrário! Ao admitir que um sistema é complexo, e mais do isso: caótico, negamos objectivamente o positivismo. Passamos a explicar, uma vez que os nossos leitores poderão ser leigos nestes assuntos.

Tentaremos ser simples e pedagógicos.

Falamos então de fenómemos que são objecto de estudo da física e da matemática, fenómenos clássicos, gases, atmosfera, mesas de bilhar, turbulência, etc, etc, etc, falamos também de fenómenos oriundos das ciências sociais, económicas ou financeiras, que nos chegam às mãos como séries temporais, exemplo: taxa de inflacção ao longo dos meses, cotações na bolsa, taxas de natalidade, fluxos de investimento, capitais acumulados, taxas de reinvestimentos, etc, etc, etc.
Nem sequer falamos de fenómenos incluídos na microfísica e abrangidos pelo princípio da incerteza, muito mais complicado de abordar numa breve análise epistemológica.

O que a ciência moderna, incluindo a física e a matemática nos têm ensinado nestes últimos trinta anos, no estudo destes fenómenos complexos, é que a capacidade da previsão de um sistema deste tipo é limitada. Mesmo que saibamos as condições iniciais com uma precisão arbitrária, a capacidade de previsão poderá diminuir exponencialmente com o tempo. Daí as previsões em meteorologia serem muito limitadas no seu alcance temporal. Daí o bilhar às três tabelas ser muito mais complexo que o bilhar às duas tabelas e este mais complexo que o bilhar com uma tabela, e por diante.
Por outro lado o conhecimento de invariantes pode dar indicações muito objectivas a longo prazo, exemplo: a temperatura média a subir tem consequências muito precisas na precipitação, no nível dos mares, nos ventos, etc, etc, etc. A emissão de moeda terá consequências na inflacção, nas taxas de juros, etc. A diminuição global da taxa de lucro terá efeitos nas taxas de desemprego e por aí fora.

A matemática ensinou-nos que existem invariantes de grande importância que nos dão, com grande rigor, propriedades de cada sistema: existência de órbitas periódicas, recorrência, a medida da complexidade que é a entropia topológica que, por outro lado, pode medir a quantidade, ou ausência, de informação. Temos também a temperatura e a pressão, conceitos não válidos apenas em física do ambiente, mas usados em sistemas dinâmicos abstratos e com significados importantes. Há propriedades topológicas e métricas. As propriedade topológicas não dependem da escala, dependerão do sistema em si e da forma como os conjuntos são definidos. As métricas dependem da escala do fenómeno, da medida, da definição de norma como dizemos em matemática.

Estes invariantes são próprios de cada sistema e dizem-nos o que se pode esperar, em termos de comportamento global e, às vezes, em termos de comportamento local. Dizem-nos que pode, ou não, ocorrer uma bifurcação nas órbitas (uma mudança de comportamento topológico ex: equilíbrio atractivo torna-se instável, etc), ou uma catástrofe, no sentido da teoria de René Thom, uma queda de potencial súbito sem hipótese do sistema regressar ao estado inicial.
Exemplo: panela de pressão fechada, que se aquece até determinado ponto, se se desliga a fonte de calor volta ao estado inicial, se não se desliga explode, esta explosão é uma catástrofe. Assim se passa com uma grávida, o seu estado evolui suavemente até ao nascimento da criança em que se dá uma quebra súbita das condições do problema, neste caso não se pode desligar a fonte, nem a catástrofe, em termos matemáticos, é uma catástrofe, em termos do senso comum! Outro exemplo será o da empresa que pode ter altos e baixos mas se passar por um ponto crítico demasiado baixo falirá, este limiar depende muito do país.

O que se passa é que estes conceitos são altamente complexos para pessoas com pequena formação em matemática, o que é uma pena, e sobretudo para o público português em geral, muito distante da ciência, desvalorizada habitualmente em termos sociais, exactamente pela ignorância e analfabetismo congénitos de Portugal, que se estende aos governantes que desvalorizam e não investem no assunto e passando pelos professores de que dispomos e que são incapazes de motivar.

Usei o exemplo da meteorologia, porque mais acessível ao leitor comum, é um sistema complexo e mais do que isso: caótico, daí o termos citado o uso de modelos de investimento por computador e totalmente automatizado, que funcionam e dão lucros aos bancos com compras e vendas de acções e de futuros. Mas as previsões são probabilísticas, nem sempre se ganha dinheiro com os modelos matemáticos (mesmo que bem feitos), nem sempre chove quando a chuva é prevista. Mas saber que se aproxima uma catástrofe, poder intervir enquanto há tempo é crucial, e para isso cá está a ciência, mesmo que não saibamos o momento exacto em que esta catástrofe se dará.

O reconhecimento destes simples factos da natureza complexa dos fenómenos, e demonstrados matematicamente, são a negação de qualquer positivismo em termos epistemológicos, esse problema já nem se põe ao cientista hoje, está para além dessa questão, põe-se apenas aos "investigadores" das ciências socias que ainda estão a discutir o positivismo do século XVIII, porque não entraram na linguagem das ciências de hoje e são incapazes de o fazer. Ler um artigo sobre a desconstrução do PI num livro obsceno, que nem cito aqui, é penoso. São esses "cientistas" sociais, exemplo Boaventura Sousa Santos, que sem perceberem patavina do que estão a falar aceitam um artigo como o de Sokal como uma obra prima e não percebem que o artigo era para o gozo! (Boaventura é citado nesse artigo, não esquecer) Sokal escreve uma obra prima, de facto, ao mostrar que o "o Rei vai nu" nas ciências sociais, e que um dos mais tristes aspectos das ciências, hoje, é o divórcio entre os verdadeiros cientistas, que não perdem tempo com "desconstrução", e os "cientistas" sociais que não percebem nada do que se faz em ciência hoje.

Resumo: As ferramentas da ciência, e sobretudo da matemática, ajudam o político a decidir, ajudam o economista a elaborar. Não são certezas. A generalização do post citado da Causa Liberal é abusiva. O conhecimento científico ensina a não se ser positivista. As novas descobertas da matemática, no campo dos sistemas dinâmicos discretos e contínuos, e a análise de sistemas dinâmicos caóticos ensinam-nos que é impossível prever o comportamento dos sistemas sabendo apenas alguns invariantes. Mas que se podem tirar conclusões que nos podem ajudar a viver melhor. Podem todos ter a certeza desse facto, é aproveitado hoje por bancos deste mundo para fazer bom dinheiro à custa dos outros investidores, e muito bem. Negar a capacidade de previsão da ciência, mesmo que limitada, no estudo dos fenómenos caóticos é um erro que mostra ignorância nos avanços que se têm feito recentemente nestes campos.

Negar o valor da ciência é uma afirmação que parece ter saído da cartilha de um inquisidor da Idade Média e não de alguém que quer ver as suas ideias respeitadas no século XXI.

Conservadorismo e ideologia É-se conservador porque se é inteligente, não porque sim! Conservar o que há de bom no mundo, no respeito que devemos ter pelo mundo, pelas pessoas. Acreditamos no valor pessoal, no entanto também acreditamos no valor do estado como emanação dos valores sociais e da democracia. O equilíbrio é a nossa razão, desde que as relações sociais existem, as sociedades humanas necessitam de escalas organizativas. Tem sido demonstrado ao longo dos séculos, e desde os tempos mais remotos que os indivíduos em sociedade escolhem dirigentes e as elites surgem naturalmente, sempre. É a natureza humana. E, curiosamente, até somos liberais, acreditamos que o indivíduo nunca deve ser subjugado pelo estado, uma vez que esse estado deve servir os homens. Mas não somos excessivamente liberais, porque não gostamos de ver indivíduos despojados das mais elementares condições de vida porque o mercado assim o ditou. Seremos conservadores, liberais mas humanistas. Defendemos impostos e sistema de assistência, e a existência de um estado capaz de intervir onde valores importantes para a sociedade, e logo para a maioria dos indivíduos estejam em perigo por causa de um mercado inflexível, automático e desumano. Exemplos onde o estado deve intervir: ambiente, segurança pública, justiça, saúde, educação, defesa, assistência, igualdade de oportunidades, fisco, cultura e património... Com custos mínimos, com eficiência, com a ajuda e contratação da iniciativa privada. Ajudando os que são mesmo carenciados, reduzindo aparelhos e sem burocracia. Acreditamos no equlíbrio entre estado e indivíduo sem esquecer que o estado são as pessoas.

P.S. Um elogio ao Causa Liberal que, ao contrário de outros, acrescenta argumentos para uma discussão interessante sobre estes assuntos, motiva assim uma resposta deste blogue e uma troca de reflexões que parece interessante, discordámos mas gostámos do post de causa Liberal.

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