<$BlogRSDUrl$>

31.12.03

Jantar de gala 

O barca velha, o chateau Laffite, o champanhe de 95, o Remy Martin, os lanceros, os laços, os pescoços, o caviar, o jantar surpresa que ainda não sei qual é, os amigos, as conversas, olho pela janela, vejo a cidade. Sinto frio, o frio gélido de um mundo perdido entre dois tempos, lá fora está o homem do realejo, rosnam os cães, sinto lá longe, muito longe, os campos frios de Dezembro, ou será já Janeiro? Couperin ecoa nos meus ouvidos, ou será a Viagem de Inverno... não, não penses na Winterreise hoje, hoje é dia de festa, ouve o Couperin com os seus oboés, a festa, os domingos de Luís XIV, os domingos tristes de um monarca a envelhecer e só, amigos e família mortos, guerras perdidas, e Couperin ao domingo para alegrar sua Majestade. Não, não consigo esquecer o homem do realejo algures no frio, pés enterrados na neve, um poeta desesperado ainda não o encontrou, mas vagueia também lá fora. Este homem vagueia todos os Invernos desde que Schubert se lembrou de passar a lieder as poesias pungentes de Müller. Todos os Invernos e Natais e anos novos e sempre quando faz frio, lá anda o viandante, para atormentar quem o conhece e sonha, com o seu canto triste e sofrido. Olho em redor para dentro da sala, um frio gélido no calor artificial de uma casa de cidade, algures numa capital europeia, e penso: mas isto é só um segundo numa eternidade, celebramos um segundo, porquê?... Vivo num país e num mundo onde o crime compensa e celebro o quê? A minha própria inconsciência do real? Afinal este Couperin é triste.

É por isso que não faço balanços. É por isso que não escolho nem o melhor nem o pior. É por isso que não dou prémios sem sentido. É por isso que nunca desejo bom ano a ninguém.

As generalizações abusivas 

Mais um post do Liberdade de Expressão em que consegue emitir esta pérola:

E cita muito bem porque só um tolo é que acredita que um sistema complexo como a economia pode ser antecipado.
Remata com a "conclusão" esperada: Mas se não pode ser antecipado, então as interferências do estado na economia são irresponsáveis porque as consequências das políticas são imprevisíveis.

Eu não percebo como se pode dar crédito a um autor que diz uma barbaridade destas, citando Galbraith fora do contexto. Não sei se o autor é economista, talvez seja, mas a finalidade da ciência não é olhar para os factos e dizer umas calinadas. A ciência, e nomeadamente a ciência económica, existe para prever os fenómenos, compreender e perceber para depois prever. A economia socorre-se de ciências como a matemática (e até a física) para cumprir esse objectivo. A complexidade e os fenómenos caóticos são estudáveis, compreensíveis, quantificáveis e sobretudo, existem mecanismos e medidas que permitem prever a evolução desses sistemas. Muito mais complexo e com mais variáveis é o sistema metereológico, é um exemplo perfeito de um sistema caótico, muito mais complexo que a economia, o que se prova matematicamente (tem mais graus de liberdade). Os sistemas metereológicos prevêm-se, os económicos também. Existem invariantes topológicos e métricos que dão medidas dos sistemas, quantidade de informação ou entropia, exemplos entre muitos. Os modelos funcionam, o problema é mesmo a ignorância de alguns economistas, que sendo incapazes de dominar ferramentas matemáticas, ou sequer de lhes dar valor se mantém numa pose arrogante de analfabetos vaidosos. É triste mas é verdade e mete dó.

Há uns tempos dei uma bibliografia ao autor do Liberdade de Expressão, mas parece que não se deu ao trabalho de estudar e continua a dizer disparates inquinados ideologicamente, sem base científica. Por proselitismo há quem seja capaz de tudo. Nomeadamente da conclusão simplista e logicamente falsa, porque baseada em premissas simplistas e também elas falsas que nem sequer se aplicam ao estabelecimento de políticas económicas por parte dos estados. Como já disse antes, ou o autor é muito estúpido e acredita mesmo no que escreve ou não é ético tentando fazer do leitor estúpido. Aliás, Liberdade de Expressão disse anteriormente que não se rege por princípios éticos. Mas aqui não se trata de uma questão ideológica, trata-se de uma questão científica, já afirmei muitas vezes que me sinto próximo politicamente do Liberdade de Expressão, mas não me sinto próximo em termos éticos e científicos. Fica a nota, que não se digam disparates impunemente.

30.12.03

Imagem da Semana por Rodrigues 


Arredores de Utrecht

Foto de Rodrigues

Gosto do Marcelo 

Sempre achei piada ao professor, sei reconhecer que não é muito profundo, faz análises ao sabor da inspiração e não da meditação. Gosta de parecer mais do que é. Monta o seu espectáculo mediático, o que para um conservador empedernido como eu é demasiado arrivista e ostensivo, preferia mais recato, mais biblioteca. Mas reconheço que é um defeito que lhe vem de ser muito esperto, junta a essa esperteza alguma cultura, educação e currículo académico, por estes motivos é melhor que Aníbal C. Silva, António Guterres ou Santana Lopes. Aliás, a falta de um doutoramento desclassificaria politicamente, para mim, Guterres ou Santana à partida.
Marcelo mistura algum sentido de estado com uma ambição disfarçada pelo reconhecimento das suas próprias capacidades. É claro que ninguém acredita que Marcelo leia trezentos livros por noite.
Marcelo tem dificuldade de entrar no público mais cabotino, ou no público ignorante e tipicamente invejoso, mas que acaba por reconhecer no professor uma capacidade enorme. Penso que a esquerda teria a ganhar com Marcelo como presidente da república. Daria conselhos de valor ao governo, interviria em questões de injustiça clara, como o faz, às vezes de forma estouvada na TVI, algumas vezes sem investigar a fundo os problemas. O episódio da morte de Henrique Barrilaro Ruas em que lamentou a morte antes do tempo desta figura da cultura, da democracia e da causa monárquica é paradigmático da velocidade estonteante do professor, sem parar para perguntar, leu ou alguém lhe disse que um Barrilaro Ruas tinha morrido e concluiu que tinha sido Henrique, o próprio recebeu a notícia da sua morte ao ver o professor na TVI! O ponto é que Marcelo interviria, ao contrário deste rapaz simpático umas vezes e birrento outras, culto e com educação, que se arrasta por uma presidência sem história.
Acho graça a quem não gosta do Marcelo e que o vem acusar de ter espaço mediático, de ganhar dinheiro por isso. De estar em vantagem, até o presidente Sampaio acusou Marcelo Rebelo de Sousa de ter tempo de antena que, reconheceu, a presidência não tinha. É caso para dizer que o mérito é do professor: se este consegue o espaço que tem, e os outros não, só ao professor se deve esse desiderato. A esquerda não tem fenómenos como Marcelo, já imaginaram porquê? Uma das razões é a imagem de ódio e de raiva que permanentemente ostenta. A luta sem tréguas, o empenho da esquerda não é mediático. Só um tipo prazenteiro e inteligente consegue o papel de Marcelo no teatro mediático. Um Louçã, inteligente, parece um padre usando as suas terríficas sibilações, o carregar nos erres, sempre em estado de cólera e de raiva, sempre zangado contra todos os que, esses malandros, pretendem dar cabo, de forma malévola, da esquerda e dos trabalhadores. Louçã não pode, ideologicamente, sair deste esquema. Carvalhas é ineficaz por falta de imagem, por falta de brilho e por ser monolítico, falando por chavões repetidos emanados das directivas de uma comissão política, chavões que Carvalhas repete sem convicção. Ferro Rodrigues, a acreditar que é de esquerda, anda demasiado preocupado com Pedroso e não parece muito dotado intelectualmente. Existem figurantes, mas são figuras menores, ambiciosos mas sem o carisma e a inteligência de Marcelo, Sócrates é um bom exemplo. Mais à direita temos Pacheco Pereira, inteligente, meditado, mas também tem o defeito de ser façanhudo e zangado. Além disso não tem paciência. É um mérito, mas Pacheco não terá nunca os apoios para ser candidato a presidente. Fez demasiados inimigos, por ser frontal e dizer o que pensa. Cavaco não é mediático, ponto. Sobre Santana basta falar dos concertos para violino de Chopin para perceber de quem se fala, um homem mediático que nunca se deixa ficar mal, mas capaz dos maiores disparates, não teria cometido a gaffe das contas de Guterres, ou inventaria um número ou deixaria isso para um acessor responder, falta a Santana substrato cultural e pose de estado, é oco. Guterres é um vazio total, incompetente, feio, pouco dotado intelectualmente, pelo menos assim aparenta publicamente, precisa repetidamente de dizer que teve vinte a análise no Técnico para se credibilizar, isso diz tudo. Marcelo nunca citou as suas notas enquanto aluno de direito, não precisa, já esqueceu.

É moda virem acusar o professor de estar subrepticiamente a preparar a campanha presidencial desde que saiu de dirigente do PSD. Os iluminados, que vêem o que mais ninguém viu, denunciam o professor por este ser um terrífico candidato escondido e de ter tempo de antena, ainda por cima! Eu digo: engenho e arte do professor. Sugiro aos detractores: arranjem um candidato que faça o mesmo.
Depois não acredito na premeditação, Marcelo é um repentista, age por instintos, não por premeditação a longo prazo. Claro que, como estudioso de ciência política, sabe que as portas nunca se fecham, e se a oportunidade surge ele não a desdenha. Pode então tornar-se dissimulado e premeditado, mas a curto prazo.
Mas se for esse o caso, o da premeditação de longo prazo, devo reconhecer que a sua inteligência é profunda, que a sua preserverança grande, e que triunfou no caminho que escolheu, consegue falar todas as semanas uma e outra vez em televisões, responde sempre aos jornalistas, vai a concertos, dá aulas, publica, está em conferências, triunfa nos média e na carreira profissional e científica, afirmou-se na escrita e não perde credibilidade, é obra. Só por isso merecia ser presidente.

29.12.03

Música de Pinho Vargas em Filme de Fonseca e Costa 

Um trabalho de qualidade, adequado ao sentido e ao fluir dramático do filme. Esperava mais acordes "dissonantes", mais influências de Ligeti. Mas o filme é comercial e destina-se às salas onde o público comum assiste, logo aceita-se e compreende-se. As influências e percurso de Vargas no domínio da música de Jazz dão-lhe um domínio das várias linguagens, nomeadamente a da música mais popular, perfeito. Um trabalho de grande profissionalismo e muitíssimo bem tocado e gravado. Parabéns a José Fonseca e Costa que escolheu o músico e a Pinho Vargas pela excelência do trabalho.

28.12.03

Blogues musicais 

Gostava de ter "linques" de blogues musicais, todos os géneros. Vou pesquisar para criar uma lista de "linques" musicais, blogues e páginas ou sítios mais convencionais. No entanto seria interessante ter mais informação sobre o assunto. Escrevam para o email do critico com com informação sobre os linques.
Continuo a depuração dos linques actuais, estava a lincar blogues que já nem existem! Ano novo, vida nova.

27.12.03






24.12.03

Música 


Mudei a música, Erstarrung, o poema está dois posts abaixo. Viagem de Inverno no Natal. Uma das interpretações mais notáveis de todos os tempos. Jon Vickers, cantor e Peter Schaaf, piano. Espero que se consiga perceber bem com o som comprimido. A força, a injustiça da vida. Mesmo assim transparece alguma doçura muito disfarçada pela solidão, pela angústia. Gelado este Inverno, que arde com uma chama de desolação, de raiva e de maturidade.

Para ouvir uma interpretação mais convencional, com Christoph Prégardien a cantar e Andreas Staier ao piano. A beleza gélida numa voz pura de encanto, um homem mais jovem canta, menos marcado, menos sentido, mais frio, mas também muito belo. O elemento fundamental: a melodia de Schubert, flui, pontuada pela tormenta agitada da angústia, expressa pelos obstinatos obsessivos no piano...

Gerald Moore ao piano acompanha Hotter noutra interpretação impressionante, gravação de 1954. Uma voz mais escura, mais densa, menos densa no entanto no devir trágico que a voz rude de Vickeres. A melodia, ainda e sempre a melodia, mesclada com uma elegância e uma dicção ímpares, veludo.

As minhas três interpretações preferidas, mas tão diferentes umas das outras. Não há melhor, poderá haver igual...
Mas a Viagem de Inverno de Schubert e Müller deve-se ouvir na íntegra. Infelizmente não tenho espaço, nem qualidade, aqui.

Resumo.
Vickers: a força telúrica da angústia, a alma atormentada, a força da voz. A neve e o cansaço, o fim, o trágico.
Prégardien: A beleza total de uma voz, o discurso poético de Schubert ecoa nas palavras redondas de um canto etéreo. O frio, a noite transparente de neve.
Hotter: o veludo e as estrelas, a elegância e força segura de uma voz sob domínio total. A mais escura destas vozes, o cantor de voz mais grave. Um homem jovem de cabelos grisalhos. Mas, atenção, são negros depois de sacudida a neve, - como nos diz o poeta mais à frente - um homem envelhecido pela tristeza, pelo abandono, talvez pela morte, mas jovem de aspecto. Um homem forte, mas desiludido, que caminha, errante, viandante sobre a neve, seguro mas infinitamente triste.

Em todos a melodia de Schubert, em todos a mesma paixão: a poesia e a música.

Voto Desejo a todos os que me lêem uma jornada com destino. Uma jornada em que no fim haja um homem do realejo, ainda mais solitário que vós, que vos receba com a sua música, indiferente ao frio, aos cães que rosnam e à incrível solidão do fim da jornada pela qual todos temos de passar. Um homem tão triste, tão só, que nos redime da nossa solidão e da nossa tristeza. É esse o homem que acompanha com a sua música o nosso canto. Que esse homem seja, finalmente, o anjo que nós esperámos durante todo o caminho, e que nos liberta do cansaço infindo da Viagem de Inverno.
Até um destes dias...

Rosas e Portas - recortes de imprensa e última hora 


Fernando Rosas escreve um artigo no "Público", se Rosas achasse o assunto insignificante teria sido mais irónico, o que o título de "Pato Donald" sugeria. No entanto, ao ler o artigo, descobre-se que aquilo é um arrazoado de ódio. É engraçadíssima a capacidade de Paulo Portas irritar a esquerda, esquecendo-se esta de assuntos mais importantes! Noto a utilização de termos como: "dr. Paulo Portas, chefe de um partido de extrema-direita, o Partido Popular" ou "o ridículo, a palhaçada nacionalista, o mccarthismo serôdio, o familiarismo hipócrita, o sectarismo ideológico". Um naco de prosa muito saboroso é o seguinte:

"Um patético "lusito" fora do tempo. Ao contrário do que ele pensa e recomenda para os seus adversários, eu acho que tem todo o direito de ser e fazer politicamente o que muito bem entende. Dentro das regras democráticas de respeito pelos demais. E é isso que está constantemente em causa nesta estridência radical e antidemocrática do dr. Paulo Portas, nesta arruaça de feira misturada com as mais sinistras sombras do passado, nesta espécie de "looney tunes" sem graça.

Já tínhamos visto de tudo nos governos conservadores por essa Europa fora: ministros corruptos, ministros incompetentes, ministros com contas na Suíça, ministros que fomentam o compadrio, eu sei lá. O pato Donald em ministro do Estado e da Defesa só cá. No Governo do PSD/PP
".

Um tal ódio leva a escrever mal, "Defesa só cá", brilhante.

Esquece Fernando Rosas que tais ataques, pela diarreia verbal que descarregam, afastam os leitores das suas posições. Tudo o que disse Fernando Rosas, destilando as partes de dispepsia e ataques metidos no artigo, provocações, ódio, aleivosia é o seguinte:

Paulo Portas discriminou o BE e o PCP da discussão sobre o conceito de estratégia nacional. Esta discriminação é antidemocrática e viola a constituição. Paulo Portas põe-se em bicos dos pés pretendendo uma importância que não tem. Paulo Portas confunde provocação ideológica com sentido de estado. Portas é de extrema direita. Eu, Rosas, entendo que não devia estar no governo.

Deixei a última frase ambígua de propósito.
Dizia-se em meia dúzia de palavras, era mais incisivo e não tinha a deselegância de se perceber que Rosas tinha perdido a cabeça com a provocação do Ministro de Estado e da Defesa Nacional.
Depois do artigo de Rosas concordo com Paulo Portas, esta gente não tem cabecinha, perde as estribeiras e não tem elegância ou discernimento para discutir assuntos como o conceito de estratégia. Se Portas tem... bem, é outra questão.

Entretanto no jornal "O Público" descobre em notícia de última hora Equipa de investigadores britânicos concluiu recentemente: "O Natal nasceu 300 anos antes de Cristo", para notícia de última hora não está mau.




Hoje recomendo 

Oratória de Natal de Bach, em partitura completa, a preço aceitável. Indispensável para leigos em música barroca e que pretendam iniciar-se na crítica musical da mesma.

Para quem não tem e pretende conhecer a fundo, recomendo:
Obras de Wagner a preço aceitável, infelizmente comprei na Alemanha uma edição mais cara e em formato mais pequeno, do Tristan und Isolde, três volumes. O livro com os lieder é muito barato.

23.12.03

Imagem da semana por Rodrigues 

Madrid

Foto de Rodrigues

Morreu mais um sem-abrigo, de frio, à porta de uma loja de Madrid. Na Gran Via faz frio, as árvores estão nuas, começou ontem mais uma Viagem de Inverno para quem não faz compras de Natal. As pessoas passam e olham para outro lado, demasiado ocupadas com as compras dos últimos presentes, apenas o mau cheiro denuncia a morte. A árvore despida, nua, tal como nus estão os pés do tocador de realejo, sobre o gelo, como frios estão os seus dedos enregelados. Os dedos do desgraçado morto. O campo e a cidade, a vida e a morte.
Mas não acabou, neste Natal morrerá calmamente, de frio, mais outro sem abrigo, algures embrulhado com restos de embrulhos de presentes de Natal. Uma morte a que um anjo impávido e dourado assistirá. Um presente de Natal, para todos nós...

E foi pelos despojados que Cristo nasceu, alguém se lembra?

Erstarrung - Winterreise 


Ich such' im Schnee vergebens
Nach ihrer Tritte Spur,
Wo sie an meinem Arme
Durchstrich die grüne Flur.

Ich will den Boden küssen,
Durchdringen Eis und Schnee
Mit meinen heißen Tränen,
Bis ich die Erde seh'.

Wo find' ich eine Blüte,
Wo find' ich grünes Gras?
Die Blumen sind erstorben,
Der Rasen sieht so blaß.

Soll denn kein Angedenken
Ich nehmen mit von hier?
Wenn meine Schmerzen schweigen,
Wer sagt mir dann von ihr?

Mein Herz ist wie erstorben,
Kalt starrt ihr Bild darin;
Schmilzt je das Herz mir wieder,
Fließt auch ihr Bild dahin!

20.12.03

Winterreise e os três sóis 


A propósito do comentário de Vickers sobre Os três sóis deixo aqui um comentário de Schubert e o poema de Müller:

Ich werde euch einen Zyklus schauerlicher Lieder vorsingen. Ich bin begierig zu sehen, was ihr dazu sagt. Sie haben mich mehr angegriffen, als dies bei anderen der Fall war. Mir gefallen diese Lieder mehr als alle, und sie werden euch auch noch gefallen.

Franz Schubert



Die Nebensonnen

Drei Sonnen sah ich am Himmel steh'n,
Hab' lang und fest sie angeseh'n;
Und sie auch standen da so stier,
Als wollten sie nicht weg von mir.

Ach, meine Sonnen seid ihr nicht!
Schaut ander'n doch ins Angesicht!
Ja, neulich hatt' ich auch wohl drei;
Nun sind hinab die besten zwei.

Ging nur die dritt' erst hinterdrein!
Im Dunkel wird mir wohler sein.

Wilhelm Müller

Os sóis espectrais

Eu vi três sóis no céu premente,
Olhei-os longo tempo, firmemente;
E estes três sóis fixos permaneciam
Tão imóveis, sinto: nunca me deixariam.

Ah, esses sóis, já meus não são!
Contemplam outras faces, olho em vão!
Sim, eu tive esses três, recentemente;
Mas os dois melhores são ausentes.

Bom seria que o terceiro se fosse!
Na escuridão viveria mais doce.

(tradução totalmente livre para manter as rimas, mas com perda total da métrica original, tentarei melhorar a tradução com esse efeito, mas é difícil e o ritmo de Müller perde-se na tradução)


Bach na Gukenkian - aspectos técnicos de uma má interpretação 

Considero importante que quem vai a concertos tenha alguns conhecimentos, quer sobre a obra, quer sobre a forma de a interpretar, por isso mesmo vou dissertar sobre o que considero um desastre interpretativo o que ocorreu na quinta feira passada com Oratória de Natal de Bach. Mistificar, mascarar, pactuar, assobiar para o ar e fingir que este tipo de interpretação é razoável não fica bem a quem tem o dever de informar e formar o público, como o próprio Bach dizia que era função do músico, por isso mesmo não consigo deixar de exprimir a minha opinião crítica ao que se passou.

Comecemos pelos aspectos mais óbvios: a orquestra a falhar no plano rítmico. Desacerto logo na entrada: tímbales, flautas e oboés entram ao primeiro, segundo e quarto compasso respectivamente, não se percebeu nada da música, uma confusão completamente irreal com entradas fora de tempo e a ritmos desiguais à procura do tempo certo. Os trompetes e violinos entram ao quinto compasso e ainda vieram aumentar a confusão! A secção inicial da obra é de estrutura ABA, curiosamente no "da capo", em que se volta ao princípio da obra e se repetem os compassos 1 a 137 a coisa correu melhor.
Na ária do nº8, "Grosser Herr", desacerto rítmico de novo entre trompete flauta e cordas, as síncopas das flautas e cordas saíam a tempo, em vez de a contratempo como está escrito, com as batidas no tempo forte do trompete, a entrada foi uma calamidade que se foi repetindo, ao longo da ária.
No recitativo nº 18, a entrada dos oboés, que Bach queria que fossem de cacia e de amore, foi outra confusão geral, em vez de quatro pareciam cinquenta! A passagem é fácil, devia ser a tempo na batida do compasso, será que se baralharam com as notas agudas tão difíceis de dar nos instrumentos originais, mas de simples execução nos modernos?! Mais desacertos houve, as cordas nas passagens mais complexas do ponto de vista rítmico foram sempre confusas e pouco precisas. Umas notas trocadas aqui e ali.

Erros interpretativos de Corboz, o mais grave no meu entender:

Concepção global: orquestra demasiado grande, coro demasiado grande. Na orquestra as cordas en número excessivo abafaram a riqueza tímbrica das entradas e saídas dos sopros. Estes misturavam-se subtilmente na massa em vez de entrarem e sairem como registos de orgão. Isto nada tem a ver com a ideia da obra de Bach e da forma como esta era encarada ao tempo de Bach.
Má articulação, legatos imensos, crescendos e diminuendos por toda a parte. Na música barroca o contraste surge por oposição de massas, por contraposições tímbricas, por oposição entre forte e piano. Nunca por abuso "romântico" de efeitos como diminuendos e crescendos. Exemplo gritante compasso 27 da abertura da segunda cantata, mas posso apontar muitos mais.
Ritardandos e acelerandos, exemplo: sinfonia compassos 43 e 44 um ritardando. Ritardando nos finais dos coros e corais. Acelerando nos fortes e ritardando nos pianos, quase um tique. Na música barroca o ritmo é essencial e ritardandos só em casos muitos especiais e dentro do compasso, para logo recuperar e entrar no seguinte a tempo.
Articulação muito confusa e incoerente, inventando o que Bach não escreveu, diria que errática e pouco pensada, pobre e ao sabor do momento, vibrato excessivo, sem concepção.
Incoerência nas suspensões dos corais. O coral é o único ponto em que se admite um coro gigante, eram cantados por toda a congregação nas igrejas do tempo do Bach, uma regra para a suspensão era fundamental, tem que se saber se estas duram muito tempo ou pouco, se se fazem, ou apenas se dá uma breve acentuação. Muita tinta se escreveu sobre o assunto, publicaram-se até muitos artigos. Corboz não tem regra, ora demora imenso tempo nas suspensões, ora corta depressa, ora nem sequer as faz, e não falo das suspensões finais, a incoerência surge em todas as frases. Uma congregação luterana com Corboz como mestre de capela acabaria os corais onde? Isto numa igreja onde nem todos conseguiam ver o mestre, uma vez que estava ao orgão e não de pé a dirigir como hoje. Acabaria onde Deus quisesse, mas certamente numa grande algazarra confusa.
Incríveis os sforzandos no coro nº 23, um pesante abafante em vez de um correr fluido e sincopado e sforzandos em cima de todas as semínimas com ponto, a leveza rítmica das síncopas internas próprias ao compasso composto de 12/8 tornaram-se em passadas de um elefante anafado.

Tenutos no contínuo durante recitativos: na partitura estão notadas semibreves no contínuo, orgão, cellos, contrabaixo e fagote, a prática interpretativa variava, há quem afirme que as cordas davam apenas as primeiras notas, e se existisse cravo devia ser dado um arpejo com a figuração do cifrado. Já o orgão daria o acorde cifrado e sempre que a cifra se alterasse ou o organista visse o solista a fugir do tom poderia dar o acorde pela cifra, aqui a incoerência ainda é maior: nas duas primeiras cantatas foi tudo tenuto, sustentadíssimo, eu até achei graça, o Corboz está de acordo com a partitura, e lê literalmente. Apontei o recitativo nº 2, tudo sustentadinho. Na terceira parte qual é o meu espanto: o contínuo passou a fazer-se como mandam os musicólogos, ataque da semibreve e corte logo ao primeiro tempo da nota, com figuração do cifrado sempre que este se altera, mas apenas pelo orgão! Afinal houve instruções novas do treinador ao intervalo? Ou é apenas incoerência interpretativa?

Tempos: Corboz demora mais vinte minutos nestas cantatas, descontando a ária metida a martelo, do que qualquer interpretação de referência, uma hora e quarenta e três é um tempo quase surreal para estas três cantatas. Philippe Herreweghe, numa interpretação considerada fria, demora uma hora e dezassete minutos! A interpretação de Corboz não é agradável, não é pausada, não explora a beleza do som, é pura e simplesmente uma interpretação à defesa, arrastadíssima, apagada, sem conceito nem chama. Falta de ensaios? Na última Paixão Segundo S. Mateus conseguiu dar uma leitura mais apaixonada, mais viva, mais sentida. Na quinta feira deu monotonia e arrastamento. Sono.

Solistas e seus erros: Chance falhou em toda a linha, um contratenor em estado péssimo, semitonou, desafinou, não deu as notas escritas, de por os cabelos em pé, fez-me sofrer de angústia à espera que saísse uma nota certa. Bach não poupou o alto nestas três primeiras cantatas. Chance não poupou os ouvidos do público. Ele era o ré, o mi (no início da segunda oitava), tudo meio tom abaixo do que devia dar, o "fest" ao compasso 33 da ária nº 31 é o pior exemplo, entrou um tom inteiro abaixo do ré, foi subindo em glissando até se aproximar da afinação correcta, não o conseguindo fazer porque a voz fugiu e arranhou, o compasso 52 da mesma ária foi uma tragédia, nem uma nota saiu certa, o compasso tem um mi que deve ter aterrorizado de tal maneira o cantor que tentando dar, não sei bem que notas e articulação, saiu tudo errado, nem as figuras, nem as notas, nem a afinação. Nunca assisti a um espectáculo tão triste num cantor na sala grande da Gulbenkian, tive pena, fiquei sinceramente aflito e triste, de tal modo foi confrangedora a actuação deste contratenor com prazo de validade nitidamente expirado. Mas o público que pagou o bilhete não tem culpa do declínio dos cantores e Chance pode facilmente dar aulas de canto ou dedicar-se à direcção, tem currículo para isso.

A soprano Schöll teve o episódio infeliz da ária nº 39, metida a martelo no meio do texto da cantata nº 3, para poder brilhar um pouquito. Mais um exemplo da completa indiferença com que Bach foi tratado por Corboz, que o subjugou aos caprichos de uma diva de trazer por casa. Bom timbre nos médios, boa colocação, distraída às vezes, esqueceu-se de entrar no andante arioso do recitativo/coral nº3, deveria entrar com um ré cá em baixo (primeira oitava) na palavra "und" e nada, deve ser uma nota demasiado grave para sua excelência a diva, só entrou no segundo tempo do compasso seguinte. Esqueceu-se de uns trilos: exemplo "erbarme" no andante precedente. Não sei se por falta de capacidades interpretativas, se por falta de capacidade de articulação. Por outro lado tem timbre de apito nos agudos, quando começa a subir não canta: apita. É uma questão de ouvido, mas eu entendo que a voz desta cantora é pobre em harmónicos. Schöll fez uma leitura das notas e não uma interpretação.

O baixo, Rodolf Rosen, interessante vocalmente tem uma notória falta de capacidade de articulação e muito pouca agilidade, a primeira ária de baixo teve figuras completamente obliteradas. O compasso 27 dessa ária é exemplo: "erdem pracht", um grupo de semicolcheias (mi fá# sol fá# mi ré) do qual só se ouviram duas o mi e o ré descendente. Mas neste caso os exemplos sucederam a um ritmo algo irritante. Boa voz, desafinou apenas uma vez, num ré agudo (para baixo), mas com muita falta de agilidade, muita música ficou na pauta por cantar. Foi melhorando para o final.

O tenor, Yves Saelens, aguentou-se bem, umas desafinações mínimas nas notas mais agudas, mas três dias para preparar o papel é muito pouco tempo, atendendo ao facto, teve nota positiva.

O coro esteve bem, apenas a pesada batuta de Corboz fez com que se parecesse a oratória de Natal mais com uma procissão fúnebre do que a celebração de alegria que se pretendia.

Os solistas da orquestra estiveram regulares.
Ridículo, para não dizer pior, o uso de um orgão positivo com uma sonoridade ínfima. Bach usava um sonoríssimo orgão de igreja, um orgão alemão de tubos em diálogo com uma orquestra pequena com instrumentos de sonoridade muito mais reduzida que os actuais e um coro de 12 a 16 vozes, onde se incluíam os solistas. Continuar a insistir hoje num positivo, quando a orquestra é disparatadamente grande e o coro gigante é quase uma anedota musical. Não se ouve, não tem presença, não é fidedigno.

A minha conclusão é que houve falta de tempo de ensaio com o maestro principal, só isso justifica uma interpretação defensiva lenta e desapaixonada. Ouvi orquestras convencionais com instrumentos modernos, até reunidas apenas para alguns concertos com músicos disponíveis, e coros luteranos, em Augsburg, por exemplo. Ouvi cantatas de Bach com um prazer uma paixão que me tocaram profundamente, quase amadores é certo, mas com amor, com alegria, com calor. Com erros de interpretação, mas com paixão. Esse foi o pior aspecto da interpretação de Corboz na Gulbenkian, quinta feira passada, a monotonia de uma leitura à procura de não errar e de dar as notas todas.

Pelo apontado creio que demonstrei claramente porque motivo achei a interpretação muito má. Creio também que fundamentei a crítica e deixei pistas, quer para correcções no futuro, quer para maior atenção dos responsáveis da Gulbenkian, que ao contrário de outros, sabem ouvir e sabem reconhecer a crítica fundamentada e séria.


P.S. Autocrítica: no meu breve comentário anterior, disse que a Gulbenkian contratou "os piores solistas possíveis", esta frase é um exagero, fruto de uma escrita demasiado em cima do acontecimento e influenciada pela péssima prestação do contratenor e pelo baixo nível interpretativo da direcção musical. O Baixo não era péssimo e há pior, o soprano era razoável e se continuar a trabalhar e a aprender, se o timbre apitado se for perdendo, poderá vir a ser um bom soprano de nível mundial, há muito pior, o tenor foi muito agradável e há muito pior. De modo que três dos solistas não foram os piores possíveis. Deixo aqui o meu pedido de desculpa a algum leitor, que tenha lido o que eu escrevo, pela generalização abusiva.

19.12.03

Hoje no Inimigo Público explora-se à exaustão o fenómeno Captura de Saddam Hussein 

Mas esquecem-se que Carlos Frade se ofereceu como psiquiatra do ex-ditador iraquiano. Alega este senhor (o Frade, bem entendido) que as autoridades americanas estão a dificultar o seu trabalho não lhe pagando a passagem para Bagdad e não lhe dizendo onde mantém Saddam detido. Frade declarou, a todas as televisões, ao sair da embaixada americana em Lisboa, que os colegas psiquiatras americanos estavam a fazer "panelinha" e que Saddam está com um complexo regressivo de amnésia, esta amnésia impediria, segundo Frade, um julgamento justo. As declarações foram apressadas, Frade disse que tinha sido convocado para uma reunião com o grupo parlamentar do BE para apresentar as suas conclusões e que tinha pouco tempo para "shows mediáticos" uma vez que tinha ainda que prestar umas breves declarações para as diversas televisões à entrada do Parlamento. As teorias de Frade são aguardadas com espectativa pelos dirigentes do Bloco. Segundo Rosas: "esta era a prova que faltava sobre a má fé dos americanos nesta história toda"...
O jornalismo humorístico anda a perder furos importantes como o referenciado neste blogue, é uma crítica directa!

Nem Bach sobrevive a isto 

Bach é um compositor resistente aos maus tratos, Michel Corboz conseguiu na Gulbenkian o feito de arruinar a música de Bach. É obra!

A Fundação Gulbenkian está de parabéns por ter arranjado os piores solistas possíveis para a Oratória de Natal de Bach, e só sobrou, e mal, o tenor que era substituto. O contratenor foi, em particular, péssimo. Para juntar a Corboz na galeria. Escapou o coro e, em certa medida, a orquestra, mas sem o menor sentido de uma interpretação barroca. Foi um mau concerto entre muitos bons concertos que tenho ouvido na Gulbenkian.

Daqui a uns dias farei mais comentários críticos, com todos os detalhes técnicos e análise em concreto do que falhou.

Se eu tivesse um bilhete comprado para dia 19 de Dezembro e gostasse mesmo de Bach, tocado a sério, com paixão e alma, tentaria vender o bilhete e compraria uma boa interpretação desta obra para ouvir em casa... Mas nunca se sabe, pode ser que haja um milagre de Natal! Os coralistas antigos amanhã juntam-se ao coro actual, talvez Jesus renasça na Gubenkian, eu duvido, mas a esperança é a última a morrer...

18.12.03

Jon Vickers e a viagem de Inverno 

Nota editorial: hoje o Cr?tico d? a palavra aos m?sicos. Neste caso Vickers sobre a Viagem de Inverno de Schubert (compositor) e M?ller (poeta). As suas interpreta??es desta obra (conhecemos duas) s?o um deslumbramento, deixemos o cantor falar:

"A Viagem de Inverno pode ser interpretada de diversas formas. As interpreta??es s?o t?o diversas e variadas como as pessoas que empreenderam o seu exerc?cio. Os int?rpretes tentaram "uma procura do amor" passando "uma actua??o que demanda a compreens?o" at? "um estudo aleg?rico da psicologia da morte", isto porque a Winterreise cont?m elementos de todas estas vis?es. Os argumentos abundam, muitas vezes os seguidores de esta ou aquela interpreta??o p?em tanta intensidade na sua admira??o como a intensidade necess?ria para uma interpreta??o da obra. Tal como uma grande pe?a de escultura, a vis?o dos mais variados ?ngulos revela novos e diferentes aspectos da sua beleza. Tomadas estas vis?es em conjunto, formam um todo.
De todas as can??es que comp?em a Winterreise, a n?mero vinte e tr?s [Die Nebensonnen] foi, provavelmente, a mais analisada. O significado dos tr?s s?is continua a ser hoje um mist?rio, nada nas obras de Schubert ou de M?ller serve de pista ? sua interpreta??o. Podem ser pessoas, conceitos, capazes de ser substitu?dos ou alterados, mas constituindo uma influ?ncia amada e penosa, de profunda necessidade, da qual a liberta??o prov?m apenas da morte.
A vaga ambiguidade ? um elemento essencial e poderosamente subtil atravessando toda a fibra da Viagem de Inverno de Schubert (e de M?ller). Essencial porque a ambiguidade se torna no ve?culo pelo qual a Winterreise ? universalizada, permitindo a qualquer um e a todos uma jornada de Inverno pr?pria, tal como este casamento evocativo e gentil entre m?sica e poesia ilumina com uma luz nova as belezas e tristezas das experi?ncia de vida de cada um.
E, por estes motivos, n?o existem interpreta??es definitivas. Tantos artistas abordaram a Winterreise, e muitos, tal como eu pr?prio, gravaram a experi?ncia. Mas, falando por mim e, estou seguro pelos meus colegas, a Winterreise permanece um desafio imposs?vel, sendo um grande privil?gio ser permitido abordar a obra.
Por favor, aqueles que n?o est?o acostumados com as palavras do poema, devem seguir as palavras, pois s? atrav?s desta participa??o se pode experimentar uma Viagem de Inverno pr?pria.

Jon Vickers

Ouvir



Saiu a última Goldberg, a não perder, o destaque é Marin Marais, um artigo bem escrito, em inglês, sobre a vida do genial francês, nada adianta ao livro da Fayard de Jerome La Gorce e Sylvette Milliot, mas quem quiser saber mais sobre Marais sem ter de ler o livro em francês encontra boa informação.
O meu destaque vai também para Alan Curtis que dá uma entrevista muito interessante a Brian Robins. Interessantes as escolhas de Vincent Dumestre para 10 CD's a levar para uma ilha deserta.

17.12.03

Um texto de Virgílio Marques 

No forum de música, foi escrito um texto de Virgílio Marques, um texto sentido, penso que vale a pena ler este texto que reproduzo aqui, com vénia e comoção:


Ontem fui ao Porto. Sabia que Guilhermia Suggia está sepultada no cemitério de Agramonte. Embora não pratique qualquer defesa pelo culto da morte. Pessoalmente desejo ser cremado, gostaria de não ter funeral nem velório nem flores nem rezas, ser cremado sem caixão e sem roupas. No entanto tenho todo o respeito pela memória das pessoas. Por aquilo que elas foram. Pelo que delas ficou.
Cheguei ao cemitério e perguntei ao guarda onde era a sepultura de Suggia. Não fazia ideia. Perguntei se sabia quem era. Não sabia de todo. Mandou-me perguntar aos coveiros que "sabem sempre essas coisas todas". Perguntei a 2. Ambos perguntaram se tinha morrido há pouco tempo. Disse que havia 53 anos. "Então e queria que soubéssemos!?". Mandaram-me para a secretaria. Pelo caminho perguntei a outro guarda. Não fazia ideia. Nem sabia quem tinha sido. Entrei na secretaria. Perguntaram-me se sabia quando tinha morrido. "Há 53 anos". "Ui! vai ser muito difícil saber onde está. Ainda por cima a chefe da secretaria não está cá." " Mas não me diga que não vai haver maneira de descobrir!?". "Espere lá. Vou telefonar a ver se alguém me sabe dizer alguma coisa."
A senhora dirigiu-se para o telefone e eu fiquei a aguardar. Ia ouvindo:"obrigada. Vou ligar então para lá". Ouvia de novo "está aqui um senhor que quer visitar a sepultura de Guilhermina Suggia. Como posso saber qual é?" "Obrigada. Vou ligar então!"
Ao fim de mais ou menos meia hora de telefonemas vem a senhora com um livro na mão. Procura por ordem alfabética e encontra. Guilhermina Suggia, morta em 30 de julho de 1950. Sepultada na secção nº 36, jazigo nº 2132.
Um guarda acompanhou-me. Passámos em frente da capela do cemitério, virámos no 1º corredor à esquerda, fomos sempre em frente em direção ao fundo. Em determinada altura o guarda diz-me: "Aqui está. É esta a campa".
Fiquei triste. Já tinha visto uma fotografia da campa. Não esperava de todo encontrar um mausoléu.
No entanto apenas está escrito na pedra "Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena". Não há qualquer referência à sua arte. Um ramo de flores de plástico completamente sem cor tapava o seu nome. Em cima da campa uma placa faz referência ao marido. Outra placa à mãe. E pasme-se: O pai de Suggia, AUGUSTO SUGGIA, violoncelista e professor nos conservatórios de Lisboa e Porto, tem uma placa onde se lê:"Dª GUTA SUGGIA, nasc em... falec em ..."
Não sei quem mandou fazer as placas, penso que Suggia não tem familiares vivos. Alguém deve ter mandado para a casa onde essas coisas se fazem, um papel escrito de modo pouco claro, a placa veio errada e foi posta em cima da campa. Sem o mínimo de respeito por quem foi pai e 1º professor de uma das maiores figuras da música em Portugal.

É triste este país. Muito triste, por vezes.

Virgílo Marques


O programa do concerto na Gulbenkian 

O programa do concerto da oratória de Natal, dia 18 e 19 na Fundação e 20 no Europarque de Santa Maria da Feira, tem esta pérola, escrita supostamente por quem percebe, custa-me a crer que um entendido e erudito sério como Rui Cabral Lopes tenha escrito esta barbaridade, apenas com o intuito de satisfazer o capricho de uma soprano:

"No presente programa do Coro e da Orquestra Gulbenkian serão interpretad as as partes I, II e III da Oratória de Natal, bem como a belíssima ária para dois sopranos intitulada “Flösst, mein Heiland”, situada na Parte IV. A execução desta ária terá lugar entre os números 16 e 17 da Parte II que correspondem, respectivamente, à curta intervenção do Evangelista, Und das habt zum Zeichen, e ao Coral Schaut hin, dort liegt im finstern Stall, baseado numa melodia-coral de Lutero.
Apesar do contexto original de execução ter implicado uma segmentação da obra, condição que, aliás, também se aplica às actuais necessidades da sala de concerto, deve evitar-se perspectivar a Oratória de Natal como um ciclo de seis cantatas independentes, sob o risco de se perder de vista a interessante lógica de coesão global que subjaz à obra. São, de facto, diversos os aspectos que nos permitem falar de uma estratégia consciente de unificação da Oratória como um todo musical, contrariando a ideia de um somatório de partes individuais cujo único elo de continuidade residiria no encadeamento dos acontecimentos descritos, protagonizado pelo Evangelista.
"

Será Rui Cabral Lopes o único autor do texto integral destes parágrafos acima? Custa-me a crer. Se repararmos, o próprio autor(es) diz a seguir que a oratória tem um plano tonal muito sólido e que a cantata IV da qual a ária avulsa é extraída é um pouco estranha ao resto do conjunto e cito "A Parte IV, cujo texto é mais periférico à narrativa do nascimento de Cristo, é a única a fazer uso de bemol na armação de clave (Fá Maior)". Repare-se que a cantata nº 3 (ao contrário da número 2 como Lopes afirma*, ver nota final) onde se mete a martelo a tal ária tem um plano tonal de Ré maior, Lá maior e si menor! Completamente afastado, então este si menor não podia estar mais longe do Dó maior da ária. E com a afinação não temperada que se usava na época este dó maior cheira mesmo a dissonância depois de si menor. Ou Cabral Lopes se contradiz a si próprio no texto, ou a história da "interessante lógica de coesão global que subjaz à obra" e blá blá blá que é correcta de per se não bate certo com a inclusão da tal "belíssima ária". O texto é incoerente. Por um lado se se inclui a ária - quiçá por o contexto ser global e não seccionável - por outro a obra deve ser vista como um todo e mostra por A+B que o plano tonal é brilhante e pensado para cada peça se encaixar no puzzle teológico de forma sequencial.
Indirectamente leva-nos a acreditar, pelas suas próprias palavras, que partir a obra em pedaços é errado e critica implicitamente a Gulbenkian - mesmo descontando a desculpa de se fazer assim porque é a lógica do concerto - por outro afirma, implicitamente, que a ária fora do contexto é aceitável porque "belíssima".
Falemos do texto: a natividade dos primeiros dias pouco tem a ver com a circuncisão do dia de ano novo. As cantatas incluem-se na liturgia da missa, o texto litúrgico é diferente em cada dia. Seria um disparate, quase um sacrilégio enfiar uma martelada sobre circuncisão num dia de Natal! Se Bach quisesse aproveitar a música, transpunha para a tonalidade relativa ao ré maior, de acordo com o plano tonal da obra e mudava o texto para se apropriar à natividade. Isso sim, Bach podia fazer, fez em muitos casos, mas manter o texto não tem o menor sentido.

Ou Rui Cabral Lopes chumba redondamente nas notas por ignorância crassa ou tentou justificar o injustificável para fazer um jeito ou meteram-lhe texto no que escreveu antes. Mas o que se vai passar é um escândalo: parece que um capricho de um soprano (ou do maestro) se sobrepõe ao plano tonal idealizado por Bach, à teologia e à vontade de um compositor como Bach.

Eu esperava muito mais de Michel Corboz, tem melhorado muito nos últimos anos na interpretação de música barroca, mas um maestro com conhecimentos, respeito pela obra e personalidade forte nunca admitiria uma subversão deste tipo. Cantem a ária como extra, ou depois das três primeiras cantatas, ou no princípio do concerto. Mas nunca metida à pressão onde não cabe.

* - Segundo o plano da obra apresentado pela própria Gulbenkian no programa teremos a sequência:

33. CHORAL
Ich will dich mit Fleiß bewahren,
Ich will dir
Leben hier,
Dir will ich abfahren,
Mit dir will ich endlich schweben
Voller Freud
Ohne Zeit
Dort im andern Leben.

39. ARIA (Sopran und Echo)
Flößt, mein Heiland, flößt dein Namen
Auch den allerkleinsten Samen
Jenes strengen Schreckens ein?
Nein, du sagst ja selber nein. (Nein!)
Sollt ich nun das Sterben scheuen?
Oder sollt ich mich erfreuen?
Ja, du Heiland sprichst selbst ja. (Ja!)

35. CHORAL
Seid froh dieweil,
Daß euer Heil
Ist hie ein Gott und auch ein Mensch geboren,
Der, welcher ist
Der Herr und Christ
In Davids Stadt, von vielen auserkoren.

E não a sequência que Lopes enuncia no seu texto, mais um erro a juntar aos já apontados. O desacerto parece total.
O tenor não pediu também uma áriazinha extra? E esta ária com eco já não se canta para o ano quando se fizer a parte restante da oratória de Natal?

Inenarrável na Gulbenkian 

A Oratória do Natal de Bach divide-se em seis cantatas, as três primeiras serão escutadas na Gulbenkian quinta e sexta feira, versam sobre a natividade.
Parece que o Soprano quer cantar nesta primeira parte da Weihnachtsoratorium de Bach uma ária da cantata nº 4 pertencente à segunda parte, trata-se da ária "Flößt mein Heiland, Flößt dein Namem" da cantata "Am Neujahrstage" que trata de circuncisão de Cristo. Esta ária é totalmente desgarrada do resto, fora do contexto, sem nexo nenhum com o texto das três primeiras cantatas. O que será que a natividade tem a ver com o texto sobre a circuncisão de Cristo? Onde vai Michel Corboz incluir esta ária? No meio do texto da semi-oratória para disfarçar? Ou no final? Para o brilharete não ir para o Coral final? Se for assim creio que teremos fraude na Gulbenkian, para isso executavam toda a cantata nº4 e não apenas uma ária para o soprano Elisabeth Scholl brilhar. Realmente obras em semi-versões dão nisto, uma meia oratória e um soprano armada em vedeta. Espera-se que o bom senso impere e que a ária fique guardadinha para o próximo ano. O público português tem paciência, mas esta também tem limites...

Hotter para ouvir 


Ouvir Die Post da Viagem de Inverno D. 911 por Hans Hotter, recentemente falecido.

16.12.03

Imagem da Semana por Rodrigues - La Coruña 


La Coruña

Foto de Rodrigues

Michael Shade na Gulbenkian 

Um concerto fantástico, um tenor ainda por cima constipado: Michael Shade. Malcolm Martineau esteve ao piano. Fizeram a obra Die schöne Müllerin, D.795 de Franz Schubert a um nível superlativo. O melhor concerto a que assisti em 2003, de longe. De ouvir até à comoção total. Uma expressividade tocante numa interpretação que partiu de cada palavra até à unidade e compreensão total da obra. Irrepreensível. Uma voz redonda e brilhante nos agudos, quente nos graves. Uma inteligência sem par nos textos poéticos. Apenas um pouco de grão na voz (devido a constipação), se não fosse assim não sei o que teria sido. Ao nível dos melhores cantores de todos os tempos, já se esperava um recital de lied brilhante, superou tudo o que se poderia esperar. O pianista de grande segurança e sensibilidade deu uma cobertura e um entusiasmo de uma lealdade rara ao cantor. Não ouvi um cantor com acompanhamento, ouvi um duo, escutei as águas dos regatos a correr, as mós do moinho a girar, as flores nos bosques, o amor e a angústia, a morte e o regato, sempre o regato, pela voz de Shade e pelas mãos de Martineau.
Quem esteve no concerto recebeu a mais bela prenda de Natal que se poderia imaginar. E não tenho medo que se me acabem as palavras se ouvir algo melhor, este recital foi mesmo do melhor que já vi e ouvi em qualquer local onde tenha estado.

Cantor e pianista


Sai finalmente a crítica de Bernardo Mariano 

Quando se passaram umas semanas sobre os primeiros concertos, sendo o último na sexta feira passada, sai a crítica de Bernardo Mariano no Diário de Notícias ao Tristão e Isolda de Wagner.
A ópera de Hindemith "Notícias do Dia" é também criticada nesta edição.
Bernardo Mariano faz também o obituário de Hotter.
O Teatro La Fenice é citado a propósito da sua reabertura.
Nota-se no DN uma política editorial estranhíssima de juntar na mesma edição todas as notícias sobre música, quer sejam actuais ou estejam requentadas! Demonstração: A crítica à ópera de Hindemith sai depois desta sair de cena, onde esteve bastantes dias e recomenda que se vá assistir à mesma! Os textos do crítico do DN, entregues certamente antes, nem sequer são sujeitos a revisão.
Parece que estamos a ler o diário de notícias (em minúsculas) de há duas semanas atrás, fui confirmar, não, 16 de Dezembro, afinal era mesmo o jornal de hoje!

Sobre o Tristan estamos conversados, Bernardo Mariano não acrescenta nada a este blog. Discordo da observação sobre os fortíssimos de Gambill. A sala é má, amortece violentamente o som. Gambill é brilhante nos agudos, metálico, poderoso. Apenas não tem a pujança de um Jon Vickers, mas é perfeitamente aceitável em termos de potência. Já o ouvi noutras salas, penso que tem uma emissão suficientemente poderosa para qualquer obra de Wagner.

Imagino um barítono mediano a fazer o Wotan na culturgest, seria terrível, não se ouviria nada com a orquestra em palco por detrás. É terível para os cantores ter uma orquestra wagneriana sem estar no fosso ou sem ter o tecto acústico de Bayreuth, por exemplo. Felizmente os tenores conseguem penetrar um pouco melhor na massa.

15.12.03

Anda tudo a discutir o Saddam e ninguém se apercebe que é Natal! Amanhã concerto na Gulbenkian, canto, a não perder Michael Shade e a Bela Moleira de Schubert. Quinta e sexta a já esgotada semi-oratória de Natal de Bach, apenas as três primeiras cantatas das seis que constituem a obra. O carismático e imprevisível Michel Corboz dirige. Já adorei, já abominei, agora tenho tolerado. Mas tem algumas manias de velho caturra e sem nexo nenhum, exemplo: intervalo da paixão segundo Mateus de Bach depois da ária do contralto e não entre a primeira e segunda parte!
Impossível arranjar bilhetes, esgotadíssima!
Sobre grandes obras partidas às postas e tocadas em prestações suaves: é que o público pode maçar-se com música genial durante demasiado tempo...

Estou de luto - o mais profundo luto 


Morreu o Wotan dos meus sonhos, o Viandante dos meus Invernos. Era um intelectual, professor, homem que se deu aos outros mais que a si mesmo, fino, trabalhador, mais dedicado à música que a construir uma carreira de vaidades, tenho poucas palavras. Que a voz lhe volte a brilhar, veludo das estrelas, no lugar onde está, junto de Deus ou na memória de todos os que ainda o conseguem ouvir.


Recebi por email a notícia que ainda não sabia:

Sou um leitor diário do seu blog e confesso que só leio mais 4 ou 5.
Como o grande Hans Hotter morreu e eventualmente pode não saber, aqui estou para lho lembrar pois também sou um apaixonado por Wagner.
Desculpe o atrevimento.
Um abraço.




A minha tristeza não tem limites, para saberem até que ponto amava Otter eu apenas digo que Dietrich Fischer Dieskau nunca lhe chegou aos calcanhares. Vou escutar já de seguida a maravilhosa viagem de Inverno com Otter. Será que os senhores dos jornais andam a dormir?
Ver the Guardian


Ulrich Michels e Pacheco Pereira 



Clicar
José Pacheco Pereira no seu espaço da SIC referiu o excelente trabaho de Ulrich Michels. Ficou espantado com coisas que não conhecia em ciências musicais: erudição e rigor. Falava do Atlas de Música primeiro volume, ou dtv-Atlas Musik - Band I da Deutscher Tashenbuck Verlag, recentemente editado pela Gradiva em Português. Ulrich é professor universitário e pianista alemão, nasceu em 1938, o seu Atlas foi escrito em 1977, traduzido em diversas línguas. Existia uma boa tradução em francês, para quem não domina o alemão. A Gradiva fez um excelente trabalho de tradução com revisão científica de Gerhard Doderer, organista e professor, e de Adriana Latino, flautista (se não me engano) e professora. O primeiro é alemão a segunda domina o idioma. O texto não é tão enciclopédico como Pacheco o faz entender no seu discurso. Interessado, mas leigo em música, Pacheco Pereira encantou-se com uma obra muitíssimo bem apresentada. É um livro que se recomenda a quem já domina um pouco de teoria musical e a estudantes. Funciona mais como um livro de consulta do que um livro de texto. O exemplo do que digo é a parte sobre consonância, temperamento, modos e escalas, páginas 84 a 91 na edição portuguesa. Considero muito difícil a apreensão em tão pouco espaço de uma matéria tão complexa e diversificada. Chega ao ponto de chamar antigos, como se estivessem ultrapassados, os sistemas de relações numéricas fraccionárias, puras, entre os intervalos, ignorando a literatura que se foi acumulando sobre o assunto e a prática de interpretação da música antiga que recupera a beleza dos temperamentos não iguais. Os harmónicos são expostos de forma muito sumária, e simplificada. Idem para a consonânica dissonância. Eu diria que é um texto introdutório para quem sabe um pouco de música e quer saber mais. Ou para um músico prático que queira manter-se informado, mas que não queira descer a uma profundidade de erudição muito grande, que não esteja para andar a ler artigos em revistas de teoria musical, musicologia, acústica ou matemática da música.
Isto apenas para citar um pequeno exemplo. O livro propõe num número reduzido de páginas uma visão muito global da teoria e da história da música, sem esquecer a forma, a organologia, a orquestração, a técnica de composição e o contraponto. A apresentação gráfica é o ponto forte do livro, chama a atenção o detalhe e o cuidado na apresentação, que facilita de forma notável a compreensão e a absorção da matéria. Tem apenas mais um volume.

Capa recente da edição original
Recomenda-se vivamente, mas não é um livro de grande profundidade. Para cada assunto existem tratados muito bons. Exemplo: sem ser muito detalhado, mas bem escrito, existe o Acústica Musical de Luís Henrique, edição da Gulbenkian. Um bom texto em português, recente. Se Pacheco Pereira quiser conhecer um erudito a escrever em português sobre o assunto e com um CD a acompanhar o texto, que leia, também, este texto.
Damos os nossos parabéns a Pacheco Pereira por divulgar uma obra como o Atlas e por abordar um tema que assumidamente conhece mal mas que o fascinou.
Mais bibliografia em posts posteriores, que hoje já é tarde.

Capa antiga da edição original


14.12.03

GNR captura Saddam? 


Saddam e algumas amigas numa festa do Jet Set em Quarteira - foto de arquivo


O sargento Costa da GNR afirma que foi a guarda que capturou Saddam! Notícias não confirmadas dão como certa a captura pela GNR do antigo ditador do Iraque.
Ninguém sabe bem o que se passou, mas parece que o Ogre de Bagdad quis alistar-se como colaborarador da Guarda Republicana, uma vez que tinha saudades do seu corpo de elite. Foi dado ao ex-presidente um boletim do IRS para ver se este se desenvencilhava, a coisa correu mal, Saddam alegou que poucas torturas do seu antigo regime se podiam equiparar à prova do IRS.

Treinador não identificado aponta Humberto Coelho, que foi confundido com Saddam

Depois de ter chumbado nesta tarefa complexa, insultou toda a Guarda Republicana dizendo que detestava bacalhau!
A coisa tornou-se feia quando se recusou a cortar a barba de modo a ficar apenas com o regulamentar bigode da guarda, "é que podia ser reconhecido" alegava Saddam, deixando a rapaziada da guarda toda a rir à gargalhada: "ele há com cada maluco, este pensa que é o Saddam!"
Esta última ofensa, a da recusa de se apresentar em bigode, foi a pior, prenderam o homem e cortaram-lhe a barba deixando apenas o supralabial bigode. O sargento Gomes de Sá observou que conhecia o "gajo de algum lado". "Afirmativo" respondeu Saraiva, o cabo das telecomunicações, "parece o Toni", "nem pensar" disse o Capitão Alves, que com o seu estatuto de oficial é um intelectual: "é o Artur Jorge. Ele até andou a treinar umas equipas da Arábias." "Não, isso foi o Humberto Coelho, e até cortou o bigode, não pode ser"...
Entra o praça Silva e exclama: "olhó o Saddam!" E todos se atiraram para o chão... "E se metessemos o gajo numa adega qualquer para os lados de Tikrit e chamássemos os americanos, a malta não quer chatices, e isto vai dar um granel do caraças"... Dez comprimidos para dormir, uma data de horas com o homem num porta bagagens de um carro velho, com os guardas de bigode disfarçados de iraquianos, uma chamada ao telemóvel do velhote e resolvido o problema.
Parece que é verdade, até o antigo ministro da informação do Iraque disse: "sim eu vi com os meus próprios olhos que a Terra há-de comer, que Alá não me deixa mentir: eu vi um carro velho com quatro guardas da GNR levarem o nosso amado chefe, que os americanos, esses vis cães, nunca apanhariam vivo! Os portugueses da Guarda Republicana são uns génios!"




Ainda não li, mas vou ler 

Fica aqui a citação:
Crónica de A. M. Seabra no Público. Parece que vou gostar. O Seabra tem melhorado muito de prestação desde que eu aqui tenho brincado com o que escreve! Ou será pretensão minha? Deve ser, báa, vou tomar um café.

Uma breve nota sobre crítica 


A crítica não pode ser apenas elogio, sem análise, sem justiça. A crítica é um serviço público. A crítica deve sempre apontar caminhos, soluções. Quando é bom deve ser dito que é bom, quando é médio, medíocre ou mau, também deve ser dito. Só assim os artistas podem melhorar, podem perceber que os caminhos que trilham não são unânimes. Podem discordar, podem desprezar, é um direito que assiste a quem é criticado, mas não se podem eximir à crítica. A crítica faz-se a um fenómeno público e não privado. Os membros do público, onde também se incluem os artistas e os entendidos, precisam de ler, necessitam de caminhos alternativos ao seu percurso pessoal. A crítica abre horizontes, concorde-se ou discorde-se deve fazer sempre pensar e reflectir. E sobretudo ser justa, não pode ser encomendada, ou satisfazer interesses privados ou pessoais. A única crítica credível terá de ser sempre justa e fundamentada. Aqui criticamos como membros do público, damos a nossa visão do lugar onde vemos e onde escutamos os resultados. Somos descomprometidos, não procuramos lugares, não servimos interesses obscuros, amamos a arte e a cultura, gostamos de fotografia, de poesia, de teatro, de dança, dizemos o que pensamos, aqui e em toda a parte, da mesma forma. Somos severos com o desrespeito pelo público, sobretudo por quem tem a obrigação e o saber, sendo pago principescamente, para fazer mais e melhor. Detestamos a crítica tendenciosa, vingativa, malévola, por isso somos capazes de dizer bem de um amigo num dia e mal noutro. Reconhecemos que somos mais compreensivos pelos amadores ou pelos jovens que arriscam tudo nas suas primeiras aparições e que sofrem terrivelmente para conseguir um pequeno lugar que seja. Temos um fraco por quem faz as coisas com paixão e amor. Serão defeitos nossos que nos toldam a objectividade? Nunca deixamos de nos questionar. Do mal o menos, nunca deixamos de apontar os defeitos e pedir mais, sempre mais. Só a superação e transcendência leva ao ideal de perfeição. Nunca um artista deve ficar integralmente satisfeito com o seu trabalho. Nunca um crítico deve deixar de exigir mais. Por amor ao belo e por pedagogia.
Tantas reflexões, por isso é difícil criticar: num breve parágrafo tanta ideia, tanto desabafo, continuaríamos a escrever por muito mais tempo, estávamos tentados a meter exemplos e citações, tornar-se-ia maçador... Vamos ficar por aqui: se cometermos algum dos pecados que apontámos não deixem de nos criticar, de nos escrever. Nós estamos descontentes com o que escrevemos, como o que temos escrito. Queremos melhor, melhor gramática, mais profundidade, mais ensaio, mais música, mais teoria musical mas explicada de forma compreensível. Tentaremos melhorar este espaço. Não deixem de nos criticar, nós gostamos.

Manuel Pedro Ferreira - um crítico sorridente! Notícias do Dia de Hindemith 

Saiu hoje no Público a crítica ao último concerto na Gulbenkian comentado aqui. Manuel Pedro Ferreira é o autor, não tenho concordado com este colunista, penso que tem poucos termos de comparação, mas no caso do concerto na Gulbenkian até diz umas coisas acertadas. Ver página cultural do Público.

Este crítico tem o defeito de dizer sempre maravilhas de tudo o que gosta. A crítica não tem só duas cores: excelente e péssimo, em abono da verdade nunca vi Manuel Pedro Ferreira dizer que algo é péssimo, para este crítico tudo o que ouve é óptimo - conseguiu achar excelente o requiem de Ligeti pela OSP e com direcção de Peskó! Quando um dia ouvir algo realmente bom que palavras terá para se exprimir? As mesmas que usa corriqueiramente para os concertos da OSP ou da Gulbenkian? Por um lado acha que a coisa estava equilibrada, por outro diz que faltaram violas, eu penso que faltaram violoncelos, mas afinal em que é que ficamos? Equilíbrio ou desequilíbrio?
Exemplo: Notícias do Dia de Hindemith, achou que foi tudo munta bom, as vozes boas, o coro bom, direcção muito boa, encómios em tudo o que escreve. Não conheço pessoalmente Manuel Pedro Ferreira, mas creio que se trata de um rapaz simpático e sorridente.

A minha apreciação para essa obra de Hindemith é simples:
Solistas em bom plano, destaque para Carlos Guilherme cantor e actor. Ana Ester Neves, Dora Rodrigues, Luís Rodrigues, Mário Alves e Pedro Correia, bom nível. Coro certinho mas com vozes medianíssimas em geral e vozes feias e mal trabalhadas nos homens. Orquestra certa, sobretudo nos sopros e percurssões. Direcção de João Paulo Santos correcta. Encenação de João Lourenço muito competente. Ironia e graça. Um trabalho do Teatro Aberto competente e que valeu a pena ver e ouvir. Os cenários de Henrique Cayate foram, para mim, o melhor da peça. A encenação conseguiu por os cantores a representar de forma muito convincente. Os bailarinos também mostraram graça e talento. Um trabalho de qualidade, vulgar para qualquer teatro de uma capital europeia, sem deixar de ser agradável. É um trabalho muito pouco habitual para Portugal, é necessário que estas encenações se repitam.

João Paulo Santos consegue fora do S. Carlos um trabalho conseguido, ao contrário do que faz no Teatro Nacional. Exemplo: Notícias do Dia e Peregrinação da Rosa no festival de Mafra. Será psicológico? Terá mais tempo para trabalhar fora? Melhores meios? Terá falta de vontade de fazer melhor no serviço público? Terá excesso de trabalho em muitos lugares diferentes? Exclusividade precisa-se? Questões que deixo e que não sei responder.

13.12.03

Terceiro acto de Tristan und Isolde e um balanço geral 

Culturgest. Orquestra Sinfónica Portuguesa, Nadine Secunde - soprano dramático- Isolde, Robert Gambill - tenor heróico - Tristan, Dagmar Peckova - mezzo - Brangane, Peter Weber - barítono - Kurwenal, Johann Till - baixo - rei Marke, Christer Bladin - tenor - Melot e um pastor. Zoltan Peskó direcção musical.

O maestro

A primeira nota sobre a direcção de orquestra:
A lotaria deu taluda neste Natal. Um bom concerto sem dúvida nenhuma. Um primeiro acto digno, um segundo acto desastroso, um terceiro acto inspirado. Poucos ensaios, muito poucos, não se compadecem com Wagner se os músicos não sentirem segurança, se não abordarem a obra a arriscar a todo o pano. Pesko ainda não tinha dado essa segurança à orquestra. Mas ontem Peskó atacou a obra com um sentido muitíssimo diferente da última sexta feira. Ontem teve um cuidado extremo com as entradas, se não fosse muita pretensão, diria que até parece que leu este blogue! Arriscou, puxou pelos músicos e o efeito foi surpreendente: uma metamorfose completa, radical. Ainda nos assustámos quando a entrada do prelúdio foi feita por fases, com uma entrada em cascata, num efeito muito feio, em vez de ser a tempo em todos os intrumentos. Aliás esse é o factor a ser corrigido, a exactidão do timming ainda não é perfeita nesta orquestra, talvez falta de conhecimento da batida do maestro o que, para um titular, convenhamos que não é muito aceitável. Pesko tem de trabalhar mais com a orquestra, estar mais tempo em Lisboa. Não sabemos se o resultado de ontem foi fruto, também, destas semanas de trabalho com o maestro. Nesse caso dou os parabéns à direcção que conseguiu que o titular da orquestra passasse um mesito em Lisboa. É um mérito e quem ganha o ordenado mensal que Pesko ganha, mais de oitocentos contos, mais os milhares de contos por estreias e récitas e concertos, devia ser mais solicitado e responsabilizado. O que se prova é que quando o maestro quer, consegue fazer. O que prova também que é grave a displicência que exibiu anteriormente: Peskó ainda sabe dirigir, o que se passou antes é uma imagem de complacência intolerável num homem com o currículo que se lhe reconhece. Que siga na direcção que mostrou ontem e que o bom trabalho aumente e se repita. Que corrija os problemas de timming e de desafinação crónica e que colabore na resolução do problema de falta de qualidade do coro. Mas hoje está de parabéns. Se eu fosse o professor Marcelo dava 14 ao maestro no primeiro concerto 6 no segundo e 16 no terceiro, notas acima estão reservadas para alguns mortos e muito poucos vivos. Que Peskó não deixe ficar mal a esforçada direcção do teatro que o convidou, que deixe os portugueses satisfeitos com o destino do dinheiro dos seus impostos mostrando arte e competência são o meu maior desejo. A aposta da direcção ainda não está ganha, espera-se que Zoltan Peskó continue a partir de ontem a mostrar serviço. O que tem feito não tem sido brilhante.

Gambill faz um papel de uma inspiração total, uma entrega subtil mas completa, vai aos extremos da voz. A voz vem de todo o corpo, como ele próprio afirma, é um cantor de um nível elevadíssimo e não acredito que não consiga fazer um Ziegfried perfeito. A representação do papel, a confusão, a desorientação, o amor, a paixão, a angústia, tudo se sente naquela inteligência que transparece na atitude em palco e na música. Para mim foi o melhor deste ciclo.
Nadine Secunde, Isolde, esteve muito bem. A voz ontem estava um pouco anasalada, mas fez uma morte de Isolde de grande qualidade, podia ter sustentado um pouco mais o fá sustenido final e podia ter apianado na ascendência final. Mas nem todas são a Birgit Nilsson, e Nadine Segunde foi uma Isolde de muito boa qualidade.

Os cantores foram o melhor desta aposta, a direcção, neste plano, está de parabéns, já disse quase tudo dos cantores, ontem Peter Weber confirmou no papel de Kurwenal e na cena final do Roi Arthus de Chausson que é um barítono de altíssima craveira, voz potente e sensibilidade musical. Mais uma vez o baixo Till foi monótono e parecia ler o papel à primeira vista, sem interpretar os sermões e angústias do rei Marke.

Um palavra especial para o corne inglês (gostava de saber o nome): notável, o solo saiu perfeito, sonoridade muito bela, musicalidade, uma maravilha que me comoveu, apenas um ligeiríssimo fugir de uma nota, mais para a frente, que resolveu de forma airosa, talvez por ter o instrumento frio, a este músico daria um 19, não estaria mal em qualquer orquestra do planeta a tocar este mesmo solo (ou outro). O trompetista mostrou que outros dias já passaram e resolveu muitíssimo bem as dificuldades do instrumento e do papel. Mais uma palavra para a harpista: bom trabalho. A timpaneira Elizabeth Davis é uma maravilha de musicalidade, é uma beleza contemplar os seus ataques, eu diria que um prazer musical e estético. Perco-me a olhar para esta figura carismática da orquestra. Para ela iria a minha salva de palmas no início do espectáculo aquando da sua entrada.

E não poderia acabar esta série de comentários sem falar da acústica da culturgest: é inconcebível que uma direcção programe esta série, tão bem imaginada, tão bem acompanhada de textos de apoio, com tão bons solistas, para uma sala sem as menores condições para Wagner. O mais grave de toda esta série foi exactamente a acústica seca e transparente, caprichosa, variando de ponto para ponto nesta sala da Culturgest. É quase um escândalo que se programe Wagner para a Culturgest. A pior sala que conheço para este efeito. Denota uma falta de cuidado com um dos aspectos essenciais da recepção de Tristan und Isolde: as condições, as salas, depois de Wagner o drama musical já não é feito em salas à italiana, com hierarquização por classes, mas numa sala perfeita, igual para todos os assistentes, e com uma acústica de grande qualidade. Para isso Wagner construiu Beyreuth, a sala da culturgest pode ser igualitária, mas tem acústica péssima. Mais atenção a esses detalhes. Não é uma boa sala que faz afinar os violinos, ou que põe o coro a cantar bem, mas ajuda a receber a música, ajuda à envolvência da massa orquestral e da percepção da orquestração. A sala da Culturgest é demasiado seca e tem um coeficiente de amortecimento muito elevado. Wagner não passa na Culturgest.

E é com este balanço misto que termino esta série de comentários sobre este assunto. Farei uma apreciação mais resumida noutros locais.

P.S. Notei melhorias de afinação nos violinos, terá sido fruto de mais trabalho nesta semana?
Não faltou música no Messiaen?

12.12.03

Uma entrevista interessantíssima 

A Robert Gambill o Tristan que vai estar na Culturgest logo à noite (21h30m). Já provou ter elevadíssimo nível nas mais variadas interpretações. Diz o que pensa e como deve ser, é bom cantor, parece afável, não é amigo de vedetismos vãos e ocos. Tem sido um verdadeiro senhor do papel, a par de Secunde e de Peckova. Discutível a negação do que Wagner exigiu de forma tão insistente: "obra de arte total". Entre um bom tenor, Gambill, e o criador, Wagner, vou pelas opiniões do segundo. Richard Wagner fez um segundo acto com final feliz, para concerto. No entanto sabe-se o que Wagner fez quando estava necessitado de dinheiro: não pagou, fugiu de cidades, esteve preso, enganou amigos, dirigiu concertos sobre concertos (este último item não é necessáriamente mau!). Wagner é um mau exemplo em muitos aspectos, nomeadamente nas suas opiniões sociais e políticas. Mas em arte e música Wagner é e será sempre um génio, como o próprio não se cansava de alardear. E o que é certo é que mandou esconder a orquestra no palco da sua vida, Beyreuth.

Lawrence Foster - o maestro titular 


Lisboa, orquestra Gulbenkian, soprano Jennifer Ringo, violino Nikolaj Znaider, maestro Lawrence Foster. Michael Tilson Thomas canções sobre poemas de Emily Dickinson, Karol Szymanowski concerto para violino nº1 opus 35 e Piotr Ilitch Tchaikovsky, quebra nozes, segundo acto. Extra: recitativo e scherzo de Kreisler para violino. Ontem 21h, hoje repete às 19h. Recomendo o concerto, vou tentar repetir hoje.

Um soprano muito razoável, impressionou-me a interpretação poética, a projecção vocal e o profissionalismo de Ringo. A obra de Tilson Thomas, de 2002, confesso que não consegui apreender num contacto demasiado fugaz. Hoje escutarei de novo, devo dizer que gostei, mas sem ver a partitura sinto-me muito pouco à vontade para emitir críticas ou outras apreciações sobre interpretação.

Já o concerto de Szymanowski saiu muito bem, um jovem solista, 28 anos, interpretou com paixão, lirismo e arrebatamento uma obra complexa. O que mais me impressionou foi o som pujante e quente do violino de Znaider. Em Kreisler, extra, o violinista foi muito eficaz no recitativo, tendo sido brilhante na parte mais técnica que se seguiu. Uma promessa do violino mundial, quase uma confirmação, arrisco dizer.

Lawrence Foster, um maestro do qual já falei antes, um verdadeiro titular. Recebe o público como em casa. Ouvi dizer no intervalo "o nosso maestro", ele pisca o olho durante os aplausos, ele levanta o polegar nas costas do violinista para nos dizer quanto o músico é bom, com um sorriso maroto que nunca falha o alvo. É um maestro de uma vivacidade contagiante. Nota-se que a orquestra sente prazer na música enquanto Foster dirige. E isso é o melhor que se pode conseguir, ter prazer, quer na execução, quer na audição. Uma pequena maravilha de comunicação o que Foster faz.

Esta conversa leva-me à segunda parte do concerto, um Quebra Nozes tocado de forma arrebatada e romântica, tempos muito rápidos, alegria contagiante, energia. Ouvimos nesta segunda parte um misto dinâmico que nunca desceu ao piano, do pianíssimo nem se fala, estivemos sempre entre o mezzo forte e o fortíssimo com quatro "ffff". Tudo foi excesso, uma espiral vertiginosa. Mas muita alegria e prazer de fazer música.
Desacertos ritmicos, que houve, excesso de intensidade sonora, que houve, desequilíbrio nos naipes, sete violoncelos excelentes mas em pequeno número face aos catorze primeiros violinos e seis contrabaixos. Tudo se perdoa em face do prazer descontraído e com brio na música. Houve prazer naquela sala; entendidos e leigos, para todos o mesmo gosto ao escutar a orquestra Gulbenkian. Raramente a orquestra esteve a um nível musical tão elevado como hoje está. Os músicos de qualidade são fundamentais, os concertinos têm sido bons, mas o papel dos maestro é de grande importância.
Foster é um verdadeiro maestro titular da orquestra Gulbenkian, a prova: o "Feliz Natal" com que a orquestra brindou todo o público e a si própria, dito a plenos pulmões pelos próprios músicos, antes do Quebra Nozes terminar. Palmas do público, alegria, felicidade, acordes finais, mais palmas. É mesmo Natal.


Branca de Neve 

Um filme absolutamente genial de João César Monteiro, e barato! Além disso tem a incomensurável vantagem de poder passar na rádio!

Sublime. Não há dinheiro melhor gasto, ainda por cima ficou baratíssimo. Creio que por 25 mil contos, João César Monteiro ainda devolveu o dinheiro do subsídio que não gastou, que era de cinquenta mil contos. Espero que passe na retrospectiva, tenho de rever ou reouvir.


11.12.03

Leite de Faria - em tom de escárnio 

Este pequeno esgar poético de Leite de Faria não se explica, encontra-se e lê-se. Deve ser fruto de uma loucura passageira, não resisto a colocá-lo aqui. Perdoem-me os puristas.

333

Cavelo albo,
Trunsa hirfuta:
Retes pula!


As comparações de Jaquinzinhos 

Quando o nível do Jaquinzinhos chega ao extremo de comparar o seu esqui com a ópera em Portugal percebe-se tudo. Para o autor do tal blogue o esqui e a ópera estão no mesmo plano. Eu não quero bilhetes económicos para mim, quero para todos, eu tenho dinheiro para ir a Viena ou Beyreuth. A ópera em Portugal tornou-se num conceito algo nebuloso, infelizmente quase não vale a pena ir à ópera em Portugal. O problema é que, sem subsídio, os cantores, os músicos, a formação, o gosto pela música, a possibilidade de todos poderem fruir acabava. A possibilidade de melhorar, de criar, de gastar mais dinheiro dos contribuintes com a cultura em geral e a educação tem de ser mantida em aberto, só assim Portugal poderá formar elites, poderá civilizar-se, desenvolver-se. O esqui de um rapaz que não quer pagar impostos pode ser muito giro, mas não está no mesmo plano. Eu quero bilhetes baratos por sentido social e cultural. Jaquinzinhos quer esqui para si próprio.
Obrigado pela demonstração da razão dos meus argumentos.


Notícias do dia - Berlioz no Público e mais Wagner na culturgest 

Ver artigo no público. Percebe-se a histeria de Berlioz, percebem-se os ataques de nervos, os colapsos durante a execução pública do requiem. Faltou dizer que ele casou mesmo com Harriet Smithson, com a qual viveu uma vida bastante atormentada... O sonho e a realidade não combinaram bem.

Amanhã o final do tormento? Wagner na culturgest, será o trabalho digno que ouvimos no primeiro acto? Será uma exibição desastrada, com consequências desastrosas, de Peskó no segundo acto (na récita de sexta feira)? Uma lotaria? O terceiro acto é o mais atormentado, mas é mais fácil de dirigir que o segundo, a tensão erótica desapareceu, Tristan está ferido de morte, permanece a poesia. Surgem elementos novos: a desolação e a agonia, a violência do combate mortal e uma redenção em êxtase final. Mas aqui a partitura é mais explícita.
Percebe-se, em toda a plenitude aquilo que já se percebia: a tragédia dá-se no pensamento dos protagonistas. A carga moral que leva à morte é devida a uma culpa atroz que é reforçada pela tolerância do rei Marke. A morte é uma carga que advém do processo de vingança, a morte está impressa desde o início na tragédia. Tristan und Isolde, e o "und" no meio, como diz Wagner no poema, são personagens de uma solidão angustiante, e estranhas, heroicamente estranhas, quase mitológicas, mas, paradoxalmente, humanas.
Espera-se que a técnica sirva o ideal absoluto da arte. Não aconteceu isso no segundo acto, a técnica, na direcção de orquestra, falhou, a arte ressentiu-se de forma cruel. Quem procura apenas que se dêem as notas, e anda aos papeis com as entradas, não consegue inspirar nada de poético nos músicos.
Esperemos que se consiga ouvir Wagner sem arrepios amanhã, às 21h30m na culturgest. Último acto da versão em concerto e às postas de Tristan und Isolde. Bons cantores teremos de certeza absoluta. A direcção está de parabéns pela escolha dos cantores. Elisabete Matos faria melhor? Talvez igual, mas duvido que superasse Nadine Secunde no papel de Isolde. Uma aposta ganha.
Peskó o maestro, já se percebeu há muito tempo, foi uma aposta perdida para titular, que deixou ficar mal a própria direcção que o escolheu. Veremos se se inspira, se consegue inspirar a orquestra e se vai para o concerto de óculos.



10.12.03

Mais Leite de Faria 

221

Ferida
Sofrida
Vida

666

Hoje vi-te, ..., à margem.
Sentida e crua, ..., imagem,
Num Livro só, ..., perdida.

456

Por hoje basta!
De alma gasta e farto,
Escrevo, morro e mato.


A fotografia da semana por Rodrigues 

Recebida na terça feira, como sempre, por email. Metro de Tóquio, uma face perdida no espaço e no tempo.


Foto de Rodrigues


Em vertigem. Estamos em presença de uma daquelas imagens perturbantes, sobrecarregada de informação mas precisa no essencial. A luz, os letreiros em reflexo no vidro, a face perdida na leitura e o anúncio pendurado com uma face oriental são os elementos que me chamam mais a atenção.
Todo o ambiente evoca o oriente, um oriente moderno, tecnológico. Dentro da carruagem pessoas, absortas, distantes, mais distantes do fotógrafo do que a nossa imaginação do Japão.
A ideia de movimento, pressentido pela carruagem e pelas luzes desfocadas do lado esquerdo, contrapostas ao imobilismo do passageiro que lê. Estranha imagem esta: só podia ser do metro de Tóquio. Sabemos implicitamente que, mesmo sem sabermos o título da fotografia, estamos no metro de Tóquio.

E que música para escutar? Depois da vertigem da imagem e da imaginação preciso de calma, de evocação, de distância relativamente à pressão que a imagem me transmite: a iluminação artificial, o ar viciado deste metro superlotado. Sugiro um prelúdio, fuga e variação de César Franck (1822-1890), opus 18, para dois pianos com Claire Chevalier e Jos van Immerseel. Um disco da Zig Zag territoires.


Concertos na Gulbenkian 

Esta instituição prima por seriedade e qualidade, é muito raro, diria mesmo: é quase impossível, assistir a um mau concerto na Gulbenkian.
Assim na sexta feira feira passada, um excelente concerto com direcção do maestro titular Foster, maestro sobre o qual já falámos aqui. Hoje novo concerto, de alto nível, com o pianista Koroliov. Um programa com Mozart, Schubert, Debussy e Prokofiev, a terrífica sonata nº2 deste compositor que foi tocada de forma quase irrepreensível. Dotado de uma técnica soberba este pianista fez um bom recital. Apenas o achámos algo mecânico na sonata em lá menor de Mozart, k. 310. Abusou também um pouco do pedal da surdina, preferimos uma sonoridade mais despida, mas é uma questão de gosto. Sonoridade cheia e um touché delicado, um infinitésimo mais martelado do que o necessário, no nosso entender.
_______________________________________________
Aspectos negativos:

A indumentária de alguns músicos em concertos da orquestra Gulbenkian. Notei, nalguns músicos, a ausência da competente faixa da casaca sobre as calças, ficando com cinto à mostra. Também os sapatos dos senhores músicos são do mais díspar, uns têm sapatos de atacadores de polimento, como mandam as regras, outros de cabedal e atacadores mais ou menos de engraxar, outros têm sapatos tipo mocassim, o vulgar sapato de pala.
Nestes detalhes da disciplina, da etiqueta, se começa a ver para onde vai uma orquestra. Exemplo: uma agremiação voluntária: a Wiener Philharmoniker. Nesta orquestra o cuidado com esses detalhes é imenso. Os músicos podiam decidir, por votação, alterar o vestuário de concerto. Podiam tocar como quisessem, são uma associação livre de músicos. Mas têm um brio enorme na indumentária. Nunca vi um músico da Filarmónica de Viena apresentar-se sem faixa ou com sapatos de pala. Uma imagem abandalhada gera desconforto nos colegas e nos ouvintes.

Última nota: os seguranças continuam mal vestidos, gravata de nó mal dado e à banda sobre colarinhos desabotoados, camisolas verdes já coçadas. Sapatos mal engraxados, um aspecto degradante. Uma imagem muito má. Antes do concerto e no intervalo do mesmo, o público tem de se sujeitar a ser vigiados por estes indivíduos, como se fosse a normalidade. Não será possível pagar um pouco mais e ter dois ou três rapazes mais discretos, vestidos com um fatinho?

9.12.03

Ruben González morre 

Um dos melhores pianistas do mundo, Ruben González, cubano, faleceu ontem.


8.12.03

Memória Inventada mudou de morada 

Memória inventada passou o blog para o servidor do Paulo Querido.
Memória Inventada, um dos melhores blogues em português, continua nos blogues que me dão prazer ler. Agora com nova morada. E mesmo que eu tenha muita música para ouvir, sempre que leio "A memória..." continuo a escutar o . Quem faz música por prazer, transmite esse prazer. Isso é bom, faz-nos sentir bem com a vida.

Viena 

Ver programa de reportório da ópera de Viena, casa onde a orquestra da Filarmónica de Viena toca:
Ópera de Viena. Esta casa recebe da república da Áustria mais do que o estado português gasta com a cultura num ano.


Schmutzer - 1926 (site da Wiener Philharmoniker)

A Filarmónica de Viena, 149 elementos da orquestra estatal de ópera que se associam simultaneamente numa orquestra da sociedade dos amigos da música, a célebre Wiener Philharmoniker. Toca dez meses por ano, sete dias por semana, entre a ópera do Ring e concertos (ver Musikverein) por todo o mundo. Estes não recebem subsídios estatais porque os músicos recebem o seu vencimento através da ópera de Viena.


Musikverein - Capa do calendário de 2004


Fac simile da partitura da Terceira de Beethoven - Final - Ed. Musikverein

Ópera e Jaquinzinhos 

Respondo já ao jaquinzinhos. Se pretende que a ópera acabe em Portugal, tente fazer a coisa apenas com dinheiro do público, com bilhetes ao custo real: qualquer coisa como cento e vinte cento e trinta contos o bilhete, ou tente arrajar mecenas nos matarruanos (a maioria) dos empresários portugueses, liberais (inconscientes de o serem) na maioria.
Em nenhum país da UE se encontra ópera sem ser subsidiada. Faz parte de um património demasiado caro para se perder. É também uma forma de cultura demasiado cara para se manter por si. Chamem-lhe um anacronismo, mas sem dinheiro de todos nós acabaria. E não se pense que serve só alguns, de facto serve directamente muito poucos, deveria servir muitos mais, concordo inteiramente.
O que é facto é que manter um teatro nacional de ópera ou teatros nacionais ou uma companhia nacional de bailado ou orquestras nacionais, por exemplo, gera um capital incomparável, uma reserva cultural que a ser perdida representaria um atraso tremendo nas nossas capacidades culturais e no património de todos os portugueses, mesmo dos empresários de táxis que não querem pagar impostos.
Urge reformar, urge gerir melhor, mas nunca deixar de subsidiar antes de criar públicos e mecenas e isso leva gerações a ser feito. Quem decide? Todos, foi o modelo sufragado e legitimado em eleições. Se o povo quiser outro sistema votará em quem acabe com os impostos e os subsídios às artes e à cultura.
E já pensou o Jaquinzinhos no património edificado e museológico? A quem compete a sua conservação e restauro? A quem compete, maioritariamente, a sua propriedade? Aos privados ou ao estado? Mas se não há público para pagar as visitas aos monumentos, como privatizá-los? No modelo liberal o que não dá lucro deverá apodrecer?
E sobre a cultura: prefiro que se subsidie a cultura eterna, o que está provado que tem qualidade, como é óbvio. Não para elites fixas e enquistadas, mas tendo como alvo a formação de elites culturais a partir de toda a população. Chamem-me utópico e sonhador mas eu creio que o audiovisual, tem para mim, um alcance que deveria ser aproveitado para essa formação alargada de elites.
O incentivo aos novos criadores também deve ser função do estado. Sobretudo em áreas onde não existe espaço para afirmação por falta de indústria privada. Exemplo: o cinema. Depois de formado o público, trabalho de gerações, espera-se que haja espaço para se irem acabando os financiamentos estatais. Mas se acabam hoje, voltamos à idade da pedra.


6.12.03

Em Janeiro colocarei nome neste blogue 

Escrevi sempre neste blogue de acordo com aquilo que penso, com justiça e sem estar preso a qualquer limite, que não o da minha consciência e do sentido de justiça. Como já afirmei antes: o conteúdo e as ideias é que contam.
De qualquer modo o meu nome, no início, não dizia nada a ninguém, eu sou um perfeito e tranquilo anónimo. No entanto o número de visitas tem vindo a aumentar de forma significativa, muita gente está curiosa, estranho fenómeno este, em que um anónimo, cujo nome nada diz, deixa de o ser porque escreve de forma livre, mas ética, o que pensa.
O assinar por baixo poderia associar um projecto público ao qual estive e estou associado às minhas opiniões pessoais, como o projecto está quase a terminar, no dia em que acabar (em Janeiro ou Fevereiro de 2004) colocarei aqui o meu nome. Esta é a razão fundamental de não os ter colocado aqui, até este momento. Espero, calmamente, por em Janeiro (ou Fevereiro) passar a dizer que este é um blog de fulano, na coluna da direita. Já o tinha dito a muita gente, mas creio que é um facto totalmente irrelevante. Espero também em Janeiro (ou Fevereiro) poder passar muito mais tempo a estudar música que é a minha grande paixão. O que passa por escrever de forma mais ensaística e praticar mais música. Não tenho tido muito tempo para mim, infelizmente.
Há um tempo para tudo, e haverá um momento, já decidido há muito tempo por mim e por mais ninguém, para a revelação de uma identidade entre muitas.
E nem estou muito preocupado com assunto, ou não teria colocado o post com o divertido email de um leitor.

P.S. Alguns amigos já leram este post e pedem-me para não revelar o meu nome. Dizem eles: "se o fizeres o blogue perde a piada, deixa de ser mítico! Enquanto não se tiver a certeza absoluta sobre a autoria do blogue o mistério prevalece..." A minha resposta é a mesma: sou eu que decido, era uma decisão ponderada e antiga, que assim seja: Janeiro (ou Fevereiro, quando o tal projecto terminar).

Muito má interpretação de Peskó - maestro da Orquestra Sinfónica Portuguesa, bons solistas - culturgest 

O segundo acto do Tristan und Isolde desta noite saldou-se por excelentes cantores a ignorar uma regência vaga, incompetente, a dar entradas em falso, fora de tempo, atrasadas, sem ritmo sem musicalidade. Uma regência sem qualquer ideia da obra como conceito total, uma regência da mais fraca qualidade a que tenho assistido ultimamente. Sem musicalidade e noção do drama, sem tensão. Se fosse apenas a desafinação, se fosse apenas a trapalhada musical em alguns momentos, mas salva com alguma ideia, salva com momentos de alto nível (como houve na semana passada) ainda se poderia ter algum prazer na regência de Peskó. Uma direcção igual, sem contrastes, tudo lido da mesma forma, a despachar o papel.
O exemplo mais alucinante de ineficácia absoluta é a fanfarra de metais que se ouve por detrás do palco. Uma desgraça total, salvaram-se poucas notas certas entre a alucinação da asneira. Com as notas trocadas e o desacerto ritmico fazia-se outra música, talvez próxima do Jazz, isto se não ofendesse a boa música de Jazz.

E o resto não foi melhor, salvo alguns solistas nos sopros, o conjunto soou desgarrado, sem coesão. Não se percebe como a direcção de Peskó desceu tanto da semana passada para esta noite. As entradas não saiam certas, as notas eram atacadas fora do lugar no tempo e na afinação, mau demais para ser verdade.

Cantores excelentes salvam a noite. Autênticos heróis, cantaram apesar da direcção totalmente insegura, desacertada, sem técnica certa, com sinalética incompreensível. Peskó deu entradas ao soprano quando era o tenor a entrar e depois olhava para a partitura com ar espantado para se certificar do seu engano, e depois repetia a asneira com o tenor e por diante. Tanto dava entradas a tempo como dois compassos antes, ou mesmo atrasado, quando o tempo da entrada já tinha passado e a intuição e musicalidade dos cantores já tinha resolvido o problema. Errático, incompetente.

Peskó tem um currículo de alto nível, só vejo três razões para este descalabro: ou está a ficar com falta de capacidade para a regência, ou é complacente e não quer fazer melhor, ou precisa de óculos e não os usa em concerto. Será que não vê bem a partitura, já não decorando como antes a música? Eu até acredito na última hipótese, mas se precisa de óculos que os ponha e não dê a imagem de já estar a ficar incapacitado pela idade, ou pela incompetência.

Voltando aos cantores: foram excelentes, ignoraram Peskó e a sua direcção inconcebível, cantaram o melhor que puderam. Nadine Secunde estava com a voz menos cansada do que na semana passada, mas não foi tão empolgante no plano dramático. Gambill esteve muitíssimo bem, um tenor heróico a sério, voz boa em todos os registos e um excelente intérprete do drama expresso através da voz e da interpretação, o momento do encontro de Tristan e Isolde fez-me arrepiar de prazer, de comoção, tal a violência expressiva da música de Wagner e do empenho dos cantores. Já o baixo Johan Tilli esteve muito bem no plano vocal mas muito banal na interpretação musical, muito igual sem dramatismo, sem densidade. A mezzo Peckova esteve excelente, muito melhor que na semana passada, excelente vocalmente em todos os registos, incluindo o grave que nos tinha deixado um pouco desiludidos na última sexta feira.

A orquestra tem excelentes músicos. Mas com direcção assim, ausente na maior parte do ano, mediana em certos concertos e muito fraca noutros acaba por se perder o prazer de ouvir música pela OSP. E custa rios de dinheiro, para quê? Para isto, um desrespeito pelo público que acaba por se habituar ao medíocre e que quando ouve mediano acha que é uma maravilha... Um desrespeito pelo compositor e pela música. Um desrespeito pelos músicos da orquestra. Um desrespeito pelos solistas de altíssima qualidade que acabam por ter de cantar à defesa, sendo os momentos mais elevados de uma actuação muito má do conjunto. Mesmo assim Wagner ainda resistiu, e a sua música ainda me conseguiu seduzir em alguns momentos.

Não comento a Noite Transfigurada, foi tão mau que qualquer comentário seria uma perda de tempo, foi o pior do concerto, péssimo. Uma noite transfigurada pelas piores razões e para esquecer, da parte do maestro. Esperam-se melhoras no próximo acto.

O melhor foi ouvir, a seguir ao concerto, um grande amigo tocar (em privado e para alguns priviligeados) Vilalobos em guitarra clássica.

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?