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30.11.03

Notícias saídas entre ontem e hoje - Rozhdestvensky impedido de dar concerto em Lisboa por segurança da Gulbenkian! 


Notícia sobre fim dos concertos Em Órbita, entrevista com Jorge Gil saída no DN:
Texto de Bernardo Mariano.
Crítica do Público aos concertos com Jovens cantores no S. Luiz:
Texto de Cristina Fernandes.
A página cultural de ontem do Público está cheia de referências musicais: página cultural do público de 29 do 11.

Outra notícia não lida em jornais: o concerto de Gennady Rozhdestvensky com programa:


Quinta , 27 Nov 2003, 21:00 - Grande Auditório
ORQUESTRA GULBENKIAN
GENNADY ROZHDESTVENSKY (maestro)
ALEXANDER ROZHDESTVENSKY (violino)

Wolfgang Amadeus Mozart
Divertimento em Mi bemol Maior, K.113

Arnold Schönberg
Sinfonia de Câmara Nº 2, op.38

Jean Sibelius
Humoresques, para Violino e Orquestra, op.87
Humoresques, para Violino e Orquestra, op.89

Johann Strauss II
Hommage au Peuple Russe (arranjo de Gennady Rozhdestvensky)

CANCELADO porque um segurança impediu o maestro de entrar alegando que este não tinha cartão ou algo que o valha! Pobre Fundação Gulbenkian, nem se pedia que fossem buscar o maestro ao hotel, era o mínimo mas..., pedia-se que estivesse alguém do serviço de música para receber a importante personalidade e grande músico, homem que ficará na história da música.

Parece que só Alfred Brendel tem tratamento de "superstar", o que é certo é que depois da ofensa inqualificável ao genial russo este se sentiu mal, humilhado, indisposto, ofendido. Com toda a razão, retirou-se e não deu concerto. Parabéns a Gennady Rozhdestvensky, ainda há gente com categoria.

Nota negra para a Fundação Gulbenkian, que se permite ter empresas inqualificáveis com homenzinhos vestidos de verde sem perfil, sem formação, sem educação, a patrulhar as suas instalações. Gulbenkian que não tem gente para acompanhar homens da envergadura de Gennady Rozhdestvensky, ou que não dispensa sequer um funcionário para receber o maestro. Depois andaram os senhores directores de joelhos a rastejar junto do maestro para ver se este dava o tal concerto, repugnante, triste, repelente.
O Vilar estava no concerto do Brendel, terá sido dele a ideia de importar a segurança privada e primitiva, ignorante e imbecil para vigiar a casa, para vigiar os funcionários? O público? Deve ter medo do Bin Laden, como se os macacos pudessem fazer qualquer coisa em situações de perigo real, como se tivessem preparação para isso! Servem apenas para importunar, com a sua visão, quem quer assistir a um concerto: ver acéfalos disfarçados de carcereiros como se a Gulbenkian fosse um hipermercado da Porcalhota! Se foi assim deve ter trazido a ideia peregrina de ter os gorilóides à porta de uma qualquer instituição bancária. É a mentalidade de merceeiro, resulta no que resulta, e já se esperava, mais dia menos dia.
É vê-los nos concertos à porta do palco. Infame, nem sequer estão vestidos com a dignidade que um concerto pede. Triste demais para ser verdade.
O dinheiro do bilhete ao menos foi devolvido. Quem queria ver o mestre na quinta e tinha bilhete para o Tristan na sexta (dia em que outro concerto estava programado) ficou a ver navios...
Mais respeito pelas pessoas é o que se pede à Fundação Gulbenkian. Pede-se que não seja acéfala, muito pior que os seguranças que agem assim porque nunca foram ensinados a ser melhores, ao permitir que gente de baixo nível enxameie e manche a honra da instituição. Será que era isto que Azeredo Perdigão queria? Nunca esperei ver a direcção da Gulbenkian ter como denominador o QI médio de um segurança privado, ou que seja dirigida, não por um conselho de Administração mas por um bedelzeco, por um lacaio, um chefe do pessoal menor, convencido que está a dirigir um campo de concentração da gestapo. Mas assim acontece, uma tristeza.

Na Fundação dos tempos de Azeredo Perdição nunca vi gorilinhas disfarçado de carcereiros...

Um leitor escreve email sobre crítica ao concerto na culturgest 

Num texto notável um leitor escreve email a este blogue. Abro excepção de responder aqui, devido à pertinência dos temas apontados.

Com toda a razão aponta aspectos muito decisivos, que eu não foquei, mas dos quais me apercebi:
A acústica da sala da culturgest, é realmente de uma secura tremenda, pior do que isso, tem um coeficiente de amortecimento e de absorção sonora imensos, diria estarmos numa câmara anacóica. Quando um cantor vira a boca para o lado contrário à nossa posição quase que o deixamos de ouvir. A reflexão, factor essencial no projecto de uma sala de espectáculos, não existe. Mal concebido este anfiteatro, penso que se trata de uma questão de materiais.

É errado por parte da direcção do teatro agendar concertos para encher programas em salas sem condições, concordo.
O CCB será melhor, espero. Os concertos no CCb foram os que mais me agradaram devido ao factor acústica.

Naipes a melhorar: os violoncelos sempre foram um dos melhores naipes das cordas, os contrabaixos também. As violas têm subido de nível, novos instrumentistas não serão alheios a esse fenómeno e concordo com o leitor.

O concertino foi apupado por algum público, aquando da sua entrada em cena, creio que sim, mas o que se espera da vaidade oca, sem correspondência no trabalho, sem correspondência nos resultados. O público começa a fartar-se. Mas não é função do crítico referir os comportamentos do público.

Não comento muito o coro, não perco tempo com o inexistente. O "director" já mostrou a incompetência até à exautão (com raríssimos assomos de brio), é mau, muitos cantores não têm brio profissional e nem sequer se apercebem da sua falta de capacidade para o canto, a crítica no Expresso, no Público, no Diário de Notícias tem referenciado o facto. Devia ser despedido, como o leitor diz, ou promovido para um lugar inócuo como se faz em Portugal, não há dúvida. Esperam-se pateadas se subir ao palco, já fazem falta.

Brendel na Gulbenkian 

Porque raio canta o tipo tão mal?! Que desafinação, que grunhidos, e manda calar as tosses, e interrompe um rondo de Beethoven porque as tosses não davam descanso! E muito bem. Mas os roncos e grunhidos que emite, desafinadíssimos, estragam completamente qualquer audição em condições, para quem tem ouvidos sensíveis e se deixa enervar por desafinação aquilo é irritante.
Será que não levava reguadas quando cantarolava nas lições de piano? Eu e os míudos da minha geração apanhávamos reguadas por muito menos... Se calhar é por isso que o Brendel é um génio e eu ando para aqui a escrever num blogue.
E deu notas trocadas na sonata k.331 de Mozart, não se admite que, numa obra fácil, Brendel dê notas trocadas. Não comento mais nada, o concerto até foi muito bom, poderia falar do domínio do piano. No discurso despojado de artifícios e de disfarces, com a sonoridade nobre e sentimental de um piano nu. Nu de pedais, com um toque de uma clareza ímpar. Mas não me apetece, grunhiu demais, o que me impediu de o ouvir com toda a força dos meus sentidos.

P.S.: Já me esquecia: achei os andamentos lentos tocados de forma excessivamente rápida. Mas é altamente subjectivo.

29.11.03

Um Wagner digno - Concerto na culturgest - parte I 

Sexta feira, dia 28 de Novembro de 2003, 21h30m. Estavam presentes, primeiro ministro e jarra, ministro da cultura, secretário de estado da cultura, adjuntos, directores da culturgest e do S. Carlos, os melómanos, os músicos que queriam ouvir, os jornalistas, os críticos, jovens compositores.
Uma palavra para Vasco Barbosa: o verdadeiro concertino da orquestra sinfónica nacional durante anos, já reformado, estava sentado entre os primeiros violinos, não sabemos porque motivo, mas é de saudar a presença do Músico e Mestre na orquestra onde passou grande parte da sua vida. Não quis faltar ao chamamento de Wagner e a direcção aceitou, acho notável, acho mesmo comovente ver o grande senhor regressar ao lugar que nunca deixou nos corações de quem ama a música e onde estará sempre.
Enfim, ninguém quis faltar.
Analisemos o concerto: Henri Duparc L'invitation au Voyage e La vie antérieure. Solista Mezzo Dagmar Peckova.
Interpretação muito fria, distante, orquestra muito a medo a falhar entradas que saíam a medo, sem os instrumentos todos. Solista com voz fraca, débil, sem emissão constante, graves muito maus a desafinarem e sem a menor pujança. Algum lirismo, a segunda obra saiu melhor. Não terá aquecido convenientemente a voz, não preparou a obra convenientemente, ou a cabeça posta no Wagner que se seguia estragou a concentração de músicos e solista? A preparação do Tristan fez dedicar menos tempo a Duparc? O resultado saiu frouxo. Estas obras de Duparc, de um intimismo sombrio, de uma cor deslumbrante nos tons escuros teve apenas a defesa de os naipes graves de cordas estarem a um nível nunca antes visto: contrabaixos e violoncelos (estes falharam um pouco num capítulo que analisarei mais à frente) estão a tocar superlativamente bem como naipes. Wallenstein e Irene Lima de parabéns pelo trabalho excelente. As violas têm subido e contribuem para a coesão do conjunto. O primeiro viola tem mostrado um nível muito elevado. Esta característica da orquestra fez defender bem quer as obras de Duparc quer disfarçar um pouco as carências no compositor seguinte: Debussy.


Já o Prélude à l'Après-midi d'um faune de Claude Debussy saiu um tudo nada melhor no capítulo segurança, mas com pouca cor, também muito a medo, arrastado, os primeiros e segundos violinos pareciam 200 em vez de soarem com a coesão de um instrumento. Capítulo "desafinação" (já nem escrevo "capítulo afinação") saiu muito fraco, no meio da transparência de Debussy a desafinação nos primeiros violinos é uma catástrofe. O "concertino" ou anda a dormir ou não tem ouvido, uma vez que não trabalha este gravíssimo mal crónico do seu naipe. Que ponha os olhos e os ouvidos na orquestra Gulbenkian, mas o que é certo é que nunca vi o concertino DeVries em qualquer outro concerto que não da Sinfónica Portuguesa. Talvez vá, mas nunca o vi, e é uma crítica directa que faço aos músicos portugueses: raros são os que vão a concertos para ouvir os colegas, faz bem escutar o trabalho dos outros. Gostei das harpas, os sopros seguraram bem a obra dos ataques do maestro, algo incaracterístico em Debussy, tempos arrastados e falta de cor orquestral, falta de qualidade sonora dos violinos, afinação deficiente. Quase que diria que o maestro comunicou falta de amor por Debussy e pela sua paixão arrebatada e sensual. Se o prelúdio pretendia ser uma orgia sensual de sons para um fauno lascivo o resultado saiu um fauno gordito, com pouca capacidade de se movimentar, acabadito de comer uma feijoada bem regada com vinho húngaro (nacionalidade do maestro Pésko) e que se deixou dormir a ressonar à sombra, não de um carvalho mitológico, mas de uma azinheira de sombra convidativa no sol de Agosto no Alentejo. Querem melhor que isto? Talvez o Debussy quisesse um pouco mais, mas é a maneira húngara/portuguesa de fazer a coisa.

Um Wagner digno - Concerto na culturgest - parte II

Vamos agora a Wagner, solistas:
Robert Gambill, tenor heróico, Tristan
Nadine Secunde, soprano dramático, Isolde
Dagmar Peckova, mezzo soprano, Brängane.
Peter Weber, baixo, Kurwenal
Christer Bladin, tenor, jovem marinheiro.

Se eu tivesse escutado apenas o prelúdio e a entrada do jovem marinheiro tinha ficado com a convicção que o primeiro acto de Acção em Música de Richard Wagner: Tristan und Isolde, teria sido uma absoluta desgraça.
O prelúdio arrastadíssimo, sem paixão, sem pathos, sem vibrato, sem chama, as notas saíam, as entradas sucediam-se a um ritmo arrastado, mas saía tudo sem convicção. Melhor a afinação dos naipes de cordas nos agudos, com excepção para os violoncelos, sempre tão bem, que, paradoxalmente, se espalharam ao comprido neste momento inicial e tão definidor desta obra de Wagner, os agudos dos cellos sairam desastrosos, pareciam gatos a miar ao mesmo tempo que arranhavam vidraças, felizmente melhorou na sequência.
O jovem marinheiro cantou por detrás da orquestra, a seco, e entrou mal, péssimo, gritado, desafinado, uma voz feia esganiçada, sem colocação, fria talvez. Muito mau, espero que melhore hoje, porque na sua segunda intervenção saiu muito melhor e mostrou ter potencial. A entrada é muito exposta e Wagner não poupou o tenor que tem este pequeno-grande papel. Cabe a este tenor dar a primeira imagem canora numa obra de uma dificuldade extrema para o canto, como é o Tristan. O resultado, como cartão de visita, não podia ser pior.
Entra então Nadine Secunde no papel de Isolde, também com voz fria e cansada, timbre feio, e eu a pensar: onde é que eu vim parar, que pesadelo é este? Mas algo era diferente, a sua presença, o aquecimento progressivo da voz, a sua inteligência dramática, o seu representar de forma notável o sofrimento e o sarcasmo quando enfrenta Tristan, o segurar gradual do papel. A paixão e o gosto pela música, o dramatismo, o colorir do registo médio que se foi enchendo de som e de harmónicos quentes e pujantes, o ataque preparado, ou não, das notas agudas, com inteligência e sobretudo: com uma colocação na afinação exacta fizeram esquecer algum cansaço na voz, algum grão, algum fugir da colocação, não sei exactamente porquê: constipação? Ensaios a mais? Disseram-me que na véspera, ensaio geral, esse cansaço não se tinha notado. Pena não poder ir hoje ver o segundo dia, tenho Brendel na Gulbenkian, porque Nadine Secunde é uma senhora soprano dramático. Coisa quase impossível nos dias que correm. Inteligência e capacidade interpretativa, intuição musical para escapar às entradas algo vagas de Pésko.

Sobre a Mezzo, já ouvida em Duparc, pouco a dizer, correspondeu, mas veremos mais e melhor no segundo acto, onde tem muito mais música para dar, próxima semana.

O tenor: Gambill, já o tinha ouvido anteriormente, nada a dizer, ou tudo a dizer. O único do mundo neste papel... hoje. Impressionou pela potência, pelo corpo da voz, espessa abaritonada no registo médio, cristalina no agudo. "Presente" disse Gambill. E foi presente neste primeiro acto. Boa interpretação, altivo no momento certo, apaixonado no instante do amor e confuso quando lhe apresentam a realidade. Veremos o que nos reserva a próxima semana. Mas tudo aponta para uma viagem pelo Tristan, ao longo de três semanas, como fascinante. Estes intérpretes fazem ganhar claramente a aposta.




O baixo Weber em Kurwenal foi impressivo, voz altiva, profunda, sonora, convincente é a palavra. Mais para a frente faremos maior apreciação.

Comentário aos aspectos técnicos do maestro Pésko, a concepção global será vista mais à frente. Este começou mal, apagado, sem motivar, complacente, fossilizado. O pior temia-se, mas, com o evoluir do acção, com a envolvência da música a tornar-se mais clara, com o dissipar de algum nervosismo, com o canto ilustre de Secunde a dominar o acto, a orquestra começou a deixar de tocar a medo e desinibir-se. O maestro também, sem gestualidade excessiva, foi conseguindo mostrar porque motivo até tem o currículo que tem, foi-se libertando da complacência e mostrou serviço competente. Os ensaios definem quase tudo, mas o concerto, com os aspectos únicos que contém, pode transformar o trabalho prévio, quer no caminho da transcendência quer no caminho do descabalabro. Pésko tem andado pelas meias tintas. Ontem na culturgest mostrou lampejos de brilho e gostei. Os cantores também contribuiram. Pede-se mais rigor nas entradas ao maestro. Pontos altos da orquestra: sopros com clarinetes e oboés em grande plano (espera-se um solo deslumbrante de corne inglês mais à frente, estou de ouvidos à escuta, toda a gente espera esse solo mágico de Wagner como se espera o Messias), cordas graves, viola, violoncelo. Os trompetes responderam com categoria ao desafio (ao contrário de outros...). Os tímpanos foram percutidos com maestria por uma vigorosa e musical Elisabeth Davis a um plano perfeito.

O coro masculino dos marinheiros foi uma catástrofe horrenda, uma gritaria de marinheiros bêbedos não faria pior numa tasca qualquer de alcântara ou do Cais do Sodré, cantaram por detrás do palco. Mas eles acham que sabem cantar? Ainda bem que não apareceram na boca de cena para agradecer (o quê?), seria demasiada falta de vergonha. E andamos nós todos a pagar esta gente dos nossos impostos, é ofensivo.

Uma boa interpretação, uma noite ganha, um Wagner dignificado neste ensaio com público.

Wagner em concerto? Ou a revogação de uma ideia de obra total.

Tristan und Isolde em concerto em lugar de em Acção. Wagner quando criou as suas últimas obras, dramas musicais tinha elaborado uma profunda teoria sobre a "arte total" que a Acção em música supunha:
Teatro, música, cenografia, pintura, arquitectura, todos estes elementos se conjungam para compor a obra de arte total. A realidade do drama não admite a presença da orquestra como elemento visível, mesmo no fosso esta é demasiado impositiva, a orquestra deve estar escondida debaixo do palco. O discurso melódico é infinito, acabem-se com fantochadas herdades da ópera italiana, com árias para os cantores levarem palmas no fim.

Em Wagner a música só acaba quando acaba a Acção, no final de cada acto. Tudo decorre com a fluidez do tempo da tragédia, sem interrupções sem o incómodo de um público de burgueses imbecis que aplaude cantores vaidosos e igualmente imbecis. O que conta é o tempo do drama e a música, o que vale aqui é a perturbação dos sentidos pela música e por uma tensão tremenda que Wagner coloca sobre o espectador, criando clímaxes e anti clímaxes, cromatizando a orquestra com modulações contínuas e com acordes de grande tensão sem resolução, com tempos complexos, com texturas densas em que a fonte do som é perturbante. Mistura estes conceitos com algumas ajudas que vai dando ao espectador, e que servem também para unificar e, diria eu, axiomatizar o drama, falo dos motivos condutores, que se repetem. Na Tetralogia, exemplo extremo, estes motivos acompanham-nos da primeira à última obra, quatro dramas. Notung a espada, o amor, a angústia o sofrimento de um deus, um dos mais belos e atormentados motivos que algum compositor escreveu, o fogo, é imensa a lista. Esses leifmotifs dão, dentro da angústia da descoberta e da insegurança, uma nota de conforto e de reconhecimento.
Nada nestas teorias se compadece com uma execução pública em concerto, com uma orquestra impositiva e um maestro deselegante, como o caso destes concertos do Teatro Nacional de S. Carlos. Qualquer encenação com a orquestra metida no fosso, e os cantores em palco, só com luzes e vestidos de branco e preto sairia muitíssimo melhor, e tão barata, como os concertos a que assistimos. O coro poderia continuar escondido por detrás do palco, para não se ver sequer a cara de quem canta tão mal (até se poderia passar uma versão gravada por um coro bom das partes corais, o que não estragaria tanto a obra).
Tristan é uma obra depuradíssima, ascética, a orquestra não tem de ser gigantesca, nem sequer tubas vagnerianas inclui. O único adereço do primeiro acto é um copo! Porque motivo não se seguiu o ideal de Wagner de fazer obra teatral e nos pespegaram com uma orquestra inteira em palco? Sem Acção.
Só admito este conceito por uma razão: por se tratar de um ensaio com público para um trabalho futuro, um trabalho de preparação. Senão seria escândaloso e retrógrado, renegar tudo o que Wagner disse e escreveu para apresentar o Tristan como definitivo nesta versão. E aqui vamos de novo ao maestro e a falta de concepção que revelou.
Pésko e a sua falta de concepção global. Wagner não pode ser executado como quem está a ler à primeira vista, é necessária uma concepção, uma tensão, uma ideia condutora. O que aconteceu na sexta feira foi uma leitura correcta, uma leitura em que se poliram aspectos técnicos, em que se a música foi saindo, mais ou menos como foi escrita, mas sem ideia, sem plano. A tensão não existiu em termos globais. Em momentos, em lampejos, a coisa saiu muito bem, mas o conjunto da leitura de Pésko foi fraco porque sem ideia e sem coesão. Era o primeiro acto, não quero falar cedo demais, espero os outros para poder ser preciso. Mas a tensão infinita da obra precisa de ser reforçada.

Um bom ensaio com público.


28.11.03

Tristan und Isolde - Jenseits von gut und böse 

O amor, a redenção, a cupidez, a inveja, a glória, a não existência de Deus ex Machina quando nasce o demónio ex machina, as convenções ou a sua trangressão, o imaterial, a poesia, o trágico, a moral ou a sua ausência. Para o comum dos mortais Wagner não representa nada disto.

O ser vulgar não se dá ao trabalho de ler, de ouvir, tem a imagem feita, óperas longas, música pesada, a facilidade da digestão de um Mozart não se encontra em Wagner, a rudimentar linguagem do ruído musical de hoje, primitivo e analfabeto, bestializou, facilitou. Hoje é mais fácil encontrar alguém que diga que detesta Wagner do que alguém que ame a música deste compositor para além de todos os limites, incondicionalmente, absolutamente. É fácil detestar: Hitler, anti-semitismo, racismo primitivo, traições pessoais e ideológicas. Sim é confortável dizer que se detesta Wagner. É simples dizer que o homem não se pode separar da obra, a posição do acomodado, do escravo, como diria Nietsche, que também passou do amor ao ódio, relativamente a Richard Wagner.

E Wagner não conhece limites, a sua música e a sua poesia atingem paroxismos em que ficar indiferente é impossível.

Escuto neste momento Wagner por Birgit Nilsson e Windgassen dirigidos por Karl Böhm num Bayreuther Festpiele de 1966. E não, não consigo ficar indiferente, para além de todo o bem e de todo o mal, Wagner é. A clareza da língua e do texto é total, não encontramos quartetos ou trios ou duetos em que o poema se mistura perdendo-se integibilidade. Escuto o alemão sonoro, rutilante e musical de Wagner, sinto a Cornualha num tempo mítico algures na idade média, uma Cornualha muito germânica (demasiado). Arrepio-me com os acordes transcendentes, com a harmonia tensa, com a paleta mágica dos timbres, com os oboés que gritam a alma atormentada de dois amantes e a traição da amizade, para além do bem e do mal, tudo está dito num instante onírico de um segundo e percebe-se (julgo eu, pobre louco) toda a obra. Não é uma ópera, não é um drama, é acção em música, como disse Wagner.

Não, hoje já não há tempo para escutar Wagner, tudo voa, as semanas, os dias, as horas, os minutos. A morte chega depressa demais, Wagner foi um dos últimos representantes de um tempo que não existe, um tempo em que havia tempo.

Será que hoje à noite, 21h30m, a magia será atingida na Culturgest? Será que o primeiro acto de Tristan und Isolde se poderá escutar com qualidade? Dirigida por um Soltan Pésko que se tem apresentado fossilizado e complacente? Wagner mal dirigida, mal interpretado é uma ofensa demasiado grande para se poder suportar. Mas tenho esperança, espero que se consiga ouvir, que se consiga amar...

Haverá tempo para o tempo de Wagner?



27.11.03

Castanhas na região do Saldanha 

As castanhas assadas compradas em Lisboa fazem-me sentir parte do Mundo. Fazem-me sentir vivo. Derrida e Lacan não foram capazes de teorizar e desconstrutivar, ou mesmo de entender, esta súplica aos elementos, esta lauda aos castanheiros, este eterno retorno às origens que a castanha assada evoca. A fusão com o negro carvão e o marinho sal é também um resquício telúrico de outros tempos, de outros espaços. O ar do fole. O fogo, a terra, o ar e a água. As castanhas lembram-me os monstros da nossa imaginação, lembram-me as cartas dos geógrafos medievais.

Comento hoje, então, as castanhas da região do Saldanha. Local: porta do Monumental, preço: 1.5€ a dúzia.
Primeiro contacto, o pedido:
- "Uma dúzia de castanhas bem medida."
Resposta rápida e agressiva da vendedeira:
- "Olhe menino eu não tiro castanhas aos clientes, eu sou séria!"
- "Não queria dizer isso, senhora, eu só queria treze castanhas."
- "Olhe menino eu não tiro castanhas aos clientes, eu sou séria!"
Bem, como ela tinha um martelo ao lado das castanhas não insisti.

Apreciação crítica:
Precisavam de mais sal.
Precisavam de um pouco mais de assadura, estavam um tudo nada encruadas, mal se notava, coisa que uns dois minutos e meio de assadura a mais não resolvessem.
Castanha para o gordito, não apresentavam podres ou chochas. Classificação agradável para o bom.

Tentei comprar castanhas mais à frente, junto da Casa da Moeda, estação dos autocarros: pediram-me 2€, achei demasiado caro, uma roubalheira, virei costas. Não posso fazer mais crítica de castanhas hoje.


Harmonia Mundi e Schütz 

Um disco duplo fascinante, um Heinrich Shütz com trinta e quatro anos (não o que se vê na pintura, um pouco mais velho), numa posse total das suas faculdades. Um lindíssimo Schütz, um diapason d'or, uma editora galardoada com o título de "record Label of the year" 2003, pela Gramophone, uma "major" que ainda tem catálogo, que ainda edita música e não a porcaria que, por exemplo, a Deutsch Gramophon passou a editar ultimamente. Um disco com: Salmos do Rei David swv 22-47.
Um Cantus Cölln seguro, ao seu melhor nível, solistas de grande qualidade. O Concerto Palatino, ensemble de cornetos e sacabuxas (trombones) junta-se ao Cantus Kölln e numa mistura riquíssima de tímbres, em que violinos, violas da gamba, contrabaixo, dulçainas, flautas, cornetos, trombones, trompetes, tímbales, orgão e teorba juntam a sua voz ao coro de nove vozes, 2 sopranos, 2 altos, 3 tenores, 2 baixos. Konrad Junghänel dirige todo o conjunto.
Uma segurança enorme na interpretação, um empenho total, firmeza é a apalavra que descreve este disco. Maturidade de Schütz, maturidade do Cantus Cölln e do Concerto Palatino. Uma interpretação "à alemã" sem sobressaltos ritmicos, muito uniforme, muito severa, séria. Mas com uma técnica impressionante, uma qualidade sonora de altíssimo nível. O que ressalta é sobretudo a qualidade do som e a homogeneidade do conjunto de vozes.
Um defeito, no meu entender, grave: a teorba não se ouve muito, se queriam incluir teorbas no contínuo deveriam ter usado mais de um instrumento, ou então seria dispensável.

A ouvir a faixa 8 do primeiro disco, "Celebrai o Senhor, porque é bom", swv 45, e perceber as origens de Bach. Excelente.


26.11.03

Próximos posts:
Wagner sem Elisabete Matos, sexta e sábado na Culturgest, Lisboa.
Sábado: Alfred Brendel na Gulbenkian e Ópera no Teatro Aberto, Lisboa.
Mais discos novos da Alpha, Paris.
Um disco novo da Portugaler, Carlos Seixas, por Segreis com Manuel Morais e João Vaz, Lisboa, já falado, ainda não criticado, parece-me bastante bem.
Mais Poesia de A. Leite Faria, São Martinho do Porto (?).


25.11.03


Rodrigues



Fotografia 


A partir de hoje contamos com fotografia original neste blogue. Um grande obrigado a Rodrigues, a felicidade que dá a todos os leitores deste blogue, por nos mostrar as suas imagens.
O objectivo era que um dos criadores do blogue comentasse as fotografias, mas preferimos deixar os leitores sonhar.

Compositores portugueses no estrangeiro 

Recebi por email a seguinte informação que disponobilizo aqui, concerto de música portuguesa em Londres. Ver também em home page do Royal Festival Hall.

SAT, 29 Nov, 2003

3:30 pm Purcell Room - South Bank Centre

Royal Scottish Academy Brass & The Galliard Ensemble

Series: Atlantic Waves 2003

Carlos Azevedo / Jazzi-metal (1999)
Luís Tinoco / ...the Fertile Land (1999)
Antonio Pinho Vargas / Two Family Discussions (2001)
Nuno Corte-Real / Five Little Pieces of the Sea (2001)

Interval

Luís Tinoco / Autumn Wind
Antonio Pinho Vargas / Three Fragments
Sergio Azevedo / Aspetto
Luís Tinoco / Light - Distance
Alexandre Delgado / The Panic Flirt
Eurico Carrapatoso / Cinco Elegias

John Wallace trumpet
Mark O'Keeffe trumpet
David Flack horn
Lance Green trombone
David Dowell tuba

Kathryn Thomas flute
Owen Dennis oboe
Katherine Spencer clarinet
Helen Simons bassoon
Richard Bayliss horn

Royal Scottish Academy Brass
The Galliard Ensemble

Royal Scottish Academy Brass is a brass ensemble of flexible size comprising senior members of the brass faculty at the Royal Scottish Academy of Music and Drama. All the players in the quintet, led by international trumpet soloist and RSAMD Principal, John Wallace, are distinguished soloists and orchestral musicians who occupy principal chairs in the Royal Scottish National Orchestra, BBC Scottish Symphony Orchestra and Ulster Orchestra. As well as being active as chamber musicians in a variety of groups such as the Paragon Ensemble and Hebrides Ensemble.
Having recently been selected for the BBC's New Generation Artist series, The Galliard Ensemble has been firmly placed as one of Britain's leading young chamber ensembles.

'Pure pleasure ... This, in short, is wind quintet playing of great distinction... Strongly recommended'. (Gramophone)
'The young Galliard Ensemble's performances are revelatory. Stunning music and extraordinary playing'. (The Observer)
Promoter: *Calouste Gulbenkian Foundation (charity)

CM

As carapuças de um liberal! 

O Liberdade de expressão brinda-nos com mais um mimo em que procura comparar o incomparável:

A ler na revista do Expresso
A diferença entre a atitude jacobina e a atitude liberal perante a liberdade religiosa.
Em França, as adolescentes muçulmanas vão ser proíbidas por legislação especial de usar o véus islâmico nas escolas públicas.
No Reino Unido, por decisão dos tribunais, os polícias Sikh podem usar turbante.


Esquece João Miranda que as meninas são obrigadas a usar o véu mesmo que não o queiram, por imposição das famílias. E sei do que falo. Vejamos o que se passa na Meca dos Liberais que é a Áustria. Conheço raparigas sauditas que no seu meio social ou na escola usam o véu, no entanto quando saem de casa à noite, no Verão, a primeira coisa que fazem é tirar o véu sem que os pais saibam. Gostam de usar roupas descontraídas. Têm discussões em casa porque os pais as querem obrigar a andar com aquela tralha em cima, isto com temperaturas de mais de trinta graus, como este último Verão. Deprimente. O liberalismo levado às últimas consequências parece levar à cegueira e ao desvario, chega a ser pateta. Tudo serve para a propaganda, seria divertido se não fosse lamentável.

A legislação francesa apenas procura o equilíbrio entre a autodeterminação social na sociedade em que vivem as jovens e a imposição religiosa e familiar de uma sociedade fechada, e não integrada, da família e da tribo. Complicado, eu não regularia, mas as intenções do legislador são correctas.

Os polícias Sikh usam o turbante porque querem. São adultos e livres de imposições sociais. Usam o turbante com orgulho e não por imposição e com vergonha.

CM


Blogues do meu prazer - 6 

Incluí nesta coluna, este fim de semana, Abaixo de cão e quarto do pulha. O primeiro devido a Brassaï, vi precisamente uma exposição na Albertina de Viena com grande parte da obra de Brassaï, incluindo as fotos de Paris à noite mais pinturas, colagens e esculturas. Essa exposição marcou-me. Já o quarto do pulha é um clássico. Um clássico do non sense, um clássico do cinismo aparente. Diz verdades absolutas disfarçadas de ofensas gratuitas.

Outro blogue que entra para esta coluna é Bengelsdorff, alguém que não facilita. E bem. A partir de hoje a coluna dos blogues do prazer será enriquecida no máximo uma vez por semana, a não ser que surjam descobertas, ou lembranças, importantes.

2. b3

CM

Mortimer in Paris - Cristina Fernandes in Huddersfield 

Envia duas crónicas da Grã-Bretanha.
Remix ensemble: um agrupamento de nível internacional: primeira crónica de Cristina Fernandes de Huddersfield.
Interessante é também a segunda crónica sobre falta de contactos internacionais dos compositores portugueses. Comenta a falta de apoios do estado para a divulgação externa dos compositores lusos.

Aqui os liberais estarão atentos e eu concordo com a sua posição, os compositores portugueses devem afirmar-se pela sua qualidade. Fundações como a Gulbenkian têm o seu papel, p que vem referido no texto e bem. Os próprios compositores devem formar associações, os próprios compositores devem mostrar a sua obra.

Pedro Amaral ganhou prémio de Roma, a qualidade vence.

CM

24.11.03

Críticas no Público e no Expresso 

Expresso
A crítica de Jorge Calado no Expresso de sábado não calou a condenação ao coro do S. Carlos, em termos muito violentos arrasa a prestação, o brio profissional, o descaramento e a postura em palco do coro do teatro nacional de ópera. Nunca vi um breve parágrafo ser mais arrasador. Disserta sobre a Fantasia de Beethoven para piano coro e orquestra. Um obra que não foi das piores prestações do coro, tiveram dois concertos miseráveis antes. Nesta Fantasia já se notou algum progresso. Jorge Calado nem se dá ao trabalho de comentar os concertos anteriores, provavelmente por ser demasiado confrangedor. Analisa apenas o menos mau, e a sua apreciação é terrível.
Público 1
Crónica ontem de AMseabra
Concordo com quase tudo o que o omnicrítico do Público diz, a crónica está boa e deve ser lida, a mensagem é evidente e importante.
Apenas uma correcção: nem Orpheo é Ópera, nem é fundadora, Peri e Caccini (este com dúvidas) são anteriores e Orpheo, no meu entender, não é uma ópera*.
Público 2
Saiu crítica ao concerto de Sábado no Coliseu. Concordo em geral com Manuel Pedro Ferreira, e agradeço a nota ao naipe de violas. Não citei o naipe de violas no meu comentário, o que foi um esquecimento grave. O naipe de violas da Sächsische Staatskapelle Dresden é excelente, tem uma sonoridade ímpar. Obrigado a Ferreira por nos lembrar desse aspecto. Dá ainda uma consistência especial às cordas. Apresenta-se orgulhosamente do lado direito do maestro em frente do público à maneira alemã.
Já não concordo nada com a escolha de tempos em dois dos andamentos, o primeiro em Bartók e o primeiro em Tchaikovsky.
Também não sou tão encomiástico, talvez o crítico do Público não tenha tido oportunidade de ver orquestras de qualidade nos últimos tempos. É que nem todas as orquestras são como as sinfónicas nacionais e sobretudo nem todos os maestros são como aqueles que nos têm visitado. Se Ferreira fosse dar uma volta pela Holanda, pela Alemanha, pela Suiça, pela Áustria e mesmo pela República Checa (entre outros exemplos honrosos como a Espanha), acreditaria mais na possibilidade da perfeição em concerto público. Por isso acho perturbante há muito tempo o que tenho ouvido por aqui, neste rectângulo periférico, onde trabalho e brio profissional não são valores muito estimados e maestros bons não aparecem muito.


*- Seabra tem o desconto de aqui estar acompanhado por alguma gente ilustre, como Rui Vieira Nery que acha que Orpheo é uma ópera.

CM

23.11.03

O calor da tua mão - Leite de Faria - 1961 


Morreu ontem o meu amor.

Não sinto carência,
Nem sequer dor,
Nem saudade, nem ilusão.
Nem falo verdade, nem minto.

Apenas uma ausência,
Enquanto vivo e nada sinto,
A do calor da tua mão...

Ouvir
CM

Outro disco da Alpha 

Como tinha dito a editora Alpha fez cinco anos. Depois de Gustav Leonhardt apresenta mais alguns discos:
La Bella Noeva, já aqui referenciado.
O disco 43, com Marco Horvat, alaúdista e barítono, cantando Caccini. Não resisto aqui a colocar um exemplo da arte de Cacinni, compositor que viveu entre 1551 e 1618 em Florença. Foi um dos inventores da monodia, a canção como concebemos hoje.
Arrivista, ambicioso, homem de personalidade discutível esteve na terrível morte de Leonor de Toledo cunhada do grão duque Francesco, casada com Pietro de Médicis. Caccini, qual Iago, em vez de entregar uma carta do amante de Leonora, Bernardino Antinori, que lha tinha confiado para entregar a Leonor, deu a carta ao duque, resultou daí a execução de Antinori, o assassinato de Leonor e a desonra de Giulio Caccini devido à sua acção torpe. Em vez de ser premiado teve de se retirar para o exílio. Mas musicalmente era um génio, a ópera muito lhe deve, quer através das suas próprias óperas, quer através da monodia que vai dar origem à ária com acompanhamento instrumental. Ouçamos uma monodia cantada por Marco Horvat que toca guitarra barroca e ainda acompanhado por Eric Bellocq que toca teorba:

Ouvir

Caccini, bom cantor era ainda um jardineiro excelente, tendo o hobby da horticultura.
CM

22.11.03

Hoje 22 de Novembro Coliseu dos Recreios - (Já com notas de audição) 


Concerto pela Sächsische Staatskapelle Dresden sob direcção de

Bernard Haitink.

Béla Bartók - Concerto para Orquestra
Piotr Ilitch Tchaikovsky Sinfonia nº 6 em Si menor, opus 74.

Interpretação:
Bartók: tempos muito arrastados sem que isso contribua para a beleza do som ou maior pathos, pouca surpresa, contrastes pouco vincados, o que foi uma pena porque existem alguns contrastes paradoxais na partitura que não foram levados às últimas consequências, algum lirismo na elegia, muita segurança na direcção, equilíbrio total entre os naipes.

Tchailovsky: tempos muito arrastados no primeiro andamento, lentíssimo. Os restantes andamentos sairam quase perfeitos, dentro do modelo que Haitink preparou. Algumas pequenas falhas nos metais, notas erradas e a sair da afinação, mas praticamente irrelevante para o resultado.

A busca do equilíbrio em Haitink é constante, o som sai misturado com volúpia, dir-se-ia que os sons dos naipes se misturam como os corpos de dois corpos apaixonados em que se deixa de saber onde está o corpo de cada um, mas em que estão, de certeza, os dois presentes. A sonoridade das cordas é envolvente, é mel, é delírio de conjunto, é trabalho de anos e anos. É trabalho de Haitink que se tem dedicado a esta orquestra a tempo, quase, inteiro. As madeiras são delicadas, subtis, sem agressividade, de uma técnica muito apurada e de uma doçura sonora de veludo (primeiro flauta com instrumento de madeira, note-se). A percursão foi irrepreensível e as harpas estiveram muito bem também. Os metais são talvez menos conseguidos, são dominados, creio eu, pela vontade férrea da busca do equilíbrio de Bernard, o que os faz talvez tocar com medo de produzir demasiado volume, o que lhes tira alguma fluência, mas estão também a nível elevado.

Haitink procura o som, procura o belo. O que resulta em vantagens e em inconvenientes, A Staatskapelle Dresden é uma orquestra com pouco "poder de arranque" não entra em contrastes violentos cosigo própria, não atinge o paroxismo do poder sonoro, da força telúrica, de uma Filarmónica de Berlin que, por outro lado também consegue equilíbrios sonoros impressionantes. A orquestra de ontem tocou com uma formação de primeiros violinos a contrabaixos de 16-14-12-10-8, o que é, aliás, normal, se se juntassem mais 2 instrumentistas por naipe creio que poderiam ter aquele poder de arranque que lhe faltou, mantendo sempre o equilíbrio, por permitir mais volume nos sopros e percursão.

Mais um grande concerto neste ciclo da Gulbenkian.

Nota muito negativa para o público e para o pessoal do Coliseu, nem falo nas palmas de ignorantes a seguir ao terceiro andamento da sinfonia em si menor de Tachaikovsky, falo das tosses e dos ruídos, ruídos de funcionários que se mexiam, que abriam e fechavam portas, de senhoras a abrir malas e a abrir embrulhos de rebuçados. Miserável foi o "Bravo" que saudou a orquestra no final da sinfonia de Tchaikovsky, de um alarve qualquer, que nem deixou escutar o silêncio climáxico de um final trágico, de um coração que deixa de bater, e logo as palmas em catadupa ainda com o maestro de batuta no ar! O silêncio mágico, após a morte de Tachaikovsky, só se escutou na imaginação dos que se deixaram envolver pela música e pela sonoridade trágica dos últimos compassos da última sinfonia do mestre russo e ignoraram as palmas.

CM




Mais Leite de Faria 

Situo estas poesias nos anos cinquenta, vêm a propósito deste tempo... Mas naqueles anos os invernos pareciam maiores. Não entendo porque razão o poeta deixou "Modernos" com maiúsculas, mas quem sabe o que passa pela cabeça do poeta, talvez para reforçar o paralelismo com "Inverno". Noto o uso irregular de maiúsculas/minúsculas no início de cada verso, mas deixo como encontrei os manuscritos.

344

São Modernos
estes Invernos
de longos meses.

444

Estas poesias
Deixam-me tempo
P'ra travessias.

455

A margem larga,
do enfado no livro,
é magra, é castigo.

45

Águas torrentes
partiram correntes.

CM

Blogues que gosto de ler - 5 

Hoje li as histórias sobre a Etelvina e a chuva no 100nada. Sem nada de especial: uma vida. Boa escrita, dá-me prazer. Espero que não entre em obras...

E já agora: 2.c4...

CM

21.11.03

Concerto na Gulbenkian - Banda da GNR não faria melhor 



Carl Maria von Weber e Richard Strauss (este em 1949)



Concerto hoje na Gulbenkian, Barbara Hendriks cantava 4 últimas canções de Strauss. Abertura Euryanthe de Carl Maria von Weber e segunda sinfonia de Johannes Brahms, em ré maior opus 73, Ion Marin dirigiu.

É um pouco triste ver uma cantora que foi brilhante cantar com a voz já algo cansada as últimas canções de Richard Strauss. É certo que não perdeu o jeito, continua a ter a voz escura que sempre lhe ouvimos. A voz de Hendriks nunca foi muito potente, nem adequada à "substância" desta obra deslumbrante de Strauss, Barbara desiludiu nos graves, curiosamente, onde antes costumava ser perfeita. Chegou a evidenciar algum grão que disfarçou com inteligência. Vibrato e colocação a falharem um pouco. A afinação nem sempre foi conseguida. Interpretou de forma muito igual o texto poético de Hesse e de Eichendorff. Alfred Kraus mostrou como se pode envelhecer cantando sempre de forma soberba, Barbara não consegue repetir o mítico espanhol. Já nos extras (Morgen e espiritual) esteve mais calorosa, talvez com a voz mais quente, mas no espiritual, que arrebatou o público, voltou a mostrar algum cansaço na voz.


Brahms num desenho de Willy von Beckerath

Em Weber a orquestra foi correcta e até entusiasmada com as melodias do fundador da ópera alemã, o acerto e a chama latina da orquestra foram patentes, deu gosto ver os violinos certíssimos nas arcadas nas passagens em semicolcheias da abertura da ópera Euryanthe.
A orquestra acompanhou muito bem Barbara Hendriks em Richard Strauss: sonoridades muito belas, suavidade, textura. Quase perfeita a comunicação no acompanhamento da cantora, Marin mostrou-se seguro neste capítulo onde tem enorme experiência, apesar de ser ainda muito jovem.
Já em Brahms a orquestra não esteve tão bem como na semana passada, o maestro romeno mostrou não ter o domínio e o conhecimento do material humano que Foster tem, não conseguiu equilíbrios, não doseou os volumes, não exigiu mais massa nos violoncelos e contrabaixos. Exagerou em alguma gestualidade irrelevante e ineficaz, mas esteve bem em geral. A orquestra Gulbenkian tem tocado com alguns acrescentos nos metais, músicos que não pertencem aos quadros da orquestra e ressentiu-se disso mesmo: excessivo peso da fanfarra, sobretudo nos graves, o naipe dos trombones e tuba estiveram demasiado pujantes para a orquestra Gulbenkian, cinco contrabaixos e sete violoncelos são um número demasiado reduzido para a orquestração da segunda de Brahms, não compreendo como se pode arriscar a tocar uma sinfonia com o peso metálico da segunda, que no primeiro e quarto andamentos requerem um equilíbrio de massas muito rigoroso entre as cordas, as madeiras e os metais. É evidente que a falta não é dos músicos, se tocassem com menos volume sonoro a obra sairia sem a força que se lhe pede. Mas sem o número mínimo de cordas o desequilíbrio seria forçoso, e assim aconteceu, parecia a banda sinfónica da GNR (excelente agrupamento, mas não em Brahms!). O som era dominado pelos naipes dos sopros e faltou a untuosidade dos graves que deve ser dado pelas cordas. Uma pena. Responsabilidade de quem programa esta sinfonia sem dotar a orquestra de meios para a sua execução. Erro de palmatória e condenável, a emendar no futuro, ou então que se fiquem pelo Haydn e Mozart (como era dantes) ou pelas sinfonias românticas com menos exigências ao nível da massa orquestral. Mas sem violoncelos e sem contrabaixos está fora de questão a segunda de Brahms. A terceira de Brahms que ouvimos na semana passada suporta melhor esta carência, por ser mais lírica e por ter uma orquestração menos exigente em termos de metais e, pormenor imporante, foi dirigida por um maestro titular que conhece bem o som que sai da orquestra e como procurar melhor o equilíbrio, mesmo com o custo de reduzir a energia da obra, impondo um volume sonoro mais reduzido aos metais.
Nos andamentos centrais da sinfonia nº 2 de Brahms gostámos da orquestra Gulbenkian e da orientação do maestro (se esquecermos um ou outro pequeno desacerto ritmico). A orquestra Gulbenkian tem ainda outra virtude, prova que não é impossível uma orquestra portuguesa tocar afinada, sobretudo nos violinos. Mas esta orquestra tem um concertino, o que é de louvar, tem também um maestro titular à séria. Notam-se os frutos do trabalho.

Orquestra Gulbenkian

Um concerto que prometia muitíssimo, mas que se revelou apenas agradável.

CM

Poema minimais em dia de chuva - mais Leite de Faria 

Deste meu tio Abel, vou descobrindo na biblioteca, a marcar livros, em caixas de papéis, poesia, poesia, poesia. Os textos de maior volume ficam para outras edições, quando tiver tempo para organizar e compilar tudo, quando acabar de passar os registos para formato impresso. O meu principal problema são as variantes, tenho sonetos com seis e sete variantes e não sei qual a cronologia.
Penso que um blogue é um local extraordinário para a poesia. Sobretudo a minimal, que se lê entre duas bicas. A que não oferece dúvidas críticas sobre variantes; a que se encontra na margem de livros, sem emendas...

454

Chove no campo.
Ouço o vago canto
Do Som da mágoa.

454

Chove na tarde.
No campo da mágoa:
O som de água.

454

Chove na morte,
Aquática calma
Na alma que tarda.

355

Chove na alma,
Murmúrios de calma
Na tarde que morre.

CM

Os professores e os outros 

Pelos vistos um dos autores de um dos blogues mais trauliteiros e ofensivos da blogosfera portuguesa, é professor universitário. Este meu "colega", que me trata por "este", gostava de saber a minha opinião sobre o ruído que o incomodou enquanto procedia a uma avaliação dos seus estudantes. Eu preferia que estes rapazes me deixassem em paz. Tenho perdido tempo demais com ninharias e provocações baratas. É que o blog em causa é um repositório de nulidades e de vaidades ocas, de ninharias enfim, sem qualquer valor acrescentado. Um blogue maniqueísta: se não concordam com o que os caceteiros dizem, são de esquerda! Um blogue que eu só leio quando me aparece no site meter, para observar o que esses senhores andam a dizer sobre o meu blogue: "Crítico". Mas como pediram uma opinião e sou bem educado cá vai:

Prova-se mais uma vez que a violência na escrita esconde incapacidade de acção na vida quotidiana. Prova-se mais uma vez que quem é incapaz de resolver um problema concreto se volta para a sublimação do ressentimento, como a tal história do perigo espanhol" revela. Tal como Nietsche tinha dito: "o pior escravo é o escravo do ressentimento" e "quem é nobre ou resolve os seus problemas ou esquece".
Eu nunca admitiria que um "colega" me respondesse da forma que o espanhol respondeu. Ou resolvia o assunto ali mesmo ou exigiria a solução do mesmo através dos mecanismos próprios, incluindo a suspensão da avaliação em curso com consequente queixa aos orgãos competentes da Universidade. Deixar os alunos prejudicados: nunca. Discordo das épocas especiais, mas se os estudantes têm esse direito não o nego, nem lhes dou condições desfavoráveis. Se é direito legal, deve ser respeitado, quer em condições de ambiente, quer em igualdade no regime de avaliação.

P.S. (Acrescentado a 22 de Novembro) - O Matamouros, após texto acima, resolveu demonstrar que o que eu escrevi estava bem: esse blog pretende ser gratuitamente ofensivo. Mas, por muito que esses rapazes escouceiem, espumem ou zurrem, apenas me conseguem fazer rir. Por uma razão: é um privilégio que a rapaziada do Matamouros me deteste. Seria muito grave e ofensivo, isso sim, receber elogios dessa gente. Isto porque o que dizem tem muito pouco conteúdo ou raciocínio, é um blog de fé numa causa em que todos os meios valem, agem como uma claque de futebol. Usam sobretudo uma linguagem básica: a da agressão. Gente assim: arreda! Eu não me movo por ódios, eu movo-me pela razão. Gostei muito, deste último post de Matamouros pela reacção primitiva. Revelador: parabéns.

CM

Os blogues do prazer - 4 

Há escolhas que não se justificam, nós lemos e gostamos, sem concessões. Assim foi com Um blogue sobre Kleist. E prazer, sim: prazer. O prazer que me dão quando os leio, tão simples como isso, mesmo quando são ácidos e melacólicos. É assim, simples, sem voltas, sem desvios, intransigentes, radicais, num rumo certo. Intransigentes na qualidade. Por isso leio A Memória Inventada. Outros se seguirão, um por dia, se puder... sem ordem definida, ao sabor do vento do acaso.

CM

Editora Alpha faz cinco anos e lança 4 discos notáveis 

Falo do primeiro "La Bella Noeva" com Marco Beasley, tenor, e o agrupamento Accordone com direcção de Guido Morini. Giovanni Stefani (século XVII), Giulio Caccini (1550-1610). Claudio Monteverdi (1550-1643), Biagio Marini (1587-1663), Alessandro Grandi (?-1630), monodias com acompanhamento, ritmos populares. Tem ainda canções populares, muito antigas, com adaptações do próprio Marco Beasley e do grupo Accordone. Um disco que esgotou em França no dia em que foi lançado, há alguns dias. Felizmente já consegui obter o CD, e afirmo: impressionante. Só ouvindo. Espero colocar aqui exemplos sonoros.
Aqui vai um:

Ouvir

CM

20.11.03

Hélas: a solução está dada! 

É sim, Marin Marais, Alcyone. Marc Minkovski e Les Musiciens du Louvre, Erato 1990. Já não está no mercado devido ao que aconteceu com a Erato.
Não era Purcell, nem Lully, nem Rameau, nem Charpentier. Obrigado aos que tentaram.

Parece que existem pessoas que sabem de música em Portugal... Poucas, a solução deste problema foi dada por uma pessoa que, regiamente, domina a arte dos sons e da escrita.

Escreverei, com mais detalhe sobre esta tragédia em música, de Marin Marais. Será o meu próximo artigo de fundo, neste blog. Não me esqueci das Leçons de Ténèbres de Marc Antoine Charpentier e de François Couperin, um artigo está prometido, e escreverei sobre o assunto. Fica o retrato do Grande, enorme Marin Marais, que era um homem de baixa estatura e muito cordial!

Colocarei mais excertos desta obra deslumbrante hoje ao fim da tarde, princípio da noite...

Aqui está a tempestade célebre da tragédia de Marais
mais música.


Por agora deixo-vos com mais um pouco de Música do genial parisiense.
Ouvir, viola da Gamba.


Preparo outro quiz, será indecifrável!

CM

Blogs que me dão prazer - 3 


Um Blog Sobre Kleist.
Está dito: 1. Cf3


CM

19.11.03

O novo Quiz 


Adivinhem o compositor, a obra e a interpretação.
Escolhi uma coisa difícil.
Teste
Prazo: até amanhã às 16h.
CM

Carlos Seixas, Musica sacra 


Sai o novo disco da editora portuguesa Portugaler, dedicado à música portuguesa, nomeadamente à música antiga. Espero fazer uma crítica a este disco muito rapidamente. Segue texto da editora.

Carlos Seixas, Musica sacra
Jennifer Smith
Nicki Kennedy
Nicolas Domingues
Mário Alves
António Wagner Diniz
João Vaz
Segréis de Lisboa
Coral Lisboa Cantat
Manuel Morais


A Portugaler apresenta mais um lançamento dedicado a Carlos Seixas. Após o cd Concerto, sonatas (lançado em 2002), é a produção sacra do compositor coimbrão que é focada neste novo lançamento da Portugaler intitulado Musica sacra.

Este CD contém a Missa em Sol maior e três responsórios (Sicut cedrus, Hodie nobis e Ardebat Vincentius) além das quatro Sonatas para Órgão.

A interpretação da Missa e dos Responsórios está a cargo de Jennifer Smith, Nicki Kennedy (sopranos), Nicolas Domingues (alto), Mário Alves (tenor), António Wagner Diniz (baixo), do Coral Lisboa Cantat e dos Segréis de Lisboa sob a direcção de Manuel Morais. João Vaz executa as Sonatas para Órgão. A gravação, para a qual se utilizou a mais sofisticada tecnologia de captação digital, beneficia da excepcional acústica do Palácio de S. Marcos em Coimbra (Missa e Responsórios) e da sonoridade incomparável do órgão histórico da Capela da Universidade de Coimbra (Sonatas).

Esta edição Portugaler foi subsidiada por Coimbra – Capital Nacional da Cultura 2003 e apoiado pela Universidade de Coimbra, numa intenção de homenagear, nas vésperas do tricentenário do seu nascimento, aquela que é a mais importante figura do Barroco musical português: Carlos Seixas.

CM

Mais poesia de Leite de Faria 

Poesia bucólica 353

Campo à sexta,
com figos na cesta
durmo a sesta.

CM

Os blogues que me dão prazer 2 

Hoje coloco na minha coluna de Blogues que me dão prazer o Janela Indiscreta. Blogue de cultura, feito por vários autores, também não perde tempo com temas marginais. Excelente a série sobre o Tarkovsky. Excelente em geral, nas ideias, nas imagens, nas fotografias. Sempre atentos. Ao contrário do meu blog não falam sobretudo do que acontece em Lisboa. Actualizado com uma frequência alucinante, um jornal cultural.
Fotos de qualidade no seu suplemento, que não pode ser vendido separadamente, Boggie.

Janela Indiscreta: um dos melhores blogues portugueses, no meu entender.
CM

18.11.03

Os blogues que me dão prazer 

Assim é, a partir de hoje inicio um breve comentário sobre os blogues que considero interessantes. Pelo menos uma vez por semana, mas tentando ser diário, vou acrescentar um novo blogue nesta nova categoria. Não utilizarei qualquer critério sistemático, colocarei os blogues pela ordem que me apetecer, ao sabor do vento do acaso e do prazer que vou descobrindo na leitura.
O critério fundamental será sempre a boa escrita e o interesse que esses blogues têm para mim, o facto de não serem virados para a blogosfera ou serem repositório de meras notícias lidas aqui e ali. Não me interessam comentários parasitas de temas políticos e sociais ou blogues feitos para incomodar o próximo e pretensamente humorísticos. Na coluna da direita colocarei esses blogues que leio sem reservas, que me dão conhecimentos e prazer. O meu blog não figuraria nesta categoria, tenho perdido tempo demais a comentar alguns patetas da blogosfera em vez de escrever sobre música e cultura. Começo hoje com:

Arquivos do cinéfilo um blogue de paixão, virado para o cinema, não perde tempo com temas marginais, muito boa a história do rato Mickey. Informa. Falta talvez um pouco de crítica, mas está dentro da maneira de ser do autor. Li e leio com imenso prazer. Se fosse editor de um jornal convidava o autor a escrever sobre cinema.

CM

Nova configuração do site do S. Carlos 

Em www2.saocarlos.pt. Já tem a temporada, rudimentar, de ópera. Óperas menores e cantores de segunda com honrosas excepções, o maestro titular aparece pouco. Saúda-se a arte e o engenho do Director e da sua equipa, fazer omeletes sem ovos requere uma imaginação e um engenho notáveis. Fingir que se tem temporada digna de um Teatro Nacional, sem a ter, é um exercício complexo de construtivismo onírico. Creio que quase o conseguem, o trabalho daquela gente é terrível, esforçado e digno, mas deve ser também muito desmotivante não poder fazer aquilo que o nome da casa merece. Sem dinheiro, trabalhando a meses, quando se deveria trabalhar a anos, sem autonomia financeira, sem financiamentos plurianuais, estamos reduzidos à penúria de 2004. Conseguem explorar a orquestra, que já está paga e não tem custos cénicos, teremos obras de enorme fôlego no capítulo orquestral, espera-se, também, resposta digna do coro.

O benefício da dúvida impõe-se para os profissionais da casa, veremos se conseguem executar a música com o mesmo esforço e dignidade com que a equipa de Pinamonte preparou a temporada.

Nota para o novo site: O site parece ter muito melhor grafismo e melhor qualidade, mas ainda não o explorei totalmente.
CM

Não respondam mais ao quiz, o próximo será mais difícil 

Desiludido com a ausência de respostas ao quiz do Charpentier fiz perguntas demasiado fáceis! Ninguém adivinhou a obra de Charpentier, o que é trágico, toda a gente sacudiu a água do capote e assobiou para o ar fingindo que não havia pergunta. No entanto hoje recebi duas respostas ao quiz do Bach, uma do leitor JP outra da truta vermelha. Tenho um prémio para os vencedores, aceito os dois como acertados. Para JP tenho um CD, para as trutas que contado o mail errado, e olhando para a hora do post no blogue, responderam meia hora depois de JP, podem escolher entre várias hipóteses. Mandarei email a seu tempo.
Entretanto, muito mais tarde, algumas horas depois a Brigada Anti-Lacoste respondeu, de forma basicamente certa às questões do nosso quiz. Infelizmente foi muito mais tarde que os dois premiados. Espero que consigam melhor para a próxima. A Brigada Anti Lacoste tem um blog em que existem testes. Daí a curiosidade. Quem gosta de perguntas de cultura geral dê um salto a quem não gosta do crocodilo!
CM

Leite de Faria 

Mais poesias minimais de Leite de Faria, encontradas em guardanapos, caixas de fósforos e afins, não tenho a data, impossível de datar, aliás.

454

Jovem corre,
Sobre o mar voando:
Sem pranto Morre.

464

Vida sem tempo:
Sentida no momento
Em que passou.

353

Sem ti o dia:
Em que te senti,
fugidia.

CM

17.11.03

Ninguém respondeu - adivinha quem vem jantar? 

À questão que coloquei no post. Nem trutas nem meias trutas, ninguém ganhou o prémio que eu tinha para dar! Eram excertos do drama musical ou ópera : Medeia de Marc Antoine Charpentier. Aqui a distinção entre ópera italiana e drama musical francês não é clara devido às influências italianas de Charpentier. William Christie dirigia. Uma obra absolutamente genial de um compositor de uma qualidade ímpar.

Agora outros pequenos mistérios.
Quem é o senhor do retrato seguinte:


Quem é Sibemolládósi?

Como conheceu Sibemolládósi o personagem acima?

Sibemolládósi escreveu para esta personagem: Regis lussu Cantio Et Reliqua Canonica Arte Resoluta.
Alguém traduz, qual o significado completo?

Nessa obra surge um canône retrógrado? Qual? Qual o nome pelo qual é conhecido?

Onde aparece a sequência si bemol lá dó si num contratema de uma fuga de 1750? Qual a voz?

O que escreveu o filho do compositor nesse local da obra?

O que significa o silêncio tremendo, absoluto, um momento único de tristeza esmagadora, impossível de suportar que se segue a esta sequência?

Quem acertar a todas as questões recebe um prémio...
CM

Notícias 

1. Começa em Coimbra o COLÓQUIO INTERNACIONAL - A SOBERANIA - Crítica, Desconstrução, Aporias (Em torno do pensamento de Jacques Derrida) com direcção de Fernanda Bernardo (IEF/FLUC). Noto que Boaventura S. S. não estará presente nos oradores, mas afinal o que se passa com este pós moderno? Votado ao ostracismo? Eduardo do Prado Coelho estará presente, como sempre, mas o Boaventura? Escândalo em Coimbra.

2. Saiu hoje a crítica ao concerto de Radu Lupu, no Público.

3. O concerto do dia, selecção do Crítico - Hoje, Segunda, 17 Nov 2003, 19:00 - Grande Auditório

Hélène Grimaud (piano)


O programa será:
John Corigliano - Fantasia on an ostianato
Ludwig van Beethoven - Sonata Nº 17, em Ré menor, op.31 nº 2, A Tempestade
Johannes Brahms - Rapsódia em Si menor, op.79 nº1 - Rapsódia em Sol menor, op.79 nº 2
Bach / Busoni - Chaconne da Partita para Violino solo Nº 2, em Ré menor, BWV 1004

Parece interessante.
CM

16.11.03

Lido em Barnabé 

O seguinte texto é a todos os títulos lamentável, faz lembrar a velha esquerda que acha que a vida humana, o sofrimento das pessoas é mais um pretexto para a vitória da luta de classes. E já nem falo de Estaline que dizia que mataria cem inocentes para apanhar um culpado se isso fizesse avançar o socialismo. Lembro, isso sim, os republicanos, cujos caducos sucessores ainda hoje defendem que o assassinato criminoso de D. Carlos, e do seu filho mais velho, foi justificado numa luta política leal, mas isso são outras discussões.
Assim se brinca, ainda hoje, com o sequestro de um homem e com o sofrimento dos que o rodeiam (ou não) apenas para fazer chicana com os políticos que se odeiam. A esquerda e a velha escola do ódio de classes transformado em ódio pessoal.
Debata-se política, critique-se a intervenção das nossas autoridades no tratamento do assunto, mas tenha dignidade e elevação. Segue o texto, infeliz:

Já não há patriotas

Já estava tudo pronto. Os nossos bravos da GNR já tinham encolhido as barrigas e enchido o peito, prontos para a acção. Os aliados britânicos estavam no terreno. Os americanos avançavam, desviando-se, como podiam, de carros em explosão. Os italianos estavam a postos. E não é que os cabrões daqueles árabes libertam o Carlos Raleiras sem nos darem hipótese de salvar o homem. O Paulo Portas tinha o discurso preparado. O Figueiredo Lopes tinha saído da letargia em que vive. E aquela mouraria faz-nos uma destas. Para dizer a verdade, o próprio jornalista podia ter sido um pouco mais paciente e ter esperado pela verdadeira salvação nacional. Já não há patriotas.

CM

Ultima: Seabra acha que objectivamente somos uma "elite" 

E passo a citar a crónica de AMSeabra no Público de hoje:

Há gravíssimos bloqueamentos nos "media" portugueses, de concentração e "tabloidização", mas também de formatação e limites de opinião. A preservação do espaço crítico supõe um diálogo conflitual que não é tarefa apenas dos que objectivamente somos uma "elite" com voz pública mas de uma rede comunicante que deveria também implicar os que, tendo optado pela acção política, preservem uma ética dessa acção e estejam disponíveis para não se enquistar e participar no debate sem ser como porta-vozes ou novas vedetas mediáticas - e esses, existem?

A já habitual e absoluta incapacidade de comunicar, qualquer ideia que seja, é evidente. É um discurso que pretende ser "neo-boaventurano"* mas que é apenas "proto-boaventurano". Reparo no "e esses, existem?" que: ou não concorda no género ou é completamente obscuro e irreferenciável. Uma pergunta que começa num período de sessenta e sete palavras (se não me enganei a contar) com muitos predicados e sujeitos espalhados pelo meio, em que complementos se confundem com sujeitos. Enunciam-se asserções e põem-se questões. Contei onze verbos, mas não tive paciência para mais análises, o texto é tão contorcido que não merece perdas de tempo da minha parte. Afinal onde começa a pergunta final?
Mas o que é fantástico, pela claridade e pela revelação da mente do autor é o objectivamente que corta totalmente com as aspas do texto. Um objectivamente lavado pelas aspas? Um estilo notável para um membro de uma "elite", objectivamente com aspas.
É isto que traz valor acrescentado a um jornal?

* - Cito aqui o mestre da capacidade de tornar ilegível qualquer ideia trivial através de uma gongorização terminológica e recursiva. O celebrado estilo gongórico-sociologozante. Já adivinharam, falo do ilustre Boaventura S.S., o mestre de qualquer crítico pós moderno que se preze. Daqui um cumprimento a Boaventura.

CM

15.11.03

Viriato no Teatro da Trindade 

Um destes dias compareci no Teatro da Trindade em Lisboa para assitir a uma peça de Diogo Freitas do Amaral: Viriato.
Comecei a desconfiar quando vi, numa foto do programa, o rapaz que faz o papel principal com os boxers com flores amarelas por debaixo das peles do herói lusitano!
A partir daí tudo piorou, figurinos a lembrar índios peles vermelhas, música horrenda que nada tem a ver com a tradição celta. Um bando de putos aos gritos, soltos pelo palco. Actores escolares, texto hediondo e primitivo, tipo manual da quarta classe do tempo do Salazar. Uma tristeza, uma pena, ver recursos desbaratados assim. Uma encenação miserável e amadora ou pior, amador não quer dizer mau. Uma encenação básica, marcações infelizes, cuspidelas a mais, teatro a menos. Ninguém se destaca no meio da balbúrdia que constitui a "peça". Pena ver actores como Victor de Sousa desaproveitados. Desaconselho fortemente, que saia depressa de cena é um desejo, que o teatro português com dramaturgos a sério reapareça em lugar de experiências infelizes de professores de direito que resolvem por-se a escrever umas peças. Infelizmente a assinatura em teatro não conta tanto como num parecer jurídico.
O remate obsceno: a saída de cena de Cipião a uivar, lamentável.
O pior em termos de texto: O estafado "Roma não paga a traidores" metido a martelo no texto após a traição dos companheiros de Viriato que não recebem a paga do prometido sangue...
CM

Lido no Outro-eu 

Carlos raleiras está livre, alívio, felicidade para colegas, amigos e família, sem esquecer o próprio. Ler Carlos Vaz Marques, que melhor que ninguém descreve a alegria e a felicidade do alívio da dor. O melhor dos prazeres: o alívio da dor! Um grande abraço a todos.
CM

A melhor face de Pacheco Pereira 

Um excelente trabalho de José Pacheco Pereira, um blogue de estudo e de ciência. Tenho gostado de ler e volto, repetidamente, com muito prazer: Estudos sobre o Comunismo. Aqui não existe a montra de Pacheco Pereira que se encontra no seu blog mais mediático.
Aqui conhece-se o homem investigador, o homem de trabalho, e descobre-se, aprecia-se, uma paixão. É curiosa esta paixão num social democrata, diria que merece quase um estudo psicanalítico. Um fascínio sem sombra de dúvida e um prazer que me dá, e a muitos outros, quando partilha a informação e um pouco da sua alma.
O que gosto em Pacheco Pereira é a sua capacidade de pensar. O que menos gosto é o seu tom de professor zangado e o apaparicar dos seus aduladores, JPP gosta de se sentir amado. Quem não gosta? Quase toda a gente. Mas também sabe vender muito bem os seus favores mediáticos. Por isso prefiro o JPP dos estudos sobre o comunismo, o Pacheco Pereira e as suas ideias, o Pacheco Pereira mais íntimo.

Acredito que seria o homem ideal para ministro da cultura, com esta coligação no governo. Pacheco é um homem que não cede, com peso político e intelectual. Se tivesse plenos poderes e um bom orçamento teríamos cultura e um rumo no governo. Assim como estamos temos um senhor simpático e bondoso numa pasta para a qual não foi talhado.

Curioso também que um dos melhores blogues sobre o comunismo seja de JPP e não de comunistas eles mesmos. Eles não são capazes? A distância propicia uma visão superior?
Retirei uma foto de Álvaro Cunhal, Pacheco Pereira que me perdoe, Cunhal no Exílio, quem tirou a foto? Não sabemos, algures nos anos sessenta, parabéns também a Álvaro Cunhal pelos noventa anos.


CM

Os riscos e os custos 

Não sei se ouvi bem, o governo português envia, e bem, um avião fretado pelo INEM (ou do INEM) para recolher a jornalista Maria João Ruella ferida no Iraque. Espero que seja a SIC a pagar, não creio que o dinheiro dos impostos dos cidadãos portugueses deva servir para repatriar uma jornalista de uma estação privada, ao serviço dessa mesma estação.

Estação que resolveu arriscar a colocação de jornalistas num local perigoso, conhecendo a empresa os riscos que a profissional corria. Louva-se a coragem da mulher e reporter. É também de louvar a cedência do avião pelo governo. A jornalista merece a nossa estima, a nossa simpatia.
Já não me parece aceitável que sejam os cidadão deste país a custear as despesas. A SIC conhecia os riscos e equacionou o problema, em todas as suas vertentes, lucro/prejuízo. Não cabe ao cidadão comum pagar a uma estação privada os actos decorrentes da sua gestão e que, em última análise, acabam por resultar em aumento da sua credibilidade e das suas audiências.
Rápidas melhoras a Maria João Ruella.

Mais preocupante é a situação de Carlos Raleiras, jornalista da TSF raptado no mesmo país. Neste caso uma vida está em risco, 50000 dólares nada representam em face da vida humana, espera-se que a direcção da TSF pague os custos de riscos que assumiu, bem ou mal avaliados. Que os familiares e amigos sejam poupados a mais sobressaltos e que o jornalista e homem Carlos Raleiras consiga sair ileso desta situação, o meu maior desejo.
Oxalá só haja custos materiais a registar.

CM

14.11.03

Um simples rosto 


Lisboa, orquestra Gulbenkian, piano Radu Lupu, maestro Lawrence Foster. Schumann e Brahms.

Uma foto de um homem simples, um rosto como outro qualquer, uma vida na música. Trabalho, seriedade. Será que transparecem na imagem? Sem gravata, sem laço, uma camisa simples aberta no pescoço. Um olhar bom: Lawrence Foster.

Competência na direcção, trabalho de ensaio, cuidado, preparação. Não é vistoso em concerto, ri-se, emenda excessos, dá instruções, puxa pelo som dos naipes, manda calar os que querem protagonismo excessivo. Antecipa em muito o gesto da entrada, os músicos já o conhecem e dão o desconto de um tempo demasiado prematuro. Não lhe falta entrega, nem chama.

A prova? A orquestra Gulbenkian da qual é um verdadeiro titular, com a qual trabalha assiduamente, está bem, respira saúde e coesão, toca com alegria e entrega, acompanha bem Radu Lupu no concerto em Lá de Schumann e, sobretudo, dá-nos uma sonoridade muito bela em Brahms, tão difícil de obter. Uma sonoridade encorpada, untuosa, cordas densas sem serem arrastadas, madeiras em timbres mágicos incorporados na sonoridade adulta, coesa, de uma orquestra madura e em forma. A terceira sinfonia do mestre de Hamburgo: um deslumbramento, uma onda sonora de êxtase.

No concerto desta tarde pude enfim descansar. Em concerto tenho o hábito de estar muito atento aos sons, à desafinação, às entradas em falso, aos desacertos que me vão sobressaltando, chamando atenção para falta de trabalho, desrespeito pelos compositores e obras, soberba face ao público. Não tiro prazer da música, dirão. Claro que tiro, mas quando o trabalho musical é mau o prazer não pode ser muito grande. Neste concerto nada disso aconteceu, deixei-me levar pela maravilhamento, repousei enfim, pude embarcar no encantamento de um génio: Brahms. Para além de nada haver a apontar do ponto de vista técnico, tivemos uma bela interpretação, tempos bem escolhidos, romantismo e dramatismo contidos no limite da subtileza e de uma elegância máscula, desajeitada mas encantatória, tão necessária neste compositor. A entrega dos músicos, a clareza das vozes, a beleza dos timbres individuais e as massas equilibradas no conjunto. Uma noite de paz, de amor pela música, que culminou com o sonho do terceiro andamento da terceira sinfonia de Brahms. Envolto em nevoeiro, esquecido da sala, do público que me envolvia, levitei em ondas de prazer escutando alguma da música mais bela que o Homem foi capaz de produzir.
Brilhante o trabalho deste maestro simples, um rosto vulgar numa fotografia.

Radu Lupu tocou com correcção, mas não me convenceu, tal como não me tinha convencido antes, no recital a solo. Sobre este pianista já foi tudo dito em texto anterior. Notou-se sobretudo falta de contraste dramático nas partes mais enérgicas do concerto de Schumann. De facto o trunfo deste concerto foi o maestro e a orquestra da Fundação Calouste Gulbenkian.
CM

Liberdade de Expressão 

Obrigado a Liberdade de Expressão por confirmar que é um cínico. Reconhecendo, com honestidade que conceitos éticos são só um bom pretexto para uma discussão, confirma tudo o que eu disse:
A argumentação da intervenção no Iraque com base em princípios éticos, morais, defesa da democracia, da vida, etc, etc, etc, é totalmente irrelevante e infundada, serve apenas como desculpa para enganar os papalvos que ainda acreditam na ética, na liberdade e em conceitos afins.
Quando Liberdade de Expressão alinhava argumentos a favor da intervenção militar no Iraque estava a dar uma lição ilustre sobre dissimulação, cinismo e ética (ou falta da mesma). Obrigado pelo seu brilhantismo, obrigado por ter demonstrado que a única coisa que o move é o interesse. Bem como a todos nós, como o afirma.

Mas também demonstra que é desnecessário argumentar o que quer que seja consigo, tudo serve para si, desde que sirva o interesse, o que é preciso descobrir é o motor: o interesse. A verdade não conta, é relativa. Maquiavel não faria melhor, repare-se que admiro Maquiavel.

Obrigado por provar que é um mentiroso (conceito meu, não seu), pelas suas próprias palavras, não é que, para si, esse conceito interesse. Por isso mesmo não se sente mal ao invocar inverdades ou irrelevâncias para deixar satisfeito com uns ossos de pretensa moral, deitados para a fogueira da discussão, de quem discorda de si. Tem a vantagem de ir deixando, de caminho, satisfeitos aqueles que concordam e necessitam do bordão ético para se reconfortar.

CM

Uma crónica no Público 

Do omnicrítico AMSeabra! Desta feita, alvíssaras, alvíssaras, sobre cinema!
Os parabéns ao pluricrítico, que continue nessa senda, a crítica de cinema de AMSeabra será sempre bem vinda.

Eu não li, não me interessa nada, mas enquanto andar a dizer mal do Nery, ou entretido sobre cinema, a dizer mal do Nery, ou a escrever sobre teatro, a dizer mal do Nery, a dizer mal da política cultural do governo, a dizer mal do Nery, a comentar a falta de dinheiro do S. Carlos, a dizer mal do Nery, desde que, dizia eu, não se meta em áreas mais técnicas, como dizer mal do Nery, ou escrever sobre música propriamente dita, os verdadeiros conhecedores agradecem. É de louvar o esforço deste sempiterno panque da crítica, que num reajuste estilístico está a compreender que nada tem a acrescentar ao assunto e que, para além de dizer mal do Nery, pode falar com propriedade, categoria e o estilo que se lhe reconhece de facto, sobre assuntos mais do senso comum, como a sociologia e a política cultural.

Um bem haja AMSeabra, que continue a criticar teatro, cinema, artes em geral (não musicais), política cultural e a dizer mal do Nery, sim, pode continuar a dizer mal do Nery, que até nisso tem a graça e o desconto de ser previsível.

CM

12.11.03

Uma entrevista a Anner Bylsma 

Feita, por mim, algum tempo atrás. Ficam aqui alguns excertos on-line para quem quiser ouvir.

Um violoncelista notável, nascido em 1934.

Ouvir

CM

Notas sobre a blogosfera 

Devo dizer que sou desatento, perco pouco tempo a espreitar blogues, por isso só agora descobri o No arame. Gostei também de encontrar do lado de cá e coisas simples.

A mais coisa menos coisa já a lia antes, emaranhada, mas só agora vi este seu poiso alternativo.

Entretanto fiz o teste dos liberais, 39 pontos! Equilibrado, sim ao estado responsável, com mercado. Ciência e democracia. Com orgulho, humanista.

CM

O problema da busca - dois exemplos 

O 100nada está diferente, deixou de ser um blogue unipessoal! De crise em crise, sem nada dizendo, este blogue foi-se despindo. Um dos exercícios mais interessantes desta aldeia. Sem nada, cada dia mais devassada, cada dia mais nua. Sem nada que, em cada novo dia, ameaçava fechar a coisa, tal como ameaçava espancar o mundo ao mesmo tempo que iria deixar de fumar.

Exercícios de jogo sem a coragem do prematuro e visionário minimalismo que, num suicídio real, em imolação absoluta e radical, desapareceu. Sem nada pedir. Sem nada querer. Sem juízos de valor nem comentários, para além do bem e do mal. Sem penas, sem lamentos, sem nada, apenas a constatação.

Era numa nudez cruenta que, sem nada, se atormentava, solidão em riste. Uma demanda de atenção, sempre suplantada em birras novas e jogos de sedução, esforçada, com ameaças de eternas partidas ou de retornos mais ou menos distantes. Um tom vago de ameaça. Mudanças. Desafios sem nada, inquieta e vigilante.
Morreu o 100nada, finalmente, deixou de ser unipessoal. Requiem eterno.

Continuarei a ler o novo blog, parece que o fogo deixou de queimar as asas da mariposa e que a coisa se tranquilizou. Até já tem imagens, sem nada.

CM

11.11.03

Radu Lupu 


Um concerto de múltiplas sensações ontem na Gulbenkian, não deixou indiferentes os apreciadores de boa música. Um concerto de sonoridades, de momentos de êxtase, de construções sonoras e de efeitos. Uma concepção que elabora e reinventa as obras a partir do conceito microscópico da produção do som, a construção da sonoridade, através do toque, da percursão muito contida dos acordes e do uso dos pedais, esta a base de Radu Lupu. Nem toda a gente aprecia, mas não se fica indiferente.
Um Schumman muito peculiar, suave, reinventado num Arabesque em dó maior, opus 18, e numa Kreiseleriana, opus 16, esta em tudo menos convencional. Foi discreta, subtil, diferente do "original" ou do habitual, sem fortíssimos, com um ataque muito delicado, com uma textura densa, em que os pedais foram empregues sem contemplações, poética, digamos que pouco máscula, pouco tenebrosa, como a obra original talvez peça. Creio que Radu Lupu viu a Kresleriana pelos olhos de Clara Wieck, que viria a ser sua esposa, a quem dedicou a obra a par de Chopin, e não pelos olhos de Kreisler, o terrífico personagem que atormenta e agita nos contos de Hoffmann. A visão de Schumann pela poética reinvenção da obra tocou-me mas não me convenceu. Uma técnica soberba, gostei. O último andamento deixou-me um pouco desiludido: demasiado rubato nos tempos de ataque, prejudicou e tirou clareza às passagens muito rápidas deste andamento.

Já o Schubert, sonata D.960 seria uma obra mais problemática, não se sabia se Schubert resistiria a uma reinvenção da obra, como Schumann resistiu. A sonata D.960 tem uma poética delicadíssima, mas também não deixa de ser máscula. Radu Lupu não correspondeu por inteiro, no meu entender, à linguagem schubertiana.
Os andamentos centrais resultaram melhor, o líndíssimo andante sostenuto e o Scherzo foram quase perfeitos. O andante pelo toque delicado e poético de Radu Lupu, o Scherzo por uma grande limpidez e clareza técnica, com um enorme equilíbrio dinâmico (para os menos entendidos: a dinâmica é a uma medida subjectiva da potência sonora). O primeiro andamento Molto moderato teve um tempo demasiado rápido, e foi demasiado equilibrado em termos dinâmicos. O contraste foi pouco marcado, no entanto os repetidos trilos no grave resultaram muito belos pela transparência do toque de Lupu.
O último andamento Finale: allegro ma non tropo, foi para mim mais fraco. O rubato excessivo, alguma irrequitude ritmica, a falta de contraste entre as diferentes secções, umas mais viris, outras mais sonhadoras, enfraqueceram o último andamento, que não deixou de ter aspectos sonoros de uma grande beleza. Notou-se um uso e abuso do pedal da surdina, o que deu uma uniformidade demasiado planar ao andamento. Curiosamente dois acordes em fortíssimo resultaram muito agressivos e martelados, único momento em que no recital se notou esta agressividade, contraditório, talvez aqui o artista tenha evidenciado alguma falta de domínio, mas nunca se pode saber o que um intérprete tão idiossincrático pensa ou idealiza.

Um excelente concerto para alguns, péssimo para outros. Para mim o melhor foi a sensibilidade do pianista e a técnica quase irrepreensível, tudo em benefício de uma produção do som muito bela. Não me arrependi de ter ido à Gulbenkian ontem, mas não foi a celebração memorável que alguns pretendiam. Um concerto para todas as opiniões, eu fico-me pelo bom concerto. Mas é assim a arte, ninguém fica indiferente a Radu Lupu. Veremos agora os concertos de quinta e sexta com orquestra.

CM

Hoje os suburbanos atacam pela marginal ou pelo túnel? 

Não perca os próximos episódios da vida de um suburbano liberal, dependente do automóvel, aqui. A nossa dúvida aqui em Lisboa, é saber se Jaquinzinhos conseguiu chegar hoje mais depressa ao círculo interno e qual o caminho pelo qual optou. Hoje até dou uma sugestão à rapaziada da Linha do Estoril, fazer a CREL ir até Vila Franca, atravessar a ponte Marechal Carmona ir até Alcochete e entrar em Lisboa pela ponte Vasco da Gama. Jaquinzinhos, não nos deixes na dúvida, queremos saber qual a rota de hoje, já liguei a Antena 1 para descobrir os melhores acessos e confirmar se os Jaquinzinhos estão com sorte...

Sobre o mesmo blog e a Mongólia: a Mongólia não é uma democracia cristã nem uma social democracia, tipo norte da Europa, Singapura é o "País mais Liberal do Mundo" segundo o mesmo Jaquinzinhos. O modelo para qualquer liberal que se preze. Com respeito a conservadores rurais e elitistas, no meu caso prefiro o Norte da Europa. Um país onde se pode apanhar prisão perpétua pelos motivos mais estranhos não me parece muito agradável. Nunca defendi a Mongólia como modelo, agora tenho de me ir embora, que hoje tenho de ir à Feira da Golegã ver os tais cavalos, e por isso vou trabalhar mais cedo hoje de manhã.

CM

10.11.03

Crónicas do país mais liberal do mundo - Singapura 

Dedicado ao liberal Jaquinzinhos com a vénia ao Cruzes de onde soube a notícia:

SINGAPORE (Reuters) - A Singaporean police sergeant has been jailed for two years for having oral sex in a country where prostitution is legal but oral sex is not, a newspaper reported Friday.

The Straits Times reported that the 27-year-old police coast guard sergeant landed in court after a 16-year-old reported to the police that she had performed oral sex on the man.

She was above the age of consent and agreed to perform the act, but oral sex is against the law in the city-state, the paper said.

"The act by itself is an offence. It is not a question of consent or no consent. Even between consenting people, it is an offence," criminal lawyer Subhas Anandan told the paper.

The maximum punishment for the offence is life imprisonment.

CM

Nota à blogosfera: evitem os erros ortográficos: diatribes e não diatrices. Evitem a asneira. Só assim poderemos ser exemplo para quem nos lê. Se descobrirem gralhas emendem. Não chamem a atenção para o vosso próprio analfabetismo.
CM

O Bispo 

Ontem pela manhã ouvi um senhor a falar na antena 1, parecia-me a crónica de um bispo na Rádio Renascença. Prestei alguma atenção, destilava ódio e mais ódio, parece que o grande mal da Europa é o Giscard, Giscard, o senhor Giscard para aqui e para ali, e blá Giscard blá Giscard blá Giscard, e mais o Giscard que é um malandreco de primeira apanha, e mentiroso, e mal criado, e Giscard é de direita e mau, e não democrático e o Giscard cheira mal dos pés!
Era o camarada Chico Loucã, disfarçado de bispo com a obsessão do Giscard. Que era um totalitário, que agradecia a si próprio e sobre a constituição nada. Ou apanhei a fase da Cena do Ódio, ou aquilo é mania da perseguição, desliguei... Um bispo não fala assim.
CM

Radu Lupu na Gulbenkian 

Hoje às 19h Grande Auditório.
Prometo, amanhã ou ainda hoje, crítica ao concerto de Radu Lupu neste blog.
CM

9.11.03

Último disco da Alpha - Gustav Leonhardt 


Um dia de Inverno, chove lá fora, nas colunas um disco que me leva, numa viagem pelo tempo, a uma Alemanha e a uma Inglaterra do passado. Evocações distantes e longínquas do Sol de Itália, feitas pelos compositores do Norte que descobriram a música do mediterrâneo, compondo peças em que transparece essa sedução. O fio condutor deste disco, a Itália! Palavras de Leonhardt.
É tempo de "Caçadores na Neve", tempo de neves sob céus plúmbeos. Neves sujas pelas patas dos cavalos e dos animais, com o sol fugaz, reflexo do Sul, algures, distante e efémero, tão efémero como um tempo que não regressa senão pelo génio de Gustav Leonhardt num claviorganum algo estranho, mas capaz de efeitos espantosos...
Notas sustentadas num cravo? Senão é vero assim parece. O dedilhado e a sustentação, o ataque, o transitório que no cravo é o todo mas que se transforma no permanente do orgão. O mesmo absoluto eterno que, no orgão, faz sofrer os foleiros que nunca parando de dar ao fole continuam na sua faina eterna sem redenção pelo som que não são capazes de escutar por entre o seu cansaço...

Etiqueta: Alpha
Gustav Leonhardt, claviorganum e cravo

No claviorganum:
Hans Leo Hassler (1564-1612) : Canzon
Nicholas Strogers (Actif 1560-1575) : Fantasia
William Byrd (v.1542-1623) : Corranto - Queens Alman - Ground
John Bull (1563-1628) : Bull’s Goodnight
Orlando Gibbons (1583-1625) : Fantasia II
Johann Pachelbel (1686-1764) : Fantasia - Toccata en sol maior
Johann Christoph Bach (1642-1703) : Praeludium
Christian Ritter (1650-1725) : Allemanda in discessum Caroli XI regis Sueciae

No cravo:
Johann Sebastian Bach (1685-1750) : Fantasia en dó menor BWV 1121 - Aria variata BWV 989 - Partitas sobre “O Gott, du frommer Gott” BWV 767

Gustav Leonhardt, claviorganum de Matthias Griewisch (2001) e cravo alemão de Anthony Sidey (1995)





Um claviorganum, ou cravo e orgão positivo, reunidos no mesmo instrumento, tocado pelos mesmos teclados. Obras de virginalistas ingleses, de compositores alemães, incluindo um primo em segundo grau de Johann Sebastian Bach, primo direito do pai de Bach, segundo creio, e do próprio Bach, este último num cravo alemão convencional. Gravação de Fevereiro de 2003.


Um instrumento original do século XVII, exposto no museu de Viena

Um instrumento semelhante ao usado por Leonhardt

Estou a ouvir o disco com toda a atenção, noto que não recebeu o Diapason d'or, o que me leva a desconfiar, apressadamente, da classificação que a revista francesa dá aos discos, provavelmente por não ter um compositor francês.
Existem muitos diapason d'or atribuídos a discos com um compositor francês de uma escola qualquer, descoberto tardiamente e que não presta para nada, e que os senhores da Diapason põem nos píncaros, com encómios desmesurados, a la française, e bla bla bla e bouef e bien sur e etc...
O que é segura é que a gravação me parece deslumbrante a todos os títulos, incluindo pela descoberta. Gosto sobretudo da última obra de Bach. Uma suavidade enorme, num cravo com uma ressonância invulgarmente longa. Leonhardt toca sem qualquer agressividade, surgem cambiantes sonoros de uma expressividade inaudita, Leonhardt cria e recria, tem uma subtileza indizível, faz retardandos em alguns acordes criando tensões e imagens sonoras, no fundo são efeitos psicológicos que substituem uma dinâmica quase inexistente no instrumento. Razão pura ou emoção pura? Não sei, nem me interessa. Superlativo.


Farei mais comentários aqui e colocarei exemplos sonoros...



CM

7.11.03

A Espanha não me fascina nada e Saramago ainda menos 

A propósito da Glória Fácil, que dá argumentos para a separação ibérica:

Em prol da união ibérica
Dando continuidade ao fascínio por Espanha, aqui vai mais uma notinha: as estações de metro de Barcelona têm, desde Julho último, máquinas automáticas de vendas de livros. São similares àquelas que vendem chocolates e bebidas e no seu interior estão dispostos produtos igualmente “comestíveis”.
Os livros de bolso custam 2 ou 3 euros e, enquanto se aguarda o metropolitano, podem escolher-se títulos de Vargas Llosa, Michael Connelly, Anne Rice, Mário Puzo, Lou Marinoff, Arthur Golden ou Perez Reverte. Ah, também lá está o Saramago com “Ensaio sobre a Cegueira” e “A Caverna”.


O meu comentário é simples: terem de gramar com o Saramago é bem pior do que gramar com uma cervejolas e uns chocolates. Espero que não tenham tirado as máquinas de chocolates para meter um Saramago, entre um toblerone e uma Caverna prefiro o primeiro.

Pensando bem a ideia até nem é má: o Saramago entre uma super bock e um pacote de batatas fritas...


CM

A pequena Missa Solene - pelo punho do Autor na partitura 

Douze chanteurs de trois sexes, Hommes, Femmes et Castrats, seront suffisants pour une exécution. Savoir huit pour le Choeur, quatre pour les Solos, total douze Chérubins. Bon Dieu pardonne moi le rapprochement suivant. Douze aussi sont les Apôtres dans le célèbre coup de Machaire peint à Fresque par Leonard dit la Cène, qui le croirait? Il y a parmi les disciples de ceux qui prennent de fausses notes ! Seigneur, Rassure-Toi, j'affirme qu'il n'y aura pas de Judas à mon Déjeuné et que les miens chanteront juste et con amore tes louanges et cette petite composition qui est Hélas le dernier Péché mortel de ma viellesse.

Bon Dieu, La voilà terminée cette pauvre petite Messe. Est-ce bien de la Musique sacrée que je viens de faire ou bien de la Sacrée Musique? J'étais né pour l'opera buffa, tu le sais bien ! Peu de science, un peu de coeur, tout est là. Sois donc béni, et accorde moi le Paradis.



P.S. Depois dos email de protesto digo o nome do compositor, Rossini. Escreveu os textos acima pelo seu próprio punho, na partitura manuscrita da Pequena Missa Solene, para dois pianos, harmónio e 12 cantores. Falava com Deus, privadamente, mas o sentido de humor e a ironia nunca lhe faltaram, absolutamente divino. Muita arte e muito coração. Um grande desprezo por tudo o que o aborrecia, o que não lhe agradava. E receitas fantásticas de cozinha...
CM

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