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31.10.03

A morte de Franco Corelli 

Soube há muito pouco tempo, morreu Franco Corelli.
Franco Corelli nasceu em Ancona, Italia, em 8 de Abril de 1921. Este tenor foi um dos grandes cantores do século vinte.




Acrescentado a 1 de Novembro: para mais notas ver Público.

CM

Onde falo do "Omeupipi" e acabo em José Cardoso Pires - sem qualquer relação! 

Cem por cento de acordo com o comentário da Memória Inventada ao "Omeupipi". Escrita repetitiva, solitária, onanista. Não compro o livro, basta-me o blogue de vez em quando. Acho graça a algumas brejeirices com palavras bem amanhadas. A fórmula funcionou mas é recorrente e ao fim de muito do mesmo torna-se insuportável. Não tenho lido sequer o blogue do Omeupipi ultimamente. Nem sei se o Omeupipi morreu desde que o mediatizaram, desde que o servem a retalho, ou por grosso, para lucro do próprio e de uma qualquer editora. É a opinião de um blogger algo irrequieto e tremendamente anónimo, que me disse isso mesmo um destes dias. Creio que pura e simplesmente Omeupipi se tem estado a esgotar, sem renovação, sem rupturas, conservador.
Das duas uma, ou o autor é mesmo assim e só pensa em sexo sendo compulsivamente obsessivo, ou desdobra-se em existências de esquizofrenia. Claro que todos os que escrevem são um pouco esquizofrénicos, eu não devo escapar: escrevo num blogue, e com respeito a obsessões todos temos as nossas (não é AMSeabra?). Está na moda dizer bem da escrita do Omeupipi, acho-lhe alguma graça, mas génio? brilho? Como disse o genial José Pinto Peixoto: "se alguma coisa brilhou nesta sala foi a lâmpada da casa de banho porque alguém deixou a porta aberta!" Acho que o mesmo brilho se sentiu no lançamento do livro, no Maxime em Lisboa, mas o futuro o dirá. Curiosidade? Sim alguma, confesso, sou humano e os mistérios fascinam-me, por isso mesmo lá estive, ao lado do acaso.

Alguém dirá: "lá está o tipo com inveja", eu. Claro que tenho inveja, uma tremenda inveja de Cardoso Pires, de Bocage, de António Botto e de alguns mais, sem vergonha mas sem maldade. No entanto penso que ter inveja do Omeupipi, seria como ter inveja de um personagem que aparece num livro de Cardoso Pires que, num cabaré qualquer, aparece em palco e consegue uma erecção em público seguida de uma ejaculação, apenas pela força da mente. Sei que vende, sei que chama atenções sobre si próprio, pode ser útil para ajudar uma editora a ganhar dinheiro, ou chamar audiências para um evento. Há quem goste e admire, há quem tenha inveja deste poder, e é um poder, sem dúvida alguma. Não, não tenho inveja deste homem, um masturbador silencioso e estático, mas tenho inveja da escrita do notável Cardoso Pires... É pena que este africano capaz de ejacular num palco de cabaré tenha já morrido hoje, senão ainda seria alvo de um livro confessional: "Memórias de um ejaculador solitário no palco da vida" um livro de 80 páginas com doze linhas a triplo espaço por página e letras a 18pt . E venderia.

A imagem deste africano, descrito pelas palavras a fio de navalha de José Cardoso Pires, num palco solitário de cabaré é, para mim, de uma nobreza e de uma dignidade silenciosa verdadeiramente anónimas, inultrapassáveis.

CM

Não comento a técnica e a voz, comento o amor! 

Muito bela a canção de um dos melhores blogues de que a memória é capaz de inventar. Dos tais da meia tabela das audiências, mas brilhante pela alma, pelas ideias e pelo amor. É ir à Memória inventada e ouvir o "Só" e sentir o amor pela vida... Como se prova uma e outra vez, as audiências, por muito que se procurem, não fazem a qualidade.

CM


Ver Crítica do DN, uma crítica sobre concertos de piano no S. Luiz. Apesar do atraso na publicação nota-se o trabalho de Mariano, que tem uma inteligência musical interessante, pelo menos neste trabalho.
Hoje o importante concerto com Burmester, quinto concerto para piano de Beethoven, como o concerto está completamente esgotado não falei antes do mesmo, não vale a pena chamar a atenção para a desilusão de não se poder obter bilhete. Mas seguirá a crítica do costume, talvez amanhã de manhã...

CM

Indice de consistência 

Ordem dos blogs por relação entre cruzamentos contados "cc" (links) e cruzamentos por blogue "cb". Se um blogue tem uma relação muito grande de cc's relativamente a cb's surge nos últimos lugares da tabela. Significa que tem blogues a cruzá-lo de forma repetitiva.
A média é de 0,786329707, ou seja a média de cb/cc (inbound blogs sobre inbound links) é de cerca de 78,6%. Melhor dizendo, a taxa de repetição de cruzamentos (links) é de 1.27... Análise sobre os primeiros 50 blogues da lista do Paulo Querido no techorati. A Sombra é o mais repetidamente cruzado pelos mesmo blogadores. Conversas de Café raramente é repetido, 0,958041958 é a sua taxa. A Sombra tem muitas repetições de cruzamentos, com uma taxa de 0,503759398 de cb/cc (inbound blogs sobre inbound links). Não coloquei cruzamentos (links) de propósito, significaria que esta pequeníssima análise estaria a servir para distorcer a variável em estudo!... Deixo interpretações para sociólogos e estatísticos. Segue lista.


Conversas de Café
Textos de Contracapa
Bloco-Notas
Socio[B]logue
Gato Fedorento
Ponto.Média
Valete Fratres!
Contra a Corrente
O Complot
Almocreve das Petas
Memória Inventada
Janela Indiscreta
Cruzes Canhoto!
Blogue dos Marretas
Não Esperem Nada de Mim
Desblogueador de Conversa
Avatares de Desejo
O Meu Pipi
Blog de Esquerda
Desejo Casar
Outro, Eu
Mar Salgado
Jaquinzinhos
Bomba Inteligente
Flor de Obsessão
Glória Fácil
Fumaças
Aviz
Crítico Musical
A Praia
Dicionário do Diabo
O Comprometido Espectador
Homem a Dias
Liberdade de Expressão
Bicho Escala Estantes
Voz do Deserto
A Natureza do Mal
A Aba de Heisenberg
País Relativo
A Formiga de Langton
Terras do Nunca
Abrupto
Mata-Mouros
Cataláxia
Barnabé
Ene Coisas
Bloguítica Nacional
o vento lá fora)
Fumaças
A Sombra

CM

Maria João Nogueira e o Sapo 

No encontro informal de Blogs Maria João Nogueira apresentou a nova plataforma do SAPO para Blogs. Gratuita, de livre acesso, com capacidade para imagens (e sons?), com capacidade de migração de outras plataformas. Segunda feira é o lançamente, esperamos para ver, estou curioso. O serviço de Paulo Querido parece-me bom, e estava indeciso se mudaria ou não. Já agora espero pelo SAPO.

Espero ainda que o serviço de apoio a clientes melhore e que não caiam as ligações durante a noite, como aconteceu ainda hoje pelas 7h da manhã! Queria eu blogar...

CM

Extra 

Conheci muitos bloggers no encontro informal de ontem, mas o encontro mais esperado, do qual até se falou ao almoço, seria o do Jaquinzinhos. Conheci de facto o autor desse blog, trocámos cumprimentos e não bengaladas, como alguém pedia. Agora que conheço o autor por detrás do "suburbano" não sei se poderemos manter o mesmo nível de intensidade nas nossas alegres discussões.

Dei-lhe os parabéns, de viva voz, pelo post muitíssimo bom em que acaba por condenar a ideia de suburbano que eu lhe colei, demarcando-se de forma, diria eu, elitista de um universo que até parece dominar, mas com o qual não se quer confundir. Mas continua a usar as mesmas estradas, e a sofrer nas mesmas filas de trânsito que os contabilistas de SEAT.

Mas o que se passa realmente na sua excelente prosa é que concorda em absoluto com tudo o que eu tenho aqui andado a pregar. Faz uma análise brilhante e divertida, mas caro Jaquinzinhos, afinal "e não se pode educá-los?" em vez de "e não se pode exterminá-los?"

P.S: Eu não sabia que os flocos de cereais do Lidl ficavam moles, agradeço as informações muito úteis que presta no seu post, agora tenho de ir trabalhar que já passa das 10h da manhã e o Metro não espera por mim!
CM

29.10.03

Os burocratas e a fantochada 

Obtive um "comunicado" do IPPAR, que transcrevo na íntegra. Lamentável o branqueamento do que se passou no Panteão. Realmente parece que a razão foi o dinheiro, o "el contado". As virtudes do mercado e do liberalismo a funcionar, sem decência, sem noção dos limites e do respeito que um templo e os nossos mortos representam. Uma mera questão de opinião de uma direcção qualquer que nem os nomes coloca no final do "comunicado" como assinatura. Um descartar no serviço proponente, no critério e no procedimento. As desculpas esfarrapadas de qualquer burocrata acéfalo que sacode responsabilidades, estamos habituados.

Felizmente são conhecidos o Arqtº João Belo Rodeia é o presidente e a Drª Rosa Amora a vice. Os responsáveis pelo comunicado. Serão também os responsáveis pela ofensa?

Os nossos mortos, os nossos templos, prostitutas ao serviço de uma qualquer empresa de livros. Fumos azuis e escola de bruxaria no Panteão Nacional, socialite e túmulos tapados com panos pretos! Tudo está bem, desde que fora da hora de visitas! Dignidade do local? Parece que a dignidade do local se coaduna com a farsa, com a ignomínia da palhaçada. E vivam as cabeças pensantes da direcção do IPPAR. Sem vergonha, sem pudor, nem sequer têm a noção dos limites e da decência. Transcrevo, de seguida e na íntegra, o "comunicado" para que se possa avaliar da fuga para a frente desta gente.
A mais elementar noção de boa educação pressupõe o respeito pelos mortos e pelos locais, pelos templos, pelas sacralidades, pelas famílias dos defuntos, pela honra colectiva de um povo que passa pelo respeito que é devido aos mortos e aos locais sagrados. Pela memória.
CM


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COMUNICADO

Em relação a notícias e comentários sobre o Panteão Nacional veiculados pela comunicação social, a Direcção do IPPAR informa e esclarece o seguinte:
1.
Desde que assumiu funções, a actual Direcção não alterou as condições, critérios e procedimentos no que diz respeito a autorização de eventos nos vários serviços dependentes do IPPAR, dando, em regra, continuidade ao parecer das direcções desses serviços e do Departamento de Coordenação respectivo.
2.
Esses pareceres são devidamente balizados a partir dos aspectos positivos e negativos decorrentes de cada solicitação, em função de cada edifício, na certeza de que o Património Arquitectónico apenas tem sentido como bem-comum e entidade viva, usufruída pelos cidadãos, nomeadamente os mais jovens. De igual modo, tal como em todos os países congéneres da União Europeia, o Património Arquitectónico pode e deve gerar receitas próprias, ampliando os meios disponíveis para a conservação e valorização desse património.

3.
O lançamento editorial que decorreu em Santa Engrácia é apenas mais um entre os inúmeros lançamentos e outros eventos que tem acontecido nos serviços dependentes do IPPAR, porventura mais mediático do que outros. Cumpriu as condições, critérios e procedimentos em vigor no IPPAR, realizou-se fora das horas de visita, foi condicionado às áreas que não correspondem à função específica de Panteão e foi acompanhado pelo respectivo Serviço de Educação. Permitiu reunir algumas centenas de crianças das escolas de Lisboa, procurando compatibilizar o imaginário infantil presente no livro e a atracção do público juvenil, com o usufruto do espaço arquitectónico do edifício e a divulgação do monumento.
4.
Fossem outras as condições, critérios e procedimentos para situações deste tipo, outra decisão poderia ter sido tomada pelo IPPAR, atendendo ao carácter, dignidade e uso do edifício. Porém, no âmbito lato do Património Arquitectónico, não existem verdades absolutas nesta matéria e, no âmbito estrito do edifício, não parece que tenha sido posta em causa a sua dignidade, à luz de uma perspectiva não-conservadora do Património Arquitectónico e das mais recentes orientações internacionais sobre a matéria.
5.
Apesar disso, decidiu esta Direcção solicitar aos serviços respectivos um memorando sobre todos os espaços disponíveis para realização de eventos em todos os serviços dependentes do IPPAR, com informação precisa sobre quais os eventos aí realizados nos últimos três anos, de modo a reequacionar as referidas condições, critérios e procedimentos, em função de cada edifício particular.

A Direcção do IPPAR está, como sempre, disponível para qualquer informação complementar sobre esta matéria e convida os cidadãos a participarem activa e empenhadamente nas tarefas de protecção, salvaguarda e valorização do Património Arquitectónico Português.


Lisboa, 28 de Outubro de 2003
A Direcção do IPPAR

Desde que os critériozinhos intocáveis que suas excelências, os burocratas, impuseram funcionem e desde que se pague, fora da hora de expediente, está tudo bem.
Temos o papelote disfarçado de Deus ex Machina de lei intangível, de supremo ícone que foi criado pelo burocrata acéfalo, como reflexo da sua servidão ao poder do papel e não do Homem. Servidão acrítica e desprovida de ética mas obediente ao auto criado papel. O tal papel que é brandido neste comunicado: "o supremo critério". Neste caso funciona como um atestado da própria incapacidade de assumir o erro. O mesmo "critério" que depois se apresenta como desculpa para os mesmos burocratas se tentarem eximir ao escrutínio ético de quem os observa e os tutela. Afinal de quem lhes paga o chorudo vencimento para zelar pela nossa memória: Portugal.


28.10.03

Adivinha quem vem jantar 



CM

Um livro virtual de poesia 

A poesia vai acabar
.
Uma iniciativa da Cristina Fernandes do Blog A Janela Indiscreta, com a participação nas escolhas da antologia da Zazie que colabora com a Janela Indiscreta, aqui do crítico, da Ana, da Lídia, do Ivan, do Luís, do Rui, do José Manuel, do Mário e do Alexandre.

Ao Mário devem-se as fotografias e os separadores. Vou imprimir, não gosto de leitura on-line, o papel chama-me, quero ler o que os outros escolheram, quero absorver a sensibilidade e o gosto de quem ama a poesia e vive com a poesia dentro de si.

CM

Chicos espertos e a vida dos suburbanos numa qualquer manhã 

Todas as manhãs, lá vêm eles, enlatados num automóvel, com o comboio da linha de Cascais ali ao lado! Assim é a vida dos suburbanos que gostam de usar automóvel, que não prescindem do mesmo. Eles nem se apercebem, mas as suas prioridades, as suas lutas, os seus objectivos no quotidiano prendem-se com as filas de trânsito. Eles vão ao futebol e gostam, eles têm lutas nas filas de trânsito para ver quem entra e quem sai, eles geram tensões, adoptam códigos para se saber quem é chico-esperto e quem não é, tudo decidido ao sair da bomba de uma qualquer área de serviço. É giro ver o tempo que eles perdem com aquilo, as reflexões que têm. Vê-se bem que pouco mais têm para fazer: ir ao futebol, andar em filas de trânsito, mandar umas bocas, fugir ao fisco, e dizer mal dos impostos, talvez ainda lhes sobre tempo e paciência para trabalhar e escrever no blogue, em certos casos. Enfim Portugal no seu melhor: Chico Esperto ou João Parvo. Um Portugal visto a duas cores por alguém que anda nas bichas de trânsito todas as manhãs. Alguém que se preocupa, como se vê, com o assunto.
Acaba por escrever bem, é divertido, mas também é elucidativo e instrutivo, acaba por ser pobre.
Parabéns Jaquinzinhos por uma crónica tão sentida, tão emotiva em que revela os seus anseios "e não se pode exterminá-los?" Eu diria diferente, mas somos todos diferentes: "e não se pode educá-los". Com os meus cumprimentos e uma vénia.

CM

Bandalheira no Panteão Nacional 


O monumento aviltado

Ou as escolhas da Dra. Iria e da tutela. A primeira, a de meter a Amália na sala dos escritores já foi suficientemente debatida. Outra: fazer dos nossos mortos, dos nossos ilustres, prostitutas ao serviço de interesses comerciais. Nem acreditei quando li pela primeira vez a notícia, julgava ser uma mentira de primeiro de Abril ou uma brincadeira de mau gosto tipo golpe publicitário. Uma vergonha despudorada, que me ofende como português. Que ao menos o dinheiro obtido sirva para levar o orgão, indevidamente colocado no panteão, de novo para o lugar que lhe compete, e onde esteve desde sempre, a Sé de Lisboa. Mas, não, não, se existe dinheiro é, para mim, dinheiro manchado, que sirva para fazer um Campo de Sangue, como os trinta dinheiros dados a Judas e que este depois devolveu arrependido. Que tenham vergonha na cara é o que desejo aos responsáveis por tão hedionda farsa que decorreu na Igreja de Santa Engrácia e se demitam, que passem ao anonimato de onde nunca sairam a não ser para praticar a ofensa. Creio que o patriarcado nunca teria permitido uma fantochada tão ignóbil numa Igreja sob a sua tutela. Seguem-se uma notas que encontrei no site do Público sobre os mortos que lá se encontram:

O Panteão Nacional, situado no Campo de Santa Clara, em Lisboa, acolhe apenas sete ilustres, num total de três salas - uma para presidentes da República, outra para escritores e uma terceira, inaugurada em 5 de Outubro de 1990, para receber o corpo do marechal Humberto Delgado (1906-1965).

A trasladação de restos mortais para o Panteão Nacional só pode ser feita mediante a decisão unânime dos deputados à Assembleia da República. Foi o que sucedeu em 1988, em relação a Humberto Delgado, o candidato a presidente assassinado perto de Badajoz, bem como no caso de Amália, a 12 de Outubro de 2000. Até essa altura, o Panteão só tinha recebido escritores e antigos chefes da República.

Com Delgado, a polémica instalou-se, porque havia quem defendesse que lhe deveria ser destinado um lugar na sala dos presidentes. Nos dois anos que mediaram entre a decisão e a transferência do corpo, decidiu-se a abertura de uma terceira sala.

É na sala dos presidentes que estão depositados os restos mortais de Teófilo de Braga (1843-1924), Sidónio Pais (1872-1918) e Óscar Carmona (1869-1951). Na sala dos escritores, dedicada à memória dos vultos oitocentistas, podem ser visitados os túmulos de Almeida Garrett (1799-1894), João de Deus (1830-1869) e Guerra Junqueiro (1850-1923).

A escolha da sala dos escritores para guardar os restos mortais de Amália foi feita porque, segundo Iria Caetano, conservadora do monumento, a fadista é tal como eles uma grande divulgadora da língua e da cultura portuguesas. Amália é assim a primeira mulher e artista a ter honras do panteão. À imagem dos outros túmulos, o seu levará o nome gravado a ouro e a data de nascimento e morte.

Na igreja do Panteão, em capelas-nichos abertas nos corpos laterais, encontram-se também memoriais evocativos de figuras de vulto da história de Portugal, como Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Luís de Camões. Mas os seus corpos nunca foram trasladados. Vasco da Gama e Camões, por exemplo, permanecem no Mosteiro dos Jerónimos, que entre 1836 e 1966, até à inauguração de Santa Engrácia, teve a função de Panteão Nacional.



Interior, onde decorreram práticas menos próprias

Relembro a notícia sobre a palhaçada do lançamento de um livro infantil no Panteão Nacional. Isto a propósito de uma iniciativa do deputado José Lello, que questionou através de um requerimento os motivos e responsabilidades dos autores e de quem autorizou o despautério. Recolhi a nota no Público:

«foi celebrado em Lisboa com singular festividade nocturna, marcada pela extravagância temática e por fecunda e cintilante participação social», remete para relatos de imprensa _ ex: «... com os túmulos de ilustres falecidos (convenientemente tapados) por cenário de fundo, a Editorial Presença, com a autorização do Ippar, recriou a sala de aulas do menino aprendiz de feiticeiro numa festa reservada a convidados» _ e considera que «esta utilização pouco digna do Panteão Nacional (...) é de molde a chocar todos os cidadãos que considerem não poderem os símbolos da Pátria assim ser trivializados e diminuídos».

Se o director das estradas se demite por causa de uma ponte pedonal no IC19, o que dizer disto? A ofensa à memória colectiva de um povo ultrapassou todos os limites. E escondem-se, e dizem que nada têm a dizer. É caso para dizer que tais dirigentes me metem nojo, um nojo que é um luto por Portugal e pelos seus filhos.


E eu?...
Ninguém me avisou?

CM

27.10.03

JOANNA MacGREGOR 


foto de Nick White

Esta pianista, que fundou uma companhia editora, tocou domingo, ontem, no festival de Mafra, 17h,um concerto de bom nível:

COREA: Children's Songs (Nos 4, 6 & 18)
LIGETI: Estudos Nº 4, 5 e 6
BYRD: Hughe Ashton's Ground
ADES: Traced Overhead
DOWLAND: Forlorn Hope Fancy
BATES: Is There Anybody Up There?
NICOLSON: 42nd St Stomp
BEETHOVEN: 32 Variações em Dó Menor
CRUMB: A Little Suite for Christmas AD 1979
PIAZZOLA: Milonga del Angel e Libertango
SATOH: Incarnation II
BACH: Allemande da Partita Nº 4 em ré

Nas obras contemporâneas e em Bach esteve muitíssimo bem, já as peças de Dowland e Bird, pecaram por uma visão demasiado moderna da articulação, muito solta, muito martelada, muito jazzística, factores que não se coadunam com a música destes compositores. Chegou a faltar a inteligibilidade do discurso musical.
O Beethoven saiu muito duro, muito agressivo, sem fraseado, demasiado stacatto.
Em termos de filosofia, e pensando apenas em música pura, a ideia do programa poderia resultar, mas acabou por existir uma distorção pela interpretação do espírito musical das três obras citadas, que não resistiram a esta interpretação tão radical.

Senhora de uma técnica impecável abordou, de forma muito conseguida as obras mais jazzísticas e Piazzola, mas o momento mais impressivo foi a sonoridade quase avassaladora da obra de Satoh, notável, parecia uma orquestra inteira a sair do piano. Sem sequer abusar de uma intensidade elevada, ao nível do mezzo forte, deu-nos uma densidade absoluta, que faltou um pouco em Ligeti.

Bach costuma resistir bem a tudo, mas neste caso nem se tratou de resistência ao inaudito, Joanna MacGregor atacou Bach no final do concerto, de forma tranquila e sensível, menos agressiva, digamos. O resultado foi francamente bom. Bach, mais do que de interpretação de "época", precisa de amor.

O pior do concerto foi a excessiva ambição do reportório. O nível muito elevado na música mais recente e a sensibilidade com que abordou Bach compensaram largamente as falhas, acabando por se tratar de um belo concerto.

Fecha assim o Festival de Mafra, no sábado houve conferência de Pinho Vargas e Orchestrutópica, creio que também em bom nível. Miguel Lobo Antunes está de parabéns mais uma vez, um trabalho sempre seríssimo, sempre cuidado, altíssima qualidade dos intérpretes e dos programas. Mesmo a aposta mais difícil, foi uma aposta ganha: A Peregrinação da Rosa de Schumann, que poderia ser comprometida por um coro do S. Carlos (e maestro do mesmo) que se tem apresentado em muito baixo nível, acabou por abordar a obra de forma digna. Tendo em conta os concertos a que assisti (alguns) e críticas que li, o Festival de Mafra foi um enorme sucesso.

CM


Cito um artigo do Seabra no Público, neste momento não é altura de discordar de pequenos detalhes, tem toda a razão e escreve bem, concordo inteiramente e reproduzo com a vénia respectiva, é nestes assuntos que a coragem e inteligência de A. M. Seabra faz falta. Como de costume a razão que me leva a reproduzir por inteiro o texto é que o Público retira estas crónicas ao fim de um certo tempo, uma semana, e deixa de estar acessível on-line. Aqui fica o registo.
CM


Ao Princípio Era o "Em Órbita"
Por AUGUSTO M.SEABRA
Domingo, 26 de Outubro de 2003

O último concerto ainda está para vir, no Porto, a 29 de Novembro, mas para muitos fiéis companheiros de jornada, ao longo de sete anos, terminou ontem à noite, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, uma bela aventura, os Concertos Em Órbita/Portugal Telecom. Espero que tenham terminado em beleza; mas terminaram ignominiosamente, por obra e desgraça da dita Portugal Telecom, "condignamente" representada na figura de salamaleques, flatulências e transbordo de vaidades do seu presidente da Comissão Executiva, Miguel Horta e Costa.

A identificação do "Em Órbita" à música barroca, que é como quem diz - porque esta também foi uma aventura solitária - dessa singular figura do "arquitecto cada vez mais quase exclusivamente melómano" Jorge Gil, essa identificação está de tal modo instituída que dir-se-ia já um dado da eternidade. Mas este é também o momento de um dever de memória.

Alguns ainda terão presente que a pré-história começou em territórios bens diferentes quando a equipa inicial do "Em Órbita" trouxe à rádio portuguesa padrões de apreciação do universo "pop" contrastante com as ordens vigentes. E por mim já bem lembro de quando o indicativo do programa passou a ser o "Assim Falou Zaratrusta" de Richard Strauss, como que "vindo" do "2001" de Kubrick. O salto, deu-o já solitariamente Jorge Gil em 1974, no momento em que nos começavam a chegar por via discográfica os ecos de uma "nova música antiga" - com os discos que nos chegavam, e também o papel infatigável de animador que foi, cá, o de Joaquim Simões da Hora.

Em 1985, ano do tricentenário dos nascimentos de Bach e Haendel, a dedicação tomou corpo vivo: no primeiro concerto organizado pelo "Em Órbita" vieram Ton Koopman e a Orquestra Barroca de Amsterdão - e o Jorge a pedir-me para escrever as notas ao programa e o Simões da Hora de permeio a telefonar-me "então essas notas?, despacha-te!".

Evidentemente, nesses 11 anos algumas coisas tinham tomado força de evidências; se me apanho nesta história é porque já então também na imprensa se manifestava uma sensibilidade crítica marcada pelos novos critérios interpretativos do barroco e da genericamente chamada "música antiga", para a qual também já despertara a Gulbenkian, iniciando as respectivas jornadas. Mas ao princípio era o "Em Órbita".

Hoje, tudo será evidente, demasiado mesmo, a ponto de o gosto do barroco se ter tornado numa moda persistente, mesmo num novo cânone do gosto musical cujos efeitos perversos também não tenho deixado de apontar. Contudo, essa institucionalização de um gosto não implica uma demissão da esfera autonómica que remetesse a programação do dito repertório barroco (de facto, hoje já alargado a períodos subsequentes) àquelas que são propriamente as instituições programadoras e só essas.

O que sucedeu no caso dos Concertos Portugal Telecom é que a apetência possibilitou um sucesso público que tem que ser atendido para melhor empreender o alcance do desaforo. Longe de mim sustentar que os projectos culturais se devam prioritariamente orientar para a visibilidade imediata; mas há qualquer coisa de extraordinariamente aberrante no facto de, sabendo-se que capital de "risco cultural" é algo com que não contamos propriamente, uma empresa se desvincular do projecto de mecenato que vinha trazendo maior visibilidade imediata - porque claramente não existe um outro caso de tão notória associação pública ao seu mecenas como o dos Concertos Portugal Telecom.

Alguma razão económica? Li atentamente o Relatório e Contas do primeiro semestre de 2003 da PT: "Os resultados obtidos permitem-nos encarar com optimismo o exercício", escreveu Miguel Horta e Costa aos 28 de Agosto de 2003; não é por aí - sejamos claros, 334.000 euros de investimento no programa cancelado para 2004 é uma verba quase irrelevante para a PT. Reorientação estratégica? Quando a má nova veio no PÙBLICO (8/2/03), o tal senhor dos salamaleques afirmou que "a PT tem um sentido muito profundo da responsabilidade cultural" e por isso passavam a apoiar em exclusivo o Teatro Nacional Dona Maria e o Centro para as Artes de Belgais. O mínimo que se pode dizer é que é publicamente desconhecida a "responsabilidade cultural" de apoiar uma tão notória inexistência como o Dona Maria, que assim o quer outro homem de salamaleques, o secretário de Estado Amaral Lopes.

Nesta lamentável decisão não faltarão também politiques rasteiras, com Horta e Costa, homem do poder PSD, a querer apagar uma iniciativa do antecessor Murteira Nabo, homem do poder PS, e a cultura que se lixe. Mas há dois dados que não podem deixar de ser evidenciados: 1) a possibilidade de a iniciativa vir a prosseguir com outro apoio coloca-se desde já com desafio público ao mecenato, à capacidade de iniciativa cultural e mediática do capitalismo português; 2) o que afinal neste caso até se compreende muito bem, e a esse respeito mesmo o Dona Maria pode ser sintoma exemplar, é que o Estado se faz valer da empresa em que é notoriamente influente para colmatar os seus próprios défices de orçamentação ou apoio - um ponto mais, afinal, a acrescentar ao inqualificável escândalo que já de si é o abuso de posição dominante da PT, no seu sector base, na distribuição cinematográfica ou na comunicação social, algo que em qualquer democracia capitalista com as devidas regras não seria de todo possível.

PS - Pois é - nem de propósito, um assessor ministerial salta quase directamente para director de um jornal da PT! Alguém aí disse que a empresa de Horta e Costa não é favores ao governo?


26.10.03

Um texto antigo sem resposta de 23 de Junho. 


Dizia eu a 23 de Junho, a propósito de religião, a propósito de Deus e do homem e da questão da Palestina que então se discutia no Aviz e em muitos outros blogs, citei Wagner e o seu crepúsculos dos deuses, o significado é evidente, os deuses morreram, restou o ódio. Se os Deuses vivessem hoje, aqui e na Palestina não haveria gerras. Na Palestina ninguém tem razão, o problema não é de saber quem tem a culpa, mas de saber que o ódio substituiu Deus. O silêncio que se estabeleceu após este post foi sepulcral. Wagner mete medo? Por muito que deteste os seus escritos políticos, amo-o como génio musical e poético. Daniel Baremboim, deve ser o único judeu que conheço, mais haverá, que ultrapassam o ódio e, divinamente, aceitam o génio de Wagner e o amam para lá do bem e do mal. Nietsche disse que "o maior escravo é o ressentido". Baremboim não é um escravo do ressentimento e do ódio, amo também Daniel Baremboim por isso mesmo. Seguem-se as palavras proféticas para todos nós, para todo o século vinte, e provavelmente do século vinte e um, do final do Crepúsculo dos Deuses, sem tirar nem por, como Wagner escreveu no texto e na partitura. Segue o meu texto auto-citado:

"Dedico este texto ao Aviz

Woglinde und Wellgunde umschlingen mit ihren Armen seinen Nacken und zihen ihn so, zurückschwimmend, mit sich in die Tiefe. Flosshilde, den anderen voran dem Hintergrunde zuschwimmend, hält jubelnd den gewonnenen Ring in die Höhe. Durch dir Wolkenschicht welche sich am horizont gelagert, bricht ein rötlicher Glutschein mit wachsender Helligkeit aus. Von dieser Helligkeit beleuchtet, sieht men die drei Rheintöchter auf den ruhigeren Wellen des allmählich wieder in sein Bett zurückgetretenen Rheines, lustig mit dem Ringe spielend, im Reigen schwimmen. Aus den Trümmern der zusammengestürzten Halle sehen die Männer und Frauen in höchster Ergriffenheit dem wachsenden Feuerschein am Himmel zu. Als dieser endlich in lichtester Helligkeit leuchtet, erblickt man darin den Saal Walhalls, in welchem die Götter und Helden, ganz nach der Schilderung Waltrautes im ersten Aufzug, versammelt sitzen. Helle Flammen scheinen in dem Saal der Götter aufzuschlagen. Als die Götter von den Flammen gänzlich verhüllt sind, fällt der Vorhang.

P.S. Depois das palavras acima os Deuses morreram... Estas palavras marcam o fim de uma saga e de um tempo, tal como as donzelas do Reno brincam com o anel, distraídas do fogo que atormenta os céus e que consome para a eternidade heróis e deuses; os homens, orfãos, olham os céus apreensivos, os castelos estão em ruínas e a cortina cai. Não, não, Francisco recebeu os Estigmas demasiado tempo atrás, Jeová morreu no ano setenta. O império espalhou-se de estátuas de Antínuo, e nada mais há para dizer, senão ganância, ódio e guerra. Restam apenas palavras esculpidas em granito.
O amor reina como lembrança de meia dúzia de poetas e no canto de um certo rouxinol, algures perdido nesses campos..."

CM

25.10.03

Jorge Moyano 

Ontem no S. Luiz. Pianismo, sensibilidade, suavidade, um toque muito suave mesmo nos fortíssimos, dos quais não abusou. O segundo andamento, núcleo central de todo o concerto opus 58 em sol maior (nº4) de Beethoven, foi o mote para a interpretação de Jorge Moyano para todo o concerto. Impressionou muito esta visão geral do concerto por parte do pianista menos mediático e mais tímido de todos os pianistas portugueses. Jorge Moyano foi ontem no S. Luiz capaz do seu melhor, o que no caso de um homem com a sensibilidade, musicalidade e inteligência de Jorge Moyano é muitíssimo bom. Jorge Moyano é um mestre. Todos os pianistas destes concertos têm estado muitíssimo bem. Moyano fez subir o, já de si, bom balanço desta série. Deu-nos um extra notável de Schumann, um dos melhores momentos do concerto.

A orquestra, no concerto de Beethoven não esteve, de novo, ao seu melhor nível, mas conseguiu acompanhar o pianista com respeito e entusiasmo, com alguma subtileza. Fernando Eldoro é um maestro competente, mas nota-se-lhe alguma falta de estrado. Falhou redondamente algum domínio rítmico da orquestra, e notou-se alguma descordenação entre esta e o pianista. Mas passou amor à música, passou musicalidade. Uma nota negativa para o excesso de som dos trompetes, sobretudo o primeiro, notas a rasgar e em desequilíbrio total com a sonoridade muito delicada da orquestra, nunca se ouviu um fortíssimo nos tuttis do primeiro andamento. A parte mais agressiva, e bem, surgiu no tema violento do segundo andamento e no contraste com a poesia emanada do piano, os pizzicatos têm de ser mais pontuais e com menos entradas atrasadas, trabalho para o concertino. O rondo, terceiro andamento, também não foi um modelo de coordenação nas partes mais "à batuta", os sopros a contratempo das cordas nunca se ouviram. Alguns desacertos de Eldoro podiam ter estragado um concerto para piano, que na parte orquestral, teve tudo para ser excelente e que foi apenas razoável. O melhor de Eldoro foi a visão, a arquitectura do concerto. O pior foi a falta de treino!

O resto do concerto teve Ana Paula Russo, que cantou uma ária de Mozart, o seu timbre é bonito nos agudos, sendo um pouco agreste nos sobre agudos e nos graves, e à parte algumas desafinações menores e falta de extensão da voz nos graves, esteve em plano aceitável.

O concertino Peter DeVries provou porque razão o naipe de violinos tem andado tão fracote nos últimos tempos, uma interpretação fria e desenxabida de um rondo em si bemol maior K. 269 para violino e orquestra, com umas desafinações e uns desacertos do solista aqui e ali. Espera-se melhor exemplo de um primeiro concertino. Foi apenas regular, não deixou memória.

O maestro Fernando Eldoro tem musicalidade e inteligência das obras, falta-lhe, talvez, ritmo de estrado, falta-lhe alguma segurança no acampanhamento, que é o primeiro ponto a falhar quando não se tem dirigido com regularidade. Mas a imagem que transmtiu e que passou para o público foi a de um trabalho competente, dedicado e musical. De qualquer modo esteve bem, muito acima dos "maestos" que têm visitado o S. Luiz.

A impressão geral depois do concerto foi de prazer, de ter valido a pena sair de casa numa noite de chuva para ouvir um concerto muito agradável.

P.S. Porquê insistir em maestros estrangeiros da qualidade duvidosa, como o de dia 17 de Outubro, que nem o nome digo aqui, tal como já não disse antes, para nem sequer lhe dar esse destaque. Temos maestros. O que falta é mais trabalho para estes mesmos maestros, com mais ritmo Fernando Eldoro não teria, certamente, tido as pequenas falhas que deixei claro.
CM

24.10.03

Gulbenkian 

Claro que vou à Gulbenkian, apesar do que dizem por aí, sábado e domingo para ver e ouvir Pierre Boulez. A não perder, enquanto está vivo, com o seu Ensemble InterContemporain. É certo que foi um ditador da forma e da regra de composição. É certo que baniu, mais os seus acólitos fervorosos, todo aquele não alinhasse pelos ditames da sua escola. Mas é um génio, e aos génios perdoa-se quase tudo.
CM

Prémio A visão clara da realidade - sem demagogia 

O Crítico Musical atribui um prémio a título excepcional. Não é habitual, mas trata-se de uma importantíssima observação política de Ana Gomes, que merece um justíssimo prémio pela clarividência e pelo rigor da análise política. O prémio deve-se à frase:

"O partido está mais forte."

Frase proferida, aos microfones da Antena1, sobre o Partido Socialista após uma reunião em que Ferro Rodrigues levou palmadinhas nas costas e ouviu uns simpáticos "aguenta-te que nós cá estamos para te ocupar o lugar quando já não tiveres salvação possível". Ana Gomes aprendeu imenso na carreira diplomática, o convívio com outros povos ensinou-lhe a lidar com a realidade de forma exemplar. Parabéns Ana Gomes. E o princípio de Peters que nunca falha.

CM

Rádio VOXX 


Apresenta hoje um dia exclusivamente dedicado à música portuguesa, 100% de música portuguesa na rádio. Um projecto inovador, em Lisboa 91.6, no Porto não sei...


Assim se prova que se consegue "encher" um dia de rádio a 100% com música "made in Portugal", mas que custa, custa!
Neste momento Kim Barreyrus, a seguir Dyno Mheira...

O que é certo é que há duas horas dedicadas a Irmãos Catita e Ena Pá 2000. A não perder os projectos antigos destes grupos, gosto desta de "projectos antigos" é apropriado ao domínio do banal necessário a uma escrita "jornalística" em rádio.

CM

Hoje à noite 


Às vezes prefiro fingir que não vejo, às vezes prefiro ignorar e apertar uma máscara de indiferença perante o mundo, perante os despojados. Lembro-me, a propósito, dos despojados, daqueles que nada têm de que Bach fala na sua Paixão segundo S. Mateus na ária do Cristo na Cruz: Jesus abraça o mundo e recebe-os, sem excepções, nos seus braços.
Quando páro e acabo por olhar esse mesmo mundo com olhos de ver, como hoje à noite, às vezes penso que teria preferido ignorar, como de costume. Mas hoje à noite parei e contemplei.
Encontrei uma velha, uma simples velha, xaile de lã sobre os ombros, um xaile castanho, velho como a velha, cheio de buracos. Eu sentia frio, um frio que vinha de uma simples camisola de lã que trazia sobre a camisa, não tão simples como o simples xaile de lã da velha, uma velha que eu já conhecia, de me pedir moedas na rua ao entardecer, mas nunca tão tarde, simples moedas que eu nunca recusei, sem parar, sem ver. Mas hoje aquele simples xaile de lã, cheio de buracos tocou-me. Aquela face marcada orlada de cabelos brancos recordou-me a face da minha avó, sinto ainda agora o frio, o gelo que senti, através da camisola de lã, não tão simples como xaile enrugado e cheio de buracos, espelho da face da velhinha, espelho das marcas de outros frios... Passaram já umas horas, duas, talvez três, e o frio aumentou em vez de desaparecer, aqui, na minha quente casa. Dei-lhe umas moedas, poucas, sinto agora que aqueles euros eram mais frios que certos frios de Janeiro, frios como a pequena conversa que iniciei: "Que faz aqui fora? olhe que apanha frio." Ao que logo me responde, cândida, tão cândida como a neve dos seus cabelos, branca, exactamente como a expressão da minha avó, rindo: "Sabe, menino, estou habituada ao frio, já não sinto"... Perdido na banalidade fútil, vã, incoerente e impotente das minhas palavras, ferido de morte pela resposta tão pura, dita tão doce, morri ali mesmo.

Felizmente que parei...

CM

23.10.03

A festa do Meu Pipi 

Não fui ao lançamento do livro, andava por perto quando me lembrei que poderia beber um whisky, que depois descobri ser à borla, e ver um strip tease, feito por alguma artista de qualidade no Maxime da praça da Alegria! Raramente comento espectáculos de strip tease, não estão muito no meu género musical, mas uma vez por desfastio até não desdenho.

Assomo à entrada e reparo que o porteiro me pergunta se tenho convite. Convite? Estranho eu, para ver um mero strip pedem-me convite? Não, não, eu sou crítico, venho apreciar o espectáculo e beber um scotch. Ah está bem diz o outro com sotaque eslavo e envergadura condizente, Impresna? O que está para aí a dizer? Impresna? Jornálistá? Isso, isso, pode ser, desde que beba um copo e veja uma artista em trajes menores ao som de uma música que não lembraria a ninguém ouvir... Mas tem de usar uma coisa, diz-me o porteiro com ar convincente, senão não entra! O quê? Penso eu no pior, ah! um crachá... Escrito no mesmo: "eu é que sou o pipi", ou coisa assim! O pipi? Até no Maxime? Não me digas que o gajo comprou esta coisa para ter sempre acessível as moçoilas. Entro e descubro umas garotas na recepção que me impingem o tal crachá e me mostram uns livros, e eu para comigo: estou apanhado, caí no lançamento do Pipi... E o Mário Zambujal cruza-se comigo, olha, olha este não costuma cá estar todas as noites? E uma moça das telenovelas, ou será do Big Brother, assim para o louro pintado e baixinha, será actriz? E o Pedro Mexia ao longe, este mais fácil de identificar, e umas moças de camisola encarnada. E o Pedro Lomba, e o Paulo Querido e o José Mário Silva, e o Daniel Oliveira, e um rapaz barbudo que falava com sotaque acastelhanado distante, o RAP andava também por ali com a sua família. Felizmente apanho o very ending do vídeo, não apanhei nada da conversada do costume. Bem, bebe-se o scotch conversa-se e vê-se o tal strip, o lançamento do Pipi sem strip não é um lançamento, pergunto a um senhor com ar comprometido de aristocrata falido, que descubro ser um blogador convicto se já se sabe quem é o pipi? Não, meu caro, tinha os óculos embaciados, não vi nada. Peço o whisky e descubro que afinal é whiskey, um Jameson, afinal nada está perdido. Falo com uns colegas ultra liberais, a Teresa e o Manuel, pergunto se o Jaquinzinhosl anda por lá mas eles não o conhecem pessoalmente, uma pena. Espera-se um pouco e pela meia noite e um quarto começa o strip.
Uma jovem morena e bem nutrida, com dois pares de cuecas (?) dança languidamente ao som de uma música roufenha, faz umas poses, tira umas peças de roupa, agita os cabelos e sai de mão nas partes pudibundas. Palmas e olho em volta, ninguém, só os rapazes socialistas (rijos este Pedro e Filipe, ficam sempre até ao fim, alto nível de contenção e endurance, nada lhes dá cabo do humor, nem as trapalhadas do Ferro nem as cartas do Carrilho), uns liberais (desculpem mas não sei o blog), que liberalmente se deixaram ficar para o strip, um rapaz do Quinto dos Impérios (com ar de bon vivant), o Mário Zambujal (que deve fazer parte da mobília e que a sabe toda), umas moças esqueléticas e nada de blogadores! Foram para casa todos aos primeiros acordes da dança supostamente erótica. Queriam ser os primeiros a relatar a festa nos seus blogs. Um rapaz de nariz grande e ar despassarado pediu-me um autógrafo no livro do pipi, "mas eu não sou o pipi!" E ele: mas eu quero na mesma. E também quero das meninas, referindo-se à CMC e à companhia do CMP. Olhando para a desolação à nossa volta comento: pois, são todos uns rotos! Ao que elas aquiesceram e pusemo-nos na alheta...

CM

22.10.03

Guterres não está morto 

Com surpresa leio uma entrevista dada ao site do Instituto Superior Técnico pelo professor Guterres. Não comento, apenas dou a conhecer os pensamentos do professor IST sobre o trabalho que tem desenvolvido no Técnico. Numa leitura superficial até parecem boas ideias.

As fotografias estão divinais.

CM

Avaria 

Uma irritante avaria do PC impediu-me de blogar, de responder a emails, etc, etc, etc...
Volto à actividade com um Pentium IV novo a 2.8GHz, um disco de 120 Gb, e mais umas placas de som e de vídeo, uns gravadores. Espero uma melhoria significativa da produção de som e de imagem, a placa de som é uma bomba, com entradas e saídas ópticas, e USB's são para aí uns doze...

Tinha um texto imenso sobre François Couperin quase a ir para a edição e perdeu-se, felizmente que guardei um rascunho no Word, e o disco não se estragou. Voltarei ao assunto com brevidade. Analisava também as interpretações das leçons de ténèbres de Lesne, Verner, Chapuis, Christie e Rousset num post onde fazia também uma breve história do assunto.

Entretanto recomendo as Leçons de ténèbres do De LaLande, editora alpha para variar e Vincent Dumestre com o Poême Harmonique. Uma obra genial, uma interpretação excelente.

CM

20.10.03

Mein Kampf 

Tenho lido alguns blogs com muita atenção, e reparo com muito prazer que o Vincent continua puro, continua a dizer o que pensa, com calma, com ironia, fina, um blog ao qual regresso sempre com prazer.

Gostei muito das referências ao "Mein Kampf" de Hitler. Devo dizer que acho que o livro deve estar à venda. É património universal, é um documento importantíssimo para a história da humanidade. Se alguém quer perceber o que se passou durante um dos períodos mais importantes da história humana, um período em que todas as convulsões, todos os ódios saíram à rua, em que o ogre humano mostrou a sua face escondida, e não falo apenas de Hitler, deve ler o "Mein Kampf".
Ler, compreender, estudar, não significa aceitar, ou adoptar as teses do livro.

Queimar o "Mein Kampf" significa, apenas e só, aceitar e praticar as ideias do autor!

CM

19.10.03

Últimas notícias - Coro do S. Carlos não assassina Schumann!! 

Ontem, sábado, Festival de Mafra, biblioteca do convento, 16h30m. O coro do S. Carlos, alguns cantores portugueses e João Paulo Santos no piano e direcção; conseguiram uma interpretação digna, séria, digamos que mediana, da Peregrinação da Rosa de Robert Schumann. Um coro reduzido de 23 cantores conseguiu, com algumas excepções, nomeadamente no final, cantar sem desafinar em extremo. As vozes não desacertaram muito e não se esganiçaram ou gritaram para lá do aceitável num coro amador bom. É certo que a obra de Schumann não exige demasiado do coro, mas quem ouviu o mesmo coro na véspera e depois no sábado, quase que não acredita na transformação.

Será que as 23 vozes seleccionadas (dentro de 78 possíveis) são o melhor que o coro pode dar? Talvez. Porventura poderão ser a base para o início de um novo coro. Será que o maestro de coro afinal não é tão incompetente como se tem mostrado, ou será apenas uma questão de atitude, de brio, de vontade? De respeito para com o director do Festival: Miguel Lobo Antunes? Que em questões de respeito pelo público o coro e seu maestro não parecem muito dados.

Parece que até são capazes de qualquer coisa, pelo menos os 23 que estiveram em Mafra, num dia o péssimo (num coro muito maior creio que 50 vozes), noutro o razoável. Algo está mal. Mas tal como antes arrasei, hoje tenho de concordar que até se ouviu a peça com agrado. Os solistas estiveram razoáveis, e o pianista João Paulo Santos fez também uma leitura muito correcta do texto além de ter preparado a obra como maestro. Espera-se que esta nova postura possa continuar no futuro e que a bandalheira seja substituída por mais cuidado e trabalho. A crítica não cala por muito tempo, a paciência tem limites, afinal só se pede trabalho e boa música, a qualidade nasce do trabalho e da seriedade.

O que todos queremos é boa música. Schumann não foi a tortura que toda a gente esperava. Bem hajam por ontem, mas isso não invalida o que de péssimo tem acontecido. Esperam-se melhorias, talvez ontem tenha sido o ponto de retorno... mas duvido muito.

CM

Duas coisas giras 

A primeira pode ser vista em:
Gargalhada ou anedota? Uma grelha de rádio estatal de música clássica. Parece que a imagem foi feita pelo filho da porteira e, depois, alguém, que tinha um scaner em casa, digitalizou o boneco e levou numa diskette para a rádio, onde um amigo do filho de um locutor, que sabe umas coisas de internet, meteu a coisa na página...

Visto no cimbalino, que observou e bem!

Mais grave é o que se pode ver em mais uma do Seabra. Onde se começa por ler esta pérola:

"Fantasiar, "phantasieren", é o verbo com que se conjuga Schumann, mais que qualquer outro. Foi ele conjugado em referência ao próprio processo clínico da des-razão: assim Clara anotou algures que Robert "phantasierte", delirou."

"Ele" quem? O verbo? Ou o Schumann que se conjugou? É que "ele" é absolutamente pessoal, não se refere a qualquer conceito, como a um verbo, a não ser que o verbo seja um ser humano, se calhar o Schumann.

Segue-se o saboroso naco:

"Um Schumann desconhecido? Substancialmente sim; conheço mesmo respeitáveis e livros sobre o autor que não fazem sequer qualquer referência à obra. A razão atribuída ao pueril texto de um tal Moritz Horn, um dos tais que, com o tardio apreço pelos poemas de Elizabeth Kullmann e os "lieder" daí resultantes, mostra afinal que o gosto literário do compositor também teve os seus momentos claudicantes."

Quais os respeitáveis livros? A bem dizer quem claudica é o escriba, que num texto cheio de alemão, a puxar para o finório intelectual que sabe línguas, nem sequer consegue alinhavar umas palavras como as seguintes:

"Das Knaben Wunderhorn"

Das????? E repete a asneira diversas vezes, se fosse apenas uma passava por gralha.

Ou

"além de originalíssima, e com pelo menos dois momentos sublimes, não pode assim deixar de assim de ser entendida como integrante das peculiaridades de "phantasieren" schumannianas."

Deve ser figura de estilo, que eu não entendo, a repetição dos "assins", e o detalhe do "assim deixar de assim de ser", um português do mais fino recorte literário, lindo.

"Quando no final a Rosa se despede, "Das ist kein bleicher scharzer Tod, das ist ein Tod voll Morgenrot (Não é uma morte pálida e negra/é uma morte cheia do vermelho da aurora)", um outro canto sublime, então nesta fantasia, "A Peregrinação da Rosa" anuncia a última das obras pré-póstumas de Schumann, os "Gesang der Fruhe/Os Cantos da Aurora" para piano."

Eu não percebo o que o autor quer dizer com o "então nesta fantasia", mas aqui imagino que o defeito seja meu que não tenho pedalada para tão bela escrita.... Mas e a música? Comentários musicais, temas? Ideias musicais de Schumann, momentos de tensão, o uso dos menores e dos maiores, o ritmo sincopado e alegre do casamento de aldeia, a desolação dos momentos de angústia, a linearidade da escrita coral, o sentido dramático nas partes a solo, a antítese entre coro (com uma escrita simplificada) e solistas (com partes mais complexas)... de música nada. E essa dos "Cantos da Madrugada" serem prenunciadas pela Peregrinação da Rosa: mais uma daquelas observações que se fazem sem provas. O que eu sei é que musicalmente estão a anos luz de distância.


E agora um momento da trompa mágica.

Des Knaben Wunderhorn
Poemas populares alemães recolhidos por Achim von Armin (1781-1831) e Clemens von Brentano (1778-1842), publicados entre 1805 e 1808. É só porque eu gosto do poema e porque Schumann o utilizou no seu op. 79 nº 20 (1849).


Es fliegen zwei Schwalben ins Nachbar sein Haus,
Sie fliegen bald hoch und bald nieder;
Aufs Jahr, da kommen sie wieder,
Und suchen ihr voriges Haus.

Sie gehen jezt fort ins neue Land,
Und ziehen jezt eilig hinüber;
Doch kommen sie wieder herüber,
Das ist einem jeden bekannt.

Und kommen sie wieder zu uns zurück,
Der Baur geht ihnen entgegen;
Sie bringen ihm vielmahl den Segen,
Sie bringen ihm Wohlstand und Glück.

CM

18.10.03

O inaudito 

O que um desgraçado sofre para ouvir um pianista jovem, pelo qual se tem alguma curiosidade. Não escrevo aqui sobre esse mesmo pianista, Borges Coelho tocou ontem no S. Luiz o concerto nº 3 de Beethoven, e creio que bem. Não consigo comentar, acho que foi uma ofensa ao jovem pianista o que se passou ontem. Sujeitar o público a uma tortura total logo antes do concerto de Beethoven, sem hipóteses de abandonar a sala se o quisessemos escutar. Parece que foi propositado. A orquestra também esteve muito mal, fraquíssima, desafinada, descoordenada, os sopros muito mal, ao contrário do costume. O concerto de Beethoven foi também estragado por intervenções desastradas dos sopros e do conjunto, que retiram brilho ao pianista.

O problema foi o coro, na cantata de Beethoven, que precedeu o concerto para piano, bateu todos os recordes, quase não consigo acreditar que um coro de um Teatro Nacional de ópera pudesse descer tão baixo, o secretário de estado da cultura estava presente, creio que gosta da música. Se tiver ouvidos e não for autista deve ter percebido o descalabro absoluto. Foi tão mau, tão desafinado tão ridículo, tão infame, tão desacertado, tão feio, tão triste que me faltam as palavras. Não se pode criticar a imundície, constata-se e evita-se. Creio que as pateadas terão de começar a surgir ou o público continuará a ter o que merece se não o fizer. O direito à indignação tem de surgir, a tolerância e compreensão dos que ouvem tem sido enorme e o desrespeito pelo público, e pelos contribuintes, daqueles que "cantam" e dirigem o coro é reiterado, tendo atingido ontem no S. Luiz o ponto culminante de um percurso em degradação, atingiu-se o cúmulo da pobreza em termos do coro do S. Carlos. Eu creio que piorar mais é quase impossível, mas tal como não há limites para a estupidez, os limites para o abandalhamento também são quase insondáveis, veremos.
Uma urgente restruturação terá de ser feita, é intolerável o que se passa com este coro dito "profissional". O único de Portugal.
Não há mais nada a dizer. Eu estou de luto.

CM

17.10.03

Goldberg e Ton Koopman 


Saiu a revista Goldberg, a revista de música antiga. Traz uma interessante entrevista com Ton Koopman, fala-nos de música em instrumentos antigos e tem uma posição muito interessante sobre música de Bach. A religiosidade em Bach seria apenas a normal de um homem do seu tempo, para Ton Koopman Bach não é o quinto evangelista, nem nada que se pareça. Disserta ainda sobre Bach e o sentido dramático. Ficamos também informados sobre o andamento do projecto da integral das cantatas, que foi interrompido pela vontade de uma "major". Ficamos também a saber que o nome de Ton Koopman em francês será a nome da nova etiqueta onde serão editadas as cantatas da integral de Bach. A não perder.

Mais detalhes em Revista Goldberg

CM

16.10.03

Saramago 

Diz no Público que prepara um romance que "vai dar polémica" e parece que será "maior que a do Evangelho..." e blá blá blá: " um livro que vai mexer". E foi buscar para exemplo um livro fácil de fazer, o tal Evangelho..., um livro menor e que tem apenas a farsa de pretender chocar, que não choca senão pela banalidade. Estará a precisar de dinheiro para umas obras em Lanzarote?

É que, como publicidade, não está mal. Mas substância? Que escreva algo de génio para variar, génio do qual já provou ser capaz algumas, raras, vezes e, apenas, quando escreve. Um escritor, que nem escreve mal, mas que já ninguém tem paciência para aturar, anda de novo armado aos cucos. E se usasse como objectivo a procura da obra intangível, a busca do infinito. Agora o Saramago aos oitenta anos lembra-se de chocar ou provocar polémica. Faz-me lembrar a "merde d'artiste"... que hoje se vende por milhares.

Desculpem-me o desabafo: O José Cardoso Pires, que escrevia muitíssimo melhor, seria tão cagão e sentencioso se tivesse ganho o Nobel? Saramago que escreva, ou então que se cale para sempre.

Nota pessoal final - O que me chocava mesmo era saber que o "O meu pipi" era o Saramago! Ou se escrevesse mais uma obra prima. Isso, sim, chocava-me: uma obra prima de Saramago, um choque, além do mais seria um choque que me daria um prazer enorme, a mim e a milhões dos seus leitores. Mas chocar por chocar: Arreda!
CM

Uma ideia 

Depois de um dia sem escrever, depois de o meu último post ser um comentário aos ratings ou à ditadura do sitemeter, depois de falar em procura de audiências e de dizer que preferia não ser muito citado, preferindo à quantidade a qualidade, ou não ter muitas visitas mas boas visitas; deparo-me com um salto enorme nas citações ao meu blogue. Um paradoxo não esperado.

Será que o metabloguismo, uma variante do umbiguismo, desperta tanto interesse. Felizmente blogues de qualidade como as trutas, a memória inventada (este um blog que leio com muita intensidade) ou o abundante tempo livre citam-me a propósito de alguns assuntos que tenho debatido.
Reparo com alguma curiosidade que estes, alguns dos blogues com mais qualidade, estão a meio das tabelas de citações, atrás de blogs com qualidade muito reduzida. Mas isso não tem de ser mau (ou bom), é assim mesmo. Gosto que assim seja, revela que o gosto de quem lê os blogues de mais qualidade, não necessariamente este, anda próximo do gosto de quem vê televisão, o que não é nada de espantoso.
Mesmo com este salto, continuo orgulhosamente no meio da tabela, para mim não é mau sinal, não que isso signifique qualidade. Bem como estar no topo não significa falta da mesma. Toda esta conversa tem de ser vista em termos genéricos, não em termos particulares.

Sobre o post do Tempo Livre sobre direitos de autor: sim já cedi direitos de autor, a coisa parece-me suspeita, mas para publicar lá assino. Creio que o futuro está na obra on-line, ou em domínio público da obra científica, sem perder os créditos da descoberta, que creio ser o mais importante. Não me interessa ganhar dinheiro com os meus artigos. Se o quiser fazer não escrevo um artigo, registo uma patente, e vendo a descoberta à NSA (no meu ramo de actividade) ou a outra agência qualquer, admitindo que o consigo fazer...

Sobre o Bach da truta, vou tentar arranjar a citação original, que num dos muitos livros sobre Bach que tenho lido, infelizmente não me recordo com exactidão de qual. Mas vou tentar ser mais preciso e arranjar o texto em alemão.

CM

14.10.03


Bach escreveu algo do género: "um músico não deve ser popular, isso significa que segue o público e que não o forma".
Por isso desconfio de ratings, ou de blogues que se enchem de vento, por terem muitas visitas. Blogues que se esfalfam por uma citação, por mais uma vã contagem de espúrias glórias...
Não quero a populaça a citar-me, poucos mas bons, não gosto de lugares elevados em ratings de popularidade: poca sed matura era o lema de Carl Friedrich Gauss. Seria pernicioso, condicionante. Não, prefiro poucas leituras de quem gosta do que escrevo, ou de quem detesta, mas nunca de quem lê por obrigação a despachar, porque fulano ou sicrano, este ou aquele guru me meteram um link ou porque "deixa lá ver o que este escreveu que actualizou agora o blogue e está nos primeiros lugares do ranking".
Continuarei a escrever sobre música, sobre a realidade exterior ao mundo fechado da blogosfera. Projectanto o pensamento para o exterior este meio de comunicação, a blogolândia, poderá triunfar. Se continuar numa busca incessante de cruzamentos internos, fechar-se-á cada vez mais numa estéril falsa realidade de citações e referências mútuas. Numa espécie de coscuvilhice, de alcoviteiras, de maledicências e de polimentos mútuos de egos de amigos e de amigos de amigos.
Assim a blogosfera será inacessível ao não iniciado, ao leitor comum que quer informação, a todo o recém chegado que será expulso sem apelo, rejeitado por uma "comunidade" bafienta cheia de interesses e de amizades cruzadas, de ódios mesquinhos e sem sentido crítico.


Gauss

Quem observa de fora as formigas terá sempre a referência de uma dimensão que falta aos seres bidimensionais.
A vida existe independemente da blogosfera, os frutos estão lá fora, a música faz-se pelos músicos, a poesia pelos poetas e o vinho bebe-se no mundo, com os amigos, não sentado ao computador, o Sol está lá fora, a Terra gira independentemente do que foi inventado por escribas virtuais em teclados virtuais e sem vidas reais. Escreverei independemente de quem me lê, sobre o que me apetece, sem condicionantes, sem vícios, sem cadeias. E agora vou dormir a sesta que estou atrasado.
CM

Sony - Paulo Querido e Luís Ene 


Ler a propósito da história das majors da indústria do disco, dos direios de autor e outros assuntos de interesse, o blog O vento Lá Fora de Paulo Querido em que discute o tema, os direitos de autor no futuro.
Amanhã, 15 de Outubro o livro que escreveu junto com Luís Ene será lançado, 19h no Mercado da Ribeira em Lisboa. Parabéns pelos estratosféricos 12% de royalties. Podem andar, na maioria dos casos, por 6% a 8%, falo de quem recebe, quem paga para publicar está noutro mundo. E se recebem, sei de editoras que aldrabam religiosamente aos seus autores sobre as tiragens e volumes de vendas...

Isto a propósito da Sony, ou como uma major do disco faz um produto de grande qualidade (o gravador portátil de minidisc), mas ao qual limita ostensivamente as capacidades para proteger o negócio, negócio em que explora músicos, público e funcionários com a mesma alegria. Nota-se aqui o conflito produtor/consumidor que pode levar os consumidores (alguns pelo menos) a boicotar todos os produtos da marca. Veremos o que o mercado dita, tenhamos confiança no "liberalismo", pelo menos no que toca às negociatas das majors, ou então no engenho de hackers, que furando as regras impostas por indústrias em cartel, furam também as regras do suposto "mercado", aposto mais nestes últimos...
CM


Sony Minidisc - A não comprar se pretende usar a ligação USB 


Esta companhia lançou para o mercado um sistema de minidisco portátil com uma entrada USB. Faço notar que devido à desculpa de violar a legislação sobre direitos de autor, esta entrada de dados só funciona para downlods do PC para o minidisc. Para se fazerem uploads do minidisc para o PC é necessário usar a saída áudio do minidisc em tempo real, como antigamente. A barreira não é física, uma vez que o minidisc permite fazer uploads de gravações feitas do CD do próprio PC para o minidisc, se se usar sempre o computador original. Já não permite fazer uploads para outros PCs. Mesmo assim estes uploads estão limitados a três por faixa de um mesmo CD...

Quem tiver feito uma gravação com o microfone ou de um CD normal ou de outro lado qualquer, terá de usar a entrada áudio para o PC. Existe uma companhia (EDL) inglesa que produz uma drive de transferência de dados a velocidade superior (5 vezes) e que converte o formato da Sony em wave. No entanto este aparelho custa cerca de 5000€, é usado por profissionais, rádios e jornalistas incluídos.

Um destes dias esperam-se cracks do softawre da SONY. É ilegal, mas a comunidade de utilizadores do minidisc ficará muito aliviada.

Não recomendo a compra a quem queira fazer uploads rápidos para o PC. Pelo menos enquanto não existir software que desbloqueie esta vergonhosa limitação do produto ou uma drive rápida e barata para PC, mas que tornará inútil o minidisc com entrada USB, bastando para tal o minidisc com entradas normais, nomeadamente a entrada óptica que assegura uma transferência de áudio digital muito eficaz, mas lenta.

CM


A não comprar: Bartoli - Rattle - Nigel Kennedy 



Os motivos estão no Público de Hoje:

O Prémio
Terça-feira, 14 de Outubro de 2003

Cecilia Bartoli eleita a mais popular
A "mezzo" soprano Cecilia Bartoli ganhou o prémio Gramophone para a artista mais popular da música clássica, de acordo com a votação dos ouvintes da rádio Classic FM, os visitantes do "site" "Classicfm.com" e os leitores da revista com o mesmo nome. Sir Simon Rattle e Nigel Kennedy ficaram nos lugares seguintes. O prémio para o disco do ano foi atribuído ao Zehetmair Quartet, com a gravação dos Quartetos de Cordas de Schumamm. Nas outras categorias, foram ainda atribuídos prémios ao maestro Marin Alsop (artista do ano), da Bournemouth Symphony Orchestra, à soprano Leontyne Price (prémio carreira) e ao pianista macedónio Simon Trpceski, 24 anos, que ganhou os troféus para a melhor estreia e para a escolha dos editores pelas suas interpretações de Stravinsky, Tchaikovsky, Scriabin e Prokofiev.

Bach escreveu algo do género: "um músico não deve ser popular, isso significa que segue o público e que não o forma".

CM


13.10.03

Estou farto de conversa da treta 

E como tal volto aos grandes momentos, passo aqui mais um pedaço do meu arquivo sonoro. Carlos Mena estratosférico,

Philippe Pierlot

e o Ricercar Consort ao mais altíssimo nível. Nada a dizer, excepto a dificuldade de obter este documento, a gravação integral do concerto, aliás autorizada pelos intérpretes, mas muito complicada devido ao ruído da sala. Do Nisi Dominus de Vivaldi o amen final.

OUVIR

Amen!
Um destes dias coloco no blog pequenos excertos das entrevistas que fiz a ambos, Carlos Mena e Philippe Pierlot.

CM


Parabéns a Jaquinzinhos que foi ver a bola 

O meu querido amigo "Jaquinzinhos" foi à bola, ficou feliz, a alegria de um liberal na bancada VIP de um estádio de futebol, todo ele irradia felicidade, até fez um scanning do bilhete para exibir no blogue. Percebe-se realmente porque não gosta de gastar dinheiro com a Maria João Pires. Um bem haja a Jaquinzinhos, que as polémicas estão a passar. Espero ainda beber um Remy Martin com este liberal e tentar convertê-lo às coisas boas que herdámos da aristrocracia, que a vida não é só futebol, cervejolas, fugir ao fisco e a lama fedorenta do rio Judeu (um braço do Tejo lá para a outra banda). Talvez no dia do encontro de blogs possamos comer uma sandwich de foie gras ali no Gambrinus que é ali mesmo ao lado da Sociedade de Geografia. É um convite.

CM


Um agradecimento a A. M. Seabra 

Que não tem escrito sobre música no jornal "O Público". Músicos e melómanos agradecem. Parabéns a A. M. Seabra, que começa a perceber que realmente não tem nada a acrescentar ao assunto. Desejo a maior paciência aos cinéfilos, aos amantes do teatro e de outras artes e que continuam a comprar o Público com a mesma esperança... Um bem haja a Augusto Manuel Seabra.

CM


11.10.03

Concerto do ciclo cinco pianistas portugueses- cinco concertos de Beethoven 

Teatro de S. Luiz, sexta feira, 10 de Outubro, 21h.
Beethoven, criaturas de Prometeu e concerto nº1 para piano e orquestra; Meyerbeer, cantata para clarinete, soprano, coro masculino e orquestra, o mesmo Meyerbeer que Wagner detestava com alguma razão musical; e Mozart, abertura e bailados de Idomeneo.
Em primeiro lugar o desabafo: o coro do S. Carlos não existe. É lancinante, ver 23 homens que deveriam saber cantar entregues ao mais penoso exercício do fingimento e da incapacidade. Feio, más vozes, gritado, desafinado, fora de tempo, desacertado, desgarrado. Nada se aproveita, é de estarrecer o insulto a que este "agrupamento" sujeita os ouvidos e os cérebros mais sensíveis. Eu só pedia para aquilo acabar depressa, um filme de terror. Uma miséria tão grande que torna impossível comentar as partes em que o "coro" interveio, não há palavras para a classificação da berraria infame, é demasiado triste. Existe "maestro" de coro? Será que esta anedota trágica vai continuar? Paga com o dinheiro dos contribuintes... Eu já previa o descalabro quando comparei as intervenções do coro do S. Carlos ao mau cheiro num urinol depois de uns bons copos. Mas a esperança é sempre a última a morrer, estava com vontade de ouvir o coro masculino, talvez tivessem trabalhado mais, talvez tivessem brio, talvez o "maestro" de coro tivesse apanhado uma constipação e entregue a batuta a outro mais capaz... mas... sou muito ingénuo.

O concerto de resto não foi péssimo, a orquestra anda desgarrada, sem muita chama, os naipes de violinos andam mal orientados, a desafinação deste naipe é crónica, para lá do lá (880) a situação torna-se terrível, os violinos (e a orquestra) estão sem muita vivacidade, os ataques não são certos (muito evidente nos pizzicatos), pede-se uma análise da situação dos concertinos e de mais trabalho, como o realizado antes da sinfonia nº9 de Mahler. Os restantes naipes estão em melhores condições, gostei das intervenções das violas, com boa sonoridade e untuosidade. O naipe dos violoncelos está muito certo. Os contrabaixos continuam ao seu melhor nível. Os sopros estão também razoáveis, as intervenções a solo correram sempre bem. Pena que o coração da orquestra esteja tão mal orientado, é urgente rever o problema do naipe dos violinos. A coordenação geral e a sonoridade da orquestra têm de ser trabalhadas, mas o problema não é dos músicos, a culpa vai por inteiro para uma direcção musical ausente e laxista e para maestros de trazer por casa, ou melhor, de trazer ao S. Carlos, e que são ilustres anódinos anónimos.

António Rosado excelente, já aqui falei da qualidade deste pianista, que nos brindou com Brahms, intermezzo, um momento alto do programa, pelo pianismo, musicalidade e atmosfera sonora tão própria do mestre de Hamburgo. O concerto de Beethoven opus 15 foi tocado com uma vitalidade e energia que chegou a contagiar a anémica orquestra sinfónica portuguesa. Boa sonoridade, mas sobretudo um sentido ritmico e uma vibração que fazem de Rosado não apenas um pianista mas um músico.

Teresa Cardoso Meneses não surpreendeu, entrou com a voz fria, algo descompassada, o seu timbre não é muito belo, talvez estivesse com algum problema de garganta. Digamos que leu, com alguma competência, o papel da cantata de Meyerbeer Gli amori de Teolinda. A coordenação com o clarinete obligato de Francisco Ribeiro nem sempre foi conseguida. Emite com correcção, afina razoavelmente, a potência não é muito grande, mas é correcta. Digamos que foi agradável no papel, mas poderia ter sido melhor.

A sonoridade aveludada e o ataque de Francisco Ribeiro, no clarinete, foram notáveis. Capaz de pianíssimos de uma suavidade extrema, Ribeiro mostou um som no clarinete bom nos três registos do instrumento. Os agudos, sobetudo, sairam impecáveis. A obra de Meerbeer é simples do ponto de vista interpretativo, mas muito vistosa do ponto de vista técnico, saltos de registo, escalas, agudos, pianíssimos, ritmo, coordenação com o soprano, Ribeiro deu o tom e comandou, mais que o maestro, a relação com o soprano. Estou muito curioso para ouvir Ribeiro numa obra como o quinteto de Brahms, ou um dos concertos de Weber. Tem carisma, tem personalidade. Uma grande surpresa, pelo menos para mim.

Uma surpresa desagradável: o maestro.
Mostrou ser completamente banal e complacente. O Mozart, abertura de Idomeneo e músicas de bailado, foi tratado sem alegria, de forma triste, amalgamada, empastelada. É mais um daqueles que passa sem deixar recordações, não merece o nome citado nesta crítica, felizmente que Rosado comandou a orquestra do piano, com a sua energia e vitalidade arrastou os músicos, coisa que o maestro mostrou ser totalmente incapaz de fazer.
Se esquecermos o coro e nos lembrarmos de António Rosado e de Francisco Ribeiro, pode-se dizer que o concerto valeu a ida ao S. Luiz.

CM


10.10.03

Os urinóis, os liberais e a cultura - António Rosado no S. Luiz às 21h 

Era previsível, um post sobre a cultura de Hong Kong, sobre Singapura, mesmo até sobre os Estados Unidos, teria forçosamente que incluir urinóis.

Em Hong Kong e Singapura não há mais nada que meça a cultura e o bem estar das pessoas: os urinóis, para além do urinol temos o vácuo, a ausência de qualquer outra actividade. O meu post sobre o assunto é muito sério, além disso não é nenhuma discussão, não pretende entrar em polémicas com ninguém. Não é argumentativo, não é uma piada, é uma reportagem virtual em si mesma. O urinol como objecto de arte, aliás bem visto pela blogotinha que descobre alguns urinóis de altíssima qualidade na net, mesmo que faça uns comentários pouco abonatórios sobre um pénis que, creio, desconhece (creio que usa a palavra pilinha, palavra aliás já de si muito suspeita quando aplicada a um crítico)...
Acrescento daqui um agradecimento à Blogotinha que nos explica, didaticamente, que o Funchal é na Madeira.

O que é giro, e isso era esperado, e divertido, é que a rapaziada liberal aproveite o urinol, tema sobre o qual saberão, certamente, mais do que eu, para falarem deste vosso servo elitista e anti-liberal. Será um problema ético? A reflexão crítica e filosófica assente no urinol? Todos a chamar a atenção para os mictórios patentes no crítico, nunca tive tantas visitas vindas do bando liberal. Interessantíssimo, eu já sabia: um urinol de Singapura e milhares visitas de liberais ansiosos de conhecer o instrumento da micção masculina na Meca do liberalismo... Pena é que se viva tão mal em Singapura, independentemente do liberalismo, que é apenas económico.

Hoje António Rosado toca Beethoven no Teatro de S. Luiz, temos também o notório coro do S. Carlos. O que um desgraçado tem de sofrer para ouvir um excelente pianista português. Mal comparado, mas à propos, é quase o mesmo que beber uns bons copos e depois ter de passar por um urinol mal cheiroso.


E eu?...

CM


Como é possível 

Que os bloggeres gostem de ir para a cama às 2h da manhã?
Acabaram cinco resistentes, no LUX às seis da manhã, dois rapazes do PS, uma jornalista e uma arquitecta, sem blogue, além deste vosso crítico ao vosso dispor... Assim acabou, em muito boa disposição a festa do Desejo casar. Com respeito à festarola: parece que estive na Lisboa de 40, aquilo parecia um encontro de espiões...
P.S. Eles querem mesmo casar


E eu?...
CM


9.10.03

Cultura no Mundo - Países Liberais 



Uma zona pouco "liberal" de Hong Kong



Uma zona mais "liberal" de Hong Kong. Country club



Uma zona um pouco mais "liberal" de Singapura



Uma zona pouco "liberal" de Singapura

Agora uma pérola da cultura americana

"Now that you are famous don't waist an occasion to piss..."
Lyndon Johnson

Fonte Urinal.net. O estudo último sobre os urinois no mundo, a não perder, descubra quais os países mais liberais pelos seus urinois, pela cultura será mais difícil...


E eu?...


CM


8.10.03



Cito de novo





Escreveu este:

Escreveu o Crítico

O Crítico ainda não perdoou debates passados e até o compreendo. Não lhe correram muito bem. Mas convém repôr a verdade dos factos: as respostas que lhe dei não nasceram de nenhum debate entre nós, nem de respostas com piadinhas fáceis a uma argumentação séria da sua parte. Nasceu de um post sério a que o Crítico respondeu com um chorrilho de insultos pessoais. Confesso a minha incapacidade em debater na base do ataque personalizado, da distribuição a eito de adjectivos, do insulto mesquinho. Nesse campo reconheço a minha inaptidão para atingir o seu nível. Teve a resposta que teve e, por mim, ponto final.


Imagina Jaquinzinhos o que nos vai na cabeça, diz ele que "não perdoamos", como se esse conceito se aplicasse a nós, o do perdão, nós esquecemos esses debates, depois de muito termos rido!
Escrevemos nós agora, repondo a verdade: não, o debate não nos correu mal. Nós alinhámos argumentos, Jaquinzinhos piadolas engraçadas. Quem tem dois dedos de testa percebe a diferença, por muito que se ria do bobo. Fizemos um libelo contra a tacanhez, contra a miséria humana, aproveitámos uma opinião infeliz de um liberal armado aos cucos que acha que o dinheiro gasto com a Maria João Pires é mal gasto. Generalizámos, falámos de vários conceitos. Com justa indignação, indignação contra a inveja de gente que nunca fez nada na vida, gente inculta e estúpida que odeia, que odeia quem fez, quem é culto, quem é capaz de produzir algo que os tacanhos liberais, oriundos de uma classe arrivista e pequeno burguesa nunca serão capazes: de nos dar a capacidade de sonhar. E não há dinheiro nenhum que o pague.
Divagámos, falámos de tempos antigos e da tradicional inveja lusa, da tradicional tacanhez lusitana. Se o Jaquinzinhos assumiu o nosso manifesto como dirigido à sua pessoa, paciência, ele lá saberá da sua consciência, boa ou má e as carapuças que enfia, mas cremos que se está a sobrestimar, nem sequer o cremos tão incapaz como os últimos Braganças ou os ladrões dos "liberais" de 1833. De qualquer modo não retiramos uma vírgula ao que dissemos. E nem sequer foram insultos. Falámos com convicção e dissemos verdades. E falaremos sempre que necessário, sempre que a arrogância da estupidez ataque de novo. Mesmo que se disfarce de engraçada ou de irónica.
CM


Os concertos para violino de Chopin 

O Romance que o Crítico vai lançar brevemente.



O Homem que queria ser presidente e gostava do tema do "feelings" que se ouvia nos célebres concertos para violino de Chopin. Um Romance do Crítico de Música. Quase a sair para as bancas. Um triângulo complexo.


E eu?...

A ideia deste romance surgiu-me ao ler o Ideias Soltas, um texto de altíssima qualidade sobre a Metropolitana e a cultura. Temos blog. Recomendo a leitura, para quem se interessa por música clássica, e não só, em Portugal. Mesmo que discorde de algumas ideias deste Ideias Soltas, nota-se que sabe, e pensa, o que diz.

CM


Crítica de música do Público 

Transcrevo parte do texto de Cristina Fernandes do Público, excelente crítica, diz tudo sobre o concerto no Palácio de Mafra, no último domingo:


2. A tarde de domingo foi dominada pela música no feminino: obras de compositoras italianas do século XVII (Isabella Leonarda, Francesca Caccini e Barbara Strozzi) interpretadas por um novo agrupamento (Udite Amanti) unicamente constituído por mulheres, sob a direcção da cravista Ana Mafalda Castro. A ideia não é nova, mas nunca teria sido desenvolvida em Portugal. Não se trata de nenhum manifesto feminista, mas de dar a conhecer música de qualidade que só há pouco começou a sair dos "baús da história" e que revela uma sensibilidade muito própria. Ao contrário do que acontece em épocas mais recentes, a música destas compositoras é algo diversa da que foi escrita pelos homens seus contemporâneos: são frequentes os rasgos inesperados, parece estar mais liberta de condicionalismos académicos, é muitas vezes percorrida por um erotismo latente (ainda que sob o pretexto de um Motete dedicado a Cristo, como na peça de Leonarda).

Quanto às intérpretes, na sua maioria ainda bastante jovens, combinaram a correcção estilística e o conhecimento das práticas de execução da música barroca com uma visão pessoal das obras. Com timbres e personalidades bastante distintas, Orlanda Isidro e Magna Ferreira alternaram entre si as páginas vocais, unindo-se numa bem sucedida combinação final ("Mercé di voi...", de Strozzi).

A voz de soprano ligeiro de Orlanda Isidro destacou-se pela segurança técnica e por uma sensibilidade musical subtil e delicada, enquanto Magna Ferreira, detentora de um timbre mais cálido e denso, marcou pela entrega emocional e pelo ímpeto da carga dramática.

A proficiência e imaginação de Ana Mafalda Castro como executante de baixo contínuo é já sobejamente conhecida e as restantes instrumentistas (as violinistas Tera Shimizu e Iskrena Yordanova e a violoncelista e gambista Sofia Diniz) mostraram um trabalho muito consistente, particularmente meritório se pensarmos que se trata de um grupo que dá os seus primeiros passos. A sonoridade de conjunto poderá vir ainda a ser mais apurada, assim como os detalhes, mas parece óbvio que se trata de um projecto com futuro. Aguardam-se novos programas e, quem sabe, uma futura gravação!


CM

7.10.03

O horror, o trágico, o incompreensível! 


Recebo um convite:

Vale a pena ser cientista?
Encontros em Coimbra organizados e moderados por Jorge Massada, jornalista e escritor.
Tudo em Outubro, convento de S. Francisco, 18h.

9, Manuel Paiva.
15, Boaventura Sousa Santos.
21 Outubro, João Lobo Antunes.
23, Fernando Lopes da Silva.
27, Irene Fonseca.
30, Maria do Carmo Fonseca.




E reparo com horror que colocaram a Maria do Carmo Fonseca no dia 30 de Outubro, dia do Encontro Informal de Blogues na Sociedade de Geografia de Lisboa, ver ao lado. Estou desolado... Ao menos podiam ter posto o Boaventura, não sabia que era cientista. Homem que ninguém entende, e que usa umas camisas (ou gravatas) muito giras para entreter os assistentes.
CM





Antonello da Messina


CM


6.10.03

Festa de Blogues 

Recebemos um email do Desejo Casar, vamos à festa, espero que nos deixem estacionar o táxi à porta, e que não reparem no nosso bigode à Saddam e no nosso ar amuado, é que este é um blog anónimo segundo se diz por , depois conversamos no encontro de blogues ou na festa, se os "piquenos" de Portugal aparecerem!... Nós teremos uma T-Shirt com o endereço electrónico do crítico!... Espero que todos estejam vestidos da mesma forma!
CM


Concertos na região de Lisboa (2) 


MarinUm vago caminho, uma agonia incólme, uma ânsia de partilha, uma necessidade premente. De comunicar. Uma longa viagem para além do tempo, para além do bem e do mal. Uma música sem tempo, sem data, um ecoar de musas distantes, uma alma perdida entre dois tempos, uma família algures, gente feliz. Uma calma metáfora de anos esquecidos, algures em Paris. Viverá ainda hoje esta família, num tempo de Sol e de cheiros fortes: Marin Marais? Creio que sim que vive. Não sei se será verdade, se as almas têm destes paradoxos, se os universos se suspendem. Mas creio que sim, vive, tal como vive François Couperin, como La Lande. Mesmo que as suas obras tenham desaparecido, mesmo que o frenético e irascível Forqueray lhes tenha roubado as audiências e a fama, com o fulgor tempestuoso do seu pacto diabólico, o mesmo Forqueray que convidou Telemann para ir a Paris, tarde, demasiado tarde, 1737, Marais e Coupérin mortos, Bach ainda vivo, Händel em Londres. Mas todos, afinal, vivos, tão vivos como os ouvi no sábado, num dos sábados mais inesquecíveis que o Palácio de Mafra viveu desde a sua fundação, desde os tempos em que Scarlatti viveu. Sábado na biblioteca do convento de Mafra, Marais, Couperin, Blavet, Forqueray e Telemann: compositores que dos céus ou infernos onde residem, ou de Paris onde tocaram, tão vivos como nessas tardes de 1737. Pierlot na viola da gama baixo, Weiss no cravo, Hantaï na flauta, Fernandez no violino, recriaram Forqueray, Telemann, Blavet e Guignon, o quarteto de músicos que em Paris se juntou... Não há palavras para falar dos deuses que permitem aos homens sentir que a imortalidade é possível...
Não sei se o tempo parou algures, entre os mundos perdidos, se eu fui suspenso nalgum mecanismo estranho no espaço/tempo destes universos, apenas sei que ouvi e vi Marin Marais, falou-me...

Flora
CM


Um blogue de poeta:
Marin
É Pedro Mexia, algum narcisismo, sem dúvida uma pose, muita juventude, nele luz algum talento, muita auto contemplação, muita auto reflexão. Se quisermos conhecer o homem por detrás do poeta devemos ler o blogue de Pedro Mexia. Como crítico li. Um esforço, enfim. O que constato: Pedro Mexia é uma obra de si próprio, uma construção, uma exibição. Arte? Sem dúvida, Pedro Mexia tal como se construiu é a sua obra de arte. Conseguida? Há críticos que dizem que sim, outros negam-no firmemente. Tem leitores entusiastas, tem detractores furiosos. Mas não será essa a sina de qualquer artista? A pensar...

Bibliografia:

Mexia abandona os seus leitores e faz recomendações aos orfãos

Parto amanhã para o país profundo (mas aristocrático), traduzir poetas israelitas (mas, descansem, não sharonistas). O Dicionário regressa dia 6. Nessa data publicarei os obituários que ficaram pendentes, bem como um texto sobre a Igreja Católica. Também responderei à «polémica Beatles». Peço que não enviem mails para a caixa do Dicionário até ao meu regresso, sob pena de causar ainda mais atrasos na correspondência. Fiquem com os bons blogs cá da casa, e sobretudo com o regressado Aviz. Hasta.

Nota-se aqui o ar de artista, olímpico, ar de grande senhor, ele faz, ele traduz, ele vai-se embora e recomenda: não me escrevam, senão o volume de emails será gigantesco. É obra de aristocrata...

As compras de Mexia

TAKE THE MONEY AND RUN: O dinheiro não traz felicidade? Claro que traz. O dinheiro não traz «a» felicidade, porque «a» felicidade não existe, ou apenas de forma transitória. Mas o dinheiro traz - isto é, compra - imensas coisas que nos fazem felizes. Com o meu vencimento fresco no bolso, compro: os romances de Evelyn Waugh, numa elegantíssima «centenary edition» da Penguin; o último álbum dos Smog; o nigérrimo e genial Peeping Tom, de Michael Powell; um Corto Maltese; uma biografia do bizarro Peter Sellers. E não há nada (nada que seja realista) que me fizesse mais feliz.

Aqui nota-se que o poeta com dinheiro fresco compra, e como compra, exibe, revela-se, um misto de pequenos prazeres e de erudição. Mexia constrói e reconstrói pausadamente e lentamente a sua imagem, libertando pequenos excertos de si próprio, é o artista que se desnuda mostrando subtis traços da sua figura, mas escolhidos...

O melhor de Mexia, o Mexia assassino

CONTA COMO FOI, DIOGO: Nem me passa pela cabeça ir ver mais uma peça de Freitas do Amaral sobre o seu mui autobiográfico tema: a traição. Em Viriato, ainda puseram Sandra Celas no elenco para me comoverem, mas nada feito. Só verei uma peça de Freitas quando o dramaturgo abordar o facto que marcou a sua vida: aquela tarde, na ONU, em que um diplamata americano, de copo vazio na mão, viu Freitas de smoking num canto e o confundiu com o garçon.

Aqui o artista mostra o seu talento, é simples, escrita vigorosa como sempre, sem perder tempo, directo. Climax no final. Por estas pequenas peças de génio vale a pena ler Mexia. Por isso ainda vou ao blogue deste poeta de si próprio, o resto deixo para os admiradores de Mexia, onde o próprio tem lugar na primeira fila...
CM

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