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30.9.03

As cidades e os automóveis 


EngarrafamentoEngarrafamentoO automóvel, símbolo de um status, de um avanço social. País atrasado durante o século vinte, Portugal, apenas viu o automóvel democratizar-se nos últimos vinte e cinco anos. Gente cujos pais e avós não podiam ter um carro mostra hoje com prazer o seu símbolo de aburguesamento. Acho bem que se tenha um automóvel, em certas situações é confortável, ou conveniente, nada a obstar.

O que é estranho é o mundo do automóvel, hoje, em Lisboa e noutras cidades. Exemplos: linha de Sintra e de Cascais, ponte 25 de Abril, ou Salazar como alguns ainda chamam, sobre o rio Tejo.Engarrafamento
Transportes excelentes, bem conjugados, objectivamente, com o metropolitano, ecológicos, cada vez mais rápidos e confortáveis e cada vez mais carros em Lisboa. Hoje um exemplo: tempo de chuva fraca, temperatura agradável e engarrafamentos monumentais... Automóveis por todo o lado. Bichas intermináveis, desespero, acidentes, stress. Tudo previsível.
Factores acessórios: fim do mês, dinheiro na carteira, gasolina nos depósitos.

EngarrafamentoEu uso o metropolitano de Lisboa, sobretudo nos dias assim, e que encontro? Carruagens com lugares sentados, mesmo à hora de ponta, sobretudo aos dias de chuva conjugados com o fim do mês. Interrogo-me: serão os meus concidadãos masoquistas? O que leva a um habitante de Massamá, ou do Seixal, ou do Estoril, a meter-se num carro, sabendo o que vai encontrar, perdendo horas da sua vida, quando pode apanhar um comboio que o coloca no emprego de forma célere e confortável? Penso que a resposta é apenas uma questão de status, de afirmação. Não será em todos os casos mas na maioria.
EngarrafamentoQue direito têm estes automobilistas impenitentes a usar a sua carripana, a poluir o ar de todos, a atravancar as ruas, a encher os passeios, a lutar dia-a-dia com os fiscais da câmara, tentando fugir a bloqueadores e a multas? Usando estratagemas para colocar os carros em cima de passeios, em lugares escondidos, correndo quando se lembram que o fiscal pode vir aí, calculando horários de passagens dos rapazes de verde? Exercícios interessantes de especulação metafísica e de diminuição da produtividade. Que direito têm os habitantes dos concelhos limitrofes de Lisboa de usar como se fosse um direito inalienável, das ruas de uma cidade em que a Câmara gasta o seu orçamento a satisfazer os caprichos de masoquistas egoístas, quando existem pessoas com carências que poderiam beneficiar desses dinheiros para melhorar as suas condições de vida. E falo de quem usa o carro individualmente. Pessoas que trazem as viaturas para o coração de uma cidade que não é a sua, geralmente sós mais o seu rádio.
EngarrafamentoQuerem o melhor de dois mundos, pagar casas baratas fora da cidade, ou viver em condomínios de qualidade superior a custos mais baixos e usar automóvel para poluir e degradar uma cidade de todos. Gastando pelo caminho muito mais dinheiro...

Creio que a solução para este problema será colocar portagens muito elevadas à entrada de Lisboa, como se faz em Londres, com sucesso. E obrigar estes automobilistas a pagar o desgaste nas ruas e os lugares de parqueamento os quais usam e abusam. Os vícios devem pagar-se. A ostentação de um status deve ser acompanhada da respectiva fidúcia. "Quem não tem dinheiro não tem vícios". O dinheiro colectado seria investido em ainda melhores comboios, e na melhoria das condições de circulação de autocarros e de eléctricos, quebrando-se este ciclo vicioso que leva ao stress e à poluição.

EngarrafamentoRecorro a exemplos como Nova Iorque ou Londres, nos países nórdicos a moderação é obtida pela taxa de circulação e pelo preço da gasolina. Acho engraçado em Helsínquia, mesmo no pino do Inverno, toda a gente usa os transporte públicos e mesmo as bicicletas! Medidas deste são moderadoras e utilizadas em países em que o problema se pôs e cujo índice de desenvolvimento humano (dados da ONU) é muito superior ao nosso.
Fica o desabafo, ficam as perguntas.

CM




No Brasil existem Bloges, escrevem em Português, gostam de poesia e de música, escrevem sobre a vida, sobre artes, sobre literatura, sobre o quotidiano e sobre a solidão. Tentam comunicar...

Exemplos, sem ordem, não exaustivos:

Trilha Rio
Alma perdida
Pensamentos Insanos
A arte imita a vida
Estranhos links
Blogdpi
Gabriel Ramalho
Shushi do Seará
Embrenhada
Os três gordinhos
Tiras (BD)
Hálito da Virgem
Fábio
Um paulista

CM


Abrupto e Ravel 


O Abrupto comenta Maurice Ravel (1875-1937) a propósito de um documentário excelente.
RavelO que me lembra das angústias de Ravel, que sempre se sentiu inseguro da sua música, e que só tarde começou a orquestrar. Mas que se revelou um dos mais espantosos virtuosos na arte da paleta orquestral.
Ravel um dos poucos compositores de todos os tempos cuja música continua a ser tocada integralmente, não há uma única obra menor em Ravel; excepto, talvez, o Bolero como o próprio Ravel dizia. Não há uma obra que tenha caído no esquecimento. Em Ravel o encantamento, a qualidade é total e global.
Ravel, que amava o desporto, a natação, e que uma doença degenerativa o impediu, progressivamente de usar o corpo, e pior, o impediu de continuar a compor, estando consciente, mas incapaz de compor.
Ravel vítima de uma operação experimental a que se arriscou, sabendo que poderia morrer, o que veio a acontecer, porque preferia morrer a viver sem compor...

CM


29.9.03

Jornalismo na Blogosfera 


Têm dito que a blogosfera não substitui o jornalismo. Talvez sim, talvez não, mas publico hoje umas breves palavras do cravista Pierre Hantaï. Talvez a primeira vez que se passam em primeira mão e em exclusivo, palavras com interesse jornalístico num Blogue português.
Seja ou não a primeira vez, creio que tem interesse.

Pierre Hantaï

Ouvir, perguntas em português escrito, resposta em francês, não estive com paciência para traduzir.

Em breve, entrevista com Anner Bylsma.

Agenda não exaustiva

Amanhã dia 30 de Setembro - aniversário do LUX
Dia 1 de Outubro - Concerto no S. Luiz, pianista Artur Pizarro, soprano Elisabete Matos (canta muito bem), maestro Ricardo Frizza. Orquestra Sinfónica Nacional. Pseudo-temporada do S. Carlos.
Dia 1 de Outubro - Sé de Lisboa - Montserrat Torrent - organista de alto nível, música espanhola do século vinte. (recomendo este), entrada livre.
Dia 2 - Igreja dos Mártires em Lisboa, ao Chiado, Influência italiana em Portugal no século XVIII, Händel, Haydn, Anónimo e António da Silva Leite. La Caccia interpreta. Integrado no Festival de Orgão de Lx. Entrada livre.
Dia 2 - Ministro (Gilberto Gil) e Maria Betânia, infelizmente vou a este...
Dia 3 de Outubro - Inauguração do Festival de Toulouse les Orgues. Concertos o dia inteiro em toda a Toulouse, impossível ser mais preciso, ver aqui. Festa em toda a Toulouse, desde a catedral até às pequenas paróquias e animação de rua.
Dia 3 de Outubro - Mais festival de Orgão em Lx, 21h30m, Obras Liszt por Vincent Dubois.
Dia 4 de Outubro - 17h em Mafra - Ricercar consort, com o excepcional Phillippe Pierlot, Marc Hantaï (irmão do cravista), o fantástico violinista (que toca viola de amor de forma excepcional também) François Fernandez e Kenneth Weiss (the last but not the least) ao cravo. Se clicar em Arianna na coluna da direita pode ouvir também Pierlot e o Ricercar Consort.
Dia 4 de Outubro - o mau, musicalmente, Mcreesh na Gulbenkian às 19h, uma oratória de Händel.
Dia 4 de Outubro - São Vicente de Fora, Andrés Cea Galán toca Jimenez, Rodrigues Coelho e Correa de Arauxo.

Numa escala de zero a dez daria dez pela expectativa de Mafra e cinco pela espectativa de Lisboa (Gulbenkian).

CM


Concerto dos Madredeus 


Ritmo, sim. Técnica, sim. Profissionalismo, sim. Um bom "produto".
Inovação, pouca, muito pouca mesma. Linguagem muito esteriotipada em termos musicais, sem transcendência. Uma fórmula gasta, alguns ritmos populares, muitos harpejos, música absolutamente tonal e banal do ponto de vista harmónico. Referências, as antigas. Sim, talvez os primeiros discos e gravações do profissional grupo Madredeus.
Luz, solene, simples, elegante e sóbria. Ou seja, quanto baste à calma e tranquilidade da musicalidade dos Madredeus. Postura, representativa de profissionalismo, trabalho e respeito.
Som, com dúvidas...de muitas das letras só se entenderam meia dúzia de palavras. Será da dicção de Teresa Salgueiro, será do auditório do CCB. Fica a dúvida, mas a certeza de uma voz única e bonita, mas muito, muito limitada ao registo agudo.
Será essa a justificação para a inexistência de um "movimento" alternativo e inovador? Talvez o grupo não queira. Mas aos Madredeus pedia-se mais, mais criatividade e originalidade nos seus trabalhos. Mais calor. Porque é que quando se fala em Madredeus penso logo nos primeiros trabalhos que fizeram, porque eram então diferentes. Não existia em Portugal ninguém que cantasse assim. Porque é que a plateia, apesar de cheia, estava tão calma e sonolenta? Porque que é que a sala se transfomou quando regressámos ao passado? Porque ficou um registo? Sim, penso que sim e julgo que não é só nostalgia. Excelente José Peixoto à guitarra clássica. Obrigado Madredeus. Posso pedir-vos mais?

Parabéns ao CCB que faz 10 anos.
CM


John Kenneth Galbraith 


JKG

"A cultura não é um produto de mercado, é um valor humano."
"O dinheiro não é um valor individual que se possa gastar a belo prazer de quem o ganhou. O dinheiro não é sagrado."

CM


27.9.03

Temporadas 


Concerto à noite, pelas 21h. Amanhã também, no CCB, Madredeus em força.

Temporada Gulbenkian a começar 4 de Outubro, Festival de Mafra a abrir as portas.
Apenas a Temporada do S. Carlos a faltar, mas atendendo ao que se lá tem passado talvez seja melhor fechar as portas e passarmos todos a ir a Espanha, sempre se poupam uns dois milhões de contos ao erário público, o que para não se fazer nada é realmente muito dinheiro... creio que é uma solução ao gosto liberal. Voltarei ao tema do S. Carlos, o Portugal dos pequeninos não perde pela demora, terá em breve, aqui um comentário que, em tão boa hora solicitou.

Continua o Festival de Orgão, recomenda-se o concerto de amanhã, domingo. Não vale a pena publicitar, os concertos do festival de orgão de Lisboa estão todos lotados e são em geral de muito boa qualidade. Os concertos à noite são melhores, porque o público não leva, em geral, criancinhas de colo, e porta-se de forma mais civilizada. Será por estarem com mais sono? Não, creio que o que leva uma pessoa num dia de semana à noite a um concerto de orgão é uma motivação mais profunda que uma porta de uma igreja aberta numa tarde solarenga de domingo, dia em que os hipermercados estão fechados...

E atenção blogosfera e não só: dia 30, 5º aniversário do LUX, 23h, espero que já tenham chegado todos os convites aos blogadores mais noctívagos de Lisboa...

CM


Publico a imagem que ilustra o disco2, que comentarei aqui.
Anunciação
Virgem da Anunciação
ANTONELLO da Messina
(1430-1479)

Para além de Leçons de ténèbres, já prometidas.

Disco 1: Bach num cravo com pedaleira, um disco já antigo, de 2002, da Alpha (027) com Yves Rechsteiner com mãos e pés no cravo. Ouvir (incluí versão original no orgão). Um instrumento único, uma recriação daquilo que se supõe ser uma realidade histórica. Felizmente Yves Rechsteiner toca magistralmente, senão o CD arriscar-se-ia a ser uma curiosidade perdida. O que me ocorre quando o ouço é que sinto o fluxo torrencial e contínuo, numa dedilhação subtil imparável mas fiel à partitura e à articulação respirada do cravo de setecentos, tão dificil de conjugar em Bach...

Este andamento em particular sugere-me tanto para dizer sobre Bach, a sua caminhada, a sua vida, o caminho como as notas imparáveis, caminho que Bach escolheu. Torrencial, sem escolhas fáceis, dirigindo, nunca sendo dirigido. O caminho da vida, sempre resoluto, procurando a Verdade, procurando na estrada, a pé, ao longo de centenas de quilómetros a sabedoria, a experiência de um mestre. Poderia ter sido Buxtheude, no final da estrada, mas acabou por ser, para Bach, Deus, a fonte de inspiração. Soli Deo Gloria, como sempre escrevia nas suas folhas de música quando terminava uma obra.
Caminhando, caminhando, um mundo, um tempo, uma forma de amar e de pensar, de olhar as estradas, as pessoas, os sons, tudo nos é estranho mas toca-nos tão profundamente, sempre caminhando, sempre em direcção a um acorde final que nos redime, inexoravelmente, sem parar, caminhando...

Disco 2: Heinrich Ignaz Franz Biber (1644-1704) por Alice Piérot e Les Veilleurs de Nuit. Alpha 038, uma edição de 2003.
Ouvir um exemplo, a sonata da anunciação...

Dedico este post ao José Mário do Blog de esquerda, que tanto gosta da editora Alpha.

Este é um post em progresso! Será acrescentado com imagens, música e textos.

O meu conceito de "work in progress" é assim...

CM


26.9.03

Um exemplo de como não se deve fazer crítica 


Um nova crítica de AMSeabra, no Público. Critica um concerto ao qual não fui, Em Queluz, passado Sábado, estive nesse dia e a essa mesma hora (21h30m) em Mafra, a ouvir um concerto de dois orgãos, que não comento, porque não me apetece fazê-lo.

Mas gostava de saber o que se passou no concerto de Queluz, ao qual não fui com muita pena pois, infelizmente, não tenho o dom da ubiquidade. Então passei os olhos pelo Público de hoje. O que encontro? Umas banalidades sobre Mozart e Haydn, com especulações à mistura, qualquer Diapason ou livreco diz o mesmo de forma melhor, e uma crítica, imagine-se, ao público, parece que sim, ao público, "que se mexe", que faltaram os "melómanos oficiais", esta dos melómanos oficiais é boa, eu diria melómanos da treta, mas alguém lhes sente a falta? E blá, blá, blá para encher papel.
Sobre o concerto em causa sabemos que a sala é má porque aquece com as luzes e...? Alguém se esqueceu de ouvir o concerto?

Espera-se mais de A.M. Seabra, a crónica parece ter sido escrita à pressa e para despachar.

Sobre o público do concerto a mexer-se e a remexer-se, acrescento que tenho ficado perto, em algumas ocasiões, do tal crítico do jornal O Público e que é uma experiência, hum... digamos: complicada; para frei Tomás o comentário não está mau...

Reproduzo a crónica porque o Público ao fim de uns dias tira o link:


Uma Certa Ideia da Música
Por AUGUSTO M. SEABRA
Sexta-feira, 26 de Setembro de 2003

Quarteto Mosaïques

Obras de Mozart e Bethoven

Concertos Em Órbita/PT,

LISBOA Queluz, 20 de Setembro

Antes de ser um género e uma realização de formas, o quarteto de cordas foi uma prática. Cerca de 1760, grupos de quatro começaram a reunir-se para tocar, fazer música em conjunto - amadores, aqueles que amam. "Inter-pares", tocavam instrumentos de uma mesma família, as cordas.

Quando Haydn, com a colectânea dos op. 20 ou com a dos op. 33 (consoante as apreciações musicológicas) fixou uma ordem do discurso, essa supôs uma determinada organização formal e material. A circunstância única do quarteto de cordas ao longo de 225 anos da música europeia é a de consistentemente essa ordem do discurso ter persistido e se ter renovado para além de todas as radicais mutações formais e materiais e eventualmente (?) poder até ter persistido nas também radicais mutações das condições sociais de percepção da música.

Quando Mozart dedicou a Haydn seis quartetos, estava manifestamente a proceder a um acto filial (e de fraternidade maçónica); estava também a proceder a um acto de livre e soberano arbítrio, a designar uma tradição em que se queria inscrever. Quando Mozart fez iniciar o último desses quartetos, o K.465, por uma sobreposição que lhe valeria a designação de Quarteto "Dissonâncias", era nessa ordem de discurso que assinalava uma singularidade autoral que não aceitava a restrição do código. Quando Beethoven deu ele próprio um título, "La Malinconia", à inusual introdução lenta do último andamento do último dos seis quartetos do op.18, e assim considerou a música na esfera dos sentimentos, estava também a indicar o quarteto de cordas como espaço de afirmação autónoma de uma subjectividade romântica. Etc., etc., que a singularidade da história do quarteto é justamente a de exemplos se poderem citar até à actualidade.

Quando se nos oferece um programa que reúne o Quarteto "Dissonâncias" de Mozart (precedido pelo primeiro da mesma colectânea "a Haydn", o K.387) e o Quarteto "La Malinconia" de Beethoven, a escolha pouco terá de fortuito. Se uma certa ideia do modo de fazer música esteve na origem do quarteto de cordas, na escolha de um tal programa está seguramente implícita uma percepção histórica de ideias de música. E por maioria de razões o está, seguramente, quanto a proposta tem origem nos Mosaïques, um quarteto que tem vindo consistentemente a abordar o repertório clássico de Haydn, Mozart e Beethoven numa releitura histórica, com instrumentos de época.

Não me deterei em incidentes de percurso (como a confirmação do manifesto erro de programar para Queluz concertos com instrumentos de cordas de tripa, dado o aquecimento devido às luzes). Basta-me o mais importante: desde os Prazak na Festa da Música do ano passado que não nos era possibilitada uma tão intensa experiência dos horizontes do quarteto e, com essa, uma tão directa percepção de uma certa ideia da música.

Porque justamente essa "ideia", nascida da prática e da sociabilidade de uma "arte da conversação" (como Goethe bem notou) e não de qualquer "Ideal apriorístico", é uma ordem do discurso e da sua percepção, um concerto como este não deixou de nos colocar algumas questões sobre a experiência da música e prática, ou não, de ir a concertos. Se é extraordinário que haja pessoas que no fim de cada obra, senão de cada andamento, senão mesmo no meio, querem é mexer-se (desculpem, mas o que é que lá vão fazer?), não menos curial será notar ausências que melhor nos esclarecem dois tipos de discursos sobre a música: a da classe dos "melómanos oficiais", que afinal o são apenas dos seus lugares cativos na Gulbenkian e no São Carlos, das instituições e não da música, note-se; a dos compositores, que em Portugal têm generalizadamente (será epidémico?) a característica de serem surdos e não irem ouvir música.

Quanto um concerto nos suscita um tão admirável confronto histórico com uma certa ideia da música, há também questões da prática da escuta, e da observação dela, que não são para ficar esquecidas.




CM


25.9.03

O comboio e o caminho 


Três leio

Destino reservado
Diz o placar.
Destino amado
De vago ar.

O Clã Destino
Beija o vinho.

Dez mando
vestidos de linho
viram o Sinal.
Contra o bando
Da sombra do mal

O Clã Destino
Beija o vinho.

Nu caminho
O diabo
Num canto
Lendo o jornal
Um bode sentado
Em pose animal...

LF 1957


24.9.03

Um texto de João Soares 


Almondega.
9/13/2003

É um caso de falta de caracter como há poucos na nossa terra. Coluna vertebral em termos civicos e politicos é coisa que não tem, um verdadeiro molusco. Fisicamente é mais uma pequena almondega. Antes de Abril de 74 primou pela ausencia, depois aderiu ao PCP de que saiu em 26 de Novembro de 75. Esteve pelo PS, no tempo de Constancio, pelo PRD deu tambem um ar da sua graça, passando claro pela sabujice a Cavaco Silva enquanto Primeiro Ministro. Um espanto de rectidão e de coerencia. Puseram-no na Comissão Nacional do PS de novo no ultimo congresso, mas é sitio onde não aparece. Prometi-lhe a doçura de um "eclair" de café nas ventas, claro não se bate numa almondega. Tenho que arranjar tempo de passar por uma boa pastelaria.


Este texto é de João Soares e refere-se a Eduardo do Prado Coelho. Para além de uma notável falta de acentos no texto como levar a sério João Soares depois desta pouca vergonha? Será mesmo o filho do Mário, ou será um site no gozo?
Ver o site deste filho de famoso, mas sem grande jeito, em JS, eu ri. Mas para além da gargalhada a política feita assim é infeliz, uma imagem de raivas políticas pouco interessantes. Esperava muito mais. Espera-se que melhore.

CM




Cardoso Pires Hoje na RTP 1, 22h40m O DELFIM o filme.
Depois o documentário sobre vida e obra. A não perder.

Cardoso Pires

É no auge dos doces excessos
Em que perco do sentir a razão,
Sem paz, na loucura adventícia,
De sentir a tua nudez crua,
Que me faz sempre enlouquecer.

É no espelho da alma que arremesso
Ao mundo hipócrita a minha traição,
Sabendo que depois da alegria
De te amar, amortalhado pela Lua,
Serás, para sempre, o meu poder.

É assim, este eterno regresso
Aos teus braços de sedução,
Para a contraditória agonia
Em que, perdida em mim, nua,
Cais Ancorada no meu ser...

CM


Albertina e Albrech Dürer 

Tive oportunidade de ver a exposição da obra de Albrech Dürer na Albertina de Viena, agradeço muito a quem me sugeriu a visita como algo a não perder. A colecção desta galeria/museu de gravura (e alguma pintura) já de si é notável,
Albrecht Dürer (1475-1564), Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Leonardo da Vinci (1452-1519), Peter Paul Rubens (1577-1640), Rembrandt Harmensz van Rijn (1606-1669), Gustav Klimt (1862-1918), Egon Schiele (1890-1918), Raphael (1483-1520), Marc Chagall (1887-1985) e Jackson Pollock (1912-1956) são apenas alguns dos nomes da colecção permanente da galeria.

Mas a exposição supera tudo, as pinturas e gravuras de Dürer, a relação com Maximilian, a viagem à Flandes, o encontro mal sucedido com Carlos V, tudo está muitíssimo bem documentado com documentos pictóricos e gráficos.
Estava eu a olhar para um quadro que me parecia familiar quando reparo que tinha uma inscrição em português na moldura: ena! um quadro do museu nacional de arte antiga. A cabeça de um velho. Olha é o S. Gerónimo com um crânio na mão! Espero que os austríacos o saibam guardar, e que não aconteça o mesmo que aconteceu ao saleiro do Cellini e às jóias da coroa portuguesa em Haia.



A exposição é mesmo a não perder. Viena, por detrás da Ópera, dentro do Ring, não há que enganar é na Albertina, soberbamente restaurada.

CM


Últimas da polémica 


Jaquinzinhos engole quase todas as carapuças possíveis e imaginárias, a única que falta é a de alcoólico analfabeto, não sei bem porquê. Responde com a graça fácil do instalado no seu sofá, o que não é mau de todo, e nada mais há a acrescentar.

A questão de fundo, que nos divide: eu continuo a preferir dar o meu (e o dos outros que podem pagar) dinheiro ao sem abrigo e a Belgais. Outros acham dinheiro mal gasto e preferem as graçolas. São questões de sensibilidade. As graçolas fazem parte da vida e fazem a rapaziada do clube ficar bem disposta. Boas audiências, a rapaziada gosta de umas risadas e o humor tudo vence. Sem dúvida. Mas vencer aqui não é o ponto. O ponto é que enquanto o Jaquinzinhos faz rir a claque, o sem abrigo continua a ouvir o seu rádio algures numa toca coberta de papeis velhos. E não querer compreender a metáfora do sem abrigo a ouvir um recital de orgão, isto num mundo ideal em que a redenção o salvaria do despojamento total, é apenas mais uma faceta, que me prova que tenho razão neste pequeno fait divers.






Manuela Moura Guedes entrevista Jaquinzinhos

Acrescento que adorei a última resposta do Jaquinzinhos, a entrevista é deliciosa e fez-me rir a bom rir, até de mim próprio, claro. Mas é também mais uma prova do que eu digo, enquanto uns usam argumentos outros preferem o sarcasmo.

Pena é que o sem abrigo que vi e ouvi anos atrás, no mundo real, não se possa deliciar com as piadolas do Jaquinzinhos, por muito giras que sejam, neste mundo virtual.

Na Paixão segundo S. Mateus de Bach diz-se algo como: Abandonados, despojados, Procurai! O quê? A redenção! Onde? Nos braços de Jesus. No braços do mesmo Jesus que pregado na Cruz, na última etapa do seu despojamento total, em abandono absoluto, abre os braços para abraçar o mundo, braços em que não há excluídos, onde todos são acolhidos.

Ao contrário dos braços dos "liberais" onde a única coisa que se agarra é o dinheiro, para nunca mais sair. As diferenças: o valor que se atribui ao vil metal, o egocentrismo.

E nunca mais saímos daqui. Porque gente que dá demasiado valor ao seu dinheiro, ao seu trabalho, também dará um valor desmezurado à sua opinião, e acabamos num beco sem saída. O Jaquinzinhos a tentar ridicularizar através do sarcasmo o que digo enquanto tento ser pedagógico, felizmente que não sou lido apenas pelos Jaquinzinhos, senão o meu latim seria mesmo mal gasto. E por agora acabou, um dia destes convido o Jaquinzinhos para beber umas excelentes aguardentes numa tertúlia de Belgais, pago eu claro...

Um abraço ao Jaquinzinhos, e que continue tão fresco como até aqui, eu continuo a lê-lo e a gostar de rir com a sua imaginação. Mesmo quando discordo dele.

CM

P.S. Porque será que quando falo de música poucos me mandam emails e que quando discuto impostos recebo imensas mensagens, umas insultando-me outras apoiando-me calorosamente? Será que o dinheiro é mesmo mais importante que a cultura?


23.9.03

O sem abrigo e o elitismo 

O meu "elitismo" tem destas coisas: passar a limpo ideias. Talvez contribuam para formar elites.

Claro que defendo elites, mas numa perspectiva ampla, numa perspectiva de pensamento e cultura, mais: numa perspectiva de humanismo e sensibilidade.
Desprezo acima de tudo as falsas elites do dinheiro. A minha elite começa pelo sem abrigo do metro, que numa madrugada fria de Inverno, alguns anos atrás, ouvia consolado Bach, num velho rádio, enchendo de suaves notas o seu cantinho algures num banco esquecido, coberto de cartões.


foto Gaël Turine, 2000

Esse sem abrigo é o exemplo de uma elite desprezada, olhada com desdém, pelos mesmo burgueses egoístas, ou por "ambiciosos" aspirantes a burgueses, que se recusam a pagar impostos para dar a Maria João Pires um local digno para criar disciplos e escola, e que nega o direito a um pobre sem abrigo, de escutar em silêncio um recital de orgão na Sé com entrada livre, sem ruído de fundo.

Prefiro essa minha elite, à qual só tem acesso quem quer, e querer aqui é muito difícil! É o mais difícil, é mais difícil do que escrever um blogue de sarcasmo fácil e de sensibilidade difícil.

O significado de elite, como o uso, é muito amplo mas muito difícil ao mesmo tempo, é democrático, pois a conquista-se pela vontade e não pela fidúcia ou pelo poder.

Nessa perspectiva pedagógica que escrevo o que escrevo, para quem me quiser ler. É nessa perspectiva, entre outras, que gosto de comunicar e de criticar.

CM


22.9.03

A minha escolha 

Saiu recentemente um disco da editora Alpha, com o agrupamento Le Poème Harmonique, Vincent Dumestre na direcção.

O nome do disco: Nova Metamorfosi, evoca as alterações que o cardeal Borromeo (arcebispo de Milão) em 1565 impõe aos músicos de acordo com as regras da contra reforma.

Tal como tinha imposto aos artistas normas rigorosas de pietismo, tal como tinha mandado retirar as insígnias jactantes dos benfeitores dos templos, tal como mandou retirar os cadáveres e ossos dos defuntos de dentro das igrejas - túmulos sim, corpos fora - higiene acima de tudo pois o cheiro dentro das igrejas era horrendo com os fétidos eflúvios que emanavam dos túmulos mal encerrados. Tal como retira do seu palácio os luxos desnecessários, tal como ordena aos padres e frades que abandonem a sua vida dissoluta, em que cortesãs, rapazinhos e jogadores eram companhia frequente do clero, quer em festas quer em orgias, Borromeo ordena aos compositores que escrevam música mais séria, ordena que o texto se deve entender, que a mensagem deve ser clara, que se acabem com temas populares.

O fabordão surge então em pleno, um cantos firmus na voz de tenor (de homem claro), e uma polifonia vocal a tempo. Simplicidade da harmonia, tempos lentos facilitam a inteligibilidade do texto. A gravidade deve imperar, contrariamente ao estilo madrigalista. Imagine-se a desgraça de Vincenzio Ruffo, emérito compositor de madrigais e mestre de capela em Milão. Ruffo recebe uma carta em 1565 do cardeal, que o obriga a compor no estilo ditado pelo Concílio de Trento.

Ruffo deixa a música profana e dedica-se a experiências de forma a conseguir música de qualidade, sem deixar de obedecer às ordens de Borromeo. Mas é difícil, a vida musical italiana é fervilhante, a ornamentação e o acompanhamento por instrumentos nunca deixam de se praticar.

Os retardos harmónicos, as antecipações de acordes, tensões que deixavam os ouvidos irrequietos, mas que também faziam sentir com fervor a música e o espírito do ofício foram cada vez mais praticados. O clímax é atingido pelas sublimes Vésperas de Monteverdi de 1610, duplo coro, instrumentos, tudo irrompe de forma imparável, a partir das formas austeras pós concílio. O fabordão metamorfoseia-se complexifica-se, uma tremenda polifonia vai enriquecer a singela homofonia inicial. No final da metamorfose (1620) só resta a polifonia, o cantus firmus desaparece misteriosamente.

Ao cardeal velho sucede o jesuíta Federico Borromeo (creio que em 1595), primo do primeiro. Como bom jesuíta pede a Coppini que mude os textos dos madrigais (4º e 5º livros) de Monteverdi e os tranforme em música sacra. O popular ao serviço de Deus, filosofia bem aplicada pelos jesuítas.
Os madrigais de Monteverdi, constituíam música extremamente popular ao tempo, Coppini, professor de retórica, música e latinista consegue fazer a adaptação com competência.
É música de Fabordão tradicional, Monteverdi lido por Coppini e Ruffo que Vincent Dumestre escolhe para ilustrar a lindíssima metamorfose que se sucede ao concílio de Trento. Nem as regras mais estritas são capazes de calar a arte, já Palestrina, em Roma, o tinha demonstrado com a Missae Papae Marcellus.



Vincent Dumestre consegue de forma encantatória dar a entender a metamorfose neste disco, irrepreensível, desde o seu artigo, do qual retirei informações, quer através da forma como conduz 8 cantores e 9 instrumentistas, num trajecto de deslumbramento. O melhor disco deste agrupamento, de longe, recente, gravação de Janeiro de 2003, publicação agora mesmo. Choc, recommandé par Classica e R10. Outros prémios se seguirão. Uma palavra para Dumestre: inteligência.

Sensibilidade e técnica, acompanhas por uma profunda inteligência fazem desta interpretação um paradigma. Mas não é fácil, é para ser ouvido com calma, sentindo o som, a pulsação do belo, do intangível...


Ouvir

CM


A escolha de Vanda 

Vanda de Sá no último Expresso critica o último disco de Cecilia Bartoli.


Cecilia Bartoli. Excitante?
Sim: o disco, segundo Vanda de Sá

Usa palavras como "hit", diz algumas coisas com piada, repete alguns factos sobre Salieri, não transcende, não critica de facto, aplaude, o que até nem é mau. Sublinho o último parágrafo:

"Excessiva nas tempestades emocionais, encantadora na expressão pueril, fulgurante na coloratura, desabridamente histriónica nos momentos descritivos ou humorísticos, Bartoli continua a suspirar como ninguém em música e a voz agora mais encorpada (aqui acerta em cheio, Bartoli está mais madura a voz mais espessa e com mais substância) nos graves é ainda mais heróica e melancólica. Um disco muito excitante,(ena ena, Vanda aqui excede-se) generoso no prazer que dá e que a partir de amanhã está nas discotecas. Bartoli merece a nossa fidelidade.

Vanda escreve muito bem. Cada vez melhor. O detalhe do presente "está nas discotecas" e não "estará nas discotecas" é exemplo do estilo de Vanda, o presente significa que "estando" se pode comprar, o futuro seria sempre menos afirmativo e mais nebuloso.

Com publicidade desta, a Decca pode dar-se por feliz, faltou dizer que Salieri é um compositor de efeitos fáceis, musicalmente correcto, mas sem chama, sem inovação, sem surpresa. Faltou falar das árias do disco, e da escolha difícil de Bartoli, difícil mas sem concorrência ou termo de comparação. É uma crítica fácil, não aponta caminhos, Bartoli é uma vitória clara à partida, popular. A escolha de Vanda também está votada ao sucesso. Assim evita indecisões e escrita de compromisso, dizer bem, está feito. A Decca vende, o Expresso vende, Vanda continua, Bartoli ganha mais uns adeptos e todos ficam felizes. Sic transit gloria mundi.

Falta dizer que este é um disco que eu não vou comprar e se mo oferecerem vou dá-lo a uns tios pelo Natal.
CM


Ao contrário do que se diz por aí 

O José Pacheco Pereira teve um intervenção de vulto, notável, desmontou o Muito Mentiroso. De tal forma que este blogue apagou tudo.
Se se dizia que Pacheco iria ser o propagandista da mentira, provou-se o contrário, ao chamar a atenção para a enormidade da calúnia, da mentira, do crime, o autor amedrontou-se e fugiu. Aliás, é sabido que a calúnia anda de mãos dadas com a cobardia.

Um obrigado Pacheco Pereira, ao contrário do que parece é preciso ter coragem para abordar uma questão deste tipo.

CM


Com a vénia a Augusto Seabra, finalmente 


Finalmente um artigo de A. M. Seabra, ao qual tiro a vénio, se esquecermos a trica de estimação contra Vieira Nery, o artigo merece ampla divulgação, reproduzo-o aqui, porque o Público retira os artigos ao fim de um certo tempo e esta peça merece ser recordada. A. M. Seabra, independemente de tudo, é um nome que faz opinião, que tem de se ter em conta. Obrigado a Portugal dos pequeninos pela referência.

Manuela, "The Opera Killer"
Por AUGUSTO M. SEABRA
Domingo, 21 de Setembro de 2003

Em 1803, tinha o Real Theatro de S. Carlos aberto há apenas 10 anos mas sendo já crónicos os problemas de rentabilidade, o governo do Reino, que também já não dispensava o teatro mas não queria assumir os seus encargos, atribuiu a exploração ao empresário Lodi, concedendo-lhe em contrapartida o privilégio das casas da sorte.

As lotarias, os bilhares ou a banca nas salas de teatro, o monopólio da importação da aguardente de França ou de azeite espanhol, etc., foram durante quase meio século moeda de troca do teatro. Se a drª. Manuela Ferreira Leite se lembra, não só abate das décimas do orçamento da Cultura as poucas mais que centésimas que cabem ao São Carlos como começa a fazer a previsão das receitas de IVA resultantes das transacções concessionadas e do seu contributo para que o défice orçamental se fique mesmo pelos 2,944% e não chegue aos 3%!

Talvez apropriadamente para a época de saldos ainda em curso, mas ultrapassando todas as expectativas, os encarregados da liquidação das responsabilidades políticas do Estado na área da cultura, a múmia paralítica que faz de conta que é ministro mais o secretário de estado que manda e vela para que nada se faça, deslocaram-se ambos a uma conferência de imprensa para anunciar que não se anunciava a temporada 2003/04 do Teatro Nacional de São Carlos!

Novidade mesmo? No despautério, certamente. No nível de desertificação, ainda assim também. Mas a rota do naufrágio estava traçada há meses. Não tenho o mais mínimo dos gozos em retomar o que escrevi aqui em 27/4: "uma adjunta financeira do ministro Roseta dizia que foram desbloqueadas verbas e que a situação 'está garantida'. Não está nada. A questão é de fundo, a crónica sub-orçamentação de um Teatro Nacional que não pode viver permanentemente na esperança de que um ministro da Cultura sem peso político solicite ao primeiro-ministro que este interceda junto da ministra da Finanças para desbloqueamentos pontuais. E acrescente-se: o modelo institucional do São Carlos, decorrente da obstinação de Manuel Maria Carrilho em acabar com a anterior Fundação, esse modelo está exangue: não tem flexibilidade, faz depender o teatro das regras da contabilidade pública, dá azo à crónica dependência financeira. O director do teatro, Paolo Pinamonti, já várias vezes alertou, tanto que inclusive o secretário de Estado Amaral Lopes já disse [há 15 meses!] que o governo está aberto à reconsideração - mas, claro, nada até agora. Aliás, como é possível confiar em Amaral Lopes?". Pois...

Donde, se conclui agora sem margem para dúvidas que o Teatro Nacional de São Carlos não tinha condições orçamentais para assegurar a conclusão da temporada 2002/03 e o início da 2003/04. O que, se figurasse este dado nas estatísticas do Eurostart, era mais outro em que Portugal estaria bem destacadamente na cauda da Europa. Oh orgulho!

Dir-se-á agora, dizem: há obras a fazer, inadiáveis. Se o diz a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pois será assim mesmo. Mas a sensação de "dejá vu" é patética. Há cinco anos, Manuel Maria Carrilho meteu mãos à obra. Do seu entretanto desavindo secretário de Estado Rui Vieira Nery manteve uma tristíssima ideia: acabou com a Fundação responsável pelo teatro (pessoa juridicamente privada) e reconstituísse-o como ente público (seria o São Carlos "restaurado na sua dignidade plena de Teatro Nacional", como constava da propaganda desses anos). Mandaram-se fazer obras, "inadiáveis", como não duvidamos. E remeteu-se o regime das temporadas, em absoluta originalidade europeia e internacional, para o início do ano civil. Cinco anos volvidos, vira o disco e toca o mesmo...

O teatro nacional de ópera é uma questão cultural (óbvio) mas também institucional, política, orçamental, sociológica e (oh quanto!) simbólica. A absoluta paralisia deste governo em considerar o São Carlos condensa-se na incapacidade em ponderar um novo estatuto, provada que está a ineficácia do resultante do Decreto-Lei 88/98. Em boa verdade, e embora a questão seja bem mais grave no São Carlos porque se insere directamente num circuito internacional planeado a anos, a questão vale para todos os teatros nacionais. Mas eis o que esta semana mesmo disse Roseta: " (a questão) não se resolve de um dia para o outro, até porque o ministério não tem poder legislativo para decretar a autonomia financeira dos seus organismos" (PÚBLICO de quarta-feira). De um dia para o outro? Mas não está este governo aos 500 dias? O ministério não tem poder? Por si só, não, mas se não é o suposto titular da Cultura a colocar a questão na agenda quem o fará? De facto, grande verdade disse: "o ministério não tem poder", e esse é o nexo político e também orçamental da questão.

Há algo de injusto em que a dr.ª Ferreira Leite possa ficar retida nas nossas memórias também como "the opera killer". Além de todos os conhecidos argumentos orçamentais, como se poderia esperar que uma tal figura da castração fosse sensível às economias libidinais da ópera? E em boa verdade, nem se pode desquitar a hipótese de, movido pelos mais altruístas interesses de justiça social, e sensível ao apostolado do grande doutrinador Pacheco Pereira de desactivação da "máquina de propaganda" do ministério da Cultura, o governo de Durão Barroso delineia um novo objectivo: "os ricos que paguem a ópera"!

Ao jeito que as coisas estão, perante a falta de renovação de públicos, um enquistamento sociológico que traduz também uma iniludível depreciação do capital simbólico da ópera, já nem digo nada.



Fim do artigo de AMSeabra no Público de Domingo.
CM


As minhas rabujices 

O Jaquinzinhos foi capaz de uma resposta brilhante, pela graça, ao meu libelo contra a tacanhez lusitana, actual, dos portugueses, que só pensam na sua barriga, que seguem a filosofia do "eu primeiro, os outros que se lixem..."

Mas infelizmente não nega nada do que eu afirmo, só confirma. Não consegue encontrar um argumento, porque de facto Maria João Pires é um génio, reconhecido universalmente, e só por puro egoísmo e desdém pelo património colectivo alguém se pode lamentar de gastar dinheiro dos seus impostos com Belgais. Por filosofia egoísta, liberal, ou como se queira chamar.

Agora perceba o Jaquinzinhos e outros. Eu não conheço o autor desse blogue, não me move qualquer interesse pessoal, só falo do que leio e escrevo em geral. Acho imensa graça ao Jaquinzinhos (às vezes), mas existe uma responsabilidade importante, a de não deixar passar em claro os dislates de quem vê o mundo pelo umbigo. Quando falo dos tacanhos, dos que desdenham do saber, dos que não querem pagar impostos para a cultura, para a ciência, para a solidariedade social, não estou a falar em concreto de uma pessoa. O poema então está delicioso, devo dizer que gostei e vou guardar.

Uma nota final: o encontro de blogues, não é organização minha, é um encontro promovido pela Sociedade de Geografia de Lisboa, iniciativa da presidência da mesma. Eu tive uma ideia e coloquei-a à Direcção, aceitaram, eu ajudo, assim como outros.

Creio ser pouco ético, falar desse assunto, a propósito de uma polémica, se o Jaquinzinhos quiser ir, a porta está aberta, claro. Será muito bem recebido pela Sociedade de Geografia, poderá falar, terá certamente muita graça, as suas opiniões são tão válidas como as minhas como base para qualquer discussão. Agora misturar as coisas prova claramente que os meus argumentos podem ser verdadeiros em concreto.

CM


21.9.03

Maria João Pires e os impostos dos Jaquinzinhos 


Os Jaquinzinhos pequeno burgueses agitam-se com Maria João Pires.
Por acaso sou elitista. Sem elites já temos um país como Portugal, basta.
Precisamos de elites, precisamos de MJP. Estou-me nas tintas se custa dinheiro aos egoístas pequeno burgueses. Os mesmos rapazes que ganharam as guerras liberais e que desgraçaram o país desde os Saldanhas e Mouzinhos, passando pelas luminárias da 1ª república até Salazar, Soares, Cavaco e Guterres, os mesmos pequeno burgueses que formam a maioria da classe política, que formam a classe empresarial. Analfabetos, incultos, egoístas, incapazes. Tudo pequeno, rural, tacanho, tragicamente fechado. Sem vistas, sem relatividade, odiento, rancoroso, velhaco, invejoso. Desdenhando do belo, desdenhando do sábio, escarnecendo do verdadeiro erudito, porque incapaz de erudição.

Revelam assim a sua mente mesquinha de escravos, como diria Nietsche. Fruto de gerações de clericalismo imbecil e de anticlericalismo cego e não menos imbecil, como diria Oliveira Martins.
Foi essa gente de Malta, como diria Bocage, que matou à fome e de desespero os génios deste país, como Antero, como Pessoa, como Valadares, como Caraça. Como Aquilino, como Alcaide, como tantos outros...
Que a MJP ganhe muito dinheiro pago com os impostos dos Jaquinzinhos deste país, os meus votos mais sinceros. E que esses Jaquinzinhos fiquem rubros de raiva e que vociferem, e que escarneçam, fingindo uma ironia da qual são incapazes. Apenas sendo autores de escarninho e de desdém, desdém de manhosos.
A única transcendência vem da cultura, do saber, do génio e do seu reconhecimento. Deixemos de matar quem é capaz de criar, deixemos de matar os jovens que são asfixiados pelo ambiente imbecilizante de um país adiado e analfabeto, de um país de alcoólicos maldizentes rancorosos invejosos e analfabetos.

CM


Elitismo? Ou o problema das entradas livres 

Estive na Sé de Lisboa, tive de abandonar uma fantástica tarde de praia algures na zona do Guincho, corri como um louco em direcção à Sé de Lisboa. Um programa admirável, Bach, a fantasia e fuga em Sol Menor, um organista de grande nível, erudito, apaixonado pelo que faz: Andreas Liebig, nascido em 1962.

Um concerto de alto nível, 16h30m.


O problema: concerto de entrada livre! Consequência, turistas a passear-se, paroquianas idosas a abanar o leque fazendo um barulho horrendo e o pior de tudo, os jovens urbanos e as suas criancinhas de colo, e sem ser de colo, numa constante berraria, choradeira e correria. Impossível escutar Bach assim.

Não percebo como podem esses seres levar a concertos os rebentos ranhosos. Será que são masoquistas? Será que não têm noção de que nem vão ouvir nada, nem vão deixar os outros ouvir? Passeiam-se pela Sé de Lisboa em pleno recital de orgão como andam pelos centros comerciais de fato de treino? Pretendem ser mais "coltos" por aparecerem num concerto de entrada livre, por não darem arrotos durante o concerto? Mas se levam as infames criancinhas, pobrezitas, que nem sequer têm culpa de ter os pais mais alarves do que aqueles que arrotam e se passeiam em público pelos centros comerciais de fim de semana, porque ao menos estes últimos não destroem o prazer de escutar boa música a quem a quer ouvir.

É demais, vândalos, pequeno burgueses analfabetos, alguns dos quais até sabendo ler um pouco, e cito ao contrário...

E se fossem para os centros comerciais arrastarem-se, vomitarem a vossa ignorância, o vosso nojo pequeno burguês inculto, que não quer aprender, que tem raiva a quem quer? Não seria melhor para todos? O que é triste é que fazem galhardia na pouco galharda ignorância patente nos petizes que arrastam consigo a concertos de orgão na Sé a um domingo à tarde, porque a entrada é livre! É demais. Serei elitista por querer ouvir um bom organista tocar um O Mensch, Bewein dein' Sünde Gross, ou uma passacaglia em dó menor e uma trio-sonata em Sol Maior, com o respeito religioso que as obras merecem, com o silêncio dos grandes momentos?

E não me venham dizer que não têm onde deixar os petizes, se não têm onde os deixar não apareçam, vão comer um gelado ou dirijam-se ao parque infantil, ou não os façam.

CM


A onze de Setembro 


Matou-se Antero.

CM


Maria João Pires e Belgais 


Pergunta CVM se o estado deve ou não financiar o projecto de Belgais.

Maria João Pires em Belgais

Belgais não é um tacho
Foto Expresso

Devo dizer que essa questão, para mim, é muito simples de responder. Maria João Pires tem defeitos, muitos mesmo, o pior dos quais é não estudar muito, tendo tido situações em concerto que chegam a ser confrangedoras, como no caso em que se esqueceu completamente da música num concerto menos tocado (para dois pianos) de Mozart. O seu reportório é reduzido, também por esse motivo.
Creio que no estrangeiro não acontece tanto esse desrespeito por si própria e pelo público, o que ainda é mais desagradável para quem paga os impostos que vão para Belgais.
Mas seria completamente imbecil, superficial, julgar Maria João Pires por alguns concertos mal sucedidos, ou por uma crónica falta de estudo. Maria João Pires é uma predestinada, mesmo com pouco estudo a sua musicalidade, a sua capacidade de expressão e o sua facilidade de execução ao piano tornam as suas aparições sempre memoráveis, mesmo quando troca algumas notas, ou se nota algum estudo deficiente... É mesmo assim a melhor pianista que Portugal tem, embora um António Rosado, seja no meu entender um génio mágico do piano, a crescer.

Mas será que a faceta de intérprete genial, de grande nome da cultura portuguesa dão a Maria João Pires algum crédito na pedagogia? Na construção de um projecto em que capitais públicos devam ser investidos?

A questão aqui será muito mais complexa, Maria João Pires não é uma intelectual (pelo menos assumidamente), é uma intuitiva. Nunca veremos MJP a reflectir sobre música como o faz Alfred Brendel. Nunca escreveu nada, nunca fez teoria ou teve alunos de forma regular. Nunca fez musicologia ou estudou o assunto.

Então porquê Belgais? Restaurar a quinta da família de forma expedita com o dinheiro dos contribuintes? A má língua deixou sempre esta pergunta no ar.

A resposta está num facto muito simples, MJP é de facto notável, apresentou um projecto, o projecto tinha valor intrínseco, acreditou-se na artista. Era tempo de ter alunos, de reflectir, de passar a uma fase mais madura. Seria trágico se o estado não aproveitasse a oportunidade de uma senhora como MJP deixar uma escola, um marco. Seria criminoso, seria uma crime terrível contra o património colectivo de todos nós. Poucos que sejam os que bebem as aguardentes nas tertúlias de Belgais, o dinheiro é bem gasto. Como julgar o projecto? Pelos frutos, e os frutos estão aí, estão a aparecer. As crianças e a educação musical, os estagiários que passam por Belgais, a reflexão que está a surgir agora, aos poucos.

Basta o convívio com uma pessoa magnética, intuitiva sim, mas catalizadora, mas profunda, para gerar energia e cultura. Porque não se toca como MJP toca só porque se "tem jeitinho".

Não sei se expliquei bem o que sinto, mas creio que a ideia ficou clara.

CM


20.9.03

Um pouco de Haendel - versão Integral 




Händel

Encontro um disco no meu confuso escritório-discoteca: Lucrezia, uma cantata de Georg Friedrich Händel, com sonatas de camera. A soprano é a bela Roberta Invernizzi, o Retablo Barroco interpreta a parte instrumental...

Ouvir

Infelizmente a qualidade de som não permite colocar árias de soprano no miserável serviço do Sapo, que apenas deixa colocar ficheiros até 500kb, mesmo assim dois trechos admiráveis, a sonata a tre e o concerto a quattro. Alguma razão teria Beethoven para considerar Händel o seu compositor preferido.

As lições das trevas de Couperin, Lalande e de Charpentier estão ainda na calha.

CM



Orgão hoje.

S. Vicente de Fora: 17h. No mais belo orgão de Lisboa, com sonoridades fantásticas e um restauro de qualidade ímpar, entrada livre, José Luiz Gonzalez Uriol. Um cravista e organista de grande qualidade. A não perder, S. Vicente de Fora, uma hora de concerto. Importante: este concerto não está incluído no Festival de Orgão de Lisboa, mas sim na programação regular da mesma igreja, cuja responsabilidade é do organista João Vaz, titular deste orgão.

Mais tarde, em Mafra, Uriol volta a tocar, a solo e em duo com João Vaz. Será pelas 21h30m na Basílica de Mafra, Festival de Orgão de Lisboa. Entrada também livre, excepcional a oportunidade de escutar dois orgãos da basílica de D. João V. Estes orgãos foram restaurados muito recentemente por Dinarte Machado, um bom organeiro lusitano.
Encontram-se frente a frente, um de cada lado da nave central. Será um espectáculo digno de nota, a estereofonia, a pujança destes lindíssimos instrumentos de Machado de Cerveira, construídos no século XVIII e restituídos à sua original função!
Este concerto é a não perder.
Estão em restauros os restantes quatro, não não minto, quatro orgãos da basílica, num total de seis orgãos...

Não perca qualquer destes concertos. A oportunidade de ouvir bons intérpretes em orgãos de sonoridades deslumbrantes de constrututores portugueses.

Como se poderá constatar, a nossa tradição pré guerras liberais na música de orgão era verdadeiramente notável. Centenas de orgãos (talvez mais de mil) foram destruídos após o triunfo do "liberalismo", o espírito iluminado de Saldanhas e Mouzinhos e Palmelas e Cabrais e Garrets e Herculanos (este nem foi dos piores) e Domingos Bomtempo e outros facínoras (do ponto de vista político) do mesmo calibre premitiu que não só se destruísse o património incalculável da organaria portuguesa, como muito pior, destuiu as escolas de orgão, incluíndo a melhor, a da Patriarcal, e se fundasse um consevatório onde o orgão não cabia, onde era relegado para instrumento a banir, ao qual não se dava importância, por ser instrumento de padres e igrejas...
Orgãos ficaram por tocar mais de duzentos anos. Alguns, por sorte, mantiveram-se intactos, mesmo em muito mau estado. Outros (a maioria) foram vendidos a peso por padres sem escrúpulos, pelos fulanos que roubaram o património da Igreja em negociatas com os amigos que dominavam então o estado, e cujos ricos descendentes se orgulham hoje de ter como antepassados grandes nomes da história portuguesa! Ainda no tempo do Salazar, se venderam a peso os magníficos orgãos dos Jerónimos, porque não datavam do período original da Igreja e tinham sido acrescentados no século XVII. Segundo os "especialistas" do património retiravam à igreja a pureza original, como ninguém os tocava, desaparecram na poeira do tempo sem ninguém dar conta do facto.

CM


19.9.03

O Muito Mentiroso 



Para os ingénuos o autor do Muito Mentiroso seria um paranóico, um obcecado pela teoria da conspiração.
A princípio, quando o li, apressadamente, depois da minha viagem, estranhei. Ainda pensei que se poderia tratar de uma obra de um louco, de alguém próximo dos acontecimentos, mas com a mente perturbada.

Hoje, depois de reflectir um pouco e de ler o JPP que explica de forma lapidar o assunto, chego à conclusão que se trata pura e simplesmente de alguém com o objectivo de perturbar, de baralhar o processo sobre o qual tanto escreve. Alguém que usa métodos criminosos.

Como no crime se deve sempre procurar em primeira e em última análise o beneficiário do mesmo, só uma conclusão se tira: trata-se de alguém próximo da defesa de alguns dos arguidos ou de alguém que pretende vingança contra algum elemento da investigação. Se se tratam de motivos pessoais ou políticos cabe ao poder judicial decidir.

A mim só me interessa uma coisa, o princípio ético. Nesse sentido acho o tal blogue simplesmente repugnante. Não o lerei mais. Retirei o link.

Como no Barbeiro de Sevilha se diz tão bem: a Calúnia começa por um vento muito ligeiro (brisa) e acaba ribombando como um canhão.

CM


18.9.03

Viagem de Inverno de Shubert 



Franz Schubert

De Viena trago um disco, já antigo de 1999. Um Hans Zender, compositor e maestro, que recria de forma absolutamente chocante, e quero mesmo dizer chocante, a Viagem de Inverno de Schubert. Uns dirão que a obra é um bárbaro assassinato, outros dirão que é uma obra simplesmente genial. Fiquei chocado, era o que pretendia Zender, como aliás o afirma num artigo que escreve sobre o assunto.

Zender faz uma orquestração da viagem de Inverno, mas também recria a obra, introduzindo, transições, pontes, sublinhados, partes em que coloca os passos do caminhante, o vento, o quebrar do gelo com os passos, e sonoridades e timbres instrumentais desconcertantes, harmonizações diferentes do original. Um trabalho admirável por um lado, por outro totalmente desconcertante. Música de câmara com reverberações mahlerianas, numa linguagem estética que também herda elementos da segunda escola de Viena.

O mais importante, a viagem surge, revela-se. A poesia de Muller continua gélida e transcendente, revelada em todo o esplendor pela música de Schubert. A viagem afirma-se, alonga-se, é trágica e, sobretudo, belamente triste. Esta infinita tristeza não é destruída nesta visão chocante de Zender. Talvez o compositor alemão Zender pretenda uma recriação do espanto original dos ouvintes que a escutaram pela primeira vez, ele próprio o afirma, creio que o consegue. Talvez recrie também o estado de cansaço febril e atormentado de Schubert quando compôs a obra, de tal forma a música envolve num mundo de sonho e de abandono solitário que só pode terminar em morte ou no beco sem saída de um eterno retorno sem amor, numa viagem interminavel, em que voltamos ao ponto de partida, mais velhos, mais ricos, mais sábios, mas mais sós, mais tristes... Fein Leibchen, Gute Nacht!

Precisarão os nossos ouvidos, hoje, de algo mais afirmativo que dois homens vestidos de negro, um grande piano de cauda e a música e poesia de Schubert e Muller? Creio que ao mais apaixonado dos melómanos bastaria a linguagem simples do texto original. Será que os ouvintes comuns de hoje precisam de mais sonoridades, de mais "barroquismos"? A vida é mais agitada, o som mais vulgarizado, as aparelhagens massacram-nos os ouvidos de intensidades e de ruído. Precisará o homem de hoje de mais estímulos sonoros ao nível do timbre e da força sonora para se espantar, para discernir acima do seu ruído de fundo diário, para se chocar com a obra de arte, para se deslumbrar com a novidade da descoberta?

Ouvir

O tenor Christoph Prégardien ajuda de forma admirável Zender a recriar a obra. Trata-se de um intérprete que domina de forma soberba a obra, tantas as vezes a cantou, e gravou, apenas com o acompanhamento de um grande piano de cauda. O agrupamento orquestral é o Klangforum de Viena, agrupamento de 24 músicos, muitíssimo bom tecnicamente e que tem com uma filosofia muito semelhante à nossa Orquestrutópica.

Um disco Kairos: Schuberts "Winterrreise" o título do mesmo. Não recomendo, não sei se gosto, terei de pensar e meditar mais no assunto, mas ainda não parei de ouvir o disco...

Só me falta dizer que gostava de morrer ao som da Viagem de Inverno.

CM


P.S. Preparo também uma análise das Lições das Trevas de François Coupérin, com diversas interpretações.
Uma obra genial, interpretações entre o excelente e o muito interessante. Desde Gerard Lesne, até Michel Chapuis, passando por Chistophe Rousset acabando em Olivier Vernet, uma obra encantatória, deslumbrante, em não menos deslumbrantes revelações. Preparo excertos comparados para se poderem ouvir aqui.


Orgão de Lisboa 


Ver: Festival de orgão de Lisboa.

Todas as entradas são gratuitas.

CM

17.9.03

Notícias (com novidades) 

Hoje à noite, na casa Fernando Pessoa, Pedro Mexia explica a influência de Fernando Pessoa na vida e obra de Pedro Mexia, quem aprecia Pedro Mexia não deve perder esta oportunidade: conhecer o homem por detrás do poeta, o poeta por detrás do bloguer e Fernando Pessoa por detrás de todos.

A Sociedade Portuguesa de Autores tem nova presidência. Confesso que gostaria de ver o ilustre Graça Moura como presidente, mas talvez uma solução de ruptura seja mais clarificante para o futuro dos autores em Portugal.

Espera-se que Freire governe a Sociedade como canta a Pedra Filosofal.

O S. Carlos anuncia a nova temporada hoje, espera-se que tenha pelo menos um décimo da qualidade da temporada de Viena, cidade com menos habitantes que Lisboa (grande Viena e grande Lisboa) capital de um país com menos habitantes que Portugal...

Yoko Ono despiu-se, mais uma vez, a favor da paz... desta feita em Paris.

Os blogues Portugal dos pequeninos, Portugal e arredores (Portugal está comigo) e a minha amiga 100nada saudaram o meu regresso. Uma saudação grande também para eles.


E assim vai o mundo.

CM

16.9.03

Surpresas pós viagem 

Uma surpresa Cristovão de Moura.

Partilho a ideia clara e evidente sobre a dinastia triste e infame dos Braganças, dinastia de bastardos de um bastardo, como dizia Oliveira Martins, filhos bastardos do mestre de Avis. Traidores múltiplos de Portugal, desde o Afonso fundador (o primeiro bastardo da dinastia destes rústicos), Braganças traidores de D. Pedro das sete partidas, aos vendidos aos reis católicos, duques feitos por D. Pedro, que logo mataram sordidamente. Recordo os, já então, reis imbecis do século XVIII, acabando em loucura e na idiotia de um João VI, na vaidade de pateta alegre de Pedro (o traidor do Ipiranga) e na boçalidade alvar e cavalar de Miguel, na apatia de D. Maria II terminando de forma trágica na piolheira de D. Carlos, que mesmo assim ainda foi um pouco melhor que os restantes. Braganças que acabaram com a ideia de Portugal de D. João II. Braganças que legaram um Portugal beato e deprimido. um Portugal dependente de Inglaterra e de estrangeiros, devido à incapacidade e à ignorância a que reduziram as elites de um povo orgulhoso e combativo.

Desdenho, no entanto, do elogio de um traidor, de um Cristovão de Moura, desdenho por ser indomitamente português, porque Filipe IV, que reinou depois de Cristovão de Moura ter morrido, era um imbecil ainda pior que a maioria dos Braganças, como se provou bem provado. Porque o Conde Duque queria retirar aos cidadãos deste país os direitos a que sempre tiveram.

Não entro em polémicas, mas o pior que me poderia acontecer era falar hoje castelhano, sem direito a dizer os VV como deve ser, ou incapaz de falar em alemão, árabe, francês ou sequer inglês devido à fonética rude e campónia do espanhol. O pior que me poderia acontecer era escutar os gritos histéricos de uma castelhanha ruidosa... Enfim, só esse facto me leva a chamar a esse Cristovão de Moura um traidor, bem pior que Miguel de Vasconcelos. Os Habsburgs legaram-nos o retardado, o delirante moço Sebastião de Alcácer Quibir, se tivessemos os últimos espanhóis dessa raça maldita a nossa ruína ainda seria maior.

Assim sendo, e tendo gostado muito do Blogue do P. Gomes, acho-o um blogue com um nome de traidor ao Portugal de D. João II, rei que mandou matar, ou matou com suas mãos, sem apelo, e com muita honra os miseráveis ascendentes dos que depois ocuparam o poder até hoje.
Sendo assim, não, por muito que me agrade o que diz, a inteligência com que o faz, o Blogue do P. Gomes é apenas isso: uma coisa com o nome de um vendido.


CM


Fui roubado (crónicas breves de viagem) 

O Crítico (agora falo de mim na terceira pessoa) foi roubado em Avignon, sob a ameça de pistolas e facas, três façanhudos meliantes de aspecto magrebino, conseguiram o feito de extorquir quatro CD's de música do século XVII, Stefano Landi e Fasolo incluídos, duas toalhas de praia em estado novo (como diriam os irmãos Dupond(t)) apenas com 12 anos, e uns óculos Ray Ban com mais de sete anos e quatrocentos mil riscos, além de desconjuntados...
Nem o meu relógio, nem o passaporte foram beliscados, um casaco em Gore Tex não suscitou interesse aos rapazes, não há dúvida que costumam ler este blogue. Sim, toalha ao ombro, óculos escuros e CD's do Landi são aspecto habitual deste vosso crítico!

Interessante o comentário da progenitora: "pobres rapazes, não se conseguem integrar, ninguém lhes dá nada, podias ter-lhes dado uns euritos..." sem se preocupar muito com o susto que aqui o rapaz sofreu!

Eu lá fui à polícia local, situada, aliás estratategicamente, na esquina da mesma rua onde fui assaltado! Mais dez minutos de conversa com os polícias e lá fui comprar umas toalhas novas (nem vê-las, não há toalhas de praia em Avignon) e uns óculos escuros cuja compra andava a adiar.

Moral da história: se precisares de comprar óculos novos, e estiveres cheio de preguiça, passa por Avignon...
Meti-me no carro e passei à Costa Brava, Bégur foi a estação que se seguiu. No dia seguinte banho de sol na praia de AiguaBlava em cima de uma toalha de bidé, que a costa francesa até mete nojo!

CM


O meu regresso 

Perguntei à minha amiga 100nada o que havia de novo na blogosfera, uma vez que eu estava sem paciência para pesquisas arqueológicas sobre um passado recente em que não tive internet, a resposta foi eloquente:

"Está tudo na mesma, a Charlotte teve uma dor de dentes e ficou fechada no elevador e o Mexia ameaçou que se ia, mas afinal não foi... ah e Lisboa cheia de fumo, facto que tinha incomodado imenso os blogues...!"

Depois disto só me resta ler o Pulha ou os outros, de quem toda a gente diz mal, mas ninguém assume que lê. Resta-me a escrita de prosa crítica, introspectiva ou não, a pesquisa no baú do Leite de Faria, ou uma meditação interior sobre mundos perdidos, dentro ou fora de consciências passadas ou presentes...
Também poderia iniciar uma polémica sobre o liberalismo, nunca falha... Mas a paciência falha.
Sinto um regresso ao éter... Concertos e ensaios de uma morte adiada.

CM


15.9.03

Retorno 

Ainda nem tive tempo de dar uma volta pelas últimas novidades de Portugal. Hoje é dia de assentar arraiais, amanhã recomeçarei, se me apetecer, em pleno, as minhas actividades.

Sei apenas que o Festival de Orgão de Lisboa está aí.

Sei também que a temporada da Ópera de Viena inclui um Anel completo, mais umas cinquenta óperas diferentes, ontem Thomas Hampson no Bocanegra de Verdi, hoje pedofilia, fogos, blogosfera lusitana, e a pequenês do burgo... A realidade é assim e todos nos julgamos uns grandes senhores...

Escreverei sobre as estradas, as montanhas e os caminhos de uma República Checa e de uma Europa Central encalhada à espera de entrar na UE, suspensa, ainda triste, ainda cabisbaixa, ainda crispada. Estradas de árvores, de curvas sem fim, sem carros, ouvindo velhos compositores, esquecidos, do século XVII num CD de um qualquer carro francês de uma companhia de aluguer de automóveis de Viena. Nas diferenças que encontrei no velho império dos Habsburgos, entre uma Olomounc, sede de arcebispado e capital de uma Morávia imperial hoje resto quase triste de um mundo perdido, uma Opava com mais de dois mil anos e negra de fumo em contraste com uma Vindobona orgulhosa e plena de luz e de mundo.

O tempo urge, os amigos reclamam-me para jantar e amanhã o tempo comum volta ao seu lugar. A blogosfera como está? Creio que vou passar a noite a descobrir coisas novas, a responder a emails e a actualizar os links...
Felizmente que escrevi uma série de textos em papel e lápis, como tinha saudades de um bom papel em branco e de um vulgar lápis entre um bar e um hotel no Ring de Viena, Schotten para variar que o Hilton está cada vez mais caro.

E assim regresso mais de um mês de caminhadas pelos Alpes, de banhos em AiguaBlava, depois de ser assaltado em Avignon, depois de ter enfrentado a loucura das estradas italianas e uma multa por excesso de velocidade em pleno passo alpino multado por um gendarme simpático, depois de o Festival de Salzburg ter passado por mim breve quase como num sonho, e depois de ter ouvido alguma da melhor música que alguém escreveu. Depois de ter feito a estrada da Polónia dentro da Morávia e de ter subido a pé o Praded, que afinal é bem pouca coisa... Regresso ao dia a dia de uma Lisboa ensimesmada e à espera também de um quinto império que nunca mais acontece, assim como se espera Deus, e eu também não escapo a esse destino, como um Godot imaginado dentro de cada um de nós e que nunca mais vem...

CM

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