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30.6.03

Mexia no Expresso 

Obtive hoje o Expresso, esquecido algures no campo, leio com espanto uma crítica demolidora para o último trabalho poético de Pedro Mexia. Nem me mexi depois de ler aquilo! Não li o livro mas, aqui na blogosfera, nada de reacções. Será que meteu toda a gente a cabeça na areia? Ou será que ficaram todos estarrecidos?

P.S. Vou agora ler o blogue do Mexia, pode ser que haja lá algo, às vezes esqueço-me que existe um blogue do Mexia...
CM

Mr. de Sainte Colombe le Fils 1660-1720(?) 

Escuto em estado de encantamento Jordi Savall, no seu último disco, gravado em Fevereiro de 2003, no mosteiro de Cardona. Em particular a finesse, a subtileza, a beleza serena do pizzicato da double da suite em sol menor deste compositor, quase esquecido durante 300 anos.
O manuscrito da obra encontra-se na Catedral de Durham, uma vez que Sainte Colombe le Fils se refugiou em Inglaterra por motivos religiosos. As suas obras não se encontravam publicadas. Sabe-se muito pouco deste notável compositor, sabe-se apenas que seria filho (natural) de Mr. de Sainte Colombe le Père, este último foi professor de Marin Marais, além do seu filho. Os andamentos são danças estilizadas, muito longe dos seus protótipos, numa construção parecida com a que Bach viria a adoptar mais tarde, exemplo: a suite em Si menor tem como andamentos Pelude, Allemande, Courante, Sarabande, Gavotte e Gigue.

Nota-se nesta suite uma arte muito especial, a "arte do acompanhamento a si próprio" que Bach retomaria nas suas suites para violoncelo e viola pomposa a solo.
Quem gosta de Bach nas suites para violoncelo solo deveria escutar Jordi Savall nestas obras. Jordi Savall consegue, mergulhando na música nos dias dos seus anos de estudo, estudando, lendo, vivendo, a excelsa virtude de não parecer um músico de hoje. A sua arte parece que nos leva até esses dias de seiscentos, delicadamente, sem forçar, a pouco e pouco entramos na máquina do tempo.

Só a música nos provoca estes efeitos. Na falta de imagem de Sainte Colombe le Fils, ficamos com a fotografia do intérprete:


O disco está incluído num trabalho da editora AlliaVox, que é propriedade do próprio Jordi Savall, trata-se de uma caixa: "Le Parnase de la Viole" e inclui três Cds, dois de Sainte Colombe le Fils, com suites, e um de Marin Marais com peças de viola.

Neste último CD participa Philippe Pierlot, violista exímio, além de maestro notável, responsável pelo Ricercar Consort, um tipo fantástico que participou na Festa da Música dirigindo o Stabat Mater de Pergolesi, cantatas de Marazolli, o Nisi Dominus e o Stabat Mater de Vivaldi, e mais peçsa de viola da gamba, em 9 fantásticos concertos, adora Lisboa e pasteis de Belém. Participa também o Pierre Hantaï no cravo e o Rolf Lislevand no alaúde. Falaremos mais tarde deste CD notável de Marin Marais.
CM

Hoje, subitamente, Antero 



O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão — e nada mais!


Mais Antero


A intolerância e o fanatismo da esquerda libertária e tolerante 

O título parece contraditório mas diz o Abrupto:
No Combate, órgão do PSR, o partido trotsquista membro do BE, António Louçã compara-me com Goebbels e propõe que eu seja julgado como Milosevic no Tribunal Penal Internacional pelas minhas opiniões sobre a guerra do Iraque. Não é metafórico, nem blague, é mesmo a sério – se ele pudesse prendia-me. .

Não só o prendia como ainda faria pior. A esquerda iluminada, "humanista", "libertária", "avançada", está imbuída do pior dos ópios, as certezas absolutas da ideologia, do testemunho de uma verdade da qual se julgam portadores únicos, quais testemunhas de Jeová, um "homem de esquerda" engajado num qualquer bloco de esquerda ou um ortodoxo comunista, é incapaz de cepticismo, de reflexão, de crítica.

Isto misturado, certamente, com afirmações públicas de fé, batendo no peito contritos, como beatos em procissão pública quando são os mais desaforados pecadores nos seus vícios privados. Afirmam os homens de esquerda, batendo no peito, e clamando: somos tolerantes, somos contra a discriminação, somos livres, e rebéubéubéu.

Mas são incapazes da mais simples das tolerâncias: saber ouvir, sem vontade de passar a Kalashnikov, todo aquele que discorde ou expresse uma ideia contrária à sua ortodoxia ideológica que, no seu pouco entender, é a panaceia para os problemas do seu pequeno mundo.

CM

Alívio 

É com grande alívio que vejo o Gato Fedorento de novo a navegar em força. Esses cajus apetitosos, duros e com sal na conta são o aperitivo que prepara para um dia desgastante na Universidade portuguesa... A boca do Miguel Ângelo, mortífera, e já passada nos espectáculos da UAU, continua actual, pelo menos enquanto esse rapaz for vivo será sempre actual.

CM

29.6.03

Mais luz 


Ilusão do real ou evidência da ilusão? Vermeer, bem o sabemos, faz um nada parecer tudo. Faz crer que à totalidade da obra falta apenas o olhar de cada um de nós. Faz corresponder à inteligência visual da sua construção, a cada geometria secretamente elaborada, a cada pincelada laboriosamente calculada, o prazer visual da recepção. E para que seja mais lento e intenso o prazer da visão, da descoberta e de todas as impressões, foca e desfoca, aproxima e afasta, modela com luz, cria sombras e penumbras. Faz ainda sentir-nos intimidados por surpreendermos mulheres contemplativas e absortas. Nos seus afazeres domésticos, entre reposteiros e janelas, com gestos e olhares suspensos, numa carta, num colar de pérolas, numa renda, num gomil, numa balança... Quando abandonou os temas bíblicos e mitológicos por estes interiores domésticos, tão contemplativos quanto laboriosos, Vermeer já sabia que a sua escrita poderosa, a sua capacidade de lidar com a forma, o espaço, a cor e a luz, com todas as matérias picturais até ao ponto de representar todas as "matérias" e de tornar visível a sua essência, teriam este efeito sobre nós. As "vidas quietas", naturezas-mortas e pintura de género, no seu realismo acutilante, relevam do mais puro prazer de pintar. Junte-se aos efeitos bem calculados da verosimilhança, como sucede com Vermeer, a intensidade no sentir. Pela atmosfera tão profundamente intimista, pelos reposteiros que abrem e fecham a visão (elogio a Zeuxis e Parrasio?), pela janela que ilumina, que reflecte a imagem e que centraliza o nosso olhar, tal como o dela, sobre a carta, pela cadeira que afasta, o tapete e os frutos que aproximam, pela cor e pela luz de todas as formas e matérias, esta é uma das minhas pinturas favoritas de Vermeer.


Leitora à janela, c. 1657
Johannes Vermeer (1632-1675)

CP

Cardoso Pires

Nelson de Matos e o anonimato 

Se Nelson de Matos quiser, o que duvido, eu posso enviar-lhe um email com o número do meu BI. Mas neste blogue discutem-se conteúdos, não se discute a propriedade de umbigos.

P.S. Parabéns por Cardoso Pires.
CM

Bandas sonoras para pintores? Quadros? 

Surgem ideias de que um dado pintor poderia ter uma banda sonora.
A subjectividade ao serviço de uma análise erudita? (Ver quadro em Quarto)
O que se passa quando se vê um quadro? Como funciona o receptor? Com a sua vivência, com a sua experiência! O receptor acha belo aquilo que o marcou, aquilo de que gosta, mesmo que seja abjecto para outros.
O crítico não pode ceder a esses impulsos, o crítico estuda, pondera, descobre, investiga. Lê e relê. Pensa e repensa. Reflecte. Deslumbra-se como o Francisco José Viegas? Claro que se deslumbra, pela técnica, pela Luz, pela construção. Mas quando o crítico fala deverá ser pedagógico, alertar, notar, caminhar de forma a fazer outros caminhar. O crítico não dá peixes, tal como o pintor não o faz, o crítico assinala técnicas, e aponta emoções. Pessoalmente deslumbrado, mas contido na expressão desse deslumbramento. O quadro é dsenhado para transmitir emoções? Claro que sim. Mas essas emoções estão no receptor, o pintor está fisicamente morto.
Esta é uma opinião de leigo em pintura, uma vez que o meu crítico de pintura só fala de pintura, eu falo de crítica e de crítica à crítica!

Comentário pessoal: com respeito a banda sonora, e numa gosto pessoalíssimo, diria que prefiro Hindemith ou Alban Berg (eles são bem diferentes), aliás o quadro faz-me lembrar a Lulu!
CM

Foram ter ao meu Blogue com uma pesquisa Vivi Fernandes nua!!!!  

E o que encontraram foi simplesmente:

1.
Crítico
... falésias onde mais ninguém vai, e vivi um sonho ... Obrigado José Manuel Fernades,
crítico de moda amigo, que ... agonia Em que, perdida em mim, nua, Cais Ancorada ...
http://criticomusical.blogspot.com/


A poesia tem destas coisas! E já cá canta mais uma visita! Entretanto, para compensar a anterior, Minimalismo foi uma belíssima surpresa. Já a rapariga da província, tem um blogue a caminhar bem mas ficava-lhe bem, quando agradece ao 100nada, à bomba e ao Aviz que lhes metesse um linkzito, é um tipo de etiqueta do qual eu, muito pessoalmente, acho bem que se faça.

Finalmente uma referência para o Socioblogue!, tem entrada directa nos meus links de estimação, aqui à direita, o local daqueles que se estimam, só lá estão porque eu os uso como links para mim próprio, para eu ir ler. Se repararem o Abrupto saiu de lá, tenho-o achado demasiada palha e pouco sumo. Apesar de ter uma formação afim à do abominável pós moderno Boaventura Sousa Santos, ou do crítico que critica tudo o que mexe: AMSeabra; o socioblogue tem qualidade, nota-se pelo estilo, pelo gosto de Edgar Allan Poe. Gostei de ler, e espero um dia polemizar um pouco com este blogue. Além disso não tinha nenhum link em "s" e fica bem.

CM

A preocupação de 100 nada, ou o fim de semana de um "intelectual" lisboeta. 

Sim 100 nada, fui realmente comprar o Expresso, saí de casa, comprei dois Expressos um para ler outro para beber, passei pelos cachorros quentes da Boca do Inferno e lembrei-me dos disparates de Fernando Pessoa e do Aleister Crowley. Meti-me no MGA e fui dar outra volta, mais um amigo, Sol, vento, lembrei-me do Anjo Ancorado do Cardoso Pires. Lembrei-me que tinha um carro novo, apenas 35 anos, estacionado em Lisboa, encravado em primeira velocidade, eu o tal amigo, agora num Jipe monstruoso (dele) e um atrelado para transportar carros fomos buscar o miserável, mais passeio, com um livro na mala e estava no campo, bastam 45 km para estar no campo a partir de Lisboa! Desastre no campo: piscina sem água! O filtro da piscina avariado, água verde, o caseiro abriu a torneira e pimba, água fora. O amigo foi-se embora depois de uma cerveja e fatia de torta num alpendre debaixo de vinhas e fiquei com o tal livro, Alexandra Alpha, ao por do sol, bebendo gins tónicos. O campo tem um certo efeito suporífero, às 10h30m estava a dormir, para compensar o sushi e Lux de véspera. Hoje de manhã novo desastre, planeava eu ir passear de descapotável com cinquenta anos, eis senão quando chove desalmadamente. E eu com o carro novo encravado em primeira e apenas com um descapotável com cinquenta anos para regressar a Lisboa! Ou isso ou dois tractores, um Massey Ferguson 135 e um New Holland com cabina e ar condicionado, mas podem fazer falta e demoram muito tempo. Uma hora a montar uma inenarrável capota de lona, e ala de regresso, logo após o almoço. Uma hora depois, quarenta e cinco quilómetros volvidos e um carro que nos molha e acende as luzes indicando que a bateria não carrega e engasga e chove, e venta no Cabeço de Montachique, e o telemóvel para chamar o ACP, e padres nossos e ave marias depois, estou de novo em casa a consultar blogues. Bendito carro com cinquenta anos, que aguentou o dilúvio. Amanhã: electricista com ele.
Um óptimo fim de semana com a Alexandra Alpha como momento sublime.

Novas sugestões sobre a identidade de O meu Pipi, a encarnado.

P.S. Já me esquecia, puz-me a ler o Cardoso Pires e esqueci-me do Expresso e nem li a entrevista do Pipi, quem é? Sempre é o VGM? O Bernardo Bernardes? O Eduardo do Prado Coelho? O que ele diz tem piada? É apenas um puto gratuito? Um velhote tipo Vilhena[clique]? Um juiz casado e pai de família? Digam-me, quero saber...

CM


28.6.03

Que aconteceu ao Gato Fedorento? 

Mais um dia sem posts, até pensei que foram os caracteres estranhos que deram cabo daquilo tudo. Mas nada, vou aos frescos, ..., não aparecem, vou à página: "A SIC está orfã".
Preciso deles, são uma espécie de cajus curtos, duros, com sal no ponto. Não posso viver sem aperitivos para enfrentar o mundo. Regressem, estão a pôr-nos de castigo? Porquê? Qual o nosso pecado?

Já o Jaquinzinhos em delírio criativo, compensa de alguma forma a carência do Gato. Gostei muito do post sobre as atitudes face aos blogues. Achei notável a parte do Boaventura Sousa Santos, irritante, irrelevante e anódina, hermenêutica de pacotilha, precisamente como o original. Pena não ter colocado uma atitude A. M. Seabra, mas não se pode ter tudo.

Estou tristíssimo, o AMSeabra não tem escrito, estará de férias? Se isto assim continua entro em depressão. Preciso de artigos do AMSeabra: um ódio de estimação é muito mais difícil de encontrar que um amor eterno, preciso de boas gargalhadas, preciso de sublimar a agressividade.
Sem AMSeabra estou orfão.

Agora vou comprar o Expresso, para ter assunto para mais bocas...
CM

O destinatário e o mecanismo da recepção da obra de arte 

"Ao não-crítico cabe sempre o privilégio de sentir tudo ou nada sem saber porquê. Hopper, especialmente Hopper, também pintou para o não-crítico."

CP


27.6.03

A Bomba Inteligente teve um post inteligente! 

Em que afirma que um possível pipi é o Vasco Graça Moura. Gostei desse post a 23 de Junho.

CM

Dedico este texto ao Aviz 

Woglinde und Wellgunde umschlingen mit ihren Armen seinen Nacken und zihen ihn so, zurückschwimmend, mit sich in die Tiefe. Flosshilde, den anderen voran dem Hintergrunde zuschwimmend, hält jubelnd den gewonnenen Ring in die Höhe. Durch dir Wolkenschicht welche sich am horizont gelagert, bricht ein rötlicher Glutschein mit wachsender Helligkeit aus. Von dieser Helligkeit beleuchtet, sieht men die drei Rheintöchter auf den ruhigeren Wellen des allmählich wieder in sein Bett zurückgetretenen Rheines, lustig mit dem Ringe spielend, im Reigen schwimmen. Aus den Trümmern der zusammengestürzten Halle sehen die Männer und Frauen in höchster Ergriffenheit dem wachsenden Feuerschein am Himmel zu. Als dieser endlich in lichtester Helligkeit leuchtet, erblickt man darin den Saal Walhalls, in welchem die Götter und Helden, ganz nach der Schilderung Waltrautes im ersten Aufzug, versammelt sitzen. Helle Flammen scheinen in dem Saal der Götter aufzuschlagen. Als die Götter von den Flammen gänzlich verhüllt sind, fällt der Vorhang.

P.S. Depois das palavras acima os Deuses morreram... Estas palavras marcam o fim de uma saga e de um tempo, tal como as donzelas do Reno brincam com o anel, distraídas do fogo que atormenta os céus e que consome para a eternidade heróis e deuses; os homens, orfãos, olham os céus apreensivos, os castelos estão em ruínas e a cortina cai. Não, não, Francisco recebeu os Estigmas demasiado tempo atrás, Jeová morreu no ano setenta. O império espalhou-se de estátuas de Antínuo, e nada mais há para dizer, senão ganância, ódio e guerra. Restam apenas palavras esculpidas em granito.
O amor reina como lembrança de meia dúzia de poetas e no canto de um certo rouxinol, algures perdido nesses campos...

CM

Rossini, cozinheiro e músico 

Circular?
Una vocce poco fa?

Ária, abertura ou pudim?
Assim seja!
Rossini sabia,
Tendo dó,
Um Tornedó
Ele fazia.
O génio sobeja
Só Rossini outrossim...

CM

Shakespeare 


Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O! know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So my love still telling what is told.

Shakespeare

CM

25.6.03

Mais cinco poesias minimais 

Sem orgulho
Come o arroz:
O gorgulho.

Dizia, "amanhã: és meu!"
Passou o dia...
No fim o Sol morreu.

Ociosos feriados,
dias ardentes
Que morrem amados.

Bebi a verdade,
Quando bebia
No dia da liberdade

Eu quero escrever poesia,
Rápida, de jacto
Mas fugiu-me a fantasia.

CM

Quarto de Hotel 


Os sapatos abandonados com negligência, as malas ainda fechadas, a visão do chapéu suspenso, do vestido sob o sofá, inscrevem nesta cena intimista a aparência de um acaso e de um instante, breve, fugaz, inconsequente, como aparentemente poderão ser todos os instantes. Mas é do tempo que não passa, da solidão e do silêncio, no corpo que se curva, na carta que se afasta, no rosto que se não vê, que fala esta pintura de Edward Hopper, simultaneamente simples e sofisticada, objectiva e difusa, sofrida e pacificada.
Na intensificação destas sensações, ou na dimensão poética desta imagem, a luz, na relação com a cor, tem um papel fundamental. Os contrastes e gradações cromáticas, o amarelo do fundo que recorta, ténue, a forma do chapéu, ou os brancos inesperadamente mais brancos, são apenas a consequência de um dos mais poderosos instrumentos do seu autor, a luz. Sem ela, como poderiam as suas casas abandonadas, as suas janelas à noite, as suas paisagens desertas exercer um tal fascínio sobre nós?
Edward Hopper (1882-1967)

Quarto de Hotel, 1931
Colecção Thyssen-Bornemiza
CP

Mais poesia de Leite Faria 

A folha em branco contempla-me
Objecto inspirado do prazer vago.
Que inanimado me persegue em ondas
Sonoras de esperança disformes,
Ondas de alegria conformes,
Que no correr dos dias perpassam
Uniformes…
Sussurrantes em sucessão,
Murmurantes e dissonantes contornos
Daqueles fins de tarde.
Uns dias quentes outros amargos
Que sempre assim me fizeram.
Tristes, ou calmos e ternos,
Esses dias conformes
Ao uso e costume de passarem.
Vagos e tristes, desinspirados
Triviais,
Que nestas horas banais
Procuram esquecer a procura
Do ideal de loucura
Que passa sempre nestes dias iguais.
Sem um café ao fim de tarde,
Sem um ai que me resguarde
Da ilusão que nestes dias brancos
Me levam para qualquer parte.
Fora deste papel que me mata
Desta ilusão que me aparta
De ti, amor que já não sinto
Daqueles dias em que o sol brilhava,
Lento sonolento lá no céu
Em que no mar se via o teu
Rosto com nome e com noite,
Ao fim da tarde que me ensonava.
Verão dos meus vinte anos,
Mar de todos os meus dias
Mata-me em fantasias,
Afoga-me que mais nada sei
Apenas o papel que me absorve
Longo e branco sonho,
De louco em noites brancas
Assim vagueio pelas trevas
Negro papel tu não me conservas
Onde te escrevo estas linhas.
Louco papel sem nome
Onde recordo o amor
Que me consome.

Anos 50

CM

Casa da música sem teia, sem fosso 

Continua o ridículo, não sabemos mesmo fazer nada de jeito! Continuam concertos em condições miseráveis em parques de estacionamento subterrâneos, em estaleiros de obras, a Casa da Música é um espectro, uma sombra de vontades. Um espelho da falta de capacidade de realização. E anda tudo a fingir que é muito giro, que os concertos são muito bons, quando de facto são uma porcaria. A imagem da triste mente dos "intelectuais" portugueses. Não sabem fazer, não são organizados, passam a vida em tricas e ainda culpam toda a gente menos a si próprios.
Subitamente percebe-se: esqueceram-se de um fosso de orquestra! Esqueceram-se de Teia. Bailado nem vê-lo, pelo menos com cenografia, ópera muito menos. Quem é o responsável? Pedro Burmester... um rapaz óptimo, um excelente músico, como programador (talvez?), mas gerir aquela porcaria, mais a porcaria dos políticos, os Santos Silvas deste mundo, os Rios e os Menezes...CM

24.6.03

Américo Thomaz não diria melhor 

"Os cidadãos fazem as cidades e as cidades são o que são!"

Jorge Sampaio após o fogo de artifício no Porto. Boa noute!
CM

Deposição de Cristo no Túmulo por Caravaggio 

Perto de nós
Sobre a laje aguda que ultrapassa o espaço da representação para invadir o nosso próprio espaço, numa lancinante diagonal arrancada ao negro mais negro do fundo, o amado evangelista, o fiel Nicodemus, a Virgem e santas dolorosas devolvem-nos o Cristo da Paixão. Já redimido numa matéria branca e tímbrica, abandonado a um corpo tenso que só a ponta quebrada do sudário pode suavizar, Cristo desce para nós. Não fora a tensão muscular das pernas quase hercúleas de Nicodemus ou a alma arrebatada nos gestos de Madalena, e poder-se-ia dizer que o exagero formal desta pintura é o que deriva da nossa condição e da nossa culpa.

Na pintura de Caravaggio todos podem ser heróis, mas Cristo e os santos são apenas homens modelados nos efeitos matéricos da luz na sombra, são matéria de uma realidade tão plástica e expressiva, quanto tangível e dolorosa. Com a Deposição no Túmulo, Caravaggio põe Deus perto de nós.

Caravaggio (1573-1610)

Deposição no Túmulo c. 1602-1604
CP

Gustav Leonhardt escreve-nos uma carta com mais de trezentos e cinquenta anos 

123
E se eu falasse de Gustav Leonhardt? Cravista, director, organista, professor, musicólogo, não a propósito da carreira deste gigante, que navega o seu navio almirante a caminho dos oitenta anos, levando atrás de si navios grandes e pequenos dos seus alunos, e de toda a sua escola, de todos os que amam a sua forma de tocar e de pensar. Não caberia num blogue, num texto que leva cinco, dez minutos a escrever.
466
Não, falo apenas de um CD, editado em 2002 pela editora Alpha (disco 026), rapidamente se tornou um ícone, prémios, diapason d'or, choc, R10, telerama ffff, classica, que aliás não interessam para nada: O José Cardoso Pires nunca levou com o Nobel! Leonhardt toca, de forma elegante, subtil, discreta, vivíssima, articulando sem frasear, em música de uma profundidade absoluta de Girolamo Frescobaldi (1583-1643) e de Louis Couperin (1626-1661). A percepção da música é muito semelhante nestes dois compositores. A música não é fácil, é imitativa, é muito livre, quase irracional aos nossos ouvidos na sua demanda do novo, do experimental. Um único retorno, as batidas dos compassos, a medida. Tudo o resto é livre. Leonardt meditou, pensou, interiorizou, interpretou, exprimiu...

Uma suspensão do tempo, irreal, uma realidade quase intangível, mas viva, tão viva que choca, somos atingidos a trezentos e cinquenta anos de distância. Bebemos o vinho, comemos o pão e ouvimos a música. Sentimos o mundo que pisamos igual, ..., mas tão diferente.

Leonhardt é um mágico.CM

Novel Blog 

Agora aparece-me este, mas está ao nível do anterior, não tem muito valor acrescentado, não consegue colocar acentos nem cedilhas no título, para quem sabe tanto de internet é pouco: umas tralhas que ele tinha para lá no disco do computador. Para encher chouriços, ou seja o Blogue. Mas tratar assim a blogosfera?...
Cumprimentos ao novel blogueiro.


Questões Nacionais 

Saber se o fogo de Gaia foi melhor que o do Porto! A grande notícia da noute passada. Boa noute.

A Minha Política de Links 

Tenho um carro antigo, quando me passeio alegremente aos fim de semana, com capota ou sem, cruzo-me, raramente, com carros modernos da mesma marca, nunca lhes levanto os faróis. Se por acaso me cumprimentam e se o merecerem, retribuo. Chamem-me reactivo, talvez seja um defeito...

23.6.03

Eu que julgava já ter visto tudo! 

Dei uma vista nisto testando esta treta, é inacreditável o disparate, acho que deve estar a gozar, até parece mentira, nem sei se hei-de publicar este post, por estar a estragar este meu blogue com uma citação ao mais deplorável blog da blogosfera portuguesa. Ainda pior que o... isto!

Cigarra Maneirista!... 


Canta la cicaletta
Quand'è 'l Sol più cocente,
E si more cantando e non lo sente.
Io canto, e vivo,
E pur sento nel core
Di lei caldo maggiore.
Così vuole il mio fato,
S'io morissi cantando,
O me beato.
Muove Orfeo l'empia Dite;
Piange, prega e sospira
Et impetra pietate al suon di lira:
Io piango e prego una crudele e bella,
D'amor troppo rubella.
Così vuole il mio fato,
S'io morissi cantando,
O me beato.

B. Saracelli, séc. XVII (anterior a 1638)


Vénus e Marte de Botticelli
Venus e Marte
Com a vénia à Janela Indiscreta

Como sou distraído 

Hoje conversei com uma blogadora, uma conversa sem nada de especial, apenas descobri em conversa que acabo por conhecer ao vivo e a cores, mas ao retardador, a autora de Modus Vivendi, sim ela estava no encontro dos blogues do É a Cultura, Estúpido, mesmo à minha frente, na mesa mais próxima da minha! Muito prazer em conhecer a autora.

P.S.: (colocado posteriormente) fui informado, por autoridades muito competentes, que me mandam emails sempre que me distraio, o que aliás é sempre, que não estava mesmo à minha frente, mas sim à frente de toda a gente na mesa ao lado dos oradores blogadores, claro que estava, não me esqueci daquela jovem. Ainda este fim de semana a revi perto do S. Luiz. O prazer de conhecer não desiste...

22.6.03

Uma polémica 

Paixão Segundo São Mateus, Johann Sebastian Bach e texto de Picander, direcção de Mcreesh, filosofia e concerto no CCB.
Começo por dizer que tenho a gravação de Harnoncourt de 1970, e a de 2000, esta última faz-se acompanhar do score original de Bach, de 1736 em CDrom. Li também o artigo de Harnoncourt sobre o assunto. Analiso sobretudo o disparate de uma voz por parte de Paul Macreesh, que continua a insistir no engano de Rifkin e a tocar a Paixão Segundo S. Mateus sem coro, com os solistas a fazer as partes atribuídas a este. Aproveito para cascar no Seabra que mostrou ignorar, na crítica de então no Público, que Bach tinha usado alaúde nas versões iniciais da Paixão. Cheguei a algumas conclusões:

O Sr. Seabra do Público é um ignorante, ignora notavelmente que o alaúde foi o instrumento escolhido por Bach em 1727 e 1729 e que existe uma parte de alaúde escrita pelo punho de Bach. Este instrumento foi substituído por Gamba na versão de 1736, também do punho de Bach, existe também uma última versão de 1741, sem partitura mas com partes em que fixou e refinou o texto. Estas últimas versões são as mais usadas. O coral inicial “O Gottes Lämm Unchuldig” que é cantado, geralmente, pelas crianças (soprano ripieno) sobre todo o texto na abertura, aparece escrito a vermelho na partitura e atribuído apenas à mão direita dos dois orgãos, sem letra na partitura autógrafa. Este coral era bem conhecido na época do Bach e por isso mesmo, segundo Harnoncourt, poderia não ser cantado sendo apenas tocado pelas tais mãos direitas dos orgãos, sobretudo nos primeiros tempos de Bach em Leipzig, em que o mesmo Bach tinha imensas dificuldades de meios, com rapazes relapsos do coro e oito músicos da banda que reforçavam os músicos à sua disposição, a partir desta matéria prima Bach foi formando toda uma escola que lhe permitiu melhorar e reforçar cada vez mais os seus textos, as versões das suas obras com o tempo são cada vez mais preenchidas de meios! Assim existem as partes deste coral da versão de 1736 para os meninos, mas não é essencial a utilização deste coral ripieno, pelo menos segundo a versão de 1729! De qualquer modo até é possível que, sobre as partes cantadas do coro a congregação cantasse ou evocasse o coral bem conhecido.

Aqui começa a aldrabice do Mcreesh, o homem usa um duplo coro de quatro vozes apenas, mas usa a versão de 1736, pois aplica viola da gamba, esquece de caminho o coro de sopranos ripienos com o tal coral de abertura e no fecho da primeira partes que a ser omitido teria de ser na versão de 1729. Usa Gamba na ária do coro I mas esquece a Gamba na ária Geduld, do coro II, usando aí o violoncelo, deveria ter usado alaúde se seguisse a versão de 1727. Usa mulheres quando o Bach só usou rapazes e homens, e pretende estar no rigor histórico.
Bach escreve uma carta a pedir quatro cantores por parte ao Conselho de Leipzig e Mcreesh esquece completamente o facto. Depois, em concerto, desafinação, esquecimentos de entradas, fífias no oboé, harmónicos a saltitar do violino, desequilíbrios em toda a obra, mau contínuo, sobretudo nas partes “à batuta” (vem escrito por Bach) em que os violinos acampanham Cristo e em que Mcreesh fica parado. Enfim uma confusão musical e musicológica.
Do ponto de vista musical Mcreesh é mau, como o provou em concerto: o tenor não conseguiu cantar um único si agudo em condições, tendo a partir de certa altura passado a cantá-los na oitava abaixo. A Kosena falhou rotundamente e por três compassos a entrada na ária “Sehet...” Se me dizem que as vozes eram óptimas vou ali e já venho, apenas a York foi excelente e o Cristo, não me recordo do seu nome esteve quase irrepreensível. Mas o cômputo geral foi de tempo perdido e de má interpretação. Em CD disfarça, notam-se as colagens, as mudanças de registo na interpretação.
Se musicalmente é mau do ponto vista da autenticidade histórica é péssimo.


O século XVII 

A música do século XVII. cada dia que passa descubro mais. Período de descoberta, de invenção. O maneirismo, o primeiro barroco. Cada dia mergulho mais neste século esquecido: Monteverdi, Schütz, Caccini, Couperin, Gaultier, Marais, Gallot, Du Fault, Forqueray, Marazzoli, Vitali, Falconiero, Navas, Gabrieli, Gesualdo, Charpentier, du Mont, Landi, Mendes, Lobo, Lourenço... Vou dizendo, repetindo, ouvindo. Cada dia que passa afasto-me do classicismo, cada dia que passa esqueço esse romantismo limitado e castrador que nos deu uma moral burguesa e repugnantemente hipócrita. Cá estou, domingo, como tantos outros, ouvindo e escrevendo, auscultadores. Começou por ser obrigação, hoje é mais que paixão. Cada dia que passa percebo-os mais, como o nosso pensar se afastou, como eram diferentes, mas sensíveis, inteligentes, como articulavam as frases e se enquadravam. Não, não posso olhá-los pelos nossos olhos. Odeio o computador que me afasta de Frescobaldi, tenho de desligar isto e ir para o teclado, mergulhar na paixão de tocar, apagar as lâmpadas e acender velas. Um desvario de amor. Tenho de aprender a tocar alaúde, é urgente.

A Camilo Pessanha 

No Prejuízo imundo:
Dia de juízo,
Triste Fim do Mundo.

A falta de capacidade de encaixe revela insegurança 

Assim me parece ter acontecido com Pedro Rolo Duarte, a quem pouco conheço, acho até que é um bocado irrelevante. Um daqueles tipos, tão frequente em Portugal, com amigos que as teias de coçamento nas costas tecem. Não o conheço como artista, como bom na escrita ou como criador, mas é capaz de ter alguns méritos...
Criticado nos blogues com ironia ou sem ironia, tenta responder. Mas ao dar o flanco expõe a sua pouca capacidade de análise, a sua insegurança. Se Pedro Rolo Duarte não visse nos blogues algo de importante não teria escrito em reacção. Desconfio sempre de quem funciona por reacção, desde li Nietsche que desconfio dos ressentidos e dos reactivos: despeitou-se, ressentiu-se, reagiu; só assim se pode entender o artigo que acabei de ler no DNA.

Recebido por email 


Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto daquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixava de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar, tenho a terra e o céu.

Alberto Caeiro no Guardador de Rebanhos

Mais Leite de Faria 

Eis que descobri mais uma flor (?) do meu tio avô, ver em Leite de Faria, mais uma poesia, esta em papel de embrulho, escrita a tinta castanha, muito amarrotada, e dificílima de ler, como de costume assinada por L.F. quando se trata do poeta a escrever e não uma cópia.

Mais uma estreia auspiciosa 


As produções UAU, ou melhor dizendo, as Produções Fictícias, estrearam ontem, dia 21 de Junho, 23h, mais um espectáculo no teatro S. Luiz. E que espectáculo, "Fechado Para Férias". Não é a nossa especialidade o teatro, falamos como público: bem escrito, registo inteligente. Alguma fixação criativa na questão da pedofilia. Uns textos repescados da Feira do Livro, que o tempo urge, e felizmente foram buscar os melhores. O humor físico do taco de basebol, eficaz como cócega, faz rir, mas começa a ser enjoativo para quem viu as Manobras antes.
Absolutamente notável como rasgo: o final, com o Tchekov, o show gay-lésbico, a um nível ímpar, rematado com uma prisão de Fernando Pessoa genial em apoteose final. Quais Monthy Pithon Flying Circus! Isto é melhor e apanha os nossos tiques todos.
O texto óptimo. Os actores, com ensaios reduzidíssimos, tiveram uma falhas aqui e ali, falhas mínimas, compensadas com a naturalidade e um sentido profissional delicioso. Não destacamos nenhum, estiveram todos ao seu melhor nível. A A. e o F., casal que levámos pela primeira vez às Manobras, já nos disseram: "queremos ver tudo destes gajos, mandem-nos os emails, nunca mais perdemos uma, o que andávamos a fazer, longe desta luz! Estes gajos não existem". Claro que a A. chorou a rir!...
E depois bebe-se uma água das pedras e um bushmills depois do jantar, tudo óptimo, até o horário!
Melhorem o som, não está grande coisa.

Modus Vivendi 


No post mandei umas flores em encarnado a Modus vivendi. Vem hoje, de forma doce, este blogue dizer que é "rapariga modesta e que me rendo de forma devastada a determinadas escritas" sic. Minha querida, eu mando bocas em substância, não em género. Mas o facto de vos saber rapariga modesta que se rende deixa-me perplexo e rendido por meu turno. É belo render-nos a uma escrita. Recentemente descobri uma escritora nova e estou a seus pés. Foi essa rendição que me fez chorar amargamente a morte de José Cardoso Pires, uma tristeza amarga e quase egoísta de saber que não teria nada de novo para ler do escritor, fui ao funeral na esperança que ele se levantasse e acordasse, como tinha acordado antes da sua "morte branca", e nos desse mais alguns livros, mas José continuou a beber o seu whisky, a fumar o seu cigarro, bendito seja.

Voltemos à terra. É belo conhecer a rapaziada de "antes" e apreciar o seu retorno.
Mas a substância foi apanhada: o Mexia pode mexer há vontade no seu umbigo, aliás eu chamo ao seu novo blogue o Dicionário do umbigo, cada um escreve como quer, e ele escreve bem. O que eu acho lindo é dizer-se que está próximo de Deus.

Não sei porquê mas essa deificação do Mexia lembra-me o notável João César Monteiro e o seu divino coleccionador de pentelhos.
Gostava de saber ser um colecionador de pentelhos, mas não tenho a capacidade do João.


21.6.03

Resposta muito breve a Liberdade de Expressão 

Resposta, muito breve, a Liberdade de Expressão, depois um dissertação tão bem elaborada mereceria mais, mas estou com pouco tempo, tenho uma jantarada dentro de uma hora e tenho de me preparar!

O problema epistemológico é simples: ou se aceita a matemática como linguagem da ciência, em geral, e da modelação em economia, em particular, ou não se aceita. Toda a gente é livre de aceitar ou recusar. Para mim, a recusa da matemática como forma rigorosa de definir, de discutir, ciência é um retorno à escolástica e ao aristotelismo. É uma opinião pessoal e vale o que vale, mas creio que a maioria dos pensadores da área concorda.

Quem costuma recusar a matemática como linguagem da economia, geralmente, é quem sabe muito pouco de matemática, mais uma vez é um princípio geral, não uma verdade absoluta.

Um sistema dinâmico com muitas variáveis pode ser modelado por sistemas mais simples, assim acontece com as equações da metereologia e da turbulência, modelos simplificados podem prever o tempo! E cada vez melhor, quem os recusa? Assim também acontece com a economia. O elevado número de variáveis não mete medo a nenhum matemático, para isso é que existem formalismos termodinâmicos. Se o número de variáveis for muito elevado, até é mais simples a modelação! Parece um contrassenso mas é mais uma verdade que quem usa equações pode demonstrar.

A questão final é a validação lógica do que se diz. Quando se usa um formalismo e um modelo rigoroso eu sei que quando prevejo, face a hipóteses concretas, é porque demonstrei que vai assim acontecer. Com blá blá blá apenas me mantive na linguagem do senso comum.

O problema é outro também, o estado retira dinheiro do sistema económico para financiar o que o sistema, só por si, não financia e que, para mim, filosoficamente é essencial: educação, saúde, estradas, defesa, segurança pública, protecção civil, aparelho de estado - negócios estrangeiros e custos da democracia - justiça, etc... O Liberalismo não me resolve esses problemas e a sociedade tornar-se-ia uma selva. Enquanto os liberais não me provarem matematicamente que se viveria melhor num sistema liberal puro, não acredito no que dizem, é uma falácia. Podem continuar a falar à vontade, não me convencem. Convencem-me apenas que não encontram argumentos credíveis e agem por interesse egoísta! Um sistema não liberal, com forte intervencionismo estatal, funciona muito bem na Noruega, na Suécia e noutros países, logo o método experimental garante-me que, até prova em contrário, estou com a razão.

Chegou às minhas mãos, coincidência, um pequeno livro: Perspectives on Complexity in Economic, Francisco Loucã (editor), pelo UECE (ISEG), unidade de estudos sobre complexidade na economia, Com prefácio de Louçã e artigos de Alfredo Medio, Marji Lines, João Gata, José Castro Caldas & Helder Coelho, João Ferreira do Amaral, Tanya Araújo, Birgitte Anderson e Francisco Louçã. Um texto de 1999. Leia o artigo do Alfredo Medio, é muito simples matematicamente, como o resto do livro, mas pode perceber o que eu ando para aqui a dizer.

Concerto BWV 1052 

Escuto enlevado o concerto bwv 1052 de Bach, com cravo obligato, chego ao céu, onde Bach certamente repousa e agradeço-lhe, dava a minha vida por uma obra destas. Tom Koopman em estado extático e orquestra barroca de Amsterdão. A não perder...

Modus vivendi e a trilogia! 


Em Modus vivendi, cita-se o divino tríptico disponível (sic), são segundo Modus Vivendi: Aviz, do Francisco José Viegas, nada a dizer, Flor de Obsessão, um blogue com três posts, incipiente e sem grande conteúdo, pelo menos quando o consultei, e o Dicionário do diabo, e esta deificação do Mexia por Modus Vivendi mexeu comigo, é a deificação de um dicionário do umbigo de Mexia, em que este se disseca a si próprio de todas as maneiras possíveis, Mexia que foi aqui, Mexia esteve ali, Mexia vai acoli, Mexia come, ou não, pipocas, Mexia foi questionado, Mexia tem uma religião qualquer (não fixei), Mexia atravessou a rua, Mexia foi ou vai ou está no cinema, Mexia no Corte Inglês. Acrescenta Modus Vivendi de forma encomiástica: "Oh god, they're good!"

Tá bém

P.S. O Lomba tem mais dois posts! Durante os momentos em que escrevi isto meteu dois posts! E cita o Mexia, claro! Eles citam-se sempre muito. Mas um dos posts até nem é mau, fala de Graham Greene, um dos meus preferidos, e tem acentos no título! Parabéns Lomba.

Teatro de S. Carlos - que futuro? 



O dinheiro gasto com o Teatro de Ópera tem de ser bem gasto, já se sabe que dá prejuízo, já se sabe que é um desígnio, mas é preciso visão estratégica. Pede-se à direcção imaginação e conhecimento. É preciso programação, sei que no teatro se anda em bolandas a preparar a próxima temporada! Hoje dia 21 de Junho, ninguém sabe qual a próxima temporada do teatro de ópera nacional. Não há um teatro de ópera do mundo que não tenha anunciada a próxima tempora a 21 de Junho. Pior, há teatros que apresentam a temporada com anos de antecedência. Um amigo do Teatro de Bayreuth contou-me há poucos dias que andam preocupados a preparar o ano 2012 (bicentenário do nascimento de Wagner). Em S. Carlos ninguém sabe, ou anuncia o que se vai passar em Novembro de 2003!

Os cantores são os amigos do director ou dos maestros ou dos amigos de uns e outros, que temos de aturar porque eles os impingem.

A orquestra não tem um maestro permanente, não são feitas avaliações de desempenho, os músicos sem brio, nem todos, arrastam-se pelas estantes em ritmo de funcionalismo público. O naipe de violinos ontem esteve melhor que o costume, o trabalho do maestro notou-se, mas teve de parar a meio para mandar afinar, o concertino (na primeira estante dos violinos) a contragosto e de ar zangado levantou-se e lá tentou afinar pelo oboé (que, informo, é quem dá o dó à orquestra, em qualquer uma), mas o resto da pandilha dos violinos nem se deu ao trabalho de fingir que estava a afinar, degradante. Mesmo assim estavam mal mas muito melhor que ocasiões anteriores em que a afinação atingiu o nível do insuportável, nem uma orquestra de míudos a começar a aprender tem afinado tão mal como a OSP do TNSC.

No coro entram cantores que ninguém conhece, que cantam mal e porcamente, quais os critérios? As vozes masculinas estão em decréscimo acentuado, as femininas em desafinação acentuada. João Paulo Santos, o maestro de coro, andará mais preocupado com a mota ou não é talhado para a direcção de coro?
O rapaz era pianista acompanhador e agora é maestro de coro. Estudou com quem? Aldo Ciccolini em Paris? Mas este último é maestro? Não, é pianista, então onde estudou a direcção de coro ou de orquestra João Paulo Santos? Como pianista acompanhador, com os maestros que passaram no S. Carlos, provavelmente. Mas ele teve lições, escola, formação de base em direcção? Não me parece. O anterior maestro de coro também não era grande coisa. A evolução do maestro de coro do S. Carlos é tipo promoção da tropa, o rapaz andava por ali, era simpático, tinha amigos, dava uma notas no piano e chegou a maestro titular do coro! Visão estratégica? ZERO. É apenas o princípio de Peters a funcionar e o coro a decair.

Estive ontem no S. Carlos, dia 20, e não na estreia da Graça Lobo no S. Luiz. Quando saía do S. Carlos para passar pelo restaurante do S. Luiz emcontrei um amigo que me disse que a estreia da Graça Lobo foi fantástica. E fui eu ver aqueles manhosos que nos custam uma fortuna a desbaratar o dinheiro dos contribuintes, ainda bem que o Stabat Mater de Dvorjak é comprido, ao menos assim cada nota fica mais barata.

20.6.03

O prometido é devido: Ecce Homo no século XVI, uma explicação 

Com total frontalidade, na sobriedade áspera dos elementos figurativos, o halo decorado, um homem de mãos atadas, um laço de corda pendente do pescoço, os espinhos da coroa rompendo o pano que o cobre, alguns pingos de sangue... Eis o Homem!
Ecce Homo
Por se tratar de uma imagem que combina a economia e a ambiguidade dos materiais figurativos com uma expressividade intensa e rara, a pintura com o tema Ecce Homo, não só foi avaliada como uma das mais importantes realizações picturais do séc. XV português, como foi atribuída ao genial Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de S. Vicente. Um razoável número de réplicas garantia-lhe a originalidade e o protagonismo. Mas a dúvida relativa à cronologia começa a reflectir-se na escrita de um ou outro historiador, já em meados dos anos 90. Os desgastes da matéria, os repintes deformantes, a técnica simplista... são factores evocados na historiografia para a indicar como uma das mais enigmáticas pinturas do acervo quatrocentista. Peter Klein, através do estudo dendocronológico da madeira do suporte, deu o veredicto final: a pintura não poderia ter sido realizada antes de 1565, simplesmente porque o abate da árvore ocorreu após esta data. Que os pintores antigos tenham utilizado madeiras com anos ou décadas de existência para os seus suportes rigorosamente ensamblados e preparados é uma realidade suficientemente averiguada, mas que tenham pintado “sobre árvore”?!
O Ecce Homo é, portanto, uma pintura do final do séc. XVI ou já do início do XVII. Mas, com toda a certeza, é uma réplica de um original perdido cuja qualidade e mistério permite, como nenhuma outra, evocar.

Jaquinzinho versus sardinha assada - Obrigado - Pedido de Desculpas - Cunha 

O Jaquinzinhos (vejam link ao lado), sportinguista como eu, e algarvio ao contrário de mim coloca-me no mar calmo. Obrigado, mas há quem me veja mais nas águas turvas da crítica.

Um obrigado a Pedro Roseta e um pedido de desculpas a Porfírio: segundo o Público de hoje o Museu de Arte Antiga consegue manter-se aberto aos fins de semana. A notícia sai hoje, o que prova que Pedro Roseta lê os Blogs, em particular o meu (aqui umbiguismo).

Um pedido de cunha: Veja lá Pedro se consegue meter uma cunha para o Porfírio abrir o museu também à hora de almoço. Não dá jeito nenhum estar a ver um quadro e aparecerem uns senhores de bigode a varrer o museu e a correr com os visitantes. Eles aparecem com cara de quem quer ir comer sardinhas assadas.
Se não conseguir abrir o museu ao menos que a cara de sardinha assada desapareça da estética do museu! Hum... pensando bem é melhor mesmo que o museu abra à hora de almoço, fazer desaparecer a cara de sardinha assada é mesmo um milagre.

Quem és tu Kevin Kelly? 

Porque motivo o Liberdade de Expressão há-de citar Kelly, a propósito de sistemas dinâmicos caóticos? Ainda que me mandasse ler o Smale, que é medalha Fields e tem textos notáveis sobre a matemática da economia, mas Kelly? Que não é matemático, que usa linguagem do senso comum, que sabe menos de teoria do caos do que Francisco Loucã. Que fala de biologia. Existem uns trabalhos muito interressante de matemática da biologia, desde o May e autores russos dos anos 60, mas Kelly?
Acabaram-se os argumentos próprios e manda-me falar com um divulgador? Não, não me arrependo do que digo, quem não usa equações para explicar factos é apenas um divulgador. E lá vem a borboleta, que é o exemplo mais errado e fanhoso que se pode encontrar. Eu costumo ler quem sabe do assunto e não um Kelly. Até Scheinkman, (que esteve em Lisboa em 1998 se não me engano, ex-chairman do departamente de economia de Chicago), é melhor que Kelly. Tive oportunidade de ouvir Scheinkman num workshop aqui no ISEG, onde também participei, e gostei.
Mais informação na bibliografia(algo antiga mas com textos clássicos) ou ainda em outra ou ainda outra (pdf) sobre caos, wavelets, teoria das catástrofes, tudo com ligação à economia. Aconselho o Liberdade de Expressão a ir ler e a melhorar as citações, isto se tiver interesse pelo assunto numa perspectiva científica. Pode encontrar os trabalhos e as revistas quase todas na biblioteca do CMAF (centro de matemática e aplicações fundamentais) da Faculdade de Ciências de Lisboa, na biblioteca do ISEG, a biblioteca de matemática do Instituto Superior Técnico é muito virada para o assunto, uma vez que o CAMGSD Centro de Análise Matemática Geometria e Sistemas Dinâmicos está muito voltado para questões afins.

19.6.03


Este blog tem mais gente a escrever!

Desconfio que este blog se vai voltar mais para a esquerda e ganhar em qualidade intelectual, acabei de receber o "aceito o desafio" da pessoa que me escreveu o email protestando contra o meu post do museu de arte antiga. Ganhámos um crítico de pintura neste blogue. Mais tarde darei mais notícias sobre o assunto. O que é certo é que hoje deixamos de ser um blogue unipessoal. Espero que não perca a acutilância. Qualquer dia tenho de fazer outro blogue só para "bocas".

Protestos contra texto sobre Museu de Arte Antiga

Texto enviado por email, protestando veementemente contra o arraso que faço do Porfírio do Museu de Arte Antiga, o leitor queria mais, queria que eu me atirasse à direita, ao governo e ao ministro, este crítico é mais profundo e severo do que eu, vale a pena ler, que está muito bem escrito, até o umbiguismo vem à baila em meia dúzia de linhas, estilo, classe, se o leitor não tem um blogue devia ter, o seu texto é um must:



Tem toda a razão com a tabela do Ecce Homo, mas podia perguntar se também não há dinheiro para umas tabelazitas novas e aproveitava para cascar na tripla " M. Ferreira Leite/ Roseta/ Porfírio". Tudo naquele museu é Portugal no seu melhor: o encerramento tem que ver com o quadro de pessoal (cenários de crise, estádios de futebol, la merde..., nada a fazer para o lado do Porfírio); as tabelas com o mercado do peixe (será cherne, será solha? que importa, vem à rede); os Dagobertos Markls, com a excepção do Zé Alberto Seabra, estão mais preocupados com os seus umbigos, com a escrita de umas fichazitas inúteis para uns catálogosqueninguémlê, excepto um tal Fernando António Pereira ou outros mais esforçados, igualmente com super-umbigos. Vá lá, agora trate de escrever um texto acerca da "problemática das tabelas no contexto das correntes museológicas e museográficas actuais", truncado com o arraso que os governos de direita dão à cultura (sic)...



Eu não vou escrever sobre o que me pedem, mas convido o meu leitor e protestador, a escrever sobre o assunto. Faça um blogue, ou então dou-lhe, aqui, todo o espaço que quiser para falar do assunto. Preciso de um crítico de pintura aqui neste blog! Se quiser e souber de pintura, está convidado a escrever aqui. Isto afinal foi classificado de serviço público por uns marmanjos do blogo e desde aí sinto-me preso à minha carta de intenções!
Se calhar tenho de fazer um blogue novo só para as minhas bocas pessoais, que tanto gosto me dão...
Desabafo final em tom divertido: tenho tanto jeito (involuntário) para despoletar protestos e polémicas, era isso que eu queria, agora ser serviço público!?...


Caos


Continuo com a conversa com a Liberdade de Expressão (LdE).
Um sistema caótico é sensível a condições iniciais. Quando se mexe num sistema imunitário não se alteram condições iniciais, alteram-se os parâmetros do sistema, dá-se uma alteração do sistema, deixamos de ter um sistema caótico de um tipo, passamos a ter de outro. Pode acontecer uma bifuracação, que é uma alteração drástica das propriedades do sistema.
O que acontece no caso de mercado livre é um sistema caótico mais próximo do aleatório, ou como tecnicamente se chama: um shift de Bernoulli, caso extremo em que o fenómeno se torna errático, com entropia topológica (uma medida da complexidade) máxima.
O que se passa na economia é que a regulação rigorosa do estado não mexe nas condições iniciais, mexe sim nos parâmetros, muda o sistema. Se as regras forem claras e não erráticas pode até estabelecer ciclos limite, órbitas periódicas, mas que não deixam de deixar o sistema caótico. Atinge-se assim uma regulação perfeita, a chamada janela de estabilidade. Janela que se observa em diagramas de bifurcação. O estado age por tentativas, por exemplo, regulando muito devagar, mudando os parâmetros e INEVITAVELMENTE (outra observação demonstrada matematicamente) passa por janelas de estabilidade. Quando se atingem deixa de mexer nos parâmetros, temos um sistema dinâmico com órbitas estáveis, ciclos, mas caótico. Parece absurdo? Claro que não, o caos reside nas órbitas que não vemos bem, as órbitas instáveis (as empresas que entram em falência, por exemplo).
O exemplo mais célebre dessa situação é o célebre artigo de Li e York, "Period Three Implies Chaos", em que a simples existência de uma órbita de período três (estável ou instável) implica imediatamente a existência de caos! Isto foi provado para um sistema dinâmico discreto na linha real, mas é um princípio quase geral dos sistemas dinâmicos discretos.
Já o trabalho de Alexander Nikolaievitch Sharkovsky (que estimo como um dos maiores génios do século vinte) nos anos sessenta, com o seu célebre teorema deixava este assunto resolvido. Basta pensar que depois de infinitas duplicações de período (que acontecem quando se variam os parâmetro) a entropia deixa de ser 0, aparecendo o tal caos, e surgem órbitas de períodos ímpares (por exemplo). Aliás o caos é muito variado, pode assumir muitas formas.
Eu detesto falar sobre um assunto para uma audiência geral, sem poder colocar as coisas de forma rigorosa e sem as equações em cima da mesa. Nunca conseguirei deixar bem explicado, em plano de senso comum, este assunto que exige rigor matemático e liguagem matemática.



Ecce Homo ou a incompetência de Porfírio
Museu de arte antiga não abre portas a horas de almoço e a certos fins de semana

Este assunto será desenvolvido mais tarde com uma explicação técnica sobre o assunto. Sei apenas que o "Ecce Homo" uma pintura portuguesa fantástica, lindíssima, do século XVI, período maneirista, durante anos foi classificada como pintura do século XV. Hoje em plena discussão sobre os painéis de S. Vicente, sabe-se de modo certíssimo (como disse explicarei mais tarde) que essa pintura é posterior a 1565.



Ecce Homo

Fui informado que no museu de Arte Antiga, olimpicamente a asneira continua: o quadro tem um letreiro em madeira dizendo desdenhosamente: Pintura Portuguesa do Século XV, e a explicação no papelota que dá informações aos visitantes, terá escrito qualquer coisa como segunda metade do século XV. Desprezo total pelo conhecimento científico? Desprezo total pelos utentes do museu, portugueses e estrangeiros? Simples desleixo absoluto? Isto apesar do director (José Luís Porfírio) saber do assunto. Apesar dos Dagobertos Markls que por lá andam.

Quem tem este desleixo, este desrespeito total pelo visitante do museu, consegue manter o museu aberto à hora de almoço? Começo a ter dúvidas, não sei se será só uma questão de dinheiro. Será também uma questão de competência?

Mais poesia de Leite de Faria tirada do baú

Mais uma poesia de Leite de Faria, um papel apanhado de novo nas malhas de um livro, penso que Leite de Faria em 1955 terá tido uma crise com a mulher que então vivia, a escritora Maria Luíza Gomes, espero ter conseguido transcrever correctamente as linhas manuscritas de A. Leite Faria, desta feita escreve a tinta castanha. Bach também usava tinta castanha...



Porque será
Que me estou nas tintas
Para toda a gente?

Porque será
Que o que pintas
Me é indiferente?

Porque será
Que nunca acho lindas
Frases do bobo inteligente?

Porque será
que nunca findas
Uma frase coerente?

Porque será
que em adegas e quintas
Bebo desalmadamente?

Será que terei:
De te amar?
De te responder?
De te agradecer?
De te agradar?

Será que serei
Complexo sem fim:
Minha alma vendida,
E que como corre o marfim
Também deixo correr a pena...
Sou opaco até de mim

Só te peço querida:
Não me faças outra cena.

A. Leite de Faria

18.6.03


Os liberais e os sociais

(menos os do forum, que isso é folclore)

Em Liberdade de expressão (LdE) comenta-se o meu comentário ao Liberalismo, lá terei da contragosto responder, uma vez que não é o meu tema preferido. Li os textos de Modus Vivendi e de Intermitente, contribuições interessantes. De qualquer modo este é mais um daqueles temas recorrentes.

Mais uma contribuição em Filhos de Viriato/ (nota a 19/6).

Em primeiro lugar afirma a LdE que não acha Mercado como Deus sobre a terra, mas parece, uma vez que os argumentos que cita são dissertações sem qualquer validade científica. Por outro lado questiona o poder do estado como agente no mercado.

A questão não é científica. A questão é de fé e de posição de classe. Eu por posição de classe até deveria ser liberal, mas como sou humanista recuso-me ao maquinalismo do fenómeno económico. E o argumento de "fazer solidariedade com o dinheiro e o suor dos outros" de LdE é o mais puro exemplo de absurdo liberal, de demagogia fácil - não científica - e, diria mesmo, animal (no sentido de selva competitiva). Claro que não é fazer solidariedade com o dinheiro dos capitalistas. É uma questão de apropriação:
- Uns apropriam-se do dinheiro e do trabalho dos outros, quer como trabalhadores, quer como consumidores. O estado apropria-se do dinheiro de quem se apropriou, redistribuíndo-o.
Os que se apropriam primeiro nunca gastariam esse mesmo dinheiro com o bem estar de todos.

A moralidade disto? Interessa? A mim não muito. Mas até está de acordo com os valores humanistas e cristãos a que a generalidade dos liberais se dizem apegados.

Recuso argumentos pseudo-científicos. Em revistas da especialidade ou em conferências já começo a aceitar. Se quiser argumentar cientificamente , caro LdE, ponha as equações e os argumentos em cima do seu Blogue. Eu demonstrarei se, em face das hipóteses, o que diz está ou não certo, do ponto de vista matemático. Depois questionaremos as hipóteses.

O que não me parece legítimo é dizer que: sendo o sistema dinâmico caótico deve ser autorregulado, conduzindo a intervenção do estado a maiores desvios. Claro que é por o sistema ser caótico que tem de ser regulado e não o contrário, de onde se conclui que existe uma falha lógica na argumentação de LdE.
Por outro lado a questão de legitimidade:
- LdE nega o papel do estado como agente regulador. Porquê? O estado, cujos dirigentes políticos são eleitos por todos os cidadãos e, em última análise são os próprios cidadãos, não terá o poder legítimo de ser agente. Qual a legitimidade de um empresário ganancioso e alarve, mas com jeito para o negócio, de ser agente? Ou um comprador compulsivo, manipulado por media ao serviço dos mesmos empresários? O estado regula, introduz equilíbrios onde antes existiria o caos. Basta ver no que deu a revolução industrial, liberal, no século XIX. Recusar o papel do estado é negar o princípio da legitimidade do poder nos regimes democráticos.

O que não quer dizer que o estado, e a sua intervenção, impeçam o decréscimo global da taxa de lucro. Em média, claro. Sobre o exemplo da saúde, acrescento que quando a composição orgânica do capital começar a crescer mais depressa que a taxa de exploração, o lucro desce. É a única verdade matemática que posso garantir a LdE. Pode-se consultar qualquer tratado de economia.

17.6.03


Lista de links curiosos e totalmente inúteis à maioria dos cidadãos, no entanto são links de verdadeiro "serviço público" a quem gosta.

Começamos pelos links de forcados, um mundo à parte que não sei se parte. São em número superior ao dos participantes no forum social!


Forcados da Moita
Forcados de Cascais
Forcados de Coruche
Forcados de Montemor
Tertúlia Tauromáquica terceirense

Olivença. Questão que me irrita, pelos espanhóis a ocuparem ilegitimamente, e ainda me irrita mais o grupo dos seus amigos. São em número superior ao dos participantes no forum social!

Amigos de Olivença
Lista de links de Olivença

Finalmente, já que estamos em links totalmente inúteis, podemos encontrar aqui os anacrónicos monárquicos portugueses, são em número superior ao dos participantes no forum social!

Monarquia online
Coluna Monárquica
Dinastia de Bragança
Juventude Lusitana
Real Associação de Lisboa


Um clássico, o MRPP. São em número superior ao dos participantes no forum social!

MRPP

Totalmente inútil, pelo menos para mim. É em número inferior ao dos participantes no forum social!

Boaventura Sousa Santos

Em Liberdade de expressão comenta-se a minha irritação com a direita e o liberalismo. Podia-se ter comentado a minha irritação com a esquerda, pelos vistos concordaram nesse aspecto. Estou-me nas tintas, aqui não preciso de teorizar, conheço demasiadamente bem a teoria dos jogos, as estratégias ganhantes e as matrizes, para perceber que uma teoria linear é completamente incapaz de descrever o fenómeno económico, muito menos o fenómeno social. Só um modelo de sistema dinâmico discreto, mas que envolve demasiadas variáveis e muitas aleatórias, pode modelar o sistema económico. Claro que um sistema dete tipo é caótico. Mas ainda falta perceber para onde tende a taxa de lucro e como varia em termos dinâmicos com a intensificação do capital e a taxa de exploração, embora estudos recentes apontem para um decréscimo, num sistema capitalista, e rapidamente no caso liberal. O que significaria que um sistema liberal está condenado a longo prazo.
O que me preocupa é outra razão, mais simples, é que não gosto de ver o meu semelhante a morrer de doença porque não pode pagar o hospital, não gosto de ver o menino ir para as obras, porque o pai não pode pagar a escola. Ou não gosto de ver o idoso com reforma de miséria depois de ter trabalhado uma vida. É uma questão de perspectiva. Por isso acredito no estado providência. Por isso nego o liberalismo puro e simples, que leva a uma acumulação injusta da riqueza, e advogo a solidariedade social, através de impostos, claramente. Bem aplicados, bem fiscalizados, justos. Por isso não acredito nos Estados Unidos e acredito na Suécia ou na Noruega.
Mas pior que a direita é quem fala do que não sabe, como se tivesse a iluminação divina do Marx pós moderno, Boaventura Sousa Santos. Sobre este assunto só tenho uma coisa a dizer: Sokal (ver link à direita) citou Boaventura Sousa Santos no seu texto no Social Text! Uma história gira, Sokal, físico, resolve publicar um texto para o gozo, mas muito complexo para quem não percebe nada do assunto, na consagrada revista Social Text, uma revista mítica dos Pós Modernos. São mesmo pós daí a grafia. O artigo foi aceite e citado!! Isto reduz a ridículo qualquer Boaventura Sousa Santos, que o melhor que devia ter feito era ter ido dar aulas no liceu ou explicações para a Musgueira como o engenheiro que teve vinte a matemática e não sabia nem o PIB, nem fazer uma conta.
De qualquer modo não sou crítico económico e social, nem me alinho, foi esse o sentido do meu post sobre esquerda e direita. Dei uma opinião. Continuarei a escrever sobre música e poesia. Sobre política só quando me apetecer, mas sem pretensões.

15.6.03

Cinco poemas minimais de A. Leite de Faria, acabadinhos de recolher de um papelinho do espólio, no meio de um livro de sonetos completos de Antero de Quental a marcar o soneto do palácio encantando da ventura. Deram-me um certo trabalho a decifrar, mas creio que ele os escreveu como os publico aqui, assinou com as iniciais L.F. como sempre fez quando a autoria é dele próprio. Como são curtos não resisto a colocá-los aqui. Tinha escrito no topo da folhita: 5 p, logo creio que se tratam de cinco poemas e não de um poema com cinco estrofes. O livro de Antero foi comprado em 1953, mais informações não tenho. Ofereço estes poemas aos blogueiros que por aqui passam. Como o grande poeta se vê em meia dúzia de linhas, realmente impressionante.

Ser feliz:
Sem mostarda
no nariz!

Uma alma
Com calma.

Uma amada,
Sentada.

És alucinação
da paixão.

Uma vida
Cantada,
Sentida.

A. Leite de Faria

Herr Jesu Christ, Wahr Mensh und Gott

Cantata de Bach bwv 127. Sybilla Rubens soprano, Aria: "Die Seele ruht in Jesu Händen", oboé, flautas de bisel, fagote no baixo contínuo. Na direcção e no orgão Tom Koopman. Uma pausa, silêncio glacial, de repente o obóe barroco crava-nos os agudos directamente na alma. E sim, depois a nossa alma, ao ouvir Bach, repousa directamente nas mãos de Jesus.


Vejo os blogs num afã de posições políticas: eu sou de direita, não, eu sou mais de direita, ná eu sou de esquerda, e o sicrano é mais PS.
Devo dizer que não alinho, não alinho em folclores. Tivemos um há bem pouco tempo atrás: o forum social português. Terá sido uma iniciativa interessante? Há quem diga que sim, meia dúzia de gatos pingados a debater a sua imagética esquerdina.
Não posso evitar um pequeníssimo comentário: a esquerda é intolerante. Talvez não o seja ideologicamente (o que dou de barato, embora seja falso). O problema é que, independemente de qualquer ideologia, a praxis da esquerda é de uma intolerância atroz. O exemplo de Joanaz de Melo, dos protestos contra a liberdade de expressão e contra opiniões diversas, são motivo suficiente para perceber que o forum social português foi uma farsa. Apertada entre boas intenções, dinamitada pelo PCP no que respeita a opiniões diversas das ortodoxias, basta o problema do Joanaz para se perceber quão intolerante é a esquerda dos foruns sociais.
Basta ouvir amigos meus, ortodoxos comunistas, quando com um ódio mortífero classificam os "camaradas" renovadores de palhaços, revisas, traidores, burgueses, além de apelidos impróprios para este blog, para perceber que existe uma esquerda condenada. Ouvi um dirigente comunista com responsabilidades em Évora dizer: "ainda bem que o Amaral está com cancro, daqui a pouco tempo não chateia mais, é por isso que não o expulsamos, espero que não dure muito". E estou a falar de dirigentes, não estou a falar do quase extinto militante da ferrugem.

Como será a direita?
O que mais me irrita na chamada direita é o liberalismo e a ideia de que a liberdade de mercado é o Deus, que não se devem pagar impostos que atrofiam as empresas e impedem o progresso económico e, logo, social.
Intolerante, sim, muitas vezes. Estúpida? Aqui já duvido. Claro que um grupo de caceteiros miguelistas é algo estúpido, um grupo de activistas anti-globalização a deitar fogo ao MacDonalds não o será menos, mas uma posição política nunca poderá ser classificada de inteligente ou estúpida, poderá, isso sim, ser classificada de eficaz ou ineficaz. É óbvio que esta eficácia também é relativizada pelos objectivos de cada grupo.

Por mim prefiro as ideais do J. Kenneth Galbraith, relativizadas e com muita tolerância. E sobre esquerda e direita fico por aqui.



A propósito da poesia de Bernardo Pinto de Almeida, crítico de arte, que conheci em pose de "grandartiste e poeta" na Feira do Livro de Lisboa, cito este poema:


Estava eu nisto
quando
cheguei à idade adulta
àquela plena consciência
de não andar no mundo pelos outros
mas por mim
pelo despontar da primavera
no azul do céu na manhã fresca
pela contemplação dos roseirais
pelo cheiro da urze
pelo cair do dia nas cidades
o seu comércio lento e evasivo
as suas montras docemente incendiadas
e pelo esperar da noite
quando o teu belo corpo
audaz e ansioso
se abre como a rosa
contra o meu.

Quer mais do que isto
um homem
do que saber-se inteiro
sereno agradecido
diante da sua própria morte?

Devo dizer que, como este, já milhares de poemas andaram pelos mesmos caminhos banais, utilizando construções como "ocheirodaurze" (diria que só falta um pouco de rosmaninho, talvez noutro poema...) mas o azul do céu e a Primavera estão presentes - Camarada, não faltámos à chamada do poeta!
A técnica não é grande coisa, umas associações de ideias. Um símbolo de pontuação no final da primeira estrofe, outro no final do poema, Mas porque raio usa pontuação no final das estrofes se não a usa em mais lado nenhum, hipóteses: Liberdade com limites? Procura criar dificuldades de leitura ao leitor? É mais fácil e rápido de escrever o poema?!
Uma interrogação final: o problema narcísico da morte do poeta/autor. Como diria Prado Coelho no gozo: "todos os poetas estão: ou apaixonadíssimos, ou com medo da morte... Pudera!"
Agora a metáfora do "teu belo corpo que se abre como uma rosa", é realmente interessante este tipo de metáforas, mas Pinto de Almeida, eu já vi isto umas quinhentas mil vezes. É uma das metáforas mais batidas da poesia ocidental, árabe e oriental. E o poeta, narcísico como todos os poetas, muito pouco psicótico, que esta é uma poesia com os pés em terra, termina afirmando-se homem inteiro!
O que ganhámos nós? Ficámos a saber que o poeta fez sexo com o objecto do seu desejo (o género é indistinto) e ficou satisfeito, sereno (pudera!) e agradecido.
Está bem, para o poeta que se mostrou antes.
Bonitinho.

Mas recomendo a BPA que se deve internar (palavras dele próprio) em novas poesias, talvez com o esforço continuado e trabalho, muito trabalho deixe de ser apenas alinhavado e bonitinho. De qualquer modo apenas peguei numa poesia, se tivesse tido pachorra para ler mais talvez tivesse outra opinião.
Por estas e por outras é que o meu Blog não devia estar no serviço público, falta-me a pachorra para ser mais cuidadoso como crítico, a amostra inicial foi tão desinteressante para mim que nunca conseguiria engolir o sapo de ir ler mais deste "poeta". Um Blog de serviço público teria de fazer uma investigação mais séria...

Mais um comentário post mortem, que este "poeta" já matei no meu olvido:

Erro de palmatória cometido por este crítico: quando falo de trabalho, muito trabalho, esqueci-me completamente de um aspecto, a vivência, a sensibilidades e o jeitinho natural para a escrita. Esses não se arranjam com trabalho. E o "poeta" sempre pode continuar a arrastar-se por mesas redondas recebendo convites de amigos, apresentando livros e puxando o lustro a quem lho vai puxando a ele. Os amigos continuarão a dizer bem da poesia dele, Eduardo do Prado Coelho incluído, que é assim que funciona o bom Portugal.

"Não basta ser poeta! É preciso que o Eduardo Prado Coelho decida que se é bom poeta, independemente das qualidades."
Curiosamente na Rodésia (mudou de nome?) quem decide quem é poeta chama-se Robert Mugabe!



O Abrupto e os comentários aos posts, curiosamente exactamente as mesmas razões que me levam a não pedir comentários. Além das razões do abrupto devo acrescentar que os meus posts são tão irrelevantes que qualquer comentário não valeria nada. Segue a citação.


13.a.Sobre comentários nos blogs

Eu sei que esta questão é controversa , mas decidi desde início não ter comentários . Este tipo de interactividade não moderada presta-se a um acumular de lixo que abafa qualquer opinião ou comentário de jeito . A experiência que tenho com o Flashback na TSF ou com a leitura do pt.soc.política é do carácter contraproducente dos comentários , que servem quase sempre para trocas de insultos sem qualquer interesse . Poluição de má educação já há que chegue para se dar oportunidade a maior produção de lixo . Agora que paga o justo pelo pecador, paga .
De qualquer modo o e-mail , que só uso para o Abrupto , permite a quem quiser emitir a sua opinião e eu , periodicamente, após pedir autorização para citar o que dizem , coloco essas opiniões em linha . Claro que é “totalitário” .






14.6.03


Debate sobre poesia na feira do livro de Lisboa
13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa


Da direita para a esquerda (vistos do público), sentadinhos junto de uma mesa redonda de alumínio. O Eduardo do Prado Coelho, Bernardo Pinto de Almeida, o moderador, uma rapariguita de nome Pedreira (não está no programa), o Pedro Mexia, e o Vasco Graça Moura. Todos os homens de fato completo sem gravata. A almôndega filosofante tinha camisa escura, todos os homens tinham casaco escuro excepto o VGM de fato azul bébé, lenço escuro e sapatos muito mal engraxados com peúgas castanhas ou azuis escuras ou sei lá, mas muito mal combinado (obrigado José Manuel Fernandes por me dares esta dimensão da realidade). Assistência composta, Clara Ferreira Alves, organizadora dos eventos, Rui Mário Gonçalves, Inês Pedrosa entre muitos outros. Omeupipi lá estava, como de costume em situações deste tipo.
O moderador tem nome que pode ser consultado no programa. O que disse foi irrelevante, longo e repetitivo. Gosta de se ouvir a si próprio, o que é próprio nestes acontecimentos. Sempre que um interveniente acabava comentava e repetia umas frases do que acabava de ser dito.

O conteúdo do debate foi interessante, discutiu-se a inevitabilidade da palavra na poesia, a poesia em oposição à prosa. Claro que EPC foi brilhante quando empregou a metáfora, aliás não original, da prosa como neurose, (porque severamente dominada pelo referente concreto) e a poesia como psicose (uma alucinação psicótica em que a palavra é o instrumento do sonho, sem grande relação referencial com o concreto).

Vasco Graça Moura disse que não, que não se sente prosador neurótico! Ou leu à letra EPC, ou quis fazer graça fácil de senso comum. Mas mais disse: a poesia e prosa têm diferenças ténues, mas "antes pelo contrário" e "não é bem assim" e "rebéubéubéu", o que até foi interessante de se ouvir com citações de Camões à mistura. Mais disse que a palavra não é inevitável, não existe uma palavra única na poesia em concreto, um poema pode ter variantes, palavras diferentes no mesmo ponto e a poesia ter o mesmo valor. Ele não disse mas eu recordo o soneto de Bocage que termina com o verso:

"Um dia em que se achou mais pachorrento."

E no mesmo soneto existe a variante:

"Um dia em que se achou cagando ao vento."

Creio que neste ponto Vasco Graça Moura tem razão.

O Mexia falou pouco, mas disse algumas coisas com piada, não fosse a impressão de ser um falso modesto quando falou nas poucas centenas de livros que tinha vendido. Falou na sobre-exposição da poesia, que afinal até vendia pouco, mas que se dava muita importância à mesma. A sua reflexão mais interessante foi dizer que não fazia sentido falar na disputa "Linguagem da experiência" versus "Experiência da linguagem", afinal a linguagem é sempre uma representação, tem sempre poder de referência pelas imagens e simbolismos que desperta ao leitor.

Claro que se discutiu se a poesia poderia ser utilizada para uma narrativa, a Mª do Rosário Pedreira assumiu-se como poetiza narrativa. Aproveitou para dizer mal, aqui na qualidade de editora, da nova prosa fácil, em oposição à poesia, diz ela que só a poesia de valor é publicada, e que o leitor de poesia é mais exigente. Tudo misturado com observações que me pareceram muito pouco éticas, descrevendo os textos dos condidatos a publicação que a sua editora recebe, com detalhes e pormenores. Enfim pareceu-me que a senhora licenciada Pedreira, uma vez que se fartou de dizer que tinha andado na faculdade, tinha um enorme complexo de inferioridade que tentava mascarar com ares de superioridade e sobranceria por virtude de ocupar uma posição editorial em que tem o poder de julgar textos que recebe, marcando-os com a possibilidade de serem editados, ou deitando-os para o lixo. A forma como mostrou um profundo desprezo pelos seres inferiores deixou-me triste. É marcante até o exemplo do seu "mestre" de faculdade, que perguntava: "onde está a poesia num casal à beira rio, num Ford Taunus, ela a fazer tricot ele a ler a Bola", encontrei mais poesia neste casal, ao por do sol, do que em todo o discurso da Maria do Rosário Pedreira. Disse que faltava estilo a quem aparecia agora, vindo do nada, e que na sua geração liam muito, e que tinham incorporado muitos elementos estilisticos das gerações precedentes. A menos estruturada das intervenções e a mais longa.

Finalmente a cereja no cimo do bolo, o poeta e crítico de arte, Bernardo Pinto de Almeida disse tudo:

"O navio dos espelhos não navega, cavalga" de Mário Cesariny

E reclamou o direito ao poeta de viver como poeta, contemplando o mundo, vivendo de forma diferente, a poesia são os "momentos do real concentrados" que "extravasam nas palavras". O poeta é "o ser falante habitado pela poesia", vê-se que quem diz isto é poeta. E que, a propósito da psicose, não gostaria de ser internado "senão em novas poesias".


Comentário a 15 de Junho: Levado pela curiosidade que as palavras deste Pinto me provocaram puz-me a ler este Almeida. Descobri, para meu espanto, que o que me surgiu na Feira do Livro é uma máscara do banal, uma pose. Tive pena, estava à espera de boa poesia, pela amostra do indivíduo, pelas palavras. Afinal o único momento poético de Bernardo foi ter cotado Cesariny como genial, já não é mau, mas é muito pouco. Ver post em que comento uma poesia deste "poeta" em máscara blasé de grande artista.



Creio que o debate foi interessante. Esqueceram-se da poesia como filosofia e de Antero, mas não se pode ter tudo. Em Antero a poesia é política, é ideológica e filosófica. Também é sonho. E faltou um pouco do universo onírico neste debate.

Crítico


Acrescento posterior, como comentário crítico e reflexivo: o distúrbio narcísico onde se enquadra? Todos somos neuróticos, psicóticos ou narcísicos. Creio que o narcisismo surge em qualquer escrita, seja na prosa, seja na poesia, logo coexiste, em ambas, uma mistura dos três elementos. O grau de utilização de cada ingrediente leva-nos mais para a prosa, mais para a poesia, mais para o discurso centrado no eu interior ou no outro exterior.



13.6.03



Obtive a almejada autorização da directora do museu Grão-Vasco, para publicação do texto que me enviou, cá segue o texto do email, com um simpático retrato, não sei se representa a directora em causa, estou em crer que não! Uma matrona como a da pintura não tem o sentido de humor revelado pelo texto que se segue. Com o meu pedido de desculpas por ter incluído tão excelsa personagem no concurso de bigodes de Viseu. E ainda por cima troquei-lhe o género, uma desgraça nunca vem só (ler mais abaixo). Com a vénia merecida.

Caro crítico:
Alguma coisa contra os tão fascinantes quanto hirsutos bigodes da Beira? Alguma coisa contra uma mulher com um sistema piloso, enfim..., relativamente consistente? Não?... pois então fique a saber que no museu grão vasco não há director, mas há uma directora peluda com o seu comentário vilipendioso. É certo que este ano fui excluída do concurso, mas preparo-me para, no próximo ano, quiçá de pintura em riste (ver anexo), arrebatar o mais digno e prestigiante de todos os troféus!!! aliás, acho mesmo que museu que se digne tem sempre uma peluda na colecção, queria dizer, na direcção...
Cumprimentos dos pogonóforos da Beira

Candidata



Parabéns a Nelson Matos e outros comentários sobre o meu Blog


Nelson Matos: por não ter acabado com o seu Blog, hoje li e até gostei, dá a impressão que leu o meu texto. Está mais descomprometido e mais descontraído, o texto está cuidado, as ideias mais claras. A crispação é inimiga da razão.

Acho que ando demasiado umbiguista, já o José Manuel Fernandes anda a vestir melhor, será um consultor de imagem que o Belmiro contratou para dar apoio aos rapazes, ou anda a ler o meu Blog? Espero um editorial rápido. Ontem na SIC notícias já se apresentou com blazer azul escuro, camisa em tons azulados e gravata encarnada, até parecia uma gravata de forcado. Parabéns ao crítico de moda pela sua melhoria de imagem, afinal se os juízes não podem aparecer de "tshirt", um director de um jornal terá também de parecer bem. Sugiro um Head and Shoulders e um bom barbeiro, assim poderá ser mesmo vir a ser um ditador dos costumes.

Sobre o email a protestar contra os poemas do Botto e do Bocage, caro Jorge Alves, digo-lhe que talvez tenha razão, mas que quer, eu prefiro ser politicamente incorrecto, e não pode negar, aquilo é poesia da boa. Por isso mesmo não resisti, irónico não é? Eu que não vou à bola com este neo modernismo de achar que quem não é gay não é artista, ou não é moderno. A colocar poesias em que os autores se assumem descaramente, e de forma chocante, adeptos de actos sexuais com menores. Não, não é uma apologia, é antes pelo contrário uma relativização. Mesmo o abjecto pode ser alvo da arte. Desculpem os mais sensíveis as poesias.

Finalmente algo que me meteu medo! Sou lido em Viseu! O meu post sobre o concurso de bigodes de Viseu mereceu um simpático email da directora do Museu Grão Vasco, afinal sou mesmo lido! Insurge-se pelo facto de, esta directora, não ter estado presente no referido concurso de bigodes! Peço desde já autorização à directora para publicar aqui o seu email. O que me mete medo é simples, o que eu escrevo aqui distraidamente, em casa fumando um charuto, pode ser lido por muita gente, gente que eu não imagino que me lesse. Obrigado directora, por me enquadrar. E desculpe a alusão, aliás divertida, que lhe fiz. Mil perdões pelo facto de poder pensar que o seu bigode estivesse na compita com bigodes afamados de todo o país real.

Crítico




A escrita e o umbigo

Fala-se que o bloguismo poderá ser um fenómeno que se prende com o umbigo, é um acto narcísiciso, Abrupto diz-nos:

"2. Há dois tipos de "umbiguismo" na blogosfera , e o termo , que escandaliza muitos , tem todo o sentido . Um é o "umbiguismo" do puro diário . A existência de diários mais ou menos íntimos , que são públicos é uma novidade permitida pela rede e potenciada pelos blogs . Tem muitos riscos porque a linha entre o íntimo e o público sendo quebrada , pode ter consequências perversas , mas cumpre um papel .
É a segunda forma de "umbiguismo" que é mais perniciosa : a de só se discutir a comunidade , nalguns casos entendendo-a como a família , o círculo de amigos , o clube mais ou menos privado , ou a seita política ou jornalística . Isso faz implodir e é , a prazo , estéril . " sic

Vou discutir o primeiro ponto: o "diário", não discuto o segundo com o qual concordo plenamente.

Como toda a crítica deve ser fundamentada dou exemplos escolhidos ao acaso. Falemos de diários, começamos por falar então de blogs unipessoais, vejamos o blog 100nada ou o blog Omeupipi, escolhi completamente ao acaso. No 100nada encontramos uma forma de diário puro, meias frases, comentários do dia a dia, geralmente bem escritos, é um "diário da vida numa grande cidade", encontra-se poesia. O autor nunca, ou raramente, se revela directamente, revela-se através das suas imagens, da sua visão de um concreto.
Temos aqui um diário sem umbigo.
Existe comunicação? claro que existe, mas aqui caímos num ciclo sem retorno. A escrita é um acto de comunicação, porque motivo terá Sebastião da Gama escrito os maravilhosos diários que escreveu? Comunicava consigo próprio? Escrevia para ser lido no futuro? Para se melhorar a si próprio em análise futura? Se olharmos para estas três hipóteses vemos uma componente narcísica em todas. Pior, nunca, nem num diário pessoal, todos os pensamentos são colocados. Um diário, blog ou íntimo, acaba sempre por ser "semipúblico" nunca se sabe quando será lido, muitas vezes depois da morte, é também uma âncora no real, que o sonho humano de imortalidade vai deixando. Um livro, em maior escala, é um objecto narcísico, ninguém escreve um livro para não ser lido.
O problema do umbiguismo, em comparação com outras formas de escrita, não se põe. O problema para mim: é a qualidade. Se um texto for bem escrito, terá valido a pena, terá leitores, cedo ou tarde.

Olhemos agora para omeupipi, narcisismo? Claro que sim, como em todos os outros blogs, como em toda a escrita. Aquilo é o diário de um "D. João da Picheleira" uma espécie de farsa montada, imaginada, um espectáculo. Feito com que intuito? Não quero entrar por aí, até porque não leio aquilo com a atenção que uma análise mais cuidada exigiria. Mas é um objecto narcísico em extremo, porque quer chocar por um lado, porque se quer afirmar por outro. Consegue algo difícil, uma corte de admiradores, uns mais irónicos, que afrontam pela perversão da linguagem, outros mais básicos, que gostam mesmo daquela triste afirmação de fixação sexual que por ali reina. Será um objecto literário? Está bem construído, leva a água ao seu moinho, a ordineirice é usada de forma imaginativa, sim, estou em crer que até poderia ser visto como objecto literário.

Vejamos agora as crónicas de Pacheco Pereira em Abrupto, são um diário sem dúvida, tem política, literatura, citações de amigos, poesia e até "ecos da blogosfera". É comprometido e tem ideologia, lendo esse diário ficamos a saber as opiniões do autor, ficamos a conhecer melhor o autor, podemos discordar, mas temos argumentos para analisar, rebater ou corroborar. Será um acto de umbiguismo? Claro que é, visto como acto narcísico que é implicado pela ânsia de comunicar, de estar no mundo que nós todos, seres humanos temos. Somos seres narcísicos, senão caminharíamos para a auto destruição gratuita. Mesmo quando o negamos, a nossa auto estima encarrega-se de nos lembrar esse facto. Curiosamente o próprio suicídio, em muitos casos é um acto narcísico.
Qual o mal deste narcisismo na nossa demanda de formas de comunicação? Penso que nenhum, ao ler o Abrupto ficamos apenas com mais uma reflexão, uma nota que nos recorda que o prazer solitário da escrita, não é tão solitário como isso! E se quem nos ler tiver gosto no que escrevemos, se apreciar, acabou-se o narcisismo, passamos a ser altruístas. Narcisismo/altruismo afinal em que ficamos?
No meu caso confesso, embora tenha um prazer grande na escrita solitária, para mim, embora escreva coisas que guardo sem mostrar, tenho também muito gosto em dar prazer a quem me ouve ou lê.

Apenas o uso da palavra "umbiguismo" me parece excessivo, afinal o problema é tão só este: a qualidade do que se escreve.

O Crítico

Refrão para um fado, qualidade literária média de um fado, aliás, qualidade literária superior:

Este triste fado
Do qual sou fadista,
Sou desprezado
Com vida de artista
Que bebe tintol
E que come alpista!
Canto apeado.
Em conversa mole,
Sou um desgraçado
Fadista, ista, ista, ista...

Bis

Um soneto que levaria Bocage a depor no DIAP:

Que eu não possa ajuntar como o Quintela
É coisa que me aflige o pensamento;
Desinquieta, a porra quer sustento,
E a pívia trata já de bagatela:

Se noutro tempo houve alguma bela
Que a amor desse o cono penugento,
Isso foi, já não é; que o mais sebento
Cagaçal quer durásia caravela:

Perdem saúde, bolsa e economia;
Nunca mais me verão meu membro;
Esta é a minha porral filosofia.

Putas, adeus! Não sou vosso devoto;
Co'um sesso enganarei a fantasia,
Numa escada enrabando um bom garoto.

Manuel Maria Barbosa du Bocage


Para finalizar temos um célebre poema de António Botto, o vate da pederastia, mas poeta genial:

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas aposto!
mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!

Botto


António Botto

11.6.03


As saídas dos blogs


A saída de certos blogs da blogosfera é vista como trágica por certos blogueiros. Acho saudável. Explico porquê:

Existem centenas de blogs, muitos de elevada qualidade.

Muitos dos blogueiros mediáticos estão habituado à subserviência mediática no exterior. Não estão habituados à sua afirmação por mérito próprio. Existe geralmente uma teia, quase africana, de reconhecimentos sociais, que lhes permitem a manutenção de um estatuto, isto na sociedade dita "real" exterior aos blogs. Mas não fazem falta. Porquê? Porque não têm conteúdo intrínseco, são máscaras institucionais, máscaras de uma figuração de poder. Por um lado não têm a qualidade da liberdade, nem a capacidade de encaixe para se manterem num meio igualitário como os blogs, todos podemos ser criticados, mas todos podemos criticar, comentar. Todos podemos falar do que nos apetece, sem censuras, sem tabus. Quem não se sente bem não é obrigado a ficar, a sua saída é saudável para o próprio e para quem os lê, quase por obrigação.

Aqui só sobrevive em duas situações:

a) Quem se está nas tintas para o público e olha para isto de forma desinibida, tendo ou não muita qualidade, não se importando se não se é lido, mas que interessa isso? Escrevemos o nosso diário, para nós, é um registo nosso para no futuro nos rirmos de nós próprios. É o caso do autor deste Blog, por exemplo.
b) Quem tem mesmo muita qualidade, seja a fazer humor, seja em literatura, seja em política. Claro que se tem de ter muito estofo para aguentar com a crítica básica e a inveja, porque em Portugal a qualidade é invejada e desdenhada.

Geram-se 4 situações a partir das situações acima:
1 Qualidade e distensão.
2 Qualidade e crispação.
3 Falta de qualidade e distensão.
4 Falta de qualidade e crispação.

Já vi blogs em todas estas categorias. Aliás muito genéricas, porque a realidade é muito mais difusa. Caótica diria mesmo. Também dependem do tempo. Não dou exemplos, porque não conseguirei incomodar os libertos e desinibidos e porque incomodarei em demasia os crispados que, por azar, caiam aqui.

O meu problema é que julgava que A Coluna Infame pertencia à primeira categoria, de facto não. Assumiram uma crispação dispicienda, desnecessária, e fecharam a porta.

Com respeito ao tipo com nome de taxista da D. Quixote, o Nelson (será este o nome?) não faz falta nenhuma e é um exemplo de uma das categorias acima: a do blog do tipo que se julga mediático, e que tem um blog porque está na moda e andam uns gajos enganados a citar o tipo e a discutir com uma sombra de um fantasma, ainda por cima é crispado... A sua saída contribui para a limpeza da internet e um tráfego mais fácil.

Penso eu: O Abrupto é que está para ficar. Este último tem arcaboiço para aguentar a crítica, sabendo distinguir aquela que é primitiva da que é fundamentada. Tem capacidade de pensar, concorde-se ou discorde-se, com prontuário ou sem prontuário. Este faz falta.

O Mexia também mexe, bem como o Coutinho (escrevo no presente). Espero que continuem e não entrem de novo em crispação, com outros Blogs, mas sempre a agitar e a escrever. Bem, ..., como sabem fazer.

O Crítico


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