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17.12.03

Um texto de Virgílio Marques 

No forum de música, foi escrito um texto de Virgílio Marques, um texto sentido, penso que vale a pena ler este texto que reproduzo aqui, com vénia e comoção:


Ontem fui ao Porto. Sabia que Guilhermia Suggia está sepultada no cemitério de Agramonte. Embora não pratique qualquer defesa pelo culto da morte. Pessoalmente desejo ser cremado, gostaria de não ter funeral nem velório nem flores nem rezas, ser cremado sem caixão e sem roupas. No entanto tenho todo o respeito pela memória das pessoas. Por aquilo que elas foram. Pelo que delas ficou.
Cheguei ao cemitério e perguntei ao guarda onde era a sepultura de Suggia. Não fazia ideia. Perguntei se sabia quem era. Não sabia de todo. Mandou-me perguntar aos coveiros que "sabem sempre essas coisas todas". Perguntei a 2. Ambos perguntaram se tinha morrido há pouco tempo. Disse que havia 53 anos. "Então e queria que soubéssemos!?". Mandaram-me para a secretaria. Pelo caminho perguntei a outro guarda. Não fazia ideia. Nem sabia quem tinha sido. Entrei na secretaria. Perguntaram-me se sabia quando tinha morrido. "Há 53 anos". "Ui! vai ser muito difícil saber onde está. Ainda por cima a chefe da secretaria não está cá." " Mas não me diga que não vai haver maneira de descobrir!?". "Espere lá. Vou telefonar a ver se alguém me sabe dizer alguma coisa."
A senhora dirigiu-se para o telefone e eu fiquei a aguardar. Ia ouvindo:"obrigada. Vou ligar então para lá". Ouvia de novo "está aqui um senhor que quer visitar a sepultura de Guilhermina Suggia. Como posso saber qual é?" "Obrigada. Vou ligar então!"
Ao fim de mais ou menos meia hora de telefonemas vem a senhora com um livro na mão. Procura por ordem alfabética e encontra. Guilhermina Suggia, morta em 30 de julho de 1950. Sepultada na secção nº 36, jazigo nº 2132.
Um guarda acompanhou-me. Passámos em frente da capela do cemitério, virámos no 1º corredor à esquerda, fomos sempre em frente em direção ao fundo. Em determinada altura o guarda diz-me: "Aqui está. É esta a campa".
Fiquei triste. Já tinha visto uma fotografia da campa. Não esperava de todo encontrar um mausoléu.
No entanto apenas está escrito na pedra "Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena". Não há qualquer referência à sua arte. Um ramo de flores de plástico completamente sem cor tapava o seu nome. Em cima da campa uma placa faz referência ao marido. Outra placa à mãe. E pasme-se: O pai de Suggia, AUGUSTO SUGGIA, violoncelista e professor nos conservatórios de Lisboa e Porto, tem uma placa onde se lê:"Dª GUTA SUGGIA, nasc em... falec em ..."
Não sei quem mandou fazer as placas, penso que Suggia não tem familiares vivos. Alguém deve ter mandado para a casa onde essas coisas se fazem, um papel escrito de modo pouco claro, a placa veio errada e foi posta em cima da campa. Sem o mínimo de respeito por quem foi pai e 1º professor de uma das maiores figuras da música em Portugal.

É triste este país. Muito triste, por vezes.

Virgílo Marques


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