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13.12.03

Terceiro acto de Tristan und Isolde e um balanço geral 

Culturgest. Orquestra Sinfónica Portuguesa, Nadine Secunde - soprano dramático- Isolde, Robert Gambill - tenor heróico - Tristan, Dagmar Peckova - mezzo - Brangane, Peter Weber - barítono - Kurwenal, Johann Till - baixo - rei Marke, Christer Bladin - tenor - Melot e um pastor. Zoltan Peskó direcção musical.

O maestro

A primeira nota sobre a direcção de orquestra:
A lotaria deu taluda neste Natal. Um bom concerto sem dúvida nenhuma. Um primeiro acto digno, um segundo acto desastroso, um terceiro acto inspirado. Poucos ensaios, muito poucos, não se compadecem com Wagner se os músicos não sentirem segurança, se não abordarem a obra a arriscar a todo o pano. Pesko ainda não tinha dado essa segurança à orquestra. Mas ontem Peskó atacou a obra com um sentido muitíssimo diferente da última sexta feira. Ontem teve um cuidado extremo com as entradas, se não fosse muita pretensão, diria que até parece que leu este blogue! Arriscou, puxou pelos músicos e o efeito foi surpreendente: uma metamorfose completa, radical. Ainda nos assustámos quando a entrada do prelúdio foi feita por fases, com uma entrada em cascata, num efeito muito feio, em vez de ser a tempo em todos os intrumentos. Aliás esse é o factor a ser corrigido, a exactidão do timming ainda não é perfeita nesta orquestra, talvez falta de conhecimento da batida do maestro o que, para um titular, convenhamos que não é muito aceitável. Pesko tem de trabalhar mais com a orquestra, estar mais tempo em Lisboa. Não sabemos se o resultado de ontem foi fruto, também, destas semanas de trabalho com o maestro. Nesse caso dou os parabéns à direcção que conseguiu que o titular da orquestra passasse um mesito em Lisboa. É um mérito e quem ganha o ordenado mensal que Pesko ganha, mais de oitocentos contos, mais os milhares de contos por estreias e récitas e concertos, devia ser mais solicitado e responsabilizado. O que se prova é que quando o maestro quer, consegue fazer. O que prova também que é grave a displicência que exibiu anteriormente: Peskó ainda sabe dirigir, o que se passou antes é uma imagem de complacência intolerável num homem com o currículo que se lhe reconhece. Que siga na direcção que mostrou ontem e que o bom trabalho aumente e se repita. Que corrija os problemas de timming e de desafinação crónica e que colabore na resolução do problema de falta de qualidade do coro. Mas hoje está de parabéns. Se eu fosse o professor Marcelo dava 14 ao maestro no primeiro concerto 6 no segundo e 16 no terceiro, notas acima estão reservadas para alguns mortos e muito poucos vivos. Que Peskó não deixe ficar mal a esforçada direcção do teatro que o convidou, que deixe os portugueses satisfeitos com o destino do dinheiro dos seus impostos mostrando arte e competência são o meu maior desejo. A aposta da direcção ainda não está ganha, espera-se que Zoltan Peskó continue a partir de ontem a mostrar serviço. O que tem feito não tem sido brilhante.

Gambill faz um papel de uma inspiração total, uma entrega subtil mas completa, vai aos extremos da voz. A voz vem de todo o corpo, como ele próprio afirma, é um cantor de um nível elevadíssimo e não acredito que não consiga fazer um Ziegfried perfeito. A representação do papel, a confusão, a desorientação, o amor, a paixão, a angústia, tudo se sente naquela inteligência que transparece na atitude em palco e na música. Para mim foi o melhor deste ciclo.
Nadine Secunde, Isolde, esteve muito bem. A voz ontem estava um pouco anasalada, mas fez uma morte de Isolde de grande qualidade, podia ter sustentado um pouco mais o fá sustenido final e podia ter apianado na ascendência final. Mas nem todas são a Birgit Nilsson, e Nadine Segunde foi uma Isolde de muito boa qualidade.

Os cantores foram o melhor desta aposta, a direcção, neste plano, está de parabéns, já disse quase tudo dos cantores, ontem Peter Weber confirmou no papel de Kurwenal e na cena final do Roi Arthus de Chausson que é um barítono de altíssima craveira, voz potente e sensibilidade musical. Mais uma vez o baixo Till foi monótono e parecia ler o papel à primeira vista, sem interpretar os sermões e angústias do rei Marke.

Um palavra especial para o corne inglês (gostava de saber o nome): notável, o solo saiu perfeito, sonoridade muito bela, musicalidade, uma maravilha que me comoveu, apenas um ligeiríssimo fugir de uma nota, mais para a frente, que resolveu de forma airosa, talvez por ter o instrumento frio, a este músico daria um 19, não estaria mal em qualquer orquestra do planeta a tocar este mesmo solo (ou outro). O trompetista mostrou que outros dias já passaram e resolveu muitíssimo bem as dificuldades do instrumento e do papel. Mais uma palavra para a harpista: bom trabalho. A timpaneira Elizabeth Davis é uma maravilha de musicalidade, é uma beleza contemplar os seus ataques, eu diria que um prazer musical e estético. Perco-me a olhar para esta figura carismática da orquestra. Para ela iria a minha salva de palmas no início do espectáculo aquando da sua entrada.

E não poderia acabar esta série de comentários sem falar da acústica da culturgest: é inconcebível que uma direcção programe esta série, tão bem imaginada, tão bem acompanhada de textos de apoio, com tão bons solistas, para uma sala sem as menores condições para Wagner. O mais grave de toda esta série foi exactamente a acústica seca e transparente, caprichosa, variando de ponto para ponto nesta sala da Culturgest. É quase um escândalo que se programe Wagner para a Culturgest. A pior sala que conheço para este efeito. Denota uma falta de cuidado com um dos aspectos essenciais da recepção de Tristan und Isolde: as condições, as salas, depois de Wagner o drama musical já não é feito em salas à italiana, com hierarquização por classes, mas numa sala perfeita, igual para todos os assistentes, e com uma acústica de grande qualidade. Para isso Wagner construiu Beyreuth, a sala da culturgest pode ser igualitária, mas tem acústica péssima. Mais atenção a esses detalhes. Não é uma boa sala que faz afinar os violinos, ou que põe o coro a cantar bem, mas ajuda a receber a música, ajuda à envolvência da massa orquestral e da percepção da orquestração. A sala da Culturgest é demasiado seca e tem um coeficiente de amortecimento muito elevado. Wagner não passa na Culturgest.

E é com este balanço misto que termino esta série de comentários sobre este assunto. Farei uma apreciação mais resumida noutros locais.

P.S. Notei melhorias de afinação nos violinos, terá sido fruto de mais trabalho nesta semana?
Não faltou música no Messiaen?

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