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17.12.03

O programa do concerto na Gulbenkian 

O programa do concerto da oratória de Natal, dia 18 e 19 na Fundação e 20 no Europarque de Santa Maria da Feira, tem esta pérola, escrita supostamente por quem percebe, custa-me a crer que um entendido e erudito sério como Rui Cabral Lopes tenha escrito esta barbaridade, apenas com o intuito de satisfazer o capricho de uma soprano:

"No presente programa do Coro e da Orquestra Gulbenkian serão interpretad as as partes I, II e III da Oratória de Natal, bem como a belíssima ária para dois sopranos intitulada “Flösst, mein Heiland”, situada na Parte IV. A execução desta ária terá lugar entre os números 16 e 17 da Parte II que correspondem, respectivamente, à curta intervenção do Evangelista, Und das habt zum Zeichen, e ao Coral Schaut hin, dort liegt im finstern Stall, baseado numa melodia-coral de Lutero.
Apesar do contexto original de execução ter implicado uma segmentação da obra, condição que, aliás, também se aplica às actuais necessidades da sala de concerto, deve evitar-se perspectivar a Oratória de Natal como um ciclo de seis cantatas independentes, sob o risco de se perder de vista a interessante lógica de coesão global que subjaz à obra. São, de facto, diversos os aspectos que nos permitem falar de uma estratégia consciente de unificação da Oratória como um todo musical, contrariando a ideia de um somatório de partes individuais cujo único elo de continuidade residiria no encadeamento dos acontecimentos descritos, protagonizado pelo Evangelista.
"

Será Rui Cabral Lopes o único autor do texto integral destes parágrafos acima? Custa-me a crer. Se repararmos, o próprio autor(es) diz a seguir que a oratória tem um plano tonal muito sólido e que a cantata IV da qual a ária avulsa é extraída é um pouco estranha ao resto do conjunto e cito "A Parte IV, cujo texto é mais periférico à narrativa do nascimento de Cristo, é a única a fazer uso de bemol na armação de clave (Fá Maior)". Repare-se que a cantata nº 3 (ao contrário da número 2 como Lopes afirma*, ver nota final) onde se mete a martelo a tal ária tem um plano tonal de Ré maior, Lá maior e si menor! Completamente afastado, então este si menor não podia estar mais longe do Dó maior da ária. E com a afinação não temperada que se usava na época este dó maior cheira mesmo a dissonância depois de si menor. Ou Cabral Lopes se contradiz a si próprio no texto, ou a história da "interessante lógica de coesão global que subjaz à obra" e blá blá blá que é correcta de per se não bate certo com a inclusão da tal "belíssima ária". O texto é incoerente. Por um lado se se inclui a ária - quiçá por o contexto ser global e não seccionável - por outro a obra deve ser vista como um todo e mostra por A+B que o plano tonal é brilhante e pensado para cada peça se encaixar no puzzle teológico de forma sequencial.
Indirectamente leva-nos a acreditar, pelas suas próprias palavras, que partir a obra em pedaços é errado e critica implicitamente a Gulbenkian - mesmo descontando a desculpa de se fazer assim porque é a lógica do concerto - por outro afirma, implicitamente, que a ária fora do contexto é aceitável porque "belíssima".
Falemos do texto: a natividade dos primeiros dias pouco tem a ver com a circuncisão do dia de ano novo. As cantatas incluem-se na liturgia da missa, o texto litúrgico é diferente em cada dia. Seria um disparate, quase um sacrilégio enfiar uma martelada sobre circuncisão num dia de Natal! Se Bach quisesse aproveitar a música, transpunha para a tonalidade relativa ao ré maior, de acordo com o plano tonal da obra e mudava o texto para se apropriar à natividade. Isso sim, Bach podia fazer, fez em muitos casos, mas manter o texto não tem o menor sentido.

Ou Rui Cabral Lopes chumba redondamente nas notas por ignorância crassa ou tentou justificar o injustificável para fazer um jeito ou meteram-lhe texto no que escreveu antes. Mas o que se vai passar é um escândalo: parece que um capricho de um soprano (ou do maestro) se sobrepõe ao plano tonal idealizado por Bach, à teologia e à vontade de um compositor como Bach.

Eu esperava muito mais de Michel Corboz, tem melhorado muito nos últimos anos na interpretação de música barroca, mas um maestro com conhecimentos, respeito pela obra e personalidade forte nunca admitiria uma subversão deste tipo. Cantem a ária como extra, ou depois das três primeiras cantatas, ou no princípio do concerto. Mas nunca metida à pressão onde não cabe.

* - Segundo o plano da obra apresentado pela própria Gulbenkian no programa teremos a sequência:

33. CHORAL
Ich will dich mit Fleiß bewahren,
Ich will dir
Leben hier,
Dir will ich abfahren,
Mit dir will ich endlich schweben
Voller Freud
Ohne Zeit
Dort im andern Leben.

39. ARIA (Sopran und Echo)
Flößt, mein Heiland, flößt dein Namen
Auch den allerkleinsten Samen
Jenes strengen Schreckens ein?
Nein, du sagst ja selber nein. (Nein!)
Sollt ich nun das Sterben scheuen?
Oder sollt ich mich erfreuen?
Ja, du Heiland sprichst selbst ja. (Ja!)

35. CHORAL
Seid froh dieweil,
Daß euer Heil
Ist hie ein Gott und auch ein Mensch geboren,
Der, welcher ist
Der Herr und Christ
In Davids Stadt, von vielen auserkoren.

E não a sequência que Lopes enuncia no seu texto, mais um erro a juntar aos já apontados. O desacerto parece total.
O tenor não pediu também uma áriazinha extra? E esta ária com eco já não se canta para o ano quando se fizer a parte restante da oratória de Natal?

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