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6.12.03

Muito má interpretação de Peskó - maestro da Orquestra Sinfónica Portuguesa, bons solistas - culturgest 

O segundo acto do Tristan und Isolde desta noite saldou-se por excelentes cantores a ignorar uma regência vaga, incompetente, a dar entradas em falso, fora de tempo, atrasadas, sem ritmo sem musicalidade. Uma regência sem qualquer ideia da obra como conceito total, uma regência da mais fraca qualidade a que tenho assistido ultimamente. Sem musicalidade e noção do drama, sem tensão. Se fosse apenas a desafinação, se fosse apenas a trapalhada musical em alguns momentos, mas salva com alguma ideia, salva com momentos de alto nível (como houve na semana passada) ainda se poderia ter algum prazer na regência de Peskó. Uma direcção igual, sem contrastes, tudo lido da mesma forma, a despachar o papel.
O exemplo mais alucinante de ineficácia absoluta é a fanfarra de metais que se ouve por detrás do palco. Uma desgraça total, salvaram-se poucas notas certas entre a alucinação da asneira. Com as notas trocadas e o desacerto ritmico fazia-se outra música, talvez próxima do Jazz, isto se não ofendesse a boa música de Jazz.

E o resto não foi melhor, salvo alguns solistas nos sopros, o conjunto soou desgarrado, sem coesão. Não se percebe como a direcção de Peskó desceu tanto da semana passada para esta noite. As entradas não saiam certas, as notas eram atacadas fora do lugar no tempo e na afinação, mau demais para ser verdade.

Cantores excelentes salvam a noite. Autênticos heróis, cantaram apesar da direcção totalmente insegura, desacertada, sem técnica certa, com sinalética incompreensível. Peskó deu entradas ao soprano quando era o tenor a entrar e depois olhava para a partitura com ar espantado para se certificar do seu engano, e depois repetia a asneira com o tenor e por diante. Tanto dava entradas a tempo como dois compassos antes, ou mesmo atrasado, quando o tempo da entrada já tinha passado e a intuição e musicalidade dos cantores já tinha resolvido o problema. Errático, incompetente.

Peskó tem um currículo de alto nível, só vejo três razões para este descalabro: ou está a ficar com falta de capacidade para a regência, ou é complacente e não quer fazer melhor, ou precisa de óculos e não os usa em concerto. Será que não vê bem a partitura, já não decorando como antes a música? Eu até acredito na última hipótese, mas se precisa de óculos que os ponha e não dê a imagem de já estar a ficar incapacitado pela idade, ou pela incompetência.

Voltando aos cantores: foram excelentes, ignoraram Peskó e a sua direcção inconcebível, cantaram o melhor que puderam. Nadine Secunde estava com a voz menos cansada do que na semana passada, mas não foi tão empolgante no plano dramático. Gambill esteve muitíssimo bem, um tenor heróico a sério, voz boa em todos os registos e um excelente intérprete do drama expresso através da voz e da interpretação, o momento do encontro de Tristan e Isolde fez-me arrepiar de prazer, de comoção, tal a violência expressiva da música de Wagner e do empenho dos cantores. Já o baixo Johan Tilli esteve muito bem no plano vocal mas muito banal na interpretação musical, muito igual sem dramatismo, sem densidade. A mezzo Peckova esteve excelente, muito melhor que na semana passada, excelente vocalmente em todos os registos, incluindo o grave que nos tinha deixado um pouco desiludidos na última sexta feira.

A orquestra tem excelentes músicos. Mas com direcção assim, ausente na maior parte do ano, mediana em certos concertos e muito fraca noutros acaba por se perder o prazer de ouvir música pela OSP. E custa rios de dinheiro, para quê? Para isto, um desrespeito pelo público que acaba por se habituar ao medíocre e que quando ouve mediano acha que é uma maravilha... Um desrespeito pelo compositor e pela música. Um desrespeito pelos músicos da orquestra. Um desrespeito pelos solistas de altíssima qualidade que acabam por ter de cantar à defesa, sendo os momentos mais elevados de uma actuação muito má do conjunto. Mesmo assim Wagner ainda resistiu, e a sua música ainda me conseguiu seduzir em alguns momentos.

Não comento a Noite Transfigurada, foi tão mau que qualquer comentário seria uma perda de tempo, foi o pior do concerto, péssimo. Uma noite transfigurada pelas piores razões e para esquecer, da parte do maestro. Esperam-se melhoras no próximo acto.

O melhor foi ouvir, a seguir ao concerto, um grande amigo tocar (em privado e para alguns priviligeados) Vilalobos em guitarra clássica.

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