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24.12.03

Música 


Mudei a música, Erstarrung, o poema está dois posts abaixo. Viagem de Inverno no Natal. Uma das interpretações mais notáveis de todos os tempos. Jon Vickers, cantor e Peter Schaaf, piano. Espero que se consiga perceber bem com o som comprimido. A força, a injustiça da vida. Mesmo assim transparece alguma doçura muito disfarçada pela solidão, pela angústia. Gelado este Inverno, que arde com uma chama de desolação, de raiva e de maturidade.

Para ouvir uma interpretação mais convencional, com Christoph Prégardien a cantar e Andreas Staier ao piano. A beleza gélida numa voz pura de encanto, um homem mais jovem canta, menos marcado, menos sentido, mais frio, mas também muito belo. O elemento fundamental: a melodia de Schubert, flui, pontuada pela tormenta agitada da angústia, expressa pelos obstinatos obsessivos no piano...

Gerald Moore ao piano acompanha Hotter noutra interpretação impressionante, gravação de 1954. Uma voz mais escura, mais densa, menos densa no entanto no devir trágico que a voz rude de Vickeres. A melodia, ainda e sempre a melodia, mesclada com uma elegância e uma dicção ímpares, veludo.

As minhas três interpretações preferidas, mas tão diferentes umas das outras. Não há melhor, poderá haver igual...
Mas a Viagem de Inverno de Schubert e Müller deve-se ouvir na íntegra. Infelizmente não tenho espaço, nem qualidade, aqui.

Resumo.
Vickers: a força telúrica da angústia, a alma atormentada, a força da voz. A neve e o cansaço, o fim, o trágico.
Prégardien: A beleza total de uma voz, o discurso poético de Schubert ecoa nas palavras redondas de um canto etéreo. O frio, a noite transparente de neve.
Hotter: o veludo e as estrelas, a elegância e força segura de uma voz sob domínio total. A mais escura destas vozes, o cantor de voz mais grave. Um homem jovem de cabelos grisalhos. Mas, atenção, são negros depois de sacudida a neve, - como nos diz o poeta mais à frente - um homem envelhecido pela tristeza, pelo abandono, talvez pela morte, mas jovem de aspecto. Um homem forte, mas desiludido, que caminha, errante, viandante sobre a neve, seguro mas infinitamente triste.

Em todos a melodia de Schubert, em todos a mesma paixão: a poesia e a música.

Voto Desejo a todos os que me lêem uma jornada com destino. Uma jornada em que no fim haja um homem do realejo, ainda mais solitário que vós, que vos receba com a sua música, indiferente ao frio, aos cães que rosnam e à incrível solidão do fim da jornada pela qual todos temos de passar. Um homem tão triste, tão só, que nos redime da nossa solidão e da nossa tristeza. É esse o homem que acompanha com a sua música o nosso canto. Que esse homem seja, finalmente, o anjo que nós esperámos durante todo o caminho, e que nos liberta do cansaço infindo da Viagem de Inverno.
Até um destes dias...

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