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31.12.03

Jantar de gala 

O barca velha, o chateau Laffite, o champanhe de 95, o Remy Martin, os lanceros, os laços, os pescoços, o caviar, o jantar surpresa que ainda não sei qual é, os amigos, as conversas, olho pela janela, vejo a cidade. Sinto frio, o frio gélido de um mundo perdido entre dois tempos, lá fora está o homem do realejo, rosnam os cães, sinto lá longe, muito longe, os campos frios de Dezembro, ou será já Janeiro? Couperin ecoa nos meus ouvidos, ou será a Viagem de Inverno... não, não penses na Winterreise hoje, hoje é dia de festa, ouve o Couperin com os seus oboés, a festa, os domingos de Luís XIV, os domingos tristes de um monarca a envelhecer e só, amigos e família mortos, guerras perdidas, e Couperin ao domingo para alegrar sua Majestade. Não, não consigo esquecer o homem do realejo algures no frio, pés enterrados na neve, um poeta desesperado ainda não o encontrou, mas vagueia também lá fora. Este homem vagueia todos os Invernos desde que Schubert se lembrou de passar a lieder as poesias pungentes de Müller. Todos os Invernos e Natais e anos novos e sempre quando faz frio, lá anda o viandante, para atormentar quem o conhece e sonha, com o seu canto triste e sofrido. Olho em redor para dentro da sala, um frio gélido no calor artificial de uma casa de cidade, algures numa capital europeia, e penso: mas isto é só um segundo numa eternidade, celebramos um segundo, porquê?... Vivo num país e num mundo onde o crime compensa e celebro o quê? A minha própria inconsciência do real? Afinal este Couperin é triste.

É por isso que não faço balanços. É por isso que não escolho nem o melhor nem o pior. É por isso que não dou prémios sem sentido. É por isso que nunca desejo bom ano a ninguém.

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