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30.12.03

Gosto do Marcelo 

Sempre achei piada ao professor, sei reconhecer que não é muito profundo, faz análises ao sabor da inspiração e não da meditação. Gosta de parecer mais do que é. Monta o seu espectáculo mediático, o que para um conservador empedernido como eu é demasiado arrivista e ostensivo, preferia mais recato, mais biblioteca. Mas reconheço que é um defeito que lhe vem de ser muito esperto, junta a essa esperteza alguma cultura, educação e currículo académico, por estes motivos é melhor que Aníbal C. Silva, António Guterres ou Santana Lopes. Aliás, a falta de um doutoramento desclassificaria politicamente, para mim, Guterres ou Santana à partida.
Marcelo mistura algum sentido de estado com uma ambição disfarçada pelo reconhecimento das suas próprias capacidades. É claro que ninguém acredita que Marcelo leia trezentos livros por noite.
Marcelo tem dificuldade de entrar no público mais cabotino, ou no público ignorante e tipicamente invejoso, mas que acaba por reconhecer no professor uma capacidade enorme. Penso que a esquerda teria a ganhar com Marcelo como presidente da república. Daria conselhos de valor ao governo, interviria em questões de injustiça clara, como o faz, às vezes de forma estouvada na TVI, algumas vezes sem investigar a fundo os problemas. O episódio da morte de Henrique Barrilaro Ruas em que lamentou a morte antes do tempo desta figura da cultura, da democracia e da causa monárquica é paradigmático da velocidade estonteante do professor, sem parar para perguntar, leu ou alguém lhe disse que um Barrilaro Ruas tinha morrido e concluiu que tinha sido Henrique, o próprio recebeu a notícia da sua morte ao ver o professor na TVI! O ponto é que Marcelo interviria, ao contrário deste rapaz simpático umas vezes e birrento outras, culto e com educação, que se arrasta por uma presidência sem história.
Acho graça a quem não gosta do Marcelo e que o vem acusar de ter espaço mediático, de ganhar dinheiro por isso. De estar em vantagem, até o presidente Sampaio acusou Marcelo Rebelo de Sousa de ter tempo de antena que, reconheceu, a presidência não tinha. É caso para dizer que o mérito é do professor: se este consegue o espaço que tem, e os outros não, só ao professor se deve esse desiderato. A esquerda não tem fenómenos como Marcelo, já imaginaram porquê? Uma das razões é a imagem de ódio e de raiva que permanentemente ostenta. A luta sem tréguas, o empenho da esquerda não é mediático. Só um tipo prazenteiro e inteligente consegue o papel de Marcelo no teatro mediático. Um Louçã, inteligente, parece um padre usando as suas terríficas sibilações, o carregar nos erres, sempre em estado de cólera e de raiva, sempre zangado contra todos os que, esses malandros, pretendem dar cabo, de forma malévola, da esquerda e dos trabalhadores. Louçã não pode, ideologicamente, sair deste esquema. Carvalhas é ineficaz por falta de imagem, por falta de brilho e por ser monolítico, falando por chavões repetidos emanados das directivas de uma comissão política, chavões que Carvalhas repete sem convicção. Ferro Rodrigues, a acreditar que é de esquerda, anda demasiado preocupado com Pedroso e não parece muito dotado intelectualmente. Existem figurantes, mas são figuras menores, ambiciosos mas sem o carisma e a inteligência de Marcelo, Sócrates é um bom exemplo. Mais à direita temos Pacheco Pereira, inteligente, meditado, mas também tem o defeito de ser façanhudo e zangado. Além disso não tem paciência. É um mérito, mas Pacheco não terá nunca os apoios para ser candidato a presidente. Fez demasiados inimigos, por ser frontal e dizer o que pensa. Cavaco não é mediático, ponto. Sobre Santana basta falar dos concertos para violino de Chopin para perceber de quem se fala, um homem mediático que nunca se deixa ficar mal, mas capaz dos maiores disparates, não teria cometido a gaffe das contas de Guterres, ou inventaria um número ou deixaria isso para um acessor responder, falta a Santana substrato cultural e pose de estado, é oco. Guterres é um vazio total, incompetente, feio, pouco dotado intelectualmente, pelo menos assim aparenta publicamente, precisa repetidamente de dizer que teve vinte a análise no Técnico para se credibilizar, isso diz tudo. Marcelo nunca citou as suas notas enquanto aluno de direito, não precisa, já esqueceu.

É moda virem acusar o professor de estar subrepticiamente a preparar a campanha presidencial desde que saiu de dirigente do PSD. Os iluminados, que vêem o que mais ninguém viu, denunciam o professor por este ser um terrífico candidato escondido e de ter tempo de antena, ainda por cima! Eu digo: engenho e arte do professor. Sugiro aos detractores: arranjem um candidato que faça o mesmo.
Depois não acredito na premeditação, Marcelo é um repentista, age por instintos, não por premeditação a longo prazo. Claro que, como estudioso de ciência política, sabe que as portas nunca se fecham, e se a oportunidade surge ele não a desdenha. Pode então tornar-se dissimulado e premeditado, mas a curto prazo.
Mas se for esse o caso, o da premeditação de longo prazo, devo reconhecer que a sua inteligência é profunda, que a sua preserverança grande, e que triunfou no caminho que escolheu, consegue falar todas as semanas uma e outra vez em televisões, responde sempre aos jornalistas, vai a concertos, dá aulas, publica, está em conferências, triunfa nos média e na carreira profissional e científica, afirmou-se na escrita e não perde credibilidade, é obra. Só por isso merecia ser presidente.

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