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20.12.03

Bach na Gukenkian - aspectos técnicos de uma má interpretação 

Considero importante que quem vai a concertos tenha alguns conhecimentos, quer sobre a obra, quer sobre a forma de a interpretar, por isso mesmo vou dissertar sobre o que considero um desastre interpretativo o que ocorreu na quinta feira passada com Oratória de Natal de Bach. Mistificar, mascarar, pactuar, assobiar para o ar e fingir que este tipo de interpretação é razoável não fica bem a quem tem o dever de informar e formar o público, como o próprio Bach dizia que era função do músico, por isso mesmo não consigo deixar de exprimir a minha opinião crítica ao que se passou.

Comecemos pelos aspectos mais óbvios: a orquestra a falhar no plano rítmico. Desacerto logo na entrada: tímbales, flautas e oboés entram ao primeiro, segundo e quarto compasso respectivamente, não se percebeu nada da música, uma confusão completamente irreal com entradas fora de tempo e a ritmos desiguais à procura do tempo certo. Os trompetes e violinos entram ao quinto compasso e ainda vieram aumentar a confusão! A secção inicial da obra é de estrutura ABA, curiosamente no "da capo", em que se volta ao princípio da obra e se repetem os compassos 1 a 137 a coisa correu melhor.
Na ária do nº8, "Grosser Herr", desacerto rítmico de novo entre trompete flauta e cordas, as síncopas das flautas e cordas saíam a tempo, em vez de a contratempo como está escrito, com as batidas no tempo forte do trompete, a entrada foi uma calamidade que se foi repetindo, ao longo da ária.
No recitativo nº 18, a entrada dos oboés, que Bach queria que fossem de cacia e de amore, foi outra confusão geral, em vez de quatro pareciam cinquenta! A passagem é fácil, devia ser a tempo na batida do compasso, será que se baralharam com as notas agudas tão difíceis de dar nos instrumentos originais, mas de simples execução nos modernos?! Mais desacertos houve, as cordas nas passagens mais complexas do ponto de vista rítmico foram sempre confusas e pouco precisas. Umas notas trocadas aqui e ali.

Erros interpretativos de Corboz, o mais grave no meu entender:

Concepção global: orquestra demasiado grande, coro demasiado grande. Na orquestra as cordas en número excessivo abafaram a riqueza tímbrica das entradas e saídas dos sopros. Estes misturavam-se subtilmente na massa em vez de entrarem e sairem como registos de orgão. Isto nada tem a ver com a ideia da obra de Bach e da forma como esta era encarada ao tempo de Bach.
Má articulação, legatos imensos, crescendos e diminuendos por toda a parte. Na música barroca o contraste surge por oposição de massas, por contraposições tímbricas, por oposição entre forte e piano. Nunca por abuso "romântico" de efeitos como diminuendos e crescendos. Exemplo gritante compasso 27 da abertura da segunda cantata, mas posso apontar muitos mais.
Ritardandos e acelerandos, exemplo: sinfonia compassos 43 e 44 um ritardando. Ritardando nos finais dos coros e corais. Acelerando nos fortes e ritardando nos pianos, quase um tique. Na música barroca o ritmo é essencial e ritardandos só em casos muitos especiais e dentro do compasso, para logo recuperar e entrar no seguinte a tempo.
Articulação muito confusa e incoerente, inventando o que Bach não escreveu, diria que errática e pouco pensada, pobre e ao sabor do momento, vibrato excessivo, sem concepção.
Incoerência nas suspensões dos corais. O coral é o único ponto em que se admite um coro gigante, eram cantados por toda a congregação nas igrejas do tempo do Bach, uma regra para a suspensão era fundamental, tem que se saber se estas duram muito tempo ou pouco, se se fazem, ou apenas se dá uma breve acentuação. Muita tinta se escreveu sobre o assunto, publicaram-se até muitos artigos. Corboz não tem regra, ora demora imenso tempo nas suspensões, ora corta depressa, ora nem sequer as faz, e não falo das suspensões finais, a incoerência surge em todas as frases. Uma congregação luterana com Corboz como mestre de capela acabaria os corais onde? Isto numa igreja onde nem todos conseguiam ver o mestre, uma vez que estava ao orgão e não de pé a dirigir como hoje. Acabaria onde Deus quisesse, mas certamente numa grande algazarra confusa.
Incríveis os sforzandos no coro nº 23, um pesante abafante em vez de um correr fluido e sincopado e sforzandos em cima de todas as semínimas com ponto, a leveza rítmica das síncopas internas próprias ao compasso composto de 12/8 tornaram-se em passadas de um elefante anafado.

Tenutos no contínuo durante recitativos: na partitura estão notadas semibreves no contínuo, orgão, cellos, contrabaixo e fagote, a prática interpretativa variava, há quem afirme que as cordas davam apenas as primeiras notas, e se existisse cravo devia ser dado um arpejo com a figuração do cifrado. Já o orgão daria o acorde cifrado e sempre que a cifra se alterasse ou o organista visse o solista a fugir do tom poderia dar o acorde pela cifra, aqui a incoerência ainda é maior: nas duas primeiras cantatas foi tudo tenuto, sustentadíssimo, eu até achei graça, o Corboz está de acordo com a partitura, e lê literalmente. Apontei o recitativo nº 2, tudo sustentadinho. Na terceira parte qual é o meu espanto: o contínuo passou a fazer-se como mandam os musicólogos, ataque da semibreve e corte logo ao primeiro tempo da nota, com figuração do cifrado sempre que este se altera, mas apenas pelo orgão! Afinal houve instruções novas do treinador ao intervalo? Ou é apenas incoerência interpretativa?

Tempos: Corboz demora mais vinte minutos nestas cantatas, descontando a ária metida a martelo, do que qualquer interpretação de referência, uma hora e quarenta e três é um tempo quase surreal para estas três cantatas. Philippe Herreweghe, numa interpretação considerada fria, demora uma hora e dezassete minutos! A interpretação de Corboz não é agradável, não é pausada, não explora a beleza do som, é pura e simplesmente uma interpretação à defesa, arrastadíssima, apagada, sem conceito nem chama. Falta de ensaios? Na última Paixão Segundo S. Mateus conseguiu dar uma leitura mais apaixonada, mais viva, mais sentida. Na quinta feira deu monotonia e arrastamento. Sono.

Solistas e seus erros: Chance falhou em toda a linha, um contratenor em estado péssimo, semitonou, desafinou, não deu as notas escritas, de por os cabelos em pé, fez-me sofrer de angústia à espera que saísse uma nota certa. Bach não poupou o alto nestas três primeiras cantatas. Chance não poupou os ouvidos do público. Ele era o ré, o mi (no início da segunda oitava), tudo meio tom abaixo do que devia dar, o "fest" ao compasso 33 da ária nº 31 é o pior exemplo, entrou um tom inteiro abaixo do ré, foi subindo em glissando até se aproximar da afinação correcta, não o conseguindo fazer porque a voz fugiu e arranhou, o compasso 52 da mesma ária foi uma tragédia, nem uma nota saiu certa, o compasso tem um mi que deve ter aterrorizado de tal maneira o cantor que tentando dar, não sei bem que notas e articulação, saiu tudo errado, nem as figuras, nem as notas, nem a afinação. Nunca assisti a um espectáculo tão triste num cantor na sala grande da Gulbenkian, tive pena, fiquei sinceramente aflito e triste, de tal modo foi confrangedora a actuação deste contratenor com prazo de validade nitidamente expirado. Mas o público que pagou o bilhete não tem culpa do declínio dos cantores e Chance pode facilmente dar aulas de canto ou dedicar-se à direcção, tem currículo para isso.

A soprano Schöll teve o episódio infeliz da ária nº 39, metida a martelo no meio do texto da cantata nº 3, para poder brilhar um pouquito. Mais um exemplo da completa indiferença com que Bach foi tratado por Corboz, que o subjugou aos caprichos de uma diva de trazer por casa. Bom timbre nos médios, boa colocação, distraída às vezes, esqueceu-se de entrar no andante arioso do recitativo/coral nº3, deveria entrar com um ré cá em baixo (primeira oitava) na palavra "und" e nada, deve ser uma nota demasiado grave para sua excelência a diva, só entrou no segundo tempo do compasso seguinte. Esqueceu-se de uns trilos: exemplo "erbarme" no andante precedente. Não sei se por falta de capacidades interpretativas, se por falta de capacidade de articulação. Por outro lado tem timbre de apito nos agudos, quando começa a subir não canta: apita. É uma questão de ouvido, mas eu entendo que a voz desta cantora é pobre em harmónicos. Schöll fez uma leitura das notas e não uma interpretação.

O baixo, Rodolf Rosen, interessante vocalmente tem uma notória falta de capacidade de articulação e muito pouca agilidade, a primeira ária de baixo teve figuras completamente obliteradas. O compasso 27 dessa ária é exemplo: "erdem pracht", um grupo de semicolcheias (mi fá# sol fá# mi ré) do qual só se ouviram duas o mi e o ré descendente. Mas neste caso os exemplos sucederam a um ritmo algo irritante. Boa voz, desafinou apenas uma vez, num ré agudo (para baixo), mas com muita falta de agilidade, muita música ficou na pauta por cantar. Foi melhorando para o final.

O tenor, Yves Saelens, aguentou-se bem, umas desafinações mínimas nas notas mais agudas, mas três dias para preparar o papel é muito pouco tempo, atendendo ao facto, teve nota positiva.

O coro esteve bem, apenas a pesada batuta de Corboz fez com que se parecesse a oratória de Natal mais com uma procissão fúnebre do que a celebração de alegria que se pretendia.

Os solistas da orquestra estiveram regulares.
Ridículo, para não dizer pior, o uso de um orgão positivo com uma sonoridade ínfima. Bach usava um sonoríssimo orgão de igreja, um orgão alemão de tubos em diálogo com uma orquestra pequena com instrumentos de sonoridade muito mais reduzida que os actuais e um coro de 12 a 16 vozes, onde se incluíam os solistas. Continuar a insistir hoje num positivo, quando a orquestra é disparatadamente grande e o coro gigante é quase uma anedota musical. Não se ouve, não tem presença, não é fidedigno.

A minha conclusão é que houve falta de tempo de ensaio com o maestro principal, só isso justifica uma interpretação defensiva lenta e desapaixonada. Ouvi orquestras convencionais com instrumentos modernos, até reunidas apenas para alguns concertos com músicos disponíveis, e coros luteranos, em Augsburg, por exemplo. Ouvi cantatas de Bach com um prazer uma paixão que me tocaram profundamente, quase amadores é certo, mas com amor, com alegria, com calor. Com erros de interpretação, mas com paixão. Esse foi o pior aspecto da interpretação de Corboz na Gulbenkian, quinta feira passada, a monotonia de uma leitura à procura de não errar e de dar as notas todas.

Pelo apontado creio que demonstrei claramente porque motivo achei a interpretação muito má. Creio também que fundamentei a crítica e deixei pistas, quer para correcções no futuro, quer para maior atenção dos responsáveis da Gulbenkian, que ao contrário de outros, sabem ouvir e sabem reconhecer a crítica fundamentada e séria.


P.S. Autocrítica: no meu breve comentário anterior, disse que a Gulbenkian contratou "os piores solistas possíveis", esta frase é um exagero, fruto de uma escrita demasiado em cima do acontecimento e influenciada pela péssima prestação do contratenor e pelo baixo nível interpretativo da direcção musical. O Baixo não era péssimo e há pior, o soprano era razoável e se continuar a trabalhar e a aprender, se o timbre apitado se for perdendo, poderá vir a ser um bom soprano de nível mundial, há muito pior, o tenor foi muito agradável e há muito pior. De modo que três dos solistas não foram os piores possíveis. Deixo aqui o meu pedido de desculpa a algum leitor, que tenha lido o que eu escrevo, pela generalização abusiva.

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