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29.11.03

Um Wagner digno - Concerto na culturgest - parte I 

Sexta feira, dia 28 de Novembro de 2003, 21h30m. Estavam presentes, primeiro ministro e jarra, ministro da cultura, secretário de estado da cultura, adjuntos, directores da culturgest e do S. Carlos, os melómanos, os músicos que queriam ouvir, os jornalistas, os críticos, jovens compositores.
Uma palavra para Vasco Barbosa: o verdadeiro concertino da orquestra sinfónica nacional durante anos, já reformado, estava sentado entre os primeiros violinos, não sabemos porque motivo, mas é de saudar a presença do Músico e Mestre na orquestra onde passou grande parte da sua vida. Não quis faltar ao chamamento de Wagner e a direcção aceitou, acho notável, acho mesmo comovente ver o grande senhor regressar ao lugar que nunca deixou nos corações de quem ama a música e onde estará sempre.
Enfim, ninguém quis faltar.
Analisemos o concerto: Henri Duparc L'invitation au Voyage e La vie antérieure. Solista Mezzo Dagmar Peckova.
Interpretação muito fria, distante, orquestra muito a medo a falhar entradas que saíam a medo, sem os instrumentos todos. Solista com voz fraca, débil, sem emissão constante, graves muito maus a desafinarem e sem a menor pujança. Algum lirismo, a segunda obra saiu melhor. Não terá aquecido convenientemente a voz, não preparou a obra convenientemente, ou a cabeça posta no Wagner que se seguia estragou a concentração de músicos e solista? A preparação do Tristan fez dedicar menos tempo a Duparc? O resultado saiu frouxo. Estas obras de Duparc, de um intimismo sombrio, de uma cor deslumbrante nos tons escuros teve apenas a defesa de os naipes graves de cordas estarem a um nível nunca antes visto: contrabaixos e violoncelos (estes falharam um pouco num capítulo que analisarei mais à frente) estão a tocar superlativamente bem como naipes. Wallenstein e Irene Lima de parabéns pelo trabalho excelente. As violas têm subido e contribuem para a coesão do conjunto. O primeiro viola tem mostrado um nível muito elevado. Esta característica da orquestra fez defender bem quer as obras de Duparc quer disfarçar um pouco as carências no compositor seguinte: Debussy.


Já o Prélude à l'Après-midi d'um faune de Claude Debussy saiu um tudo nada melhor no capítulo segurança, mas com pouca cor, também muito a medo, arrastado, os primeiros e segundos violinos pareciam 200 em vez de soarem com a coesão de um instrumento. Capítulo "desafinação" (já nem escrevo "capítulo afinação") saiu muito fraco, no meio da transparência de Debussy a desafinação nos primeiros violinos é uma catástrofe. O "concertino" ou anda a dormir ou não tem ouvido, uma vez que não trabalha este gravíssimo mal crónico do seu naipe. Que ponha os olhos e os ouvidos na orquestra Gulbenkian, mas o que é certo é que nunca vi o concertino DeVries em qualquer outro concerto que não da Sinfónica Portuguesa. Talvez vá, mas nunca o vi, e é uma crítica directa que faço aos músicos portugueses: raros são os que vão a concertos para ouvir os colegas, faz bem escutar o trabalho dos outros. Gostei das harpas, os sopros seguraram bem a obra dos ataques do maestro, algo incaracterístico em Debussy, tempos arrastados e falta de cor orquestral, falta de qualidade sonora dos violinos, afinação deficiente. Quase que diria que o maestro comunicou falta de amor por Debussy e pela sua paixão arrebatada e sensual. Se o prelúdio pretendia ser uma orgia sensual de sons para um fauno lascivo o resultado saiu um fauno gordito, com pouca capacidade de se movimentar, acabadito de comer uma feijoada bem regada com vinho húngaro (nacionalidade do maestro Pésko) e que se deixou dormir a ressonar à sombra, não de um carvalho mitológico, mas de uma azinheira de sombra convidativa no sol de Agosto no Alentejo. Querem melhor que isto? Talvez o Debussy quisesse um pouco mais, mas é a maneira húngara/portuguesa de fazer a coisa.

Um Wagner digno - Concerto na culturgest - parte II

Vamos agora a Wagner, solistas:
Robert Gambill, tenor heróico, Tristan
Nadine Secunde, soprano dramático, Isolde
Dagmar Peckova, mezzo soprano, Brängane.
Peter Weber, baixo, Kurwenal
Christer Bladin, tenor, jovem marinheiro.

Se eu tivesse escutado apenas o prelúdio e a entrada do jovem marinheiro tinha ficado com a convicção que o primeiro acto de Acção em Música de Richard Wagner: Tristan und Isolde, teria sido uma absoluta desgraça.
O prelúdio arrastadíssimo, sem paixão, sem pathos, sem vibrato, sem chama, as notas saíam, as entradas sucediam-se a um ritmo arrastado, mas saía tudo sem convicção. Melhor a afinação dos naipes de cordas nos agudos, com excepção para os violoncelos, sempre tão bem, que, paradoxalmente, se espalharam ao comprido neste momento inicial e tão definidor desta obra de Wagner, os agudos dos cellos sairam desastrosos, pareciam gatos a miar ao mesmo tempo que arranhavam vidraças, felizmente melhorou na sequência.
O jovem marinheiro cantou por detrás da orquestra, a seco, e entrou mal, péssimo, gritado, desafinado, uma voz feia esganiçada, sem colocação, fria talvez. Muito mau, espero que melhore hoje, porque na sua segunda intervenção saiu muito melhor e mostrou ter potencial. A entrada é muito exposta e Wagner não poupou o tenor que tem este pequeno-grande papel. Cabe a este tenor dar a primeira imagem canora numa obra de uma dificuldade extrema para o canto, como é o Tristan. O resultado, como cartão de visita, não podia ser pior.
Entra então Nadine Secunde no papel de Isolde, também com voz fria e cansada, timbre feio, e eu a pensar: onde é que eu vim parar, que pesadelo é este? Mas algo era diferente, a sua presença, o aquecimento progressivo da voz, a sua inteligência dramática, o seu representar de forma notável o sofrimento e o sarcasmo quando enfrenta Tristan, o segurar gradual do papel. A paixão e o gosto pela música, o dramatismo, o colorir do registo médio que se foi enchendo de som e de harmónicos quentes e pujantes, o ataque preparado, ou não, das notas agudas, com inteligência e sobretudo: com uma colocação na afinação exacta fizeram esquecer algum cansaço na voz, algum grão, algum fugir da colocação, não sei exactamente porquê: constipação? Ensaios a mais? Disseram-me que na véspera, ensaio geral, esse cansaço não se tinha notado. Pena não poder ir hoje ver o segundo dia, tenho Brendel na Gulbenkian, porque Nadine Secunde é uma senhora soprano dramático. Coisa quase impossível nos dias que correm. Inteligência e capacidade interpretativa, intuição musical para escapar às entradas algo vagas de Pésko.

Sobre a Mezzo, já ouvida em Duparc, pouco a dizer, correspondeu, mas veremos mais e melhor no segundo acto, onde tem muito mais música para dar, próxima semana.

O tenor: Gambill, já o tinha ouvido anteriormente, nada a dizer, ou tudo a dizer. O único do mundo neste papel... hoje. Impressionou pela potência, pelo corpo da voz, espessa abaritonada no registo médio, cristalina no agudo. "Presente" disse Gambill. E foi presente neste primeiro acto. Boa interpretação, altivo no momento certo, apaixonado no instante do amor e confuso quando lhe apresentam a realidade. Veremos o que nos reserva a próxima semana. Mas tudo aponta para uma viagem pelo Tristan, ao longo de três semanas, como fascinante. Estes intérpretes fazem ganhar claramente a aposta.




O baixo Weber em Kurwenal foi impressivo, voz altiva, profunda, sonora, convincente é a palavra. Mais para a frente faremos maior apreciação.

Comentário aos aspectos técnicos do maestro Pésko, a concepção global será vista mais à frente. Este começou mal, apagado, sem motivar, complacente, fossilizado. O pior temia-se, mas, com o evoluir do acção, com a envolvência da música a tornar-se mais clara, com o dissipar de algum nervosismo, com o canto ilustre de Secunde a dominar o acto, a orquestra começou a deixar de tocar a medo e desinibir-se. O maestro também, sem gestualidade excessiva, foi conseguindo mostrar porque motivo até tem o currículo que tem, foi-se libertando da complacência e mostrou serviço competente. Os ensaios definem quase tudo, mas o concerto, com os aspectos únicos que contém, pode transformar o trabalho prévio, quer no caminho da transcendência quer no caminho do descabalabro. Pésko tem andado pelas meias tintas. Ontem na culturgest mostrou lampejos de brilho e gostei. Os cantores também contribuiram. Pede-se mais rigor nas entradas ao maestro. Pontos altos da orquestra: sopros com clarinetes e oboés em grande plano (espera-se um solo deslumbrante de corne inglês mais à frente, estou de ouvidos à escuta, toda a gente espera esse solo mágico de Wagner como se espera o Messias), cordas graves, viola, violoncelo. Os trompetes responderam com categoria ao desafio (ao contrário de outros...). Os tímpanos foram percutidos com maestria por uma vigorosa e musical Elisabeth Davis a um plano perfeito.

O coro masculino dos marinheiros foi uma catástrofe horrenda, uma gritaria de marinheiros bêbedos não faria pior numa tasca qualquer de alcântara ou do Cais do Sodré, cantaram por detrás do palco. Mas eles acham que sabem cantar? Ainda bem que não apareceram na boca de cena para agradecer (o quê?), seria demasiada falta de vergonha. E andamos nós todos a pagar esta gente dos nossos impostos, é ofensivo.

Uma boa interpretação, uma noite ganha, um Wagner dignificado neste ensaio com público.

Wagner em concerto? Ou a revogação de uma ideia de obra total.

Tristan und Isolde em concerto em lugar de em Acção. Wagner quando criou as suas últimas obras, dramas musicais tinha elaborado uma profunda teoria sobre a "arte total" que a Acção em música supunha:
Teatro, música, cenografia, pintura, arquitectura, todos estes elementos se conjungam para compor a obra de arte total. A realidade do drama não admite a presença da orquestra como elemento visível, mesmo no fosso esta é demasiado impositiva, a orquestra deve estar escondida debaixo do palco. O discurso melódico é infinito, acabem-se com fantochadas herdades da ópera italiana, com árias para os cantores levarem palmas no fim.

Em Wagner a música só acaba quando acaba a Acção, no final de cada acto. Tudo decorre com a fluidez do tempo da tragédia, sem interrupções sem o incómodo de um público de burgueses imbecis que aplaude cantores vaidosos e igualmente imbecis. O que conta é o tempo do drama e a música, o que vale aqui é a perturbação dos sentidos pela música e por uma tensão tremenda que Wagner coloca sobre o espectador, criando clímaxes e anti clímaxes, cromatizando a orquestra com modulações contínuas e com acordes de grande tensão sem resolução, com tempos complexos, com texturas densas em que a fonte do som é perturbante. Mistura estes conceitos com algumas ajudas que vai dando ao espectador, e que servem também para unificar e, diria eu, axiomatizar o drama, falo dos motivos condutores, que se repetem. Na Tetralogia, exemplo extremo, estes motivos acompanham-nos da primeira à última obra, quatro dramas. Notung a espada, o amor, a angústia o sofrimento de um deus, um dos mais belos e atormentados motivos que algum compositor escreveu, o fogo, é imensa a lista. Esses leifmotifs dão, dentro da angústia da descoberta e da insegurança, uma nota de conforto e de reconhecimento.
Nada nestas teorias se compadece com uma execução pública em concerto, com uma orquestra impositiva e um maestro deselegante, como o caso destes concertos do Teatro Nacional de S. Carlos. Qualquer encenação com a orquestra metida no fosso, e os cantores em palco, só com luzes e vestidos de branco e preto sairia muitíssimo melhor, e tão barata, como os concertos a que assistimos. O coro poderia continuar escondido por detrás do palco, para não se ver sequer a cara de quem canta tão mal (até se poderia passar uma versão gravada por um coro bom das partes corais, o que não estragaria tanto a obra).
Tristan é uma obra depuradíssima, ascética, a orquestra não tem de ser gigantesca, nem sequer tubas vagnerianas inclui. O único adereço do primeiro acto é um copo! Porque motivo não se seguiu o ideal de Wagner de fazer obra teatral e nos pespegaram com uma orquestra inteira em palco? Sem Acção.
Só admito este conceito por uma razão: por se tratar de um ensaio com público para um trabalho futuro, um trabalho de preparação. Senão seria escândaloso e retrógrado, renegar tudo o que Wagner disse e escreveu para apresentar o Tristan como definitivo nesta versão. E aqui vamos de novo ao maestro e a falta de concepção que revelou.
Pésko e a sua falta de concepção global. Wagner não pode ser executado como quem está a ler à primeira vista, é necessária uma concepção, uma tensão, uma ideia condutora. O que aconteceu na sexta feira foi uma leitura correcta, uma leitura em que se poliram aspectos técnicos, em que se a música foi saindo, mais ou menos como foi escrita, mas sem ideia, sem plano. A tensão não existiu em termos globais. Em momentos, em lampejos, a coisa saiu muito bem, mas o conjunto da leitura de Pésko foi fraco porque sem ideia e sem coesão. Era o primeiro acto, não quero falar cedo demais, espero os outros para poder ser preciso. Mas a tensão infinita da obra precisa de ser reforçada.

Um bom ensaio com público.


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