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14.11.03

Um simples rosto 


Lisboa, orquestra Gulbenkian, piano Radu Lupu, maestro Lawrence Foster. Schumann e Brahms.

Uma foto de um homem simples, um rosto como outro qualquer, uma vida na música. Trabalho, seriedade. Será que transparecem na imagem? Sem gravata, sem laço, uma camisa simples aberta no pescoço. Um olhar bom: Lawrence Foster.

Competência na direcção, trabalho de ensaio, cuidado, preparação. Não é vistoso em concerto, ri-se, emenda excessos, dá instruções, puxa pelo som dos naipes, manda calar os que querem protagonismo excessivo. Antecipa em muito o gesto da entrada, os músicos já o conhecem e dão o desconto de um tempo demasiado prematuro. Não lhe falta entrega, nem chama.

A prova? A orquestra Gulbenkian da qual é um verdadeiro titular, com a qual trabalha assiduamente, está bem, respira saúde e coesão, toca com alegria e entrega, acompanha bem Radu Lupu no concerto em Lá de Schumann e, sobretudo, dá-nos uma sonoridade muito bela em Brahms, tão difícil de obter. Uma sonoridade encorpada, untuosa, cordas densas sem serem arrastadas, madeiras em timbres mágicos incorporados na sonoridade adulta, coesa, de uma orquestra madura e em forma. A terceira sinfonia do mestre de Hamburgo: um deslumbramento, uma onda sonora de êxtase.

No concerto desta tarde pude enfim descansar. Em concerto tenho o hábito de estar muito atento aos sons, à desafinação, às entradas em falso, aos desacertos que me vão sobressaltando, chamando atenção para falta de trabalho, desrespeito pelos compositores e obras, soberba face ao público. Não tiro prazer da música, dirão. Claro que tiro, mas quando o trabalho musical é mau o prazer não pode ser muito grande. Neste concerto nada disso aconteceu, deixei-me levar pela maravilhamento, repousei enfim, pude embarcar no encantamento de um génio: Brahms. Para além de nada haver a apontar do ponto de vista técnico, tivemos uma bela interpretação, tempos bem escolhidos, romantismo e dramatismo contidos no limite da subtileza e de uma elegância máscula, desajeitada mas encantatória, tão necessária neste compositor. A entrega dos músicos, a clareza das vozes, a beleza dos timbres individuais e as massas equilibradas no conjunto. Uma noite de paz, de amor pela música, que culminou com o sonho do terceiro andamento da terceira sinfonia de Brahms. Envolto em nevoeiro, esquecido da sala, do público que me envolvia, levitei em ondas de prazer escutando alguma da música mais bela que o Homem foi capaz de produzir.
Brilhante o trabalho deste maestro simples, um rosto vulgar numa fotografia.

Radu Lupu tocou com correcção, mas não me convenceu, tal como não me tinha convencido antes, no recital a solo. Sobre este pianista já foi tudo dito em texto anterior. Notou-se sobretudo falta de contraste dramático nas partes mais enérgicas do concerto de Schumann. De facto o trunfo deste concerto foi o maestro e a orquestra da Fundação Calouste Gulbenkian.
CM

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