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28.11.03

Tristan und Isolde - Jenseits von gut und böse 

O amor, a redenção, a cupidez, a inveja, a glória, a não existência de Deus ex Machina quando nasce o demónio ex machina, as convenções ou a sua trangressão, o imaterial, a poesia, o trágico, a moral ou a sua ausência. Para o comum dos mortais Wagner não representa nada disto.

O ser vulgar não se dá ao trabalho de ler, de ouvir, tem a imagem feita, óperas longas, música pesada, a facilidade da digestão de um Mozart não se encontra em Wagner, a rudimentar linguagem do ruído musical de hoje, primitivo e analfabeto, bestializou, facilitou. Hoje é mais fácil encontrar alguém que diga que detesta Wagner do que alguém que ame a música deste compositor para além de todos os limites, incondicionalmente, absolutamente. É fácil detestar: Hitler, anti-semitismo, racismo primitivo, traições pessoais e ideológicas. Sim é confortável dizer que se detesta Wagner. É simples dizer que o homem não se pode separar da obra, a posição do acomodado, do escravo, como diria Nietsche, que também passou do amor ao ódio, relativamente a Richard Wagner.

E Wagner não conhece limites, a sua música e a sua poesia atingem paroxismos em que ficar indiferente é impossível.

Escuto neste momento Wagner por Birgit Nilsson e Windgassen dirigidos por Karl Böhm num Bayreuther Festpiele de 1966. E não, não consigo ficar indiferente, para além de todo o bem e de todo o mal, Wagner é. A clareza da língua e do texto é total, não encontramos quartetos ou trios ou duetos em que o poema se mistura perdendo-se integibilidade. Escuto o alemão sonoro, rutilante e musical de Wagner, sinto a Cornualha num tempo mítico algures na idade média, uma Cornualha muito germânica (demasiado). Arrepio-me com os acordes transcendentes, com a harmonia tensa, com a paleta mágica dos timbres, com os oboés que gritam a alma atormentada de dois amantes e a traição da amizade, para além do bem e do mal, tudo está dito num instante onírico de um segundo e percebe-se (julgo eu, pobre louco) toda a obra. Não é uma ópera, não é um drama, é acção em música, como disse Wagner.

Não, hoje já não há tempo para escutar Wagner, tudo voa, as semanas, os dias, as horas, os minutos. A morte chega depressa demais, Wagner foi um dos últimos representantes de um tempo que não existe, um tempo em que havia tempo.

Será que hoje à noite, 21h30m, a magia será atingida na Culturgest? Será que o primeiro acto de Tristan und Isolde se poderá escutar com qualidade? Dirigida por um Soltan Pésko que se tem apresentado fossilizado e complacente? Wagner mal dirigida, mal interpretado é uma ofensa demasiado grande para se poder suportar. Mas tenho esperança, espero que se consiga ouvir, que se consiga amar...

Haverá tempo para o tempo de Wagner?



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