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11.11.03

Radu Lupu 


Um concerto de múltiplas sensações ontem na Gulbenkian, não deixou indiferentes os apreciadores de boa música. Um concerto de sonoridades, de momentos de êxtase, de construções sonoras e de efeitos. Uma concepção que elabora e reinventa as obras a partir do conceito microscópico da produção do som, a construção da sonoridade, através do toque, da percursão muito contida dos acordes e do uso dos pedais, esta a base de Radu Lupu. Nem toda a gente aprecia, mas não se fica indiferente.
Um Schumman muito peculiar, suave, reinventado num Arabesque em dó maior, opus 18, e numa Kreiseleriana, opus 16, esta em tudo menos convencional. Foi discreta, subtil, diferente do "original" ou do habitual, sem fortíssimos, com um ataque muito delicado, com uma textura densa, em que os pedais foram empregues sem contemplações, poética, digamos que pouco máscula, pouco tenebrosa, como a obra original talvez peça. Creio que Radu Lupu viu a Kresleriana pelos olhos de Clara Wieck, que viria a ser sua esposa, a quem dedicou a obra a par de Chopin, e não pelos olhos de Kreisler, o terrífico personagem que atormenta e agita nos contos de Hoffmann. A visão de Schumann pela poética reinvenção da obra tocou-me mas não me convenceu. Uma técnica soberba, gostei. O último andamento deixou-me um pouco desiludido: demasiado rubato nos tempos de ataque, prejudicou e tirou clareza às passagens muito rápidas deste andamento.

Já o Schubert, sonata D.960 seria uma obra mais problemática, não se sabia se Schubert resistiria a uma reinvenção da obra, como Schumann resistiu. A sonata D.960 tem uma poética delicadíssima, mas também não deixa de ser máscula. Radu Lupu não correspondeu por inteiro, no meu entender, à linguagem schubertiana.
Os andamentos centrais resultaram melhor, o líndíssimo andante sostenuto e o Scherzo foram quase perfeitos. O andante pelo toque delicado e poético de Radu Lupu, o Scherzo por uma grande limpidez e clareza técnica, com um enorme equilíbrio dinâmico (para os menos entendidos: a dinâmica é a uma medida subjectiva da potência sonora). O primeiro andamento Molto moderato teve um tempo demasiado rápido, e foi demasiado equilibrado em termos dinâmicos. O contraste foi pouco marcado, no entanto os repetidos trilos no grave resultaram muito belos pela transparência do toque de Lupu.
O último andamento Finale: allegro ma non tropo, foi para mim mais fraco. O rubato excessivo, alguma irrequitude ritmica, a falta de contraste entre as diferentes secções, umas mais viris, outras mais sonhadoras, enfraqueceram o último andamento, que não deixou de ter aspectos sonoros de uma grande beleza. Notou-se um uso e abuso do pedal da surdina, o que deu uma uniformidade demasiado planar ao andamento. Curiosamente dois acordes em fortíssimo resultaram muito agressivos e martelados, único momento em que no recital se notou esta agressividade, contraditório, talvez aqui o artista tenha evidenciado alguma falta de domínio, mas nunca se pode saber o que um intérprete tão idiossincrático pensa ou idealiza.

Um excelente concerto para alguns, péssimo para outros. Para mim o melhor foi a sensibilidade do pianista e a técnica quase irrepreensível, tudo em benefício de uma produção do som muito bela. Não me arrependi de ter ido à Gulbenkian ontem, mas não foi a celebração memorável que alguns pretendiam. Um concerto para todas as opiniões, eu fico-me pelo bom concerto. Mas é assim a arte, ninguém fica indiferente a Radu Lupu. Veremos agora os concertos de quinta e sexta com orquestra.

CM

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