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9.11.03

Último disco da Alpha - Gustav Leonhardt 


Um dia de Inverno, chove lá fora, nas colunas um disco que me leva, numa viagem pelo tempo, a uma Alemanha e a uma Inglaterra do passado. Evocações distantes e longínquas do Sol de Itália, feitas pelos compositores do Norte que descobriram a música do mediterrâneo, compondo peças em que transparece essa sedução. O fio condutor deste disco, a Itália! Palavras de Leonhardt.
É tempo de "Caçadores na Neve", tempo de neves sob céus plúmbeos. Neves sujas pelas patas dos cavalos e dos animais, com o sol fugaz, reflexo do Sul, algures, distante e efémero, tão efémero como um tempo que não regressa senão pelo génio de Gustav Leonhardt num claviorganum algo estranho, mas capaz de efeitos espantosos...
Notas sustentadas num cravo? Senão é vero assim parece. O dedilhado e a sustentação, o ataque, o transitório que no cravo é o todo mas que se transforma no permanente do orgão. O mesmo absoluto eterno que, no orgão, faz sofrer os foleiros que nunca parando de dar ao fole continuam na sua faina eterna sem redenção pelo som que não são capazes de escutar por entre o seu cansaço...

Etiqueta: Alpha
Gustav Leonhardt, claviorganum e cravo

No claviorganum:
Hans Leo Hassler (1564-1612) : Canzon
Nicholas Strogers (Actif 1560-1575) : Fantasia
William Byrd (v.1542-1623) : Corranto - Queens Alman - Ground
John Bull (1563-1628) : Bull’s Goodnight
Orlando Gibbons (1583-1625) : Fantasia II
Johann Pachelbel (1686-1764) : Fantasia - Toccata en sol maior
Johann Christoph Bach (1642-1703) : Praeludium
Christian Ritter (1650-1725) : Allemanda in discessum Caroli XI regis Sueciae

No cravo:
Johann Sebastian Bach (1685-1750) : Fantasia en dó menor BWV 1121 - Aria variata BWV 989 - Partitas sobre “O Gott, du frommer Gott” BWV 767

Gustav Leonhardt, claviorganum de Matthias Griewisch (2001) e cravo alemão de Anthony Sidey (1995)





Um claviorganum, ou cravo e orgão positivo, reunidos no mesmo instrumento, tocado pelos mesmos teclados. Obras de virginalistas ingleses, de compositores alemães, incluindo um primo em segundo grau de Johann Sebastian Bach, primo direito do pai de Bach, segundo creio, e do próprio Bach, este último num cravo alemão convencional. Gravação de Fevereiro de 2003.


Um instrumento original do século XVII, exposto no museu de Viena

Um instrumento semelhante ao usado por Leonhardt

Estou a ouvir o disco com toda a atenção, noto que não recebeu o Diapason d'or, o que me leva a desconfiar, apressadamente, da classificação que a revista francesa dá aos discos, provavelmente por não ter um compositor francês.
Existem muitos diapason d'or atribuídos a discos com um compositor francês de uma escola qualquer, descoberto tardiamente e que não presta para nada, e que os senhores da Diapason põem nos píncaros, com encómios desmesurados, a la française, e bla bla bla e bouef e bien sur e etc...
O que é segura é que a gravação me parece deslumbrante a todos os títulos, incluindo pela descoberta. Gosto sobretudo da última obra de Bach. Uma suavidade enorme, num cravo com uma ressonância invulgarmente longa. Leonhardt toca sem qualquer agressividade, surgem cambiantes sonoros de uma expressividade inaudita, Leonhardt cria e recria, tem uma subtileza indizível, faz retardandos em alguns acordes criando tensões e imagens sonoras, no fundo são efeitos psicológicos que substituem uma dinâmica quase inexistente no instrumento. Razão pura ou emoção pura? Não sei, nem me interessa. Superlativo.


Farei mais comentários aqui e colocarei exemplos sonoros...



CM

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