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1.11.03

A inversão total - Josep Caballé-Domenech 



José Caballé-Domenech


São Luiz 31 de Outubro de 2003

Uma inversão total de todo o ciclo "Cinco Pianistas para cinco concertos de Beethoven". Enquanto anteriormente tinhamos tido pianistas em plano superior ao maestro e, por consequência, à orquestra, tivemos ontem um Pedro Burmester enferrujado, sem toque, com fortíssimos agressivos e muitíssimo martelados, em sonoridade violentas e desagradáveis, desequilibrado, tivemos uma orquestra em plano elevado e um coro, antes péssimo, a subir de nível.

Falemos primeiro do concerto de Beethoven em mi bemol maior opus 73. Pedro Burmester nunca foi um arquitecto, sempre foi um intuitivo, mas aliava essa intuição a uma técnica muito cuidada e a trabalho prévio. Nunca foi um homem de obras completas, mas de sucessões de belos momentos. O que se perdia em concepção das obras, que nunca teve, ganhava-se em empatia, em pathos, em energia. Mas Pedro Burmester, ontem, não conseguiu transmitir a sua energia, teve momentos muito altos em que relembrou velhos tempos, com sonoridades expressivas e recortes técnicos muito elevados, sobretudo nos finais dos andamentos rápidos do 5º concerto de Beethoven em que se uniu muitíssimo bem com a orquestra, ou até na transição do segundo para o terceiro andamento, mas entrou sempre mal nos andamentos, a fluidez do discurso perdeu-se em trapalhices com notas trocadas e passagens mal ligadas que fizeram do quinto concerto uma obra vaga, cheia de solavancos. Ritmicamente esteve bem, entrou a tempo, deu tempos correctos e notou-se comunicação com o maestro e com a orquestra. As partes mais líricas sairam melhor, porque tecnicamente mais fáceis. Foi, no aspecto pianístico um concerto muito mediano, muito abaixo do que Burmester é capaz de fazer. E creio que isto tem uma razão de ser: falta de teclado, falta de estudo. O pianista na fantasia em dó menor para piano coro e orquestra opus 80, esteve autoritário, mas demasiado agressivo, demasiado em fortíssimo e martelando de forma ostensiva o piano. Queria compensar o semi-fracasso do concerto opus 73 com aparato? As notas sairam com menos trapalhada, mas a interpretação foi francamente excessiva, chegou a conseguir estar desequilibrado relativamente às cordas que mesmo em fortíssimo continuavam com uma potência sonora global muito inferior ao do martirizado Stenway. Não gostei.
É caso para dizer, cinicamente, que é uma pena que não tenha sido demitido da Casa da Música, talvez ganhe a cultura nacional, mas o tempo que dedica ao projecto tira-nos o prazer, egoísta, de o ouvir ao seu melhor nível. E ainda por cima nem sequer se lembrou do fosso da orquestra...

Falemos agora do maestro, depois de alguns não maestros e depois de Fernando Eldoro, que já tinha estado melhor e que provou poder fazer mais ainda, surge-nos um excelente maestro. A diferença foi notória no resultado, melhor afinação em todos os naipes, coesão, som, vivacidade, energia. Josep um catalão ainda jovem, preciso no gesto, seguro deu segurança. Sem excessos gésticos, sem exuberâncias desnecessárias. A abertura Leonora nº3 opus 72, saiu em bom plano, entradas certas (atenção violoncelos e contrabaixos nos pizzicatos, têm de ser mais certos), energia e coesão sonora. Os sopros estiveram excelentes a todos os títulos, realço as trompas que seduziram com sonoridades envolventes e poéticas todas os momentos em que intervieram a descoberto. A 1ª flauta esteve também muito bem. Nota positiva para os trompetes que estiveram muito mais integrados no tutti sem rasgar sonoramente, ao contrário do último concerto. Notou-se que foi trabalho de maestro que saiu mal no concerto anterior, por oposição a este.

Algumas, pequenas, falhas nos violinos, sobretudo na precisão dos ataques e em alguns detalhes de afinação têm de ser corrigidos pelo concertino, que teima em entrar depois de toda a gente para levar com umas palmas de circunstância. Ainda se fosse um bom concertino e a orquestra e os violinos andassem perfeitos, mas evidenciando muitas fragilidades, essa vaidade pateta é apenas ridícula.

Nota final para o coro: na fantasia surgiu razoável, a sua actuação foi breve, mas depois do desastre do último concerto em S. Luiz podia-se esperar tudo. Não foi uma maravilha, não foi perfeito em termos de afinação, não foi brilhante em termos de beleza de vozes, continua a ouvir-se aguma berraria que alguns cantores teimam em prosseguir. Mas foi decente, parece que trabalharam, a obra, que não é difícil, não saiu prejudica ou aviltada, como há duas semanas atrás. Os solistas que sairam do próprio coro não impressionaram, alguns desacertos, pouca sonoridade, mas defenderam a obra de forma simpática. Pediu-se brio profissinal, dignidade, trabalho ao coro e ao maestro. A crítica crucificou o coro, e com razão, todos os jornais foram unânimes em massacrar a vergonha de 17 de Outubro. Aqui no crítico não fomos excepção, no dia seguinte ao concerto de 17 de Outubro estava aqui uma crítica muito forte. A crítica parece ter sido pedagógica, o intolerável tinha-se atingido e estava-se ao nível da ofensa, ofensa ao público, aos compositores, aos maestros convidados, aos solistas, à orquestra, aos contribuintes que lhes pagam o vencimento, aos próprios elementos do coro e maestro. Mas encheram-se de brios e melhoraram, esperemos que continue a subida gradual do coro, nomeadamente em obras de maior dificuldade. Parabéns pelo trabalho. Mas está longe de estar perfeito, pede-se mais.
CM

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