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22.11.03

Hoje 22 de Novembro Coliseu dos Recreios - (Já com notas de audição) 


Concerto pela Sächsische Staatskapelle Dresden sob direcção de

Bernard Haitink.

Béla Bartók - Concerto para Orquestra
Piotr Ilitch Tchaikovsky Sinfonia nº 6 em Si menor, opus 74.

Interpretação:
Bartók: tempos muito arrastados sem que isso contribua para a beleza do som ou maior pathos, pouca surpresa, contrastes pouco vincados, o que foi uma pena porque existem alguns contrastes paradoxais na partitura que não foram levados às últimas consequências, algum lirismo na elegia, muita segurança na direcção, equilíbrio total entre os naipes.

Tchailovsky: tempos muito arrastados no primeiro andamento, lentíssimo. Os restantes andamentos sairam quase perfeitos, dentro do modelo que Haitink preparou. Algumas pequenas falhas nos metais, notas erradas e a sair da afinação, mas praticamente irrelevante para o resultado.

A busca do equilíbrio em Haitink é constante, o som sai misturado com volúpia, dir-se-ia que os sons dos naipes se misturam como os corpos de dois corpos apaixonados em que se deixa de saber onde está o corpo de cada um, mas em que estão, de certeza, os dois presentes. A sonoridade das cordas é envolvente, é mel, é delírio de conjunto, é trabalho de anos e anos. É trabalho de Haitink que se tem dedicado a esta orquestra a tempo, quase, inteiro. As madeiras são delicadas, subtis, sem agressividade, de uma técnica muito apurada e de uma doçura sonora de veludo (primeiro flauta com instrumento de madeira, note-se). A percursão foi irrepreensível e as harpas estiveram muito bem também. Os metais são talvez menos conseguidos, são dominados, creio eu, pela vontade férrea da busca do equilíbrio de Bernard, o que os faz talvez tocar com medo de produzir demasiado volume, o que lhes tira alguma fluência, mas estão também a nível elevado.

Haitink procura o som, procura o belo. O que resulta em vantagens e em inconvenientes, A Staatskapelle Dresden é uma orquestra com pouco "poder de arranque" não entra em contrastes violentos cosigo própria, não atinge o paroxismo do poder sonoro, da força telúrica, de uma Filarmónica de Berlin que, por outro lado também consegue equilíbrios sonoros impressionantes. A orquestra de ontem tocou com uma formação de primeiros violinos a contrabaixos de 16-14-12-10-8, o que é, aliás, normal, se se juntassem mais 2 instrumentistas por naipe creio que poderiam ter aquele poder de arranque que lhe faltou, mantendo sempre o equilíbrio, por permitir mais volume nos sopros e percursão.

Mais um grande concerto neste ciclo da Gulbenkian.

Nota muito negativa para o público e para o pessoal do Coliseu, nem falo nas palmas de ignorantes a seguir ao terceiro andamento da sinfonia em si menor de Tachaikovsky, falo das tosses e dos ruídos, ruídos de funcionários que se mexiam, que abriam e fechavam portas, de senhoras a abrir malas e a abrir embrulhos de rebuçados. Miserável foi o "Bravo" que saudou a orquestra no final da sinfonia de Tchaikovsky, de um alarve qualquer, que nem deixou escutar o silêncio climáxico de um final trágico, de um coração que deixa de bater, e logo as palmas em catadupa ainda com o maestro de batuta no ar! O silêncio mágico, após a morte de Tachaikovsky, só se escutou na imaginação dos que se deixaram envolver pela música e pela sonoridade trágica dos últimos compassos da última sinfonia do mestre russo e ignoraram as palmas.

CM

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