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21.11.03

Concerto na Gulbenkian - Banda da GNR não faria melhor 



Carl Maria von Weber e Richard Strauss (este em 1949)



Concerto hoje na Gulbenkian, Barbara Hendriks cantava 4 últimas canções de Strauss. Abertura Euryanthe de Carl Maria von Weber e segunda sinfonia de Johannes Brahms, em ré maior opus 73, Ion Marin dirigiu.

É um pouco triste ver uma cantora que foi brilhante cantar com a voz já algo cansada as últimas canções de Richard Strauss. É certo que não perdeu o jeito, continua a ter a voz escura que sempre lhe ouvimos. A voz de Hendriks nunca foi muito potente, nem adequada à "substância" desta obra deslumbrante de Strauss, Barbara desiludiu nos graves, curiosamente, onde antes costumava ser perfeita. Chegou a evidenciar algum grão que disfarçou com inteligência. Vibrato e colocação a falharem um pouco. A afinação nem sempre foi conseguida. Interpretou de forma muito igual o texto poético de Hesse e de Eichendorff. Alfred Kraus mostrou como se pode envelhecer cantando sempre de forma soberba, Barbara não consegue repetir o mítico espanhol. Já nos extras (Morgen e espiritual) esteve mais calorosa, talvez com a voz mais quente, mas no espiritual, que arrebatou o público, voltou a mostrar algum cansaço na voz.


Brahms num desenho de Willy von Beckerath

Em Weber a orquestra foi correcta e até entusiasmada com as melodias do fundador da ópera alemã, o acerto e a chama latina da orquestra foram patentes, deu gosto ver os violinos certíssimos nas arcadas nas passagens em semicolcheias da abertura da ópera Euryanthe.
A orquestra acompanhou muito bem Barbara Hendriks em Richard Strauss: sonoridades muito belas, suavidade, textura. Quase perfeita a comunicação no acompanhamento da cantora, Marin mostrou-se seguro neste capítulo onde tem enorme experiência, apesar de ser ainda muito jovem.
Já em Brahms a orquestra não esteve tão bem como na semana passada, o maestro romeno mostrou não ter o domínio e o conhecimento do material humano que Foster tem, não conseguiu equilíbrios, não doseou os volumes, não exigiu mais massa nos violoncelos e contrabaixos. Exagerou em alguma gestualidade irrelevante e ineficaz, mas esteve bem em geral. A orquestra Gulbenkian tem tocado com alguns acrescentos nos metais, músicos que não pertencem aos quadros da orquestra e ressentiu-se disso mesmo: excessivo peso da fanfarra, sobretudo nos graves, o naipe dos trombones e tuba estiveram demasiado pujantes para a orquestra Gulbenkian, cinco contrabaixos e sete violoncelos são um número demasiado reduzido para a orquestração da segunda de Brahms, não compreendo como se pode arriscar a tocar uma sinfonia com o peso metálico da segunda, que no primeiro e quarto andamentos requerem um equilíbrio de massas muito rigoroso entre as cordas, as madeiras e os metais. É evidente que a falta não é dos músicos, se tocassem com menos volume sonoro a obra sairia sem a força que se lhe pede. Mas sem o número mínimo de cordas o desequilíbrio seria forçoso, e assim aconteceu, parecia a banda sinfónica da GNR (excelente agrupamento, mas não em Brahms!). O som era dominado pelos naipes dos sopros e faltou a untuosidade dos graves que deve ser dado pelas cordas. Uma pena. Responsabilidade de quem programa esta sinfonia sem dotar a orquestra de meios para a sua execução. Erro de palmatória e condenável, a emendar no futuro, ou então que se fiquem pelo Haydn e Mozart (como era dantes) ou pelas sinfonias românticas com menos exigências ao nível da massa orquestral. Mas sem violoncelos e sem contrabaixos está fora de questão a segunda de Brahms. A terceira de Brahms que ouvimos na semana passada suporta melhor esta carência, por ser mais lírica e por ter uma orquestração menos exigente em termos de metais e, pormenor imporante, foi dirigida por um maestro titular que conhece bem o som que sai da orquestra e como procurar melhor o equilíbrio, mesmo com o custo de reduzir a energia da obra, impondo um volume sonoro mais reduzido aos metais.
Nos andamentos centrais da sinfonia nº 2 de Brahms gostámos da orquestra Gulbenkian e da orientação do maestro (se esquecermos um ou outro pequeno desacerto ritmico). A orquestra Gulbenkian tem ainda outra virtude, prova que não é impossível uma orquestra portuguesa tocar afinada, sobretudo nos violinos. Mas esta orquestra tem um concertino, o que é de louvar, tem também um maestro titular à séria. Notam-se os frutos do trabalho.

Orquestra Gulbenkian

Um concerto que prometia muitíssimo, mas que se revelou apenas agradável.

CM

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