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29.10.03

Os burocratas e a fantochada 

Obtive um "comunicado" do IPPAR, que transcrevo na íntegra. Lamentável o branqueamento do que se passou no Panteão. Realmente parece que a razão foi o dinheiro, o "el contado". As virtudes do mercado e do liberalismo a funcionar, sem decência, sem noção dos limites e do respeito que um templo e os nossos mortos representam. Uma mera questão de opinião de uma direcção qualquer que nem os nomes coloca no final do "comunicado" como assinatura. Um descartar no serviço proponente, no critério e no procedimento. As desculpas esfarrapadas de qualquer burocrata acéfalo que sacode responsabilidades, estamos habituados.

Felizmente são conhecidos o Arqtº João Belo Rodeia é o presidente e a Drª Rosa Amora a vice. Os responsáveis pelo comunicado. Serão também os responsáveis pela ofensa?

Os nossos mortos, os nossos templos, prostitutas ao serviço de uma qualquer empresa de livros. Fumos azuis e escola de bruxaria no Panteão Nacional, socialite e túmulos tapados com panos pretos! Tudo está bem, desde que fora da hora de visitas! Dignidade do local? Parece que a dignidade do local se coaduna com a farsa, com a ignomínia da palhaçada. E vivam as cabeças pensantes da direcção do IPPAR. Sem vergonha, sem pudor, nem sequer têm a noção dos limites e da decência. Transcrevo, de seguida e na íntegra, o "comunicado" para que se possa avaliar da fuga para a frente desta gente.
A mais elementar noção de boa educação pressupõe o respeito pelos mortos e pelos locais, pelos templos, pelas sacralidades, pelas famílias dos defuntos, pela honra colectiva de um povo que passa pelo respeito que é devido aos mortos e aos locais sagrados. Pela memória.
CM


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COMUNICADO

Em relação a notícias e comentários sobre o Panteão Nacional veiculados pela comunicação social, a Direcção do IPPAR informa e esclarece o seguinte:
1.
Desde que assumiu funções, a actual Direcção não alterou as condições, critérios e procedimentos no que diz respeito a autorização de eventos nos vários serviços dependentes do IPPAR, dando, em regra, continuidade ao parecer das direcções desses serviços e do Departamento de Coordenação respectivo.
2.
Esses pareceres são devidamente balizados a partir dos aspectos positivos e negativos decorrentes de cada solicitação, em função de cada edifício, na certeza de que o Património Arquitectónico apenas tem sentido como bem-comum e entidade viva, usufruída pelos cidadãos, nomeadamente os mais jovens. De igual modo, tal como em todos os países congéneres da União Europeia, o Património Arquitectónico pode e deve gerar receitas próprias, ampliando os meios disponíveis para a conservação e valorização desse património.

3.
O lançamento editorial que decorreu em Santa Engrácia é apenas mais um entre os inúmeros lançamentos e outros eventos que tem acontecido nos serviços dependentes do IPPAR, porventura mais mediático do que outros. Cumpriu as condições, critérios e procedimentos em vigor no IPPAR, realizou-se fora das horas de visita, foi condicionado às áreas que não correspondem à função específica de Panteão e foi acompanhado pelo respectivo Serviço de Educação. Permitiu reunir algumas centenas de crianças das escolas de Lisboa, procurando compatibilizar o imaginário infantil presente no livro e a atracção do público juvenil, com o usufruto do espaço arquitectónico do edifício e a divulgação do monumento.
4.
Fossem outras as condições, critérios e procedimentos para situações deste tipo, outra decisão poderia ter sido tomada pelo IPPAR, atendendo ao carácter, dignidade e uso do edifício. Porém, no âmbito lato do Património Arquitectónico, não existem verdades absolutas nesta matéria e, no âmbito estrito do edifício, não parece que tenha sido posta em causa a sua dignidade, à luz de uma perspectiva não-conservadora do Património Arquitectónico e das mais recentes orientações internacionais sobre a matéria.
5.
Apesar disso, decidiu esta Direcção solicitar aos serviços respectivos um memorando sobre todos os espaços disponíveis para realização de eventos em todos os serviços dependentes do IPPAR, com informação precisa sobre quais os eventos aí realizados nos últimos três anos, de modo a reequacionar as referidas condições, critérios e procedimentos, em função de cada edifício particular.

A Direcção do IPPAR está, como sempre, disponível para qualquer informação complementar sobre esta matéria e convida os cidadãos a participarem activa e empenhadamente nas tarefas de protecção, salvaguarda e valorização do Património Arquitectónico Português.


Lisboa, 28 de Outubro de 2003
A Direcção do IPPAR

Desde que os critériozinhos intocáveis que suas excelências, os burocratas, impuseram funcionem e desde que se pague, fora da hora de expediente, está tudo bem.
Temos o papelote disfarçado de Deus ex Machina de lei intangível, de supremo ícone que foi criado pelo burocrata acéfalo, como reflexo da sua servidão ao poder do papel e não do Homem. Servidão acrítica e desprovida de ética mas obediente ao auto criado papel. O tal papel que é brandido neste comunicado: "o supremo critério". Neste caso funciona como um atestado da própria incapacidade de assumir o erro. O mesmo "critério" que depois se apresenta como desculpa para os mesmos burocratas se tentarem eximir ao escrutínio ético de quem os observa e os tutela. Afinal de quem lhes paga o chorudo vencimento para zelar pela nossa memória: Portugal.


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