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25.10.03

Jorge Moyano 

Ontem no S. Luiz. Pianismo, sensibilidade, suavidade, um toque muito suave mesmo nos fortíssimos, dos quais não abusou. O segundo andamento, núcleo central de todo o concerto opus 58 em sol maior (nº4) de Beethoven, foi o mote para a interpretação de Jorge Moyano para todo o concerto. Impressionou muito esta visão geral do concerto por parte do pianista menos mediático e mais tímido de todos os pianistas portugueses. Jorge Moyano foi ontem no S. Luiz capaz do seu melhor, o que no caso de um homem com a sensibilidade, musicalidade e inteligência de Jorge Moyano é muitíssimo bom. Jorge Moyano é um mestre. Todos os pianistas destes concertos têm estado muitíssimo bem. Moyano fez subir o, já de si, bom balanço desta série. Deu-nos um extra notável de Schumann, um dos melhores momentos do concerto.

A orquestra, no concerto de Beethoven não esteve, de novo, ao seu melhor nível, mas conseguiu acompanhar o pianista com respeito e entusiasmo, com alguma subtileza. Fernando Eldoro é um maestro competente, mas nota-se-lhe alguma falta de estrado. Falhou redondamente algum domínio rítmico da orquestra, e notou-se alguma descordenação entre esta e o pianista. Mas passou amor à música, passou musicalidade. Uma nota negativa para o excesso de som dos trompetes, sobretudo o primeiro, notas a rasgar e em desequilíbrio total com a sonoridade muito delicada da orquestra, nunca se ouviu um fortíssimo nos tuttis do primeiro andamento. A parte mais agressiva, e bem, surgiu no tema violento do segundo andamento e no contraste com a poesia emanada do piano, os pizzicatos têm de ser mais pontuais e com menos entradas atrasadas, trabalho para o concertino. O rondo, terceiro andamento, também não foi um modelo de coordenação nas partes mais "à batuta", os sopros a contratempo das cordas nunca se ouviram. Alguns desacertos de Eldoro podiam ter estragado um concerto para piano, que na parte orquestral, teve tudo para ser excelente e que foi apenas razoável. O melhor de Eldoro foi a visão, a arquitectura do concerto. O pior foi a falta de treino!

O resto do concerto teve Ana Paula Russo, que cantou uma ária de Mozart, o seu timbre é bonito nos agudos, sendo um pouco agreste nos sobre agudos e nos graves, e à parte algumas desafinações menores e falta de extensão da voz nos graves, esteve em plano aceitável.

O concertino Peter DeVries provou porque razão o naipe de violinos tem andado tão fracote nos últimos tempos, uma interpretação fria e desenxabida de um rondo em si bemol maior K. 269 para violino e orquestra, com umas desafinações e uns desacertos do solista aqui e ali. Espera-se melhor exemplo de um primeiro concertino. Foi apenas regular, não deixou memória.

O maestro Fernando Eldoro tem musicalidade e inteligência das obras, falta-lhe, talvez, ritmo de estrado, falta-lhe alguma segurança no acampanhamento, que é o primeiro ponto a falhar quando não se tem dirigido com regularidade. Mas a imagem que transmtiu e que passou para o público foi a de um trabalho competente, dedicado e musical. De qualquer modo esteve bem, muito acima dos "maestos" que têm visitado o S. Luiz.

A impressão geral depois do concerto foi de prazer, de ter valido a pena sair de casa numa noite de chuva para ouvir um concerto muito agradável.

P.S. Porquê insistir em maestros estrangeiros da qualidade duvidosa, como o de dia 17 de Outubro, que nem o nome digo aqui, tal como já não disse antes, para nem sequer lhe dar esse destaque. Temos maestros. O que falta é mais trabalho para estes mesmos maestros, com mais ritmo Fernando Eldoro não teria, certamente, tido as pequenas falhas que deixei claro.
CM

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