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19.10.03

Duas coisas giras 

A primeira pode ser vista em:
Gargalhada ou anedota? Uma grelha de rádio estatal de música clássica. Parece que a imagem foi feita pelo filho da porteira e, depois, alguém, que tinha um scaner em casa, digitalizou o boneco e levou numa diskette para a rádio, onde um amigo do filho de um locutor, que sabe umas coisas de internet, meteu a coisa na página...

Visto no cimbalino, que observou e bem!

Mais grave é o que se pode ver em mais uma do Seabra. Onde se começa por ler esta pérola:

"Fantasiar, "phantasieren", é o verbo com que se conjuga Schumann, mais que qualquer outro. Foi ele conjugado em referência ao próprio processo clínico da des-razão: assim Clara anotou algures que Robert "phantasierte", delirou."

"Ele" quem? O verbo? Ou o Schumann que se conjugou? É que "ele" é absolutamente pessoal, não se refere a qualquer conceito, como a um verbo, a não ser que o verbo seja um ser humano, se calhar o Schumann.

Segue-se o saboroso naco:

"Um Schumann desconhecido? Substancialmente sim; conheço mesmo respeitáveis e livros sobre o autor que não fazem sequer qualquer referência à obra. A razão atribuída ao pueril texto de um tal Moritz Horn, um dos tais que, com o tardio apreço pelos poemas de Elizabeth Kullmann e os "lieder" daí resultantes, mostra afinal que o gosto literário do compositor também teve os seus momentos claudicantes."

Quais os respeitáveis livros? A bem dizer quem claudica é o escriba, que num texto cheio de alemão, a puxar para o finório intelectual que sabe línguas, nem sequer consegue alinhavar umas palavras como as seguintes:

"Das Knaben Wunderhorn"

Das????? E repete a asneira diversas vezes, se fosse apenas uma passava por gralha.

Ou

"além de originalíssima, e com pelo menos dois momentos sublimes, não pode assim deixar de assim de ser entendida como integrante das peculiaridades de "phantasieren" schumannianas."

Deve ser figura de estilo, que eu não entendo, a repetição dos "assins", e o detalhe do "assim deixar de assim de ser", um português do mais fino recorte literário, lindo.

"Quando no final a Rosa se despede, "Das ist kein bleicher scharzer Tod, das ist ein Tod voll Morgenrot (Não é uma morte pálida e negra/é uma morte cheia do vermelho da aurora)", um outro canto sublime, então nesta fantasia, "A Peregrinação da Rosa" anuncia a última das obras pré-póstumas de Schumann, os "Gesang der Fruhe/Os Cantos da Aurora" para piano."

Eu não percebo o que o autor quer dizer com o "então nesta fantasia", mas aqui imagino que o defeito seja meu que não tenho pedalada para tão bela escrita.... Mas e a música? Comentários musicais, temas? Ideias musicais de Schumann, momentos de tensão, o uso dos menores e dos maiores, o ritmo sincopado e alegre do casamento de aldeia, a desolação dos momentos de angústia, a linearidade da escrita coral, o sentido dramático nas partes a solo, a antítese entre coro (com uma escrita simplificada) e solistas (com partes mais complexas)... de música nada. E essa dos "Cantos da Madrugada" serem prenunciadas pela Peregrinação da Rosa: mais uma daquelas observações que se fazem sem provas. O que eu sei é que musicalmente estão a anos luz de distância.


E agora um momento da trompa mágica.

Des Knaben Wunderhorn
Poemas populares alemães recolhidos por Achim von Armin (1781-1831) e Clemens von Brentano (1778-1842), publicados entre 1805 e 1808. É só porque eu gosto do poema e porque Schumann o utilizou no seu op. 79 nº 20 (1849).


Es fliegen zwei Schwalben ins Nachbar sein Haus,
Sie fliegen bald hoch und bald nieder;
Aufs Jahr, da kommen sie wieder,
Und suchen ihr voriges Haus.

Sie gehen jezt fort ins neue Land,
Und ziehen jezt eilig hinüber;
Doch kommen sie wieder herüber,
Das ist einem jeden bekannt.

Und kommen sie wieder zu uns zurück,
Der Baur geht ihnen entgegen;
Sie bringen ihm vielmahl den Segen,
Sie bringen ihm Wohlstand und Glück.

CM

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