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6.10.03

Concertos na zona de Lisboa 1 

ArturQuarta passada, 1 de Outubro, concerto no Teatro de S. Luiz, mas integrado na pseudo temporada do S. Carlos. Artur Pizarro, concerto nº 2 de Beethoven.
Artur alia uma extraordinária sonoridade, suave e cheia ao mesmo sempo, sem "martelar" o piano a uma musicalidade extrema e a uma interpretação muito pensada da obra, que vê como uma peça de arquitectura, global. Excelente em quase todos os capítulos. Faltou um pouco de estudo imediato sobre a obra, a técnica ressentiu-se, algumas notas esmagadas e trocadas, com um consequente sorriso do próprio, o que lhe é habitual. Tal como habitual o público correspondeu e aplaudiu entusiasticamente. Falta referir o tremendo desequílibrio entre a orquestra e o piano. Confesso que deve ser muito difícil tocar com uma orquestra como a OSP. Sem chama, desafinada, não deu ao pianista o suporte correcto.
Cantou Elisabete Matos, começa a ser uma voz de peso. É uma voz muito fácil, muito sonora, rutilante no registo médio. Infelizmente no registo mais agudo perde o peso, creio que com a idade vai dramatizar mais a voz. Mas as árias escolhidas, Mozart, cena e rondeau para soprano piano e orquestra, Beethoven, "Ah perfido!" cena e ária para soprano e omelete de trufasorquestra e uma ária infame de Marcos Portugal, embora bem escolhidas pelo efeito que provocaram (as duas primeiras que citei), não mostram Elisabete Matos na sua plenitude, nomeadamente nos graves, que pareceram forçados e em muito esforço. Esperam-se com muito interesse os próximos concertos de Matos, nomeadamente o Wagner. Matos tem também capacidade de comunicar com o público. Gostava muito de a escutar em lied, para também poder ajuizar da sua inteligência musical, uma vez que estas árias, podemos dizer, menores não revelam qualquer problema complexo de interpretação e de reflexão. Colocação e domínio da voz muito bons, emissão também, Elisabete Matos tem um futuro enorme à frente, depois de um presente em que já se afirma.
Espero apenas que não aumente de peso em demasia.
Algum público manifestou-se com alguma histeria, pouco apropriada ao desempenho bom, mas não transcendente, até pela escolha das árias que não têm substrato para mostrar uma intérprete na sua plenitude. Um soprano não precisa da claque de um jogo de futebol, creio que até é descredibilizante ter aqueles habitués aos berros no fim do concerto e a ir aos pulinhos a correr para o camarim da "artista" mal acabem as palmas...

A direcção de Ricardo Frizza não comprometeu, mas também não transcendeu, segura, lá foi tentado endireitar o barco. Mas o trabalho que falta é de fundo e não de uma semana incompleta.

O ausenteEscândalo: o que é feito do maestro titular do S. Carlos e da OSP. A OSP precisa de um maestro titular, pagar 800 contos por mês a um maestro incompetente e que nem sequer cá põe os pés é um desperdício de dinheiro dos contribuintes, é uma pouca vergonha. Sinto-me lesado, como contribuinte, pela situação a que a temporada do S. Carlos chegou, sem se saber se há ópera e com quem, por falta de dinheiro.
Chega-se ao extemo de se fingir uma obra complicada, que afinal é só um arranjo do chão do fosso da orquestra, que se poderia fazer em meia dúzia de dias, para arranjar uma desculpa para este estado de coisas. Nunca o S. Carlos esteve tão mal e nunca gastou tanto dinheiro, em custos fixos, para estar parado. O governo permite a situação escandalosa de manter um maestro titular do S. Carlos que tem mostrado ser péssimo em termos musicais e que, pior, ausente. O que está a direcção do S. Carlos a fazer? Não se apercebem do estado a que a orquestra está a chegar? Uma orquestra que poderia ser muito boa, com material humano de qualidade, mas que precisa de liderança, de prática e de estudo com um maestro que saiba do ofício e molde o material desgarrado de forma a transformá-lo num conjunto a sério.
E nem falo do coro, que então teria de ser menos próprio, mas há coros amadores melhores do que aquela miséria, mas aquilo é tão mau, e toda a gente sabe, que nem gasto tempo a bater mais no ceguinho, ou melhor, no surdo, que é como quem diz no maestro de coro... que devia ter decoro e ir-se embora.
CM


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